“Jenevive!” – exclamou o rei enquanto descia a longa escadaria atrás da amiga de sua filha, que se assustou ao sentir a mão de Tyson pousar sobre seu ombro. Reconhecendo a voz do rei, ela se vira numa breve reverência.

“Katherine ainda está nos aposentos?” – perguntou o rei.

“Sim majestade.”

“Ótimo! Tenho que falar com você.”

“Em que posso servi-lo?” – Com uma das sobrancelhas levantadas perguntou sentindo curiosidade e medo de que não pudesse mais ir a jornada de Katherine.

“Há perigos nessa jornada... temo por minha filha... – falou o rei com a expressão mais preocupada que Jenevive já vira – Sei que posso contar com você, sei que ficará sempre ao lado dela... Vocês duas tem o mesmo tamanho, acho que até se parecem... Precisamos que você se passe por ela em algumas situações, é arriscado, mas não temos escolha... Trata – se da segurança de Katherine.”

“Sabe que eu faria qualquer coisa por ela – falou Jenevive num suspiro – Mas que perigos são esses majestade? Pelo amor dos deuses! Ela é a futura rainha, a futura líder da Fraternidade e do Clã por direito, quem ousaria tentar contra a sua vida?”

“O perigo que eu temo não vem somente do clã minha querida... É algo que você ainda não consegue compreender, e nem precisa, o que eu quero é que depois da visita ao Oráculo você vá com Antony em busca das nove bênçãos...”

“Enganar os deuses? Acha que será possível?”

“Os deuses saberão que você não é ela, mas as a bênçãos são para o casal, Antony vai estar com você, ele os representará enquanto ela estiver aqui em segurança. – O rei passa a mão sobre a cabeça e respira fundo – Não confio em mais ninguém pra essa missão, eu... eu procurei outra pessoa, mas... Sei que isso é demais... Você concorda?”

“É claro que concordo.” – Respondeu calmamente. Se o rei achava que isso era necessário ela faria de bom grado, Katherine é como uma irmã, e Jenevive era grata por sua amizade, grata por ter sido tão bem recebida pelo rei e sua filha, eles a tiraram de uma vida cruel, e deram a ela tudo que já havia sonhado. Com toda certeza faria qualquer coisa por ela.

“Sabia que concordaria, tomei providências para que tivesse roupas parecidas com as dela. Obrigado Jene. – Disse o rei com um sincero sorriso – Ah! Não se esqueça, Katherine ainda não sabe.”

“Tudo bem majestade.”

“Obrigada Jenevive – repetiu o rei – Vou retirar-me agora, ainda tenho muito o que fazer.”

“Por nada.” – Disse numa breve reverência, e ficou observando o rei descendo a escadaria enquanto pensava na missão que recebera.

“Por favor não me deixe sozinha de novo!” – Disse Katherine se aproximando de Jenevive.

“Pelos deuses! Acho que não vou conseguir descer essa escada hoje.” – disse numa breve gargalhada.

“Não sei pelo que está rindo Jene, mas o ‘príncipe da arrogância’ entrou nos meus aposentos pedindo minha confiança.”

“Então confie nele.” – respondeu Jenevive enquanto tentava descer a escada.

“De qual lado você está afinal?”

“Do seu Kate, por isso digo logo, pare de tentar se enganar achando que não gosta de Antony, você se apaixonou no momento em que ele olhou nos seus olhos, pare de negar isso a si mesma, e aproveite seu príncipe.” – Disse com uma gargalhada boba.

“Você é terrível Jene.” – respondeu na defensiva.

“Sou sincera.” – rebateu Jenevive.

“Você acha justo? Um casamento arranjado?”

“Não... Mas Kate, há um lado bom nessa história.”

“Ainda não vi um lado bom.” – Respondeu Katherine em um suspiro.

“Como não? Você dançou com ele.” – Disse Jenevive em um sorriso.

“Mas eu nem se quer o conheço Jene, tudo que sei sobre ele é o seu nome, sua casa, e que em algum momento de sua conheceu minha mãe... Ele até sabe que o colar de safira que usei ontem a noite era dela.”

“Talvez foram amigos.” – sugeriu Jenevive

“Sim, ele me contou...”

Finalmente chegaram ao fim da escadaria onde uma comitiva da fraternidade já aguardavam a princesa. Katherine fica surpresa por ver tantos vampiros no começo do dia, o sol não os fere, mas causa um forte incômodo, e em longas exposições poderia trazer danos que nenhum vampiro tentou verificar. Ela procura por Antony e o encontra conversando com seu pai, ela tenta fazer uma leitura labial mas sua concentração logo é quebrada por Luc.

“Alteza já está pronta?” – perguntou

“Claro.”

“Vou chamar o rei então, com licença.” – e se retira com uma breve reverência.

Katherine observa Luc interrompendo a conversa entre seu pai e Antony, e agora um frio percorreu sua espinha, se antes não sentia-se nervosa, agora com toda certeza estava. O rei procura por sua filha com o olhar e a encontra perto da escadaria ao lado de Janevive, ele sorrir, despede-se de Antony e caminha até ela. Katherine o recebe com um abraço longo e apertado.

“Nervosa?” – perguntou o rei.

“Não papai.” – mentiu Katherine

“Te conheço muito bem, sei que está nervosa.”

“Eu sei... Tenho motivos pra isso?”

“Não querida, cuidei para que fosse uma jornada tranquila e segura, logo você estará de volta.”

“Tudo bem.” – responde tentando conter o seu coração acelerado, ela sabia que finalmente todas as suas perguntas seriam respondidas, sabia que o oráculo a ajudaria nisso.

“Querida... Não duvide de Antony, confie nele... Ele vai mantê-la segura.”

“Até você...” – Respondeu num riso que logo foi interrompido pelo abraço de seu pai, que sussurrou em seu ouvido: “Sua mãe teria orgulho, eu te amo filha.”

“Eu também te amo pai.”

Tyson beijou a testa de sua filha como sempre fazia, e todos da Fraternidade que estavam lá testemunharam a saída de Antony e Katherine para a jornada a qual estavam destinados. Jenevive e alguns da guarda pessoal do casal iam na frente como testemunhas. Assim o rei, observou sua filha entrar na carruagem com Antony e pede aos deuses para protege-los.

Horas já haviam se passado e Antony a encarava como se fosse um objeto de estudo, ele queria conhecer cada detalhe seu.

“Encontrou o colar da sua mãe?” – Perguntou Antony tentando quebrar o silêncio desesperador que pairava na carruagem.

“Não, me atrapalharam quando eu estava procurando! Mas... acho que Jenevive guardou em um dos meus baús.” – Responde um pouco rude.

“Ele era importante pra ela... sua mãe.”

“Como você sabe?” – perguntou curiosa, e essa era só a primeira de uma longa lista de perguntas que vinha martelando em sua mente.

“Ela achou a safira azul na noite em que se transformou a primeira vez, dizia que era um presente dos deuses, então mandou lapidar e fazer a joia.”

“Você a conhecia tão bem assim?”

“Se Elara estivesse viva, teríamos quase a mesma idade, quando eu e seu pai a conhecemos, éramos praticamente crianças aos olhos de muitos na época.”

“Ótimo, outra injustiça! – respondeu irritada – Todos me falam como ela era boa, linda e se não fossem os quadros eu nem se quer saberia como era o rosto dela.” Os olhos de Antony corre pelo rosto de Katherine, e agora mais perto observa cada detalhe da sua face, seu lábios, seu queixo, até que por fim seus olhos encontram os dela, e depois de um breve silêncio ele diz:

“Você é tão linda quanto um dia ela jamais foi, e ainda sim, se parecesse muito com ela.” Katherine engole seco, fica nervosa outra vez e suas mãos começam a suar, não entendia o motivo de estar tão desorientada só com um simples elogio de Antony.

“Me fale mais sobre ela.” – pediu Katherine depois de uns minutos de silêncio.

“Cada um de nós nasce com uma profecia, a minha nunca foi revelada, mas a da sua mãe e do seu pai era clara ‘ Um filho do sol e uma filha da lua...’ Seu avô Sirius com aquela mania elitista de lobo achou que poderia mudar o destino, mas sua mãe amava seu pai mais do que a própria alcateia, então ela renunciou e se casou com Tyson em Viranno, acho que o final da história você já sabe.”

“É... eu sabia dessa parte também... – respondeu desapontada, queria saber algo novo sobre sua mãe. – Quanto tempo até chegarmos ao oráculo?”

“Uns quatro dias.”

“Você já foi ao oráculo alguma vez?” – perguntou Katherine.

“Uma vez, mas não completei o caminho.” – deu de ombros.

“Conhece meus pais desde que eram crianças certo?”

“Sim.” – respondeu Antony desconfiado

“Como nunca ouvi falar de você?”

Antony escolhe suas palavras com cuidado...

“Seu pai acreditou que seria mais seguro pra você se ficássemos longe um do outro, poucos sabiam do pacto, e ele quis que permanecesse assim.”

“Seguro?” – perguntou Katherine.

“Há perigos que você desconhece Katherine.”

“E por causa disso passei a minha vida inteira sem saber com quem me casaria um dia, eu nem sei exatamente qual o motivo do pacto, e nem por que temos que ser abençoados pelos deuses.”

“Você vai entender tudo isso, o oráculo vai ajuda-la.”

“Conto com isso...”

Os olhos de Antony encontram os de Katherine outra vez. Ahhh como ele queria segurar o seu rosto e beija-la, como ela era linda, como aqueles lábios pareciam chama-lo. Katherine tenta conter seu coração em seu peito, fica nervosa e um arrepio corre por sua pele. Ela achava aqueles olhos que a encaravam perfeitos, ele parecia captar a sua alma num olhar, Katherine teve certeza de que não era emoção, nem ilusão, mas uma paixão desenfreada que tomou conta de seus sentidos, ela o amava, mas como? Não entendia como! Como poderia amar nessa velocidade? E como ele causava esse efeito nela só de olhar em seus olhos, era como se conhecesse a sua alma, sua essência.

Katherine interrompe o olhar e afasta a pequena cortina de seda vermelha da janelinha da carruagem, e observa a estrada.

“Vai ser uma longa viagem.” – sussurrou para si mesma.