Dolls me chamou para treinamentos específicos. Nedley tinha concordado em fazer isso pelo menos 2 vezes na semana desde o mês passado. Em 30 dias essa era a segunda vez que tínhamos tempo para isso. Tentar derrubar o agente não era uma tarefa muito fácil.

— Waverly e Nicole. Quem cair primeiro paga o almoço. Nada de gentileza. — Bateu as palmas. — Eu sei que você está num momento difícil, Waverly, mas tenta canalizar isso para derrubar seu oponente, não para te deixar mais fraca. — Andamos até o meio da sala onde ele tinha colocado uns colchonetes.

— Eu não vou ter coragem de derrubar a Waverly. — Disse chegando perto dela.

— E quem disse que é você que vai me derrubar? Se concentra, oficial Haught. — Disse Waverly me dando um double leg e caindo em cima de mim rindo.

— Você com 1,50 metro conseguiu me derrubar? — Se levantou e estendeu a mão para eu me levantar também. — Estou realmente muito ruim.

— Eu tenho 1,63 para ser mais exata. — Olhou para o Dolls. — Acho que o problema dela sou eu. Deixa ela tentar com a Rosita.

— Ainda bem que eu não sou uma distração. — Disse Rosita se levantando da cadeira.

— Uma tenta golpear a outra, enquanto tentam se defender. Vai. — Disse Dolls. Ia ser um prazer fazer aquilo.

Ela era rápida para se defender, mas nem tanto para atacar. Antes de acabar, consegui derrubá-la pelo menos umas 6 vezes e ela me derrubou 3 vezes, porque obviamente a Waverly tinha me distraído, meus braços também estavam doloridos pelos socos, mas aposto que ela estava pior que eu. Ia ter que conversar com o Dolls para a gente fazer o treinamento em horários diferentes. Rosita era boa em golpes com as pernas, mas eu era melhor. Depois enquanto eu lutava com o Dolls, Waverly lutava com a Rosita. Muita distração. Ele obviamente acabou comigo. Para terminar ele amarrou as três, cada uma em uma cadeira separada e cronometrou o tempo que a gente demorava para se soltar. Waverly se soltou primeiro, Rosita e eu nos soltamos ao mesmo tempo. Dividimos a conta do almoço.

Um pouco mais tarde, eu estava na sala da BBD com Waverly, Dolls, Rosita e Doc. Juan Carlo apareceu na porta, parecendo um pouco preocupado. Dolls se levantou rapidamente achando que era algo relacionado a Wynonna, mas não era. Logo Sophia e Mattie apareceram atrás dele, Waverly se levantou também, ficando ainda mais preocupada. Era um daqueles momentos que eu torcia para o Nedley não perceber que eu estava fora do meu posto e começar a me ligar.

— A gente achou quem está com o Nefasthus. — Avisou Sophia, parecia que só Waverly tinha entendido.

— Lembra quando eu te contei sobre a Aurora? E que o Juan Carlo tinha me entregado um papel com um nome? Era esse o nome. — Explicou Waverly para mim. — Entrem — Pediu para os três. — Eu vou tentar explicar o que eu sei, se tiver alguma coisa errada vocês podem me corrigir. — Se levantou e foi até a lousa.

— Você vai fazer um desenho? — Perguntou Dolls se sentando novamente.

— Para eu não me perder. — Escreveu na lousa o nome do Frade Cryderman, Liam James, Clootie, Anônimo e anônimo 2. — O que eu entendi dessa maldição foi, O Liam J. leu o pergaminho que o Cryderman entregou a ele, liberando o Nefasthus, que é tipo um possessor, quando o Liam J. morreu, o Nefasthus foi para o Clootie, Clootie morreu, então o possessor precisava de outro corpo e achou alguém que o levou até Maldito, então o anônimo morre e o anônimo 2 sai da cidade antes dela explodir, vindo para Purgatory de novo, mas ele não se restringe só a Ghost River porque ele não é um retornado, é um demônio. — Olhou para Sophia.

— Faltaram alguns detalhes básicos, posso? — Pegou a caneta para escrever na lousa. — Nefasthus estava possuindo o Clootie quando a Constance engravidou, então todos os descendentes do Zack Clootie tem um pedacinho do dele. — Terminou de desenhar um bonequinho de palito e olhou para todo mundo — Mas essa nem é a pior parte. — Waverly olhou para a cadeira onde Wynonna normalmente sentava e abaixou a cabeça por alguns instantes. Ia me levantar para sentar ao lado dela do outro lado da mesa, mas ela fez "não" com a cabeça e voltou a prestar atenção na irmã. — Ele se alimenta de energia vital e como ele não tem intenção de matar ninguém ele precisa de várias pessoas.

— Por isso que aquelas pessoas sumiram dias atrás. — Comentou Dolls. Waverly concordou, Sophia não sabia sobre o ocorrido.

— A cada 7 anos ele além de "fazer herdeiros" ele pode possuir mais 4 pessoas e essas pessoas a cada 2 anos podem possuir mais 4. Os novos possuídos se alimentam de carne humana.

Me levantei da mesa e sai correndo, precisava de ar.

Por isso minha mãe não tinha deixado eu ver meu pai no velório. Por isso nos relatórios que o Nedley me deu não tinha dados concretos. Por isso minha cidade não existia mais.

Vi Waverly vindo em minha direção. Eu não chorava, estava com raiva. Eu queria ir embora dali, queria abraçar minha avó, queria poder mandar mensagem para todos os meus colegas do primário para explicar o que tinha acontecido, mas ninguém mais estava vivo para ouvir explicações. Eu estava me sentindo culpada de ter me envolvido com alguém da família que tinha promovido uma chacina em minha cidade. Estava me sentindo culpada por estar feliz de ter me apaixonado por alguém dessa família amaldiçoada. Waverly não era só "não humana", ela era parte de algo horrível. Inaceitável. Até minutos atrás eu estava disposta a me arriscar por ela, para não perder mais ninguém, para que ela ficasse ao meu lado. Porque eu realmente gostava dela, mas não ia conseguir lidar com isso da mesma forma.

— Nicole... — Encostou a mão em meu ombro, para eu me virar. Me afastei.

— Não, não dessa vez. — Peguei a chave do carro em minha bolsa e fui embora, a deixando sozinha na calçada.

Só parei o carro quando estava em frente a empresa onde Clarissa trabalhava. Eu não podia contar nada do que eu tinha ouvido para minha avó, mas Waverly tinha contado parte da história para Clarissa, certo? Passei pela recepção sem ser anunciada e continuei andando até achar a sala dela. Ela estava em reunião em uma sala de vidro. Cruzei os braços e fiquei de frente para ela, esperando que ela me visse. Enquanto ela me via, um dos seguranças me alcançou, pedindo que eu me retirasse. Eu não conseguia falar ou explicar qualquer coisa para ele, mas eu estava de uniforme, o que fez com que ele não me encostasse. Clarissa pediu licença e saiu da sala, dispensando o segurança.

— O que você faz aqui, Nic? — Eu não conseguia falar o que estava acontecendo, só respirava fundo. — O que está acontecendo? — Perguntou, percebendo que não era uma visita casual.

— Meu pai. Descobri o que aconteceu com ele. — Respondi pausadamente e com toda a dor que eu estava sentindo.

— Eu preciso dispensar as pessoas na sala de reunião, já volto. — Me sentei no sofá, passando as mãos no rosto, tentando entender a situação toda. Alguns minutos depois todas as pessoas da sala de reunião saíram e Clarissa me chamou para a sala dela.

Ela me serviu um copo de café e nos sentamos, como uma mesa entre nós. Ela estava preocupada e muito atenta. Acho que eu estava pronta para falar.

— Se você soubesse que um parente da pessoa que você está namorando matou seu pai, você ainda continuaria com ela?

— Isso não foi uma suposição, eu tenho certeza. — Comentou — Comece do começo. — Pediu, séria.

— Acabei de descobrir que um parente da Waverly estava em Maldito quando as mortes misteriosas começaram e a irmã dela confirmou a história. Ele foi o responsável.

— Waverly sabia antes de vocês começarem a namorar? — Pegou uma cerveja na geladeira para ela e bebeu. — Você só vai beber depois que me contar.

— Ok. — Soltei um riso leve e continuei — Não, ela não sabia nem que ela não era irmã da Wynonna.

— Então obviamente minha resposta é "Sim, continuaria com ela.", você não pode culpá-la pela família que tem.

— Mas eu posso me proteger do que a família dela pode me causar e do que já causou.

— Nicole, eu sei que você só se tornou policial para descobrir sobre seu pai e agora que descobriu parece que tudo ficou sem sentido, mas você ficar com raiva da mulher que você ama não vai fazer seu pai viver de novo. — Respondeu como se fosse óbvio e fácil de absorver.

— Eu preciso de um tempo disso tudo. Minha cabeça está um caos. — Bebi o resto do café e fechei os olhos, achando que ela não ia falar mais nada.

— Na verdade — A ouvi se levantar. — essa é a hora que você não pode ter tempo para você. — Ficou de pé em minha frente, parecia querer me intimidar e estava fazendo um ótimo trabalho, ainda mais com aquela roupa social. — Meu irmão está na enfermaria da penitenciária feminina há mais de 24 horas, com medo de sair e deixar sua cunhada sozinha e alguém entrar lá e tentar matá-la de novo. Você deve estar sofrendo, eu sei e lutando contra seus sentimentos, mas seu pai morreu há mais de 10 anos e a irmã dela está presa agora, machucada, sem ninguém, além do meu irmão, claro. Waverly deve estar sofrendo pelo que pode acontecer e você aqui reclamando de algo que aconteceu. Que eu sei que é importante para você e eu não estou desprezando seus sentimentos, mas olha bem a situação. Você pode ajudar a Waverly agora, naquela época ela não podia fazer nada para te ajudar.

— Você é muito boa em dar conselhos. — Peguei a cerveja que ela tinha aberto e bebi.

— Acabei de dar uma palestra motivacional, estava inspirada. — Sorriu pegando de volta a cerveja e batendo em minha mão. — Folgada.

— Obrigada.

— Eu não terminei de falar ainda. — Se sentou na cadeira de novo. — Outra coisa, você está confusa agora, mas daqui 1 ou 2 dias você vai estar tão arrependida de não ter feito nada, que é capaz de pedir para te prenderem no lugar da irmã dela. Se você não for lutar pela sua nova família, eu ligo agora para o Charlie vir embora e dormir. Ele se importa com todo mundo, mas ele só está lá por sua causa.

— Isso é muito possível de não acontecer, mas faz sentido. — Respondi a primeira parte do que ela disse e a vi pegar o celular. — Para quem você está ligando?

— Para a garçonete. Aposto que você a deixou preocupada.

— Já estão íntimas assim? Trocaram telefones e tudo?

— Altas mensagens de madrugada. Está com ciúmes, Nicole?

— Não sei, ela se deu tão bem com a Olívia...

— Minha Olívia? — Desligou o celular e me olhou.

— Minha Olívia... — Afirmei. Clarissa me olhou como se estivesse me desprezando e voltou a ligar para Waverly, que não atendeu. — Mas é sério, como você conseguiu o telefone dela?

— Ela me mandou mensagem no sábado que você foi para sua avó.

— Ah, quando ela ficou mexendo no meu celular. — Respirei fundo. — Posso dormir na sua casa hoje?

— Mas é óbvio que não, você vai encontrar com sua namorada e pedir desculpas por ter fugido.

— Eu vou voltar, mas preciso de umas horas ou dias para mim antes de voltar para o furacão.

— Duas horas. Passou disso eu mesma te levo. — Estendeu a mão para a gente selar o acordo. Apertei a mão dela, um pouco mais aliviada. — Preciso te contar uma coisa.

— O que quiser.

— Chris deixou eu falar com a Olívia direito e tivemos uma conversa, nós três. Ele fez um assinar um contrato que se eu beijasse com outra pessoa na frente da Olívia, eu teria que dar uma viagem a ele para Las Vegas, com tudo pago.

— Olívia que se machuca e ele que ganha viagem?

— Foi o que ela disse, ai ele fez outro contrato incluindo ela.

— E você assinou?

— Claro que eu assinei, só está escrito que eu não posso ficar na frente dela. — Peguei um papel, amassei e joguei nela.

— Ai de você se machucar a Olívia de novo, até eu entro no meio dessa vez. — Tentei fazer uma cara ameaçadora. Clarissa riu. — Mas você estão namorando? De novo?

— Não. Nem se beijando escondido. Não aconteceu nada. — Bebeu o resto da cerveja. — Da primeira vez a gente começou meio que do nada, a gente resolveu se conhecer de verdade antes de tentar alguma coisa. — Abriu a geladeira e pegou duas cervejas. Recusei.

— Estou dirigindo.

— Eu também. — Sorriu e guardou uma das garrafas.

— Espero que dê certo dessa vez entre vocês duas, sério, Olívia merece alguém como você.

~~~~~~~~ 18 Chamadas perdidas de Waverly Earp

N(19h35): "Não vou chegar a tempo da reunião com o Viktor"

Quando eu cheguei no Sky's com a Clarissa, meu celular começou a vibrar sem parar, parece que eu tinha ficado sem sinal por algumas horas e não tinha visto.

~~~~~~~~ 17 Mensagens não lidas.

W(15h18): "Volta. Por favor."

W(15h32): "Não faz isso comigo, não agora."

W(15h55): "Eu não posso mudar o que aconteceu e isso não me fazer sentir menos culpada."

W(16h19): "Só me diz se você está bem."

W(17h03): "Eu estou na porta da sua casa, me atende".

W(17h12): "Você não está em casa? Onde você está?"

W(18h22): "Acabei de receber uma ligação do presídio, a Wynonna está machucada."

W(18h29): "Eu não sei mais o que fazer para ajudar minha irmã, preciso de você aqui."

W(18h30): "Você não está lendo minhas mensagens, estou ficando preocupada."

W(18h32): "Eu sei que não foi fácil de ouvir aquilo, mas eu preciso de você mais do que nunca. Volta. Por favor."

Olívia(18h32): "Ei, é seu carro parado em frente ao escritório da Clari?"

Olívia(18h35): "Se você estiver na cidade me avisa para eu ir te ver."

W(18h40): "Vou voltar para a delegacia e depois vou para o Shorty's me encontrar com o Viktor. Você prometeu que ia, mas agora não tenho tanta certeza se você ainda quer me ver."

W(18h56): "Desculpa por qualquer problema que minha família possa ter causado, mas eu nunca faria algo do tipo."

W(19h17): "Rosita disse que não vai me deixar sozinha para falar com o advogado, então..."

W(19h31): "Acho que eu devo parar de te incomodar, né?"

W(19h32): "Você não desistiu de mim em nenhum momento, eu também não vou desistir."

W(19h35): "VOCÊ ME RESPONDEU! AAH!"

— Clari, olha a quantidade de mensagens que ela me mandou. Eu vou... — Me levantei da mesa que tinha acabado de sentar.

— Quer que eu vá com você? Está em condições de dirigir? — Perguntou se levantando também.

— Eu estava muito pior quando eu vim, pode ficar tranquila. — A abracei e sai.

Não era como se eu fosse capaz de fugir dela por muito tempo. Que eu precisava de um tempo para entender tudo aquilo era mais do que certo, mas eu também achava injusto deixá-la passando por tudo sozinha, com a Wynonna presa, embora ela tivesse algumas pessoas para confiar, eu sou a namorada dela, eu tinha que fazer meu papel, mesmo que precisasse ignorar o que eu estava sentindo por algum tempo. Era uma situação complicada para todo mundo, principalmente para ela. Eu nunca tinha sido do tipo que foge dos problemas, mas aquela informação tinha me pego em cheio. Embora eu gostasse da Waverly, o bastante para passar por cima de qualquer sentimento sobre ela ser só parte humana, eu ainda não sabia como me sentir sobre o que a família dela fez com a minha, era algo muito sério para simplesmente deixar passar.

Estacionei o carro em frente ao Shorty's e entrei. Não sabia o horário exato da reunião, era possível que já tivesse acabado, mas arrisquei, caso ela não estivesse ali, iria para a casa dela ou poderia ligar como uma pessoa normal. Procurei Waverly ainda da porta, vi Rosita numa mesa sentada, sozinha. Quando ela me viu ela fez menção de sair da mesa, como se estivesse fugindo.

— Ei, você viu a Waverly? — Perguntei, ficando de frente para ela, a impedindo de sair. A vi respirando fundo.

Ela foi atender uma ligação do presídio lá emcima, mas ela não está sozinha. — Franziu a testa, pegou a bolsa- Ah, oadvogado conseguiu algumas pessoas para depor e parece que vai rolar o habeas corpus,mas acho que a Waverly não está muito bem com a ligação — E foi para o porão doShorty's. Subi as escadas. Ouvi uma vozmasculina dizendo "Sinto muito pelo o que aconteceu com sua irmã, Waves."Waves? Abri a porta. Champs.

Notas finais
------------ Oi gente, tudo bem? O que acharam do cap?