Crônicas de Ghost River #Wayhaught
12 Essa falta de ar
No dia seguinte meu humor já tinha melhorado. Charles voltou para a cidade dele, pois iria ter uma festa, ele me chamou, mas pensei que eu precisava conversar com a Waverly sobre o que tinha acontecido na noite anterior. Mandei uma mensagem perguntando se ela queria almoçar comigo.
W: "Ei. Almoçar eu não posso, mas talvez jantar? Wynonna pediu pra eu fazer uma checagem."
N: "Janta? Pode ser. A gente precisa conversar, ok?"
W: "Já fiquei com medo. Não vou aguentar esperar até a noite, posso ir ai agora?"
N: "Eu ainda estou de pijama, mas pode."
W: "Ok"
Eu comecei a ficar ansiosa, não sabia se arrumava alguma coisa para ela comer ou se me trocava. Charles tinha deixado um café, horrível, pronto. Liguei a cafeteira de novo. De repente parecia que a casa estava muito bagunçada, tentei arrumá-la e me trocar ao mesmo tempo.
"O que eu estou fazendo? Fica calma." — Pensei. A campainha tocou em seguida. "Ótimo!" — Eu só tinha trocado a parte de cima do pijama. Desci e abri a porta. Automaticamente meu sorriso acompanhou o dela.
— Bom dia, trouxe Donuts. — Me entregou o pacote. Por um momento eu não consegui saber se respondia, se a abraçava, se a beijava ou se estendia a mão. Segurei o que ela havia me entregado e dei passagem para ela entrar.
— Obrigada por vir. — Conseguir dizer.
— Sobre o que a gente precisa conversar? — Perguntou enquanto me acompanhava até a cozinha. Eu já não sabia se eu queria conversar.
— Quer café? — Peguei dois copos. Ela estava ao meu lado, bem perto, perto o bastante para eu não conseguir mexer o braço sem esbarrar nela.
— Hum -Se sentou no balcão e me puxou pela cintura.- Era isso que você tinha para me perguntar?
— Waverly... — Conversar para quê mesmo? Me acomodei entre as pernas dela, coloquei a mão em sua nuca e a beijei. Soltei o copo que ainda segurava e a segurei pela cintura, ela apoiou os braços sobre meu ombro e com uma das mãos brincava com meu cabelo. A língua dela entrou lentamente em minha boca. Embora fosse um beijo lento e calmo, meu coração fazia tanto barulho e batia tão rápido que imaginei que ela estivesse ouvindo. Eu estava com medo, muito medo de fazer algo errado e ela ir embora. Ir embora e não me mandar mais boa noite, ir embora e nunca mais me surpreender com sorrisos, ir embora e eu nunca mais poder sentir seu cheiro, cheiro esse que era só dela e eu adorava.
Eu não queria demonstrar que ela tinha tanto poder sobre mim, mas ela já sabia que eu ia fazer o que fosse no ritmo dela. Minha auto-confiança parecia um pouco balançada nesse momento. Eu queria que ela se sentisse à vontade, ali, comigo, na minha casa e queria ter certeza que qualquer coisa que eu fizesse ou falasse, ela não desistiria e que ficasse, comigo.
Sybil subiu no balcão e começou escalar a Waverly, atrapalhando nosso momento. Ela se afastou de mim bem devagar e me deu um último beijo sorrindo. Sybil resmungou e eu a peguei no colo. Waverly não parava de fazer contato visual. Seu sorriso não se desmanchava por nada. Era difícil de respirar e parar de fazer o mesmo. Sybil começou a andar em meu ombro. Waverly segurou minha mão e me puxou de novo para mais perto dela e me abraçou.
— Adorei nossa conversa. — Encostou o nariz em minha bochecha. Sybil encostou uma das patas na bochecha dela e resmungou de novo.
— Acho que ela não gosta muito de você, Waves. — Coloquei a gata no balcão.
— Será? — Encostei a boca na dela, de olho aberto e esperei a reação da Sybil. Sybil escalou meu braço e colocou a cabeça entre nossos queixos. — É, parece que tenho um problema. — Sorriu, sem desgrudar os lábios dos meus.
— Eu vou... — Eu precisava alimentar a gata, mas como soltar a Waverly? — Eu preciso... pegar a ração. — Falei sem me desgrudar dela e ela entrelaçou as pernas na minha cintura.
— Tudo bem, pode ir. — E apertou mais as pernas em minhas costas.
— Waves... — Ela apertou os lábios novamente contra os meus e foi abrindo a boca lentamente, forçando a passagem da língua para dentro da minha boca. Nossas línguas se encontraram de novo. Não tão calmamente quanto da primeira vez. Ela colocou as mãos em meu pescoço e passeava ali com as unhas às vezes. Sybil tentou subir nela de novo e eu a afastei, sem soltar a boca da Earp, mas desconcentrava um pouco. Waverly soltou as pernas e afastou o rosto em alguns milímetros.
— Pode ir. — Apoiou as mãos no balcão.- Estou ouvindo sua barriga roncar também. Arruma o dela que eu arrumo o seu café, pode ser? — Balancei a cabeça afirmativamente, enquanto olhava em seus olhos castanhos esverdeados. Tentei recobrar a razão e me afastei, para ela poder descer. Fui até a dispensa e coloquei a ração da Sybil, que comeu quase tudo. Quando voltei para a cozinha, fechei a porta. Waverly bebia um copo de café, sentada na cadeira próxima a mesa.
— Wynonna quer que eu volte, eu prometi que ia fazer "aquela coisa" para ela. — Mostrou a tela do celular onde tinha 14 mensagens da irmã dela reclamando.
— Hoje é sua folga, ela não pode esperar até amanhã? — Perguntei, pegando o café que ela tinha colocado para mim.
— Parece que não. — Pegou o celular na mesa e se levantou.
— Fica. — Me levantei e fiquei de frente para ela.
— Eu volto, você está me devendo uma janta, lembra? — Segurou minha mão direita e entrelaçou nossos dedos.- Quando eu terminar eu volto. — A levei até a porta e ela se foi.
Enquanto eu arrumava a casa e ia ao mercado, Clarissa resolveu dar notícias. Ela disse que estava arrependida do que tinha feito, que nada daquilo era para ter acontecido e se tinha como eu ajudá-la falar com a Olívia, pelo menos para pedir desculpas pessoalmente. Olívia não queria falar Clarissa, embora ela não estivesse mais com raiva. Eu não queria me meter na briga das duas. Falei com Olívia e ela disse que "não", apenas. Repassei a mensagem para Clarissa, que implorou por mais algumas horas e eu recusei. Ela desistiu.
C: "E a gente se vê quando?"
N: "Desde que você esteja levemente sóbria, no mínimo, em qualquer uma das minhas folgas."
C: "Soube que você dormiu com o Charles. Quem diria..."
N: "Como?"
C: CLARISSA COHEN TE ENVIOU UM ARQUIVO.
Abri o arquivo e era uma foto minha dormindo com ele, dormindo, literalmente.
N: "Ele é um idiota, a gente dormiu no sofá cama, na sala. Nada aconteceu."
C: "Eu sei, mas ele postou a foto e não é o que o resto dos amigos dele pensa."
N: "Não me importo com o que eles pensem, desde que não tentem ficar comigo."
C: "E a Olívia postou várias fotos no aniversário dela com #LOVE."
N: "Não tem nada demais nisso."
C: CLARISSA COHEN TE ENVIOU 5 ARQUIVOS.
Abri o arquivo, eram as fotos e os prints dos comentários. Todos achavam que a gente estava junto, de novo. Olívia ao invés de dizer algo, curtiu os comentários e não respondeu.
N: "Depois eu falo com ela, estou no caixa do mercado."
C: "Obrigada por me contar que você foi quase morta, a propósito."
Quando sai do mercado, passei num restaurante mexicano e comprei algumas coisas para janta. Terminei de organizar a casa e fui me arrumar. Já estava anoitecendo e comecei a ficar preocupada que a Waverly não viesse mais. Pensei em mandar mensagem, mas não ia parecer que eu estava cobrando algo? Toda minha segurança ia embora quando se tratava dela, quase toda. Não era certo, eu também tinha que ter voz nessa relação, se é que se podia se chamar o que a gente tinha disso.
Eu já estava cansada, fisicamente e com sono quando recebi uma mensagem.
W: "Aconteceu um problema, posso ir agora ou você já foi dormir?"
N: "Pode vir"
Eu já tinha comido um pouco, mas já estava com fome de novo. Arrumei a mesinha da sala e tinha cerveja e vinho na geladeira. Ela demorou um pouco para chegar, quando ouvi o barulho o carro dela, abri a porta e esperei ela descer. Ela parecia exausta.
— Nossa, o que aconteceu? — Olhei a manga da jaqueta dela um pouco rasgada.
— Nem tinha visto. — Entrou em casa e tirou a jaqueta. — Fui fazer o que a Wynonna pediu, mas quando eu cheguei em casa ela pediu para eu ir com ela resolver um caso e deu tudo errado até certo ponto, depois o Dolls apareceu e os dois terminaram o trabalho. — Respirou junto.
— Sem mais detalhes? — Perguntei.
— Que bom que você não foi dormir. — Comentou, tentando mudar de assunto. — Quer ajuda? — Apontou para a mesa.
— Claro, — Sorri — mas antes... — Segurei ela pela cintura e a beijei, ela foi andando de costas até encontrar uma parede. Ela passava a língua lentamente sobre a minha e o movimento que ela fazia com os dedos em minha nuca, fazia os pelos dos meus braços se arrepiarem. Ela me puxou com mais força contra ela. Passei as mãos sobre seus braços e ela se contraiu, soltando minha boca. — O que foi? — Ela olhou o braço e onde havia o corte na jaqueta, também tinha um corte nela, havia um pouco de sangue na blusa. — O que aconteceu? De verdade.
— Foi só um acidente de trabalho, nada grave. — Eu vi que ela não ia falar nada e insistir ia ser pior. Desisti. Por enquanto.
— Posso limpar, pelo menos? — Apontei para a região com sangue. Ela concordou. — Vou pegar uma blusa limpa para você.
— Obrigada. — Era um obrigada carregado de frases do tipo "Obrigada por não pressionar, obrigada por cuidar de mim, obrigada por entender." Eu entendia que havia algo acontecendo que não podiam me contar, mas por que não podiam? Talvez eu tivesse que conquistar a confiança deles antes de insistir para saber, fazia sentido. Entreguei a blusa para ela e ela por alguns segundos ficou sem saber o que fazer. — Eu vou buscar as coisas para limpar o machucado. — A deixei sozinha para se trocar.
Quando a gente terminou de comer, ela disse que ia embora, para me deixar dormir. Eu não queria que ela fosse embora. A gente conseguia conversar sobre tantas coisas e nunca era cansativo. Claro que eu me perdia na conversa às vezes, perdida no quão encantadora era ela ou naquele sorriso. Ela sorria com os olhos. Sugeri que víssemos um filme. Ela aceitou, mas antes que eu o colocasse para rodar, ela já estava dormindo no sofá. Peguei uma coberta e coloquei sobre ela. Quando eu terminei de lavar a louça da janta, ela estava deitada. Peguei o celular, avisei a Wynonna que a Waverly tinha pegado no sono e que provavelmente não ia ter condições de voltar mesmo e acordasse. Ela agradeceu a informação e desligou. Tirei a mesa do centro e coloquei um colchão para eu dormir na sala. O dia tinha sido muito melhor do que o esperado, principalmente essa noite inusitada.
Acordei de madrugada com a Waverly se levantando tentando lembrar onde estava.
— Nicole? — Tentou arrumar o cabelo e enxergar onde podia pisar para levantar.
— Ei, calma. — Me sentei. — Você precisa de alguma coisa? Está se sentindo bem?
— Não percebi que tinha pegado no sono. Desculpa. — Passou a mão no rosto, tentando acordar. Coloquei minha mão sobre a dela que estava no sofá.
— Não tem do que se desculpar. Pode voltar a dormir, se quiser pode ir pro meu quarto.
— Wynonna deve estar preocupada — Bocejou, ela ainda parecia exausta.
— Eu avisei que você estava aqui.
— Que bom. Posso deitar com você? — Perguntou com os olhos quase fechando novamente.
— Claro. — Deixei um espaço para ela no colchão e ela se deitou de lado com a cabeça em meu ombro. Dormiu. Sybil veio logo depois e deitou em cima do meu cabelo.
Acordei com o cheiro de café, virei para o lado e Waverly estava sentada no sofá me olhando com duas xícaras na mão. Eu devia estar horrível, com a cara toda amassada.
— Bom dia! — Waverly disse me entregando a xícara.
— Bom dia! — Sentei ao lado dela e peguei o café. — Dormiu bem? — Bebi um pouco.
— Muito bem e você? — Se sentou de lado com os pés no sofá.
— Ótima. — Sorri, ela sorriu de volta.
— Obrigada por ter cuidado de mim ontem e ter me deixado ficar. — Se inclinou um pouco para frente e me deu um beijo rápido.
— Pode vir quando quiser. — Terminei de beber o café e levei as duas xícaras para a cozinha. Quando voltei ela estava em pé de costas para a porta, com a chave do carro na mão.
— Preciso ir. Te encontro na delegacia? — Abriu a porta.
— Hoje é meu dia de fazer a ronda. Desculpa. — Fiz uma pausa e completei — A gente pode combinar algo depois?
— Ok. — Andou até o umbral da porta.
— Ei. — Puxei ela de volta pela cintura e a beijei.
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