Notas iniciais
agora o negócio pega fogo

A comitiva de Dorne chegou em Porto Real com semanas de atraso. Estavam sendo esperados para o retorno de Joffrey, mas foram atrasados por águas violentas ao passar perto das terras de Lorde Robert Baratheon, algo que o velho gordo usou para debochar dos dorneses. Não entendia porque todos pareciam tão incomodados com a presença deles. Joffrey parecia mais mal humorado do que nunca, a mãe certamente não parecia confortável, mas isso podia ser graças a gravidez. Só Brandon e Sansa pareciam minimamente animados com a presença de pessoas novas na corte.

Arianne Martell era, sem dúvida, uma beleza dos Sete Reinos. Sua pele oliva e os longos cabelos negros, combinados com os olhos que mesclavam o castanho e o verde, lhe davam um ar misterioso e sensual. Brandon se viu encarando a princesa de Dorne mais do que a etiqueta mandava por mais de uma vez. Ela parecia ter plena consciência de sua beleza, e seus modos agradáveis apenas amplificavam a admiração. O príncipe Quentyn, por outro lado, embora tivesse um porte apresentável e uma face agradável, parecia constantemente desconfortável, desde que os receberam no porto, até o momento que foram acomodados na Fortaleza Vermelha.

—Qual é o seu problema? — Brandon finalmente pode perguntar a Joffrey, dando um pulinho para lhe estapear levemente a cabeça.

—Do que esta falando? — Joffrey olhou para ele colocando os cabelos de volta no lugar, os passos pesados tomando corredores para longe da fortaleza de Maegor.

—Eu não o vejo assim desde que o pai tomou Daemon como escudeiro. — Brandon respondeu caminhando ao lado dele.

—Você não sabe por que eles estão aqui? Querem que Arianne seja a futura rainha, e eu tenho certeza de que nosso avô vai tentar garantir o príncipe de Dorne para Sansa depois de não conseguir Arya para Daemon. — Brandon pode perceber que o tom do irmão mais velho ficou mais agressivo ao falar sobre o possível pretendente de Sansa.

—Ainda esta irritado por isso? Arianne é linda. Você não pode ter tudo que quer, Joff. Governar exige sacrifícios. Acha mesmo que o pai estava desesperadamente apaixonado quando ele a mãe casaram? E veja como…

—Sim, sim, eu já ouvi toda essa ladainha. Não me interessa! Nós somos uma casa forte. Temos vassalos leais, números, e uma fortuna… — Ele começou a argumentar, parando por fim de caminhar. -...Por que eu tenho que me contentar com uma princesa bem mais velha de um reino menor? Se estamos falando de estratégia, por que o pai não me casou com a filha de Lorde Tyrell?

—Margaery Tyrell lhe agradaria mais? — O caçula perguntou erguendo uma das sobrancelhas.

—Não! Mas meu ponto é que esse casamento não é estratégico. Tenho certeza de que tem o dedo da víbora vermelha. O pai não devia confiar tanto nele. — Praguejou enquanto voltava a andar.

Brandon empurrou o príncipe de Pedra do Dragão com força, e embora fosse alguns poucos centímetros mais baixo, o segurou pelo gibão de tecido fino que ele usava, o apertando contra a parede com uma expressão impaciente. Brandon não costumava perder a calma, era difícil até mesmo elencar os momentos em que ele perdia seu tom agradável e sua expressão simpática.

—Eu estou cansado dessa sua birra. — Falou com a testa levemente enrugada. — Você não é mais um garotinho contrariado que pode fazer bico para a rainha quando os servos não fazem as coisas como você espera. É o maldito príncipe herdeiro de um reino grande demais para se governar sozinho. — Brandon puxou levemente o irmão e o apertou com mais força contra a parede. — O pai vem se matando por anos para manter essa paz frágil, e você não pode se dar ao trabalho nem de ir às reuniões do Pequeno Conselho?! Como diabos acha que vai aprender a ser rei?!! — Ele finalmente soltou Joffrey, que parecia totalmente aturdido por ter levado um esporro justamente dele. — Agora acabe com essa birra. Se você causar um desconforto entre as grandes casas de Westeros, eu juro pelos Antigos que aceito o primeiro complô pra destroná-lo quando a hora chegar.

Joffrey sabia que Brandon jamais faria aquilo, mas a ameaça enfatizava a seriedade do caçula sobre o comportamento do príncipe herdeiro desde que eles tinham voltado para a corte.

—Quando você se tornou tão responsável e político? — Joffrey perguntou ainda com um ar contrariado, enquanto arrumava as roupas que o irmão bagunçou.

—Depois de levar uns tapas de Lorde Lannister. — Respondeu com um sorriso contido no canto dos lábios.

—E quando passar o tempo apropriado e Daemon tentar pedir a mão de Myrcella em casamento, você vai continuar responsável e político?

Brandon sentiu aquela pergunta como a ressaca do mar o atirando contra rochedos pontiagudos. Os olhos claros se voltaram para Joffrey com uma expressão que misturava surpresa, vergonha e muita tristeza. O príncipe caçula engoliu o seco, e limpou o rosto de expressões, não se dando ao trabalho de responder aquela pergunta.

Os dois seguiram para as docas, onde o rei inspecionava o presente que recebeu de Doran Martell. Um belo dromone feito em menores medidas, apenas para divertimento pessoal, ou locomoção discreta pelo mar.

—É uma beleza. — Eddard estava comentando quando os príncipes enfim chegaram. — No Norte nossas embarcações são mais rústicas, e maiores para aguentar as águas mais traiçoeiras.

—Não recomendaria águas muito traiçoeiras com esta aqui, vossa graça. Doran tem um em nosso palácio de verão. Lembro de passar algum tempo com Elia, apenas para pular do barco para o mar, ou pescar. — Oberyn lembrou com um ar que Brandon só pode interpretar como saudoso.

A embarcação tinha sido enfeitada com peças de linho e seda, o lobo prateado com uma coroa de bronze estava por toda parte, inclusive nas velas. Joffrey pareceu pouco interessado, mas Brandon tinha o olhar mais fascinado que o pai para os detalhes daquele presente. Foram muitos anos em Casterly Rock, treinando com cavaleiros, mas também com marinheiros, vendo o avô reconstruir a frota Lannister. Ele sabia se virar um pouco em alto mar. Talvez pedisse emprestado ao pai vez ou outra.

—O que acha de darmos uma volta? — O jovem Stark se virou quase que imediatamente, encontrando o rei com um sorriso curto, e até um pouco travesso, com a proposta. — Precisamos testar se é seguro, antes de levar a família toda para um passeio. Talvez possamos usá-lo para visitar Pedra do Dragão, depois da cama de sangue da rainha, é claro. O príncipe Joffrey precisa ficar a par de seus domínios e responsabilidades.

Atrás dele, Brandon pode ouvir Joffrey soltar um suspiro sonoro, silenciado com o olhar severo que o irmão lhe lançou.

—Eu acho uma ótima ideia, meu rei. O príncipe de Pedra do Dragão precisa aprender a se virar no mar, já que agora é lorde de uma ilha. — Brandon respondeu, caminhando até o irmão sem qualquer cerimônia e já o puxando para dentro.

—Vamos, Oberyn! Acredito que possamos nos dar ao luxo de algum entretenimento inocente por hoje.

O rei não precisou falar duas vezes para que o dornês entrasse na embarcação. Os servos começaram a desamarrar as cordas, e Brandon subiu pelo mastro com uma rapidez impressionante, agarrando-se na corda da vela e usando o próprio peso para içá-la, enquanto retornava para o convés.

—Permissão para assumir o timão, vossa graça. — Brandon parecia já estar se divertindo.

—Permissão concedida, príncipe Brandon. — O rei riu e caminhou até a proa, mantendo o olhar no horizonte.

Enquanto Brandon e Oberyn se misturavam ao resto da tripulação, fazendo tarefas e trabalhando para mover a embarcação, Joffrey se juntou ao pai, deixando que o mesmo passasse o braço em seus ombros em um gesto um pouco protetor. Os dois ficaram em silêncio por vários minutos enquanto passavam do Portão do Rio e chegavam à baía da Água Negra.

—O que o está incomodando, filho? — Eddard finalmente perguntou.

—Ele ainda está aborrecido porque prefere ruivas a morenas. — Brandon respondeu primeiro. Tinha passado o controle para um dos marinheiros, e se juntado ao pai e ao irmão.

—Cala a boca, Brandon. — Joffrey mandou em um tom um pouco agressivo.

—Parem os dois. — Eddard mandou em um tom mais severo, mas logo sua expressão suavizou. — Eu não queria cobrar tanto de vocês tão cedo. — E suspirou com pesar. — A guerra chegou cedo demais para mim e Robert, a morte chegou cedo demais para Brandon e Lyanna. Eu sempre quis que meus filhos pudessem ter uma juventude tranquila, livre de problemas. Acho que demorei demais a me dar conta de que vocês vão precisar segurar esse peso quando eu não estiver mais aqui. Eu não posso protegê-los pra sempre.

—O que você…

—Eu não vou viver pra sempre. E eu preciso saber que vocês vão cuidar uns dos outros, e do povo, quando eu me for. — Completou antes que Joffrey pudesse interrompê-lo. — Nós somos abençoados de tantas formas. Eu sei que parece uma vida de responsabilidades, e é, mas vocês precisam entender, meus filhos… A coroa é nosso dever, não nosso privilégio. Nós somos içados acima dos demais não porque somos melhores do que eles, mas porque eles confiam que nós teremos bom senso para decidir o que é melhor para todos e não apenas para nós. Se não trabalhamos em prol do melhor para o coletivo, para que existimos? — Eddard abriu um sorriso meio sofrido para os filhos que exibiam expressões atentas e um pouco confusas, e bagunçou os cabelos loiros de ambos em um carinho um pouco bruto. — Não consigo decidir se vocês ainda são muito verdes ou se são velhos o bastante e meu instinto de pai que tenta protegê-los. Não é fácil preparar futuros líderes quando se é pai deles.

—Você está fazendo um bom trabalho, vossa graça. — Brandon sorria com certo orgulho para o pai. — Ao menos comigo. — Completou com um ar brincalhão, recebendo um peteleco de Joffrey.

—Eu prometo ser mais responsável, pai. E não reclamar mais da minha noiva. — Brandon pode perceber a expressão culpada de Joffrey, como se de repente se desse conta de que estava reclamando de barriga cheia.

—Qualquer sentimento negativo que possa ter pela sua noiva, Joff, ainda pode mudar. Era difícil para mim até mesmo confiar na sua mãe quando ficamos noivos. Casamento, assim como governar um reino, é algo que exige tempo, esforço e paciência. — Eddard manteve o sorriso quando Joffrey baixou a cabeça, como quem começa a se dar por vencido. — Mas você não tem que ficar tão alarmado com isso. Seu casamento ainda pode demorar tempo o bastante para vocês se conhecerem. Não estamos em guerra e tentando remendar um reino dividido como antes. Só me prometa que tentará achar espaço em seu coração para ela.

—Eu prometo, vossa graça. — Se algo movia, ou parava, o príncipe herdeiro, era a possibilidade de desapontar o pai. — Mas e se a princesa Arianne e eu não conseguirmos ter uma relação tão boa como você e a rainha?

—Nesse caso, você fará tudo para ser um marido educado e respeitoso quando estiverem juntos, e buscará apoio para questões mais sérias com seu irmão. — Respondeu ocupando o outro braço nos ombros de Brandon. — Fomos só Cersei e eu por anos, mas vocês têm um ao outro. Quando o inverno chegar, o lobo solitário morre, mas a matilha sobrevive. O inverno está chegando, e mais do que nunca nossa matilha precisa estar unida. — Eddard apertou os filhos carinhosamente em seus braços.

—Vossa graça, acho que está na hora de voltarmos. — Oberyn apareceu diante do rei e dos príncipes com uma expressão preocupada.

—Aconteceu alguma coisa? — Eddard soltou os filhos com o cenho já franzido.

—Nós avançamos demais, o capitão de vossa escolta alertou para embarcações suspeitas próximas a Cinzamarca. Um corvo de Lorde Velaryon chegou a pouco. — Respondeu enquanto sentiam o barco começar a mudar de direção.

—Ele disse quantas embarcações? Quero que me chamem Robert assim que…

Mas antes que ele pudesse terminar de falar, uma bola de fogo do tamanho de uma roda de carruagem atingiu em cheio a vela e o mastro da embarcação. Eddard tinha jogado os filhos no chão, usando o próprio corpo como escudo para tentar cobrir ambos.

—De onde veio isso?!! — Oberyn gritou enquanto tentava se levantar no meio dos escombros.

Três dos servos corriam desesperados em chamas, enquanto o marinheiro que antes controlava o timão pulava no mar. Brandon se colocou de pé o mais rápido que pode, levando uma das mãos ao cinto, e só então se lembrando que antes estavam em uma cerimônia de recepção, não tinha sua espada consigo… E ela certamente seria inútil ali.

—Vamos ter que na…

Outra bola de fogo, dessa vez fez o barquinho se partir em dois. Joffrey se desequilibrou e bateu forte a cabeça em um dos destroços, antes de cair semi inconsciente no mar. Oberyn pulou mais que imediatamente, nadando na direção do príncipe herdeiro. Brandon estava pronto para pular também, quando viu três flechas acertarem o pai em cheio. O príncipe congelou, pode sentir a própria garganta gritando, mas não conseguia ouvir nada. O corpo do rei cambaleou pelo resto da embarcação já afundando, e caiu pela proa com as flechas cravadas em seu peito e o sangue manchando a túnica cinza. Ele ainda tentou correr e pular onde o pai afundava, mas um último disparo de fogo, partindo de onde eles ainda não conseguiam identificar, o atirou violentamente no mar, tirando sua consciência quase que imediatamente.

Notas finais
quem gostou, comenta ou recomenda ou os dois =B