Crônicas de Byron
1 Prólogo - Matem o Dragão de Cent!
Notas iniciais
Castelo de Ligne, Reino da Galia, 20 d.Q
As figuras encapuzadas estavam lado a lado, seis no total, formando um círculo ao redor de uma mesa redonda de madeira branca em cuja superfície estava pintado o dragão vermelho de Cent.
A luz da lua cheia entrava por uma janela alta mas estreita, iluminando parcialmente aquele pequeno aposento, um entre cem que existiam no castelo. Para melhorar a iluminação, alguns lustres de velas tinham sido acesos ao redor da saleta, o suficiente para que quem estivesse dentro da sala pudesse enxergar e quem estivesse fora não percebesse que havia alguém ali.
A sessão começou com um cântico proferido por um dos vultos encapuzados, que antes de iniciar, deu sinal com a mão para que seus companheiros se sentassem. O cântico era profundo e esbanjava patriotismo:
Nós, gauleses, filhos da Pátria-Mãe
Cujos ascendentes lutaram contra a tirania e pela liberdade
Proteger iremos a conquista de nossos antepassados
E nos utilizaremos da espada e do escudo, para que quando
a escuridão surgir, nós trazermos a alvorada
Como Cavaleiros da Luz.
Ao terminar, o homem se sentou, pousou uma mão sobre o lado esquerdo do peito e depois a ergueu o mais alto que pode. O gesto foi seguido por seus companheiros de mesa. Assim que abaixaram as mãos, o desconhecido que havia iniciado a sessão começou a falar.
— Boa noite, senhores. — Disse com voz séria. — Antes de mais nada, peço desculpas por esse encontro tão repentino. Mas como podem perceber — o homem gesticulou para o dragão pintado na mesa. — Os acontecimentos dos últimos dias nos forçaram a ter essa reunião. Apesar disso, o protocolo não será alterado e uma vez por mês devemos continuar nos reunindo como sempre.
À reação positiva dos companheiros, o homem continuou.
— Acredito que já seja do conhecimento de todos que o vigário de Una coroou Alfredo Windsor e abençoou o seu futuro reinado. Alfredo retorna a tradição imperial e pior que isso, correm boatos cada vez mais convincentes de que ele deseja expandir o poder da Igreja.
Cabeças cobertas por capuzes se agitaram e se entreolharam. Uma voz entre elas surgiu.
— Estamos cientes do ocorrido. — A voz era fina e aguda, quase irritante. — Nossa principal preocupação agora é saber como esse fato reverberou em Cent e no restante de Byron.
Alguém limpou a garganta e disse:
— Segundo minhas fontes, assim que Alfredo foi coroado, ele saiu de Una e seguiu pela Estrada de Deus de volta à Assex. Ele ainda não chegou na capital mas por todas as vilas e aldeias que passou, foi ovacionado e muito bem recebido. Mas isso não é tudo: as ruas de Cent estão abarrotadas de gente a espera do rei. Ou do Imperador, como alguns já o estão chamando.
— Imperador...? — O homem que tinha iniciado a sessão disse, quase perplexo.
— Um bando de senhores de gado e comedores de grilos, é o que digo. — Uma voz forte e grossa esbravejou. — A plebe pode chamar Alfredo de Deus se quiser, desde que os nobres ainda continuem chamando-o de rei.
— Isso é verdade, Giroud. No entanto, para quem leu Alban, sabe que a plebe é a maioria e consequentemente o desejo da fração maior se sobrepõe ao da fração menor. Ao que parece, Alfredo leu mais os pensadores da luz do que algumas pessoas ao redor dessa mesa.
Giroud, o maior e mais forte de todos os encapuzados, se encolheu na cadeira e não se dignou mais a falar. O homem que havia respondido a ele, o mesmo que tinha dado início a sessão, parecia ser o líder do grupo e decidia os assuntos que seriam tratados. Ele retomou:
— Precisamos estancar essa sangria. Alfredo está agindo mais rápido do que eu esperava. Alguém tem sugestões?
O homem da voz irritante ergueu um braço gordo.
— Sim, Antoine?
— Eu conheço a grande maioria dos malfeitores e assassinos da Estrada de Deus. Um saco de prata e o rei de Cent estará regurgitando sangue antes de chegar à Assex...
— Isso não é apropriado! — O homem que tinha limpado a garganta interrompeu. — Antoine, sua consciência não o condena? — Ele disse, com reprovação. — O rei Alfredo já tem trinta anos e a mãe dele morreu de um cancro no coração. Sua avó da mesma forma. Seria mais natural que ele seguisse o mesmo caminho da família. Poderíamos envenená-lo...
— Quem de nós, você? — Antoine falou com um tom de sarcasmo. — É capaz de sua mão tremer e o veneno parar na sua boca!
— Eu não disse que seria eu...
— Basta! — O Líder interrompeu a discussão. — Antoine e Francis, suas adversidades um para com o outro devem ser resolvidas em particular! Não irei tolerar essa atitude.
Os dois homens pararam imediatamente de falar. O Líder tirou os olhos deles e olhou para os outros dois encapuzados que ainda não tinham se manifestado.
— Luke, Malestrom, vocês tem alguma ideia do que pode ser feito?
Um homem alto e magro, de nome Malestrom, falou:
— A situação está tão clara quanto um céu de verão mas estamos nos recusando a ver. — A voz dele era grave e muito baixa, quase um sussurro. — Eu não conheço Alfredo mas qualquer um pode ver que ele é um partidário ferrenho da Igreja. E não vamos nos esquecer que não há muito tempo o paganismo estava ressurgindo em Cent e um sentimento de anti-unismo se concentrando nos corações dos homens. Eis o que vamos fazer: pegaremos um pagão suficientemente fanático, sussurraremos os absurdos que Alfredo tem feito em seu ouvido e diremos a ele a hora e o lugar onde o grande rei costuma rezar para o seu Deus. Será econômico e sem burocracia.
— Concordo. — O homem ao lado de Malestrom, Luke, disse.
— Ótima ideia. — Concordou Francis.
— Pode funcionar. — Assentiu Antoine.
Giroud grunhiu, aprovando, e então o Líder se ergueu da cadeira e apoiou as mãos na mesa.
— Muito bem pensado, Malestrom. Obrigado. — Ele agradeceu, com a voz excitada. Malestrom apenas moveu a cabeça em resposta. — Então assim será feito. Creio que não será muito difícil achar um pagão por aqui, ainda mais um fanático. Eu deixarei todas as atribuições a seu cargo. Agora, vamos encerrar.
O restante dos encapuzados se levantou e cada um deles tirou uma espada de dentro de suas vestes negras. O Líder ecoou um último cântico, uma versão reduzida do anterior e em vez de fazer a saudação com o braço, ergueu a espada com uma só mão o mais alto que pode. Assim fizeram os outros.
Lâminas desceram e perfuraram a pintura do dragão de Cent, deixando-a crivada de buracos. Ao final da sessão, quando todos já tinham saído, exceto o Líder e Antoine, este último lamentou, olhando para a pintura na superfície da mesa:
— Um desperdício, Vossa Graça, uma pena. Eu mandei que Laurent fizesse o melhor dragão centiano que pudesse. O garoto ficou por horas no trabalho.
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