O vento gelado cortava as paredes de pedra cinzenta, fazendo os servos e todos os presentes na grande construção tremerem dentro de suas vestimentas. A fortaleza continha mais de cem anos, e estava ali desde que os dragões foram expulsos das Terras dos Homens, por isso as paredes eram feitas de maneira que o vento pudesse passar por elas. Os grandes corredores estavam desocupados naquela tarde gelada de inverno, exceto por quatro grandes figuras portanto poderosas armaduras de aço puro.

As armaduras ambulantes caminhavam lentamente, levando em seus braços uma grande arca. Cada um dos cavaleiros bufava a cada passo, consequência do peso da enorme armadura somado ao peso da misteriosa arca. A tampa do artefato era totalmente entalhada, apresentando desenhos de uma majestosa batalha, de uma enorme cobra e um cavaleiro lendário conhecido como Lorde Thorcyn. As braçadeiras da arca eram feitas de puro ouro, assim como os encaixes da tampa. Pequenos feixes de luz escapavam pelo encontro da tampa com o corpo.

Os corredores frios da fortaleza levam a salas e mais salas, todas vazias e desocupadas, todas preparadas para o grande evento daquela noite. Os quadros que ora enfeitavam as paredes mortas estavam agora em algum lugar da imensa masmorra, juntamente com todos os móveis e descoráveis. As únicas coisas que ainda permaneciam em todas as sala eram os tapetes, todos mostrando a enorme glória de Thorcyn.

Os cavaleiros estavam agora diante de uma enorme porta dupla de carvalho, entalhada com a história da criação da Terra dos Homens. As duas grandes maçanetas representavam Achiel e Bezer, a Ordem e o Caos. Os cavaleiros colocam a arca gentilmente no chão e abrem as enormes portas, revelando um majestoso salão do outro lado.

Horas antes, o salão estava fervilhando de gente, servos retirando os móveis para o evento da noite, convidados conhecendo o castelo, e talvez até ladrões tentando achar algo que pudessem roubar em meio ao turbilhão de coisas. Agora, o salão estava com aspecto sombrio, frio e escuro, com poucas tochas acesas e totalmente vazio. Apenas uma figura solitária permanecia naquele cenário moribundo, o proprietário da fortaleza.

– Então aí está, a famosa Arca do Desespero – exclama o velho, abrindo os braços conforme os cavaleiros se aproximam carregando a arca com dificuldade. – Eu sabia que as lendas não mentiriam para mim.

O senhor que falava apresentava uma imagem cadavérica, com os braços esqueléticos balançando freneticamente a medida que os cavaleiros iam se aproximando mais dele e o rosto fino e cheio de rugas franzido em uma expressão eterna de aborrecimento. O velho trajava uma roupa nobre, com peles e mais peles sobre a fina silhueta que parecia querer quebrar sobre o peso de tantas camadas. Anéis preenchiam os dedos finos e esqueléticos e colares entulhavam o pescoço extremamente fino.

– Deixem a arca – ordenou o velho aos cavaleiros. – E expliquem esse terrível atraso.

As quatro armaduras colocam a arca no chão e viram-se para o velho, cada uma erguendo o capacete e deixando à mostra uma expressão de cansaço. Os rostos babados e rudes que um dia preencheram aquelas cabeças haviam sido reduzidos a máscaras de horror, refletindo o que os quatro nobres cavaleiros passaram durante alonga viagem para recuperar a maldita arca.

– Tivemos alguns contratempos para adentrar no templo, Lorde Narder – explica o mais velho dos cavaleiros, um mercenário aposentado conhecido como Bafo. – Bandidos estavam nos esperando na entrada, nos pegaram de surpresa.

– Um de nossos amigos foi capturado, não tivemos chance se salvá-lo – adiciona outro cavaleiro mais jovem, conhecido como Aldwin. – Foi morto antes que algum de nós percebesse.

A expressão de Narder não havia mudado durante a explicação, devido a terrível máscara de rugas que cobria seu rosto. No fundo, ele talvez se importasse com a morte de um de seus inúmeros servidores, mas por fora, nega-se a transpor suas emoções. O velho faz um gesto de desdém com a mão e ordena aos cavaleiros a continuar a explicação. Os quatro cavaleiros trocam um olhar de raiva disfarçado.

– No interior do templo, mais bandidos nos esperavam, mas foram despachados facilmente – continua um terceiro cavaleiro, o mais jovem dentre os quatro, conhecido como Rewyn. – Recuperamos a arca sem nenhum problema, tirando a morte de Mordor.

– Pouco me importa a morte de um dos vocês – cuspe Narder. – O que importa agora é que a arca está em segurança.

Naquele momento, todos os quatro cavaleiros, Bafo, Aldwin, Rewyn e Kuldur, parecem querer destroçar Narder, exibindo uma expressão de puro ódio. O Lorde olha calmamente para as quatro figuras e faz um gesto que despensa todos eles, que saem pela grande porta entalhada batendo os pés. Após todos os cavaleiros saírem Narder vira-se para a arca, exibindo uma expressão de ganância.

...

– Eu juro para vocês – reclama Aldwin conforme os quatro guardam as poderosas armaduras no armeiro. – Que se eu já tivesse recebido meu pagamento, eu teria voado no pescoço de vidro do velho.

Os outros três bufam em acordo.

– Se Mordor estivesse aqui, o velho já estaria enterrado a sete palmos – complementa Rewyn.

O mais novo dentro do grupo, tendo apenas dezoito anos. Rewyn havia entrado para a Irmandade de Aço, como era chamada a guarda do Forte Gelo, para ajudar a família com o salário. Duas semanas após entrar, Rewyn recebeu a trágica notícia que toda sua família havia perecido diante da Praga. Os cabelos loiros do soldado eram cortados em estilo militar, corte obrigatório para alguns soldados novatos.

– Infelizmente, temos que encarar a realidade – disse Bafo. – Mordor está enterrado sobre uma árvore em algum morro das Terras Proibidas, com a cabeça em um buraco e o corpo em outro.

A morte de Mordor havia sido um choque para todo o grupo, já que nenhum deles esperava uma emboscada em um templo esquecido pela civilização. Os bandidos haviam cercado o grupo pelas costas e atacaram Mordor, o mais próximo deles, decapitando a cabeça do cavaleiro com um só corte. O sangue do amigo ainda manchava o aço da armadura de Bafo, que agora esfregava a mancha com uma flanela molhada.

– Que os deuses tenham piedade de sua alma – sussurra Kuldur.

Kuldur tinha aproximadamente vinte anos, o segundo mais jovem dentro do grupo. Ele foi achado na ponte da fortaleza ainda novo, quando as patrulhas ouviram um choro de criança durante as rondas. O menino cresceu dentre os soldados, sendo acolhido por todos na fortaleza. Kuldur raramente falava, e quando fazia, sempre era algo relacionado com religião ou fanatismo.

– Que os deuses tenham piedade é daquele velho estúpido, isso sim – fala Bafo.

Veterano de duas guerras, Bafo estava na guarda do Monastério da Dor desde os trinta anos, sendo até então o soldado mais velho. Bafo gabava-se de um dia ter tido os cabelos mais belos de todo o reino, que haviam sido reduzidos a uma calvície extrema. O físico de combatente que Bafo tivera um dia também havia sido substituído por algo pior, uma barriga inchada e caída. O apelido não vinha por acaso, já que parecia haver um esgoto dentro da boca de Bafo.

Uma grande explosão ecoa do outro lado da fortaleza, fazendo os quatro cavaleiros pularem.

– Mas que... – começa Aldwin, antes de ser interrompido por outra explosão. – Vamos logo, vistam as armaduras!

Os quatro vestem-se rapidamente e se põem em marcha para a origem da explosão, o salão de onde haviam saído no início da noite. Dentro das armaduras, cada soldado fazia uma prece silenciosa, ritual de qualquer membro da Irmandade de Aço. As espadas e os escudos pesavam nas mãos dos cavaleiros, que já estavam exaustos devido a grande viajem que fizeram a poucas horas.

Ao chegar na porta no salão, que jazia destroçada e retorcida, Aldwin faz um gesto para os outros pararem.

– O que seja que estiver ali dentro, não nos poupará – explica ele. – Por isso, tenham muito cuidado ao entrar no maldito salão.

Os três assentem e se preparam para adentrar no desconhecido. A poeira estavam alta, impedindo qualquer um de enxergar o que se passava ali dentro. Aldwin precipita-se e entra no salão, com a espada e o escudo preparados para qualquer situação.

Dentro do salão, o breu era ainda maior, possibilitando Aldwin enxergar apenas um palmo a sua frente. Um chiado, como o de uma cobra, impregnava o lugar, causando um calafrio na espinha do cavaleiro. Aldwin andava lentamente para o centro do salão, onde ele e os outros haviam deixado a arca mais cedo.

Algo pula da escuridão na direção de Aldwin, assustando o cavaleiro e fazendo-o derrubar a espada. A criatura que avançava velozmente na direção do homem indefeso tinha quase três metros de comprimento, era totalmente negra e possuía olhos vermelhos perfurantes. Aldwin reconhecia aquele monstro, e reconhecia o que ele significava.

No momento exato em que a criatura chega a Aldwin, pronta para o ataque, Bafo aparece no espaço entra a criatura e o cavaleiro, aplicando um corte lateral que teria decapitado qualquer ser vivo. A criatura hesita e retorna para escuridão, deixando um rastro de sangue no caminho. Bafo vira-se para Aldwin, exibindo uma expressão pura de medo.

– Não pode ser ela – choraminga o mais velho.

Aldwin vira-se e vê Kuldur e Rewyn, ambos exibindo a mesma expressão de medo que Bafo exibia.

– Vamos sair logo daqui – ordena Aldwin. – A fortaleza está condenada.

Os quatro direcionam-se para a grande porta, e quando Aldwin ultrapassa o limite da sala, outra explosão ocorre, jogando o cavaleiro mais de quatro metros em direção ao corredor. Aldwin bate violentamente a cabeça no chão de pedra cinzento, causando um baque surdo. O resto dos cavaleiros também estavam ao chão, mas conscientes.

– Andem logo – ordena Bafo, levantando-se e correndo em direção ao colega desmaiado. – Me ajudem a carregar ele.

A grande escuridão que cobria o salão estava agora espalhando-se para fora, em direção aos quatro cavaleiros esfarrapados. Rewyn e Kuldur correm desajeitadamente em direção a Bafo e Aldwin, ajudando o veterano a carregar o capitão quase morto. Sangue escorria por uma grotesca ferida na testa de Aldwin, ensopando o rosto do cavaleiro de vermelho.

– Não podem escapar de mim – fala uma voz na escuridão, uma voz tão poderosa que paralisa os três cavaleiros, que viram-se lentamente para a escuridão. – Eu sou o começo e o fim, a luz e as trevas, a vida e a morte.

Então a terrível criatura pula das trevas em direção aos quatro soldados, que estavam condenados a partir do momento que botaram as mãos na arca.

Notas finais
PESSOAAAAL!! Peço a vocês, de coração, que avaliem a história, por favor ^^ ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.