Da proa do navio, com a mão direita no botão redondo de rubi da espada roubada dois anos atrás e a direita na amurada, Allonso Solla, o Urubu-Careca, conseguia ver a casa de madeira das bruxas na praia da Ilha do Bacalhau, baixa e comprida, com uma única porta de entrada e muitas janelas. Barto Sture e Tom, o Forte, chegaram por trás dele, tão silenciosos quanto qualquer contrabandista de escravos deveria ser, mas os três meninos e as oito meninas que traziam puxados pelas cordas fungavam tão alto que Allonso podia jurar que até mesmo Aalis, a Mãe das Bruxas, os teria ouvido em sua cadeira gigantesca.

— A gente não tinha pego mais alguns deles? — perguntou.

O mais velho não passava dos doze anos e todos tinham pele mulata, cabelos negros e olhos escuros.

"Rostos indígenas", pensou o capitão.

— Duas morreram ontem, capitão — respondeu Tom, com enormes braços, largos ombros, cabelos castanhos riscados por muitos fios grisalhos e um voluptuoso bigode. — Já estavam muito doentes e tocamos os corpos na água.

— Nem todos aguentam o mar tão bem como a gente — comentou Barto rindo para uma índia de, no máximo, dez anos à sua direita. Era esguio como uma flecha e crescia duas cabeças além de seu companheiro, mas seus braços pareciam gravetos.

— Não fazem tanta diferença assim, aquelas duas. Ela paga mais pelos meninos.

Aalis podia ser a pior das criaturas, utilizava o sangue das meninas para suas bruxarias e o sêmen dos meninos para ter mais crias de bruxas e pôr mais de seus monstros no mundo, porém pagava bem pelo que lhe era trazido de fora de sua ilha.

Aalis se vangloriava de seus meninos, se gabava em dizer que nas noites em que a lua nova pairava no céu suas criaturas reinavam. Os cinco lagartos gêmeos que dividiam o mesmo corpo, mas possuíam cabeças diferentes, o enorme morcego que, segundo afirmavam, se assemelhava mais com um dragão do que com um morcego propriamente dito e que sobrevoava não só os territórios de sua matriarca como todo o mundo com suas asas de couro e a grande ave sem asas ou penas, mas que corria tão rápida quanto um trovão e podia dilacerar suas presas com garras tão afiadas quanto as lâminas das espadas que os cavaleiros brandiam.

Longa Noite, o navio, não era feito para impressionar por seu tamanho ou poderio, era feito para ter velocidade, e isso ele tinha de sobra. Suas velas eram negras e quando ele cruzava os mares controlados pela Coroa era sempre noite, velejavam invisíveis ao olhos mais curiosos, pegando nativos e os levando para lugares onde os navios escravistas reais não alcançavam e onde eram bem pagos.

Quando desembarcaram Allonso pôde sentir o calor da areia transpassando a sola de sua bota negra e o suor percorrendo seu rosto e pingando por sua barbicha ruiva. As roupas grudavam em seu corpo e ele podia sentir o cheiro podre de suas axilias, porém todo o odor, por pior que fosse, não podia se comparar com o odor de dentro da casa de madeira.

"Fede a tudo, merda, mijo e sangue em partes iguais."

Entraram os cinco, ele, Tom, Barto, Dickon, o mestre de armas de queixo quadrado e cabelos dourados cacheados e Lancel, o intendente velho e corcunda, mas quase mágico com as moedas, algo raro de se ver no oceano.

A velha se achava sentada, sua banha caia para os lados de sua cadeira bordô, suas tetas chegavam até quase o umbigo, seu queixo era redondo e largo, seus dentes não podiam ser vistos em meio à crosta laranja de sujeira e seus olhos vesgos pareciam encarar, ao mesmo tempo, Allonso e a janela do outro lado da sala.

Muitas mulheres, apenas pouco menos horrendas do que ela, se aconchegavam no chão com os pés cruzados ou deitadas, eram suas filhas e, por mais feios que os tripulantes fossem (com exceção do belo Dickon), todos conseguiam sentir os olhares cobiçosos postos em seus corpos, até mesmo Lancel, com quase sessenta anos e uma pele tão enrugada que parecia formada por escamas. As escravas serviam vinho, cozinhavam e limpavam o chão com um pano marrom que, estranhamente, parecia apenas piorar a aparência do lugar.

Allonso reconhecia algumas daquelas meninas de entregas mais antigas. A grande maioria tinha vindo na passada.

"Nunca sobrevivem por muito tempo aqui. São sacrificadas quando chegam as mais novas."

— O velho Urubu coloca as asas negras em minha casa. Sentem — convidou a bruxa mãe, possuía uma voz rouca, quase gutural. — Que meninas lindas me trouxeram hoje, rapazes, e meninões também, pelo que vejo.

— Onde é que tá o nosso pagamento? — perguntou Lancel antes de qualquer outro com suas mãos longas cruzadas na frente da barriga. Era atrevido, gostava do dinheiro que vinha dos escravos, mas todos sabiam que demorava para dormir de noite se desculpando com seu deus pelo que fazia para ganhá-lo.

— Deixa um velho falar por você, Allonso? Já foi mais respeitado. Você não vê minhas meninas falando por mim, ou vê?

— Perdão, senhora — o olhar que o capitão lançava para seu intendente era frio, porém não sentia raiva dele.

"É um homem inteligente, mas não esperto. É necessário cuidado para tratar de negócios com uma mulher como Aalis", pensou.

— Vá, volte para o barco — falou rude.

O homem cruzou os panos que serviam de porta para a casa das bruxas e desapareceu em meio ao sol.

— Já pedi que se sentem e não gosto de falar mais de uma vez — disse Aalis, infelizmente, toda sorrisos.

Todos se sentaram em cadeiras, uma possuía um espaldar de costas enorme, outra não tinha braços, mas todas eram igualmente desconfortáveis e feias.

Chamar aquela criatura de feia era quase uma ofensa para a palavra em si. Cresciam pelos em seu buço, não como os que qualquer camponesa possuía, mas pelos que competiam com os de Tom, suas duas sobrancelhas se uniam em uma acima do nariz e suas orelhas eram enormes, a cartilagem pendia para baixo muito semelhante ao saco murcho de um velho.

— Eu pari mais uma ontem — falou ela. — menina, infelizmente, se chama Borgdana, a Gorda. Três filhos em vinte anos nesse lugar, acredita nisso? Três filhos e dezesseis filhas, é quase uma ofensa, e essas aqui só servem para parir mais meninas. Nenhum neto ainda — toda vez que chegavam lá ela contava dos nascimentos e reclamava dos poucos monstros que tinham vindo de sua boceta. — Acabo de me lembrar que nunca perguntei se tem filhos. Tem filhos?

— Se tenho não sei. Nunca me casei. Acho que sim, mas não posso falar ao certo.

— Faça um, ver um filho crescer é a maior alegria que alguém poderia ter. Quando nasceu minha primeira neta, juro que chorei como nunca tinha chorado antes, é quase mágico. Agora não choro mais, já tenho vinte e cinco delas — riu alto.

A conversa continuou por mais um longo tempo antes que o assunto principal fosse alcançado.

— Ameé, a Bela, ficou doente essa semana — Não tinha paciência para ficar inventando nomes, então os reutilizava com muitas de suas filhas. A Ameé de que falava fora chamada assim, pois, quando nasceu, era a criança mais linda que a bruxa já tinha gerado, mas agora estava indistinguível de suas irmãs e sobrinhas. — Belinda, a Séria morreu dois dias depois que você foi embora — A morta recebera esse nome logo após nascer, pois não chorara ou rira, ou demonstrara qualquer expressão, era sempre séria. — Freia, a Ruiva emprenhou — esta ninguém sabia como tinha nascida com os cabelos alaranjados, mas tinha nascido daquela maneira e isso não a tornava menos repugnante. — Quanto quer por cada um? — disse finalmente depois de quase uma hora e o Urubu-Careca ficou feliz por isso, não poderia dizer ao certo qual era o dano causada às suas narinas, mas não era coisa pouca, sentia quase como se começasse a se acostumar com o cheiro.

— Um preço justo, minha senhora.

— O que considera justo, contrabandista?

— Com a expansão de capitânias como Santa Louisa e Porto Verde, ervas e folhas se tornaram mais comuns do que leite de vaca, tanto em Rohesia quanto no Novo País, a exploração das matas trataram disso. Antes elas podiam ter sido vendidas por altos preços, mas agora todo cirurgião de esquina tem elas em estoque. Preciso de alguma coisa mais rara para aquelas bandas de lá.

— Traga o vidro preto na terceira estante — uma das escravas trouxe um pequeno recipiente, pouco maior do que um dedo, e com um líquido negro balançando em seu interior. — Tinta de polvo-vermelho, é ótima para passar em feridas, faz a dor passar em segundos, uma maravilha, sempre passo quando me machuco. Polvos só são encontrados no fundo do mar, mas, algumas vezes, são trazidos para nossa ilha pelas ondas quando morrem.

— Três desses vidrinhos aí por cada menina e quatro por cada menino.

— Dois por cada menina e três por cada menino.

— Três por cada menina e quatro por cada menino — insistiu.

— Dois e meio por cada menina e três e meio por cada menino. Nem pra você nem pra mim, meio-a-meio. Todos saímos felizes.

— Três por cada menina e quatro por cada menino — Allonso sabia como ela funcionava, precisava muito mais dos índios do que queria demonstrar e não os recusaria por tinta de polvo-vermelho.

— Tudo bem — disse Aalis entregando aquele vidrinho e, com um aceno, ordenando que os outros fossem trazidos.

O líquido brilhava conforme a luz era refletida nele, era leve, parecia quase água, mas era mais belo, de um negro mais profundo, muito semelhante ao colorido da madrugada.

— Até a próxima, então — falou Allonso preparando-se para se por de pé. Não queria aguentar mais um minuto desnecessário naquele lugar, sentia que seus companheiros poderiam vomitar a qualquer momento e seus vômitos federiam menos do que aquelas mulheres.

Sentiu pena das crianças por um pequeno momento, afinal de contas elas teriam de passar o resto de suas curtas vidas convivendo com aquelas criaturas e aquele cheiro, mas olhou para a tinta de polvo-vermelho e pensou nas moedas de prata que conseguiria por vendê-los e a pena deu lugar à cobiça.

"Gosto mais dessa sensação", pensou feliz.

Quando adentravam na mata, Allonso ia atrás, não era o mais forte do grupo, este posto pertencia à Tom, ou o mais rápido, pois o mais rápido era Barto, muito menos o mais inteligente, já que o intendente tinha tal habilidade (mesmo que Lancel não participasse das capturas), mas Allonso, o Urubu-Careca, tinha os contatos e isso valia mais do que toda a força, velocidade ou inteligência a um contrabandista, ele sabia para quem vender e para quem não vender, sabia onde atracar e onde não atracar para escapar das autoridades, sabia quem pagar e quem não pagar em cada porto que visitava.

Entravam em fila, Tom liderando com seu facão enferrujado para abrir caminho. Cortavam videiras, cipós e arrancavam pequenos galhos. Ao avistarem um nativo se locomoviam, pé ante pé, em sua direção, mas não todos por um lado, o cercavam, assim mesmo se fossem vistos e o alvo tivesse tempo de disparar uma de suas flechas, o que muitas vezes ocorria, nunca eram capazes de acertar a todos e eram capturados por quem vinha do lado oposto. Nunca falhavam, a não ser que houvessem mais tribais pelas árvores ou nos matos, escondidos, preparando o bote.

Entravam de mãos vazias em meio às árvores e saíam sempre com três ou quatro indígenas. Na maioria mulheres pescando em rios e cachoeiras, mas, algumas vezes, tinham sorte de pegar meninos novos que saiam sozinhos para caçadas. Eram levados para os barcos antes do sol nascer e, em menos de uma semana, vendidos aos seus novos proprietários.

— Dizem que o Donatário de Porto Verde sofreu um atentado, é verdade? — perguntou a feiticeira. Ela queria mais conversa.

"Só queremos ir embora, puta", pensou contrafeito, mas tal pensamento não podia ser visto por ela, ele tinha o rosto do melhor dos atores, um talento que fora obrigado a adquirir pelos anos que passara lidando com grandes negociadores.

Vinte e três Capitânias haviam sido criadas pelo Rei Miran de Mello no Novo País, aquele cujas terras ainda não tinham um nome, porém apenas três haviam prosperado o suficiente para que seus Donatários se mudassem para elas. Havia a necessidade de expulsar os nativos e mantê-los afastados, iniciar a lavoura, construir um grande castelo, criar vilas próximas para seus vassalos, tudo mantido pelo dinheiro do Donatário e não da família real, por isso vinte ainda se mantinham sobre o domínio indígena, nem todos tinham ouro para manter seu território. Porto Verde era o mais bem desenvolvido dentre os mais bem desenvolvidos, e isso queria dizer muito.

— Informações também têm seu custo.

Outro vidro foi-lhe dado, mas ele não voltou para o seu assento.

— Só isso — pediu ele. — Mais um agradinho pra um velho amigo.

— Posso perguntar as informações pra essas putinhas que me trouxe, que tal?

A bruxa sabia falar algumas línguas. Falava com perfeição a língua dos demônios, como apelidara Allonso, criada por ela mesma para conversar com suas filhas e o Rohesio, a língua de Rohesia, que aprendera para as negociações, mas não conhecia as línguas nativas, nem mesmo as mais próximas de sua ilha isolada.

Mesmo se as índias tivessem a capacidade de falar com facilidade a língua do Velho País, e não a tinham, não saberiam o que ocorreu com o Donatário de Porto Verde, nem foram capturadas em seus territórios, vieram de Ponte Negra, uma capitânia quase inabitada dois mêses de viagem para oeste. A mulher sabia disso.

— Então pergunte — ele se preparou para sair e ela chamou-o:

— Tome — entregou-lhe um outro pote com algumas gramas de um pó esverdeado. — Poeira de Folhas de Araçapuazeira. Ajudam com problemas como narizes entupidos, soube que vêm o outono naquele lugar de onde veio, talvez consiga alguma coisa com seus curandeiros chiques.

"São cirurgiões, porca velha", ele pensou.

— Obrigado — ele disse.

Seus homens pediram licença e se retiraram um por um.

"Se pudesse iria com eles, mas o dinheiro vale mais que meu nariz. Fede a mijo, merda e sangue a casa dessa mulher."

— Dizem que uma das escravas de algum geito, não sei qual, conseguiu um pouco de veneno e despejou no vinho dele — contou Allonso, movia suas mãos cheias de calos para cima e para baixo, como sempre fazia ao contar uma história. — Ela já deve tá morta uma hora dessas.

— Ele bebeu? — ela estava curiosa, as notícias raramente chegavam naquele fim de mundo e, quando chegavam, vinham pela metade. Ela gostava de contar sua vida e de ouvir sobre a vida dos outros, principalmente as vidas desgraçadas.

— Por pouco. Sua filha mais nova, deve ter uns nove, dez anos, surrupiou a taça do pai pra tomar um gole e morreu na hora — Allonso não pôde deixar de imaginar a menina morrendo envenenada e estrebuchando no chão, seus olhos saltando para fora e o sangue jorrando pela boca, pelo menos fora o que ocorrera com os poucos homens que ele já vira morrer por veneno. — O Donatário está desacreditado pelo que me...

— Por favor — interrompeu Aalis. — Desacreditado? O homem pode tá triste pela filha, pode tá com raiva, pode desejar todo tipo de vingança e dor para a escrava, mas só um idiota teria dificuldades de acreditar que uma cativa tentou matar seu captor. Se alguma dessas aqui sequer tentar matar a mim ou à minhas filhas, sequer tentar, vou esfolá-las vivas, arrancar um de seus olhos e a fazer me ver comendo ele com o outro, porém vou entender seus motivos e sei que faria o mesmo em sua situação.

Um longo tempo se passou, ele olhando para baixo e sentindo os olhos das bruxas mais novas postos sobre seu corpo e a mãe com um sorriso largo e horrível em seus lábios.

— Então a gente terminou por aqui? — perguntou Allonso, por fim.

— Acho que sim — falou Aalis.

— Até a próxima — disse ele mais uma vez.

— Até — respondeu ela.

Com medo de não segurar a janta passada no estômago Allonso saiu sem respirar, mas, assim que se distanciou do odor quase visível, fungou até seu peito dobrar de tamanho, deixou o cheiro de sal que vinha do mar limpar suas narinas o máximo que era possível.

Um caranguejo bege andava de lado, se meteu em um buraco na beira e desapareceu.

"Fede a merda, mijo e sangue, a casa dessa mulher", essa era a frase que mais vinha em sua cabeça durante toda a conversação. "Fede a merda, mijo, sangue e morte."

Viu seu navio negro. Quando adentrou nele os vidrinhos foram entregues a Lancel.

— Para onde vamos, capitão? — perguntou o velho.

— Onde podemos vender isto por mais? Boa Madrugada ou Perfeição de Donzelas.

— Depende de pra que servem?

— Remédio.

— Perfeição de Donzelas é o melhor lugar para se vender remédios, creio eu.

— Então vamos pra lá. Soube também que é o melhor lugar pra se trepar com putas.

Não ouve reclamações da parte de Lancel, nem olhares irritados. Sabia seu lugar e sabia que estava errado ao falar daquela forma com a Mãe das Bruxas, com uma compradora é necessário ter tato, engolir certos sapos.

O barco partiu. A próxima parada era Perfeição de Donzelas, um porto ao sul de Rohesia, no estado de Mato Branco.

Velejaram com as ondas batendo nos cascos e o mar tocando o céu, ambos formando a linha do horizonte. Era meio dia, ou quase isso, pela posição em que o sol se encontrava.

"Vai ser meio-dia quando chegarmos também, mas o meio-dia de daqui dez dias."