Crônicas da Estante

A Caravana da Esperança


Prólogo

Olá, você... seja quem for que estiver lendo isto.

Escrevi este texto num pequeno pedaço de papel usando uma lasca minúscula de grafite, a caligrafia legível apenas aos seus olhos diminutos. Caso um humano um dia encontre isto, nada compreenderá, a não ser que utilize um microscópio – coisa improvável, visto que os humanos com acesso a microscópios geralmente são céticos demais para suspeitar realmente haver algo redigido, numa escrita em miniatura, em folhinhas como esta.

Deixei aqui este relato – talvez mais um guia – para você, confuso e atordoado, que por algum motivo não conseguiu interagir com outro de nós desde seu nascimento numa fábrica mecanizada ou pelas mãos de um artesão, e chegou a uma loja, casa, escola ou outro espaço sem ter noção ao certo de quem, ou o que, você é. A angústia deve lhe bater, um sentimento mais que natural num mundo em que todos são gigantescos, caminhando ao seu redor feito titãs e manuseando-o como bem entenderem. Deve se sentir inferior, frágil, sem identidade. Pois bem... na verdade esta última existe. Deixe-me explicitá-la:

Você é um brinquedo.

Não importa sua marca, formato, material, ou se é baseado ou não em algo ou alguém existente na realidade que o cerca – em escala, claro, bem menor. Somos todos brinquedos; e, a esses gigantes que nos cercam chamados seres humanos, nossa função sendo entretê-los. Fazer com que se sintam deuses através de sua imaginação, manuseando-nos assim como a divindade, qualquer que tenha sido, que os criou. Um “complexo de manda-chuva” reproduzido em gradativos níveis, como um soldadinho de plástico amigo meu bem apelidou. Caso esteja ou tenha passado por uma loja de brinquedos, deve ter percebido que isso é natural até a nós mesmos, existindo uma hierarquia em nosso meio. Os brinquedos maiores mandam nos menores, os de lojas chiques nos de lojas “1,99”. Mas isso é algo para ser melhor detalhado em outro momento.

Meu propósito com este guia é dar uma luz a brinquedos recém-introduzidos ao mundo dos humanos, já que em alguns casos eles podem acabar pirando – e essa pode ser a sua situação.

Entenda, brinquedos disfuncionais causam problemas não apenas aos humanos, mas igualmente aos outros brinquedos que os rodeiam – por esse exato motivo podendo ser alvos de hostilidade. Para que isso não aconteça, há muito tempo nós brinquedos seguimos nossa conduta de acordo com as Três Leis de Beck. Caso você não tenha tido acesso a aulas de História dos Brinquedos (não o culpo se for o caso, elas estão cada vez mais raras – quase limitadas apenas a kits de bonecas com o tema “escolinha” ou coisa do tipo), o nome vem de Hans Beck, criador dos bonecos Playmobil. Nossas três leis receberam essa denominação apenas como referência a um criador de brinquedos famoso, não que ele realmente as tenha criado – de modo similar a como na ficção científica existem as Três Leis da Robótica que passaram a ser chamadas de “Leis de Asimov”. Todavia, se você desconhece quem foi Hans Beck, duvido que saiba a quem me refiro quando falo de Isaac Asimov...

É preciso que decore cada um desses princípios e os siga à risca. Sua sobrevivência no mundo humano depende delas – ou, ao menos, uma convivência pacífica tanto com os gigantes quanto com nossos semelhantes:

1 — Nunca se movimentar, falar ou agir como um humano na presença de um humano.

Os seres humanos não sabem que temos consciência – ou então preferem ignorar tal fato, coisa que fazem muito bem. Sentimos alegria, tristeza, prazer, dor, euforia e desânimo assim como eles – só não tendo um corpo do mesmo tamanho ou mesmo material. Aí você pode se perguntar: “Por que não dizer isso a eles?”. Para tentar fazer com que imagine as consequências disso, darei um exemplo que realmente ocorreu.

Há alguns anos, um homem vivendo no interior do México passou a atrair milhares de visitantes à sua casa. Motivo: ele alegou ter capturado uma fada de verdade, prendendo-a dentro de um frasco. Logo os curiosos que assomaram à residência desse senhor perceberam se tratar na verdade da diminuta miniatura de uma bailarina que antes enfeitava uma caixinha de música, e o caso se tornou piada na Internet. Acontece que esse homem não era louco, nem tentava simplesmente enganar pessoas ingênuas. Alguém na plateia conseguiria me responder por que ele insistia que a pequena figurazinha era uma fada?

Bingo! Ele a viu se mexer.

Essa história mostra bem que os humanos piram quando nos veem nos mexendo, falando ou imitando seus comportamentos. Eles não estão prontos para isso, talvez jamais estejam; e é exatamente esse o motivo de termos de manter discrição. Só podemos efetuar tais ações quando não há humanos presentes – a casa estando vazia ou a loja fechada, por exemplo; ou então quando os humanos estiverem dormindo, embora seja um bocado mais arriscado. Após tais ações, deve-se tomar o cuidado igualmente de apagar seus rastros: voltar às últimas posições em que os adultos nos deixaram e reverter qualquer mudança no ambiente que tenhamos provocado.

Trata-se de um fardo duro a um brinquedo, porém estritamente necessário para a manutenção de nossa sociedade – que entraria em colapso se investigada pelos humanos em busca da verdade. Quando uso o termo “fardo”, não estou exagerando. Nem todos nós temos o privilégio de pertencer à prateleira de um colecionador adulto, que nos trata bem e cede inúmeras liberdades, ainda que de modo inconsciente. A vasta maioria de nós é remetida a crianças; e, quanto mais jovens, menos cuidado elas possuem conosco. Somos derrubados, riscados, sujos de terra, molhados, atirados longe e partidos em pedaços sem poder manifestar um “ai” – mantendo-nos rijos e imóveis. Mesmo com a sorte de encontrar uma criança cuidadosa, sempre há aquele primo ou amiguinho remelento que não nos enxerga com a mesma compaixão.

Claro, há exceções. Vez ou outra, contanto que não se torne hábito, podemos nos mexer ou falar diante dessas mesmas crianças, já que nenhum adulto lhes dará crédito caso jurem que seu brinquedo favorito interagiu com elas; e, na verdade, nem mesmo essas exatas crianças acreditarão em si mesmas depois que crescerem. Outro ponto a abordar é que brinquedos já agiram fora de sua imobilidade habitual diante de adultos, por acidente, e houve bons desdobramentos – como quando um boneco quebra-nozes se mexeu diante do escritor alemão Ernst Hoffman, lá no século XIX, inspirando-o a escrever o conto que mais tarde originou o famoso balé de Tchaikovsky.

Tudo é uma questão de precaução e julgamento. O mundo pode se tornar rapidamente perigoso para nós, é preciso que entenda.

2 — Você é um brinquedo representando algo ou alguém, não é esse algo ou alguém de verdade.

Deixe-me contar uma história um tanto trágica. Um garoto ganhou de Natal um boneco do Superman, baseado no último filme dele que tinha saído – fabricado pela Hasbro ou Mattel, não me lembro. A criança nem brincou muito com o presente, já que preferia o Batman; só que o raio do boneco tinha na cabeça, desde dentro da caixa, a ideia de que era realmente o Superman.

Ele foi alvo de chacota entre os outros brinquedos do quarto, e para provar que falava a verdade saltou de cima do armário garantindo ser capaz de voar. Caiu de peito no chão, ficando todo desengonçado e com as articulações avariadas – mas ainda inteiro. O garoto achou que a empregada o tinha derrubado do alto do armário ao limpar o quarto e o colocou lá de novo. Mesmo com os apelos dos demais brinquedos, agora temendo pelo colega, o incansável Superman tentou voar novamente... e dessa vez despencou pela janela. O menino morava num condomínio, seu apartamento localizado no décimo segundo andar. Não ligou muito para o brinquedo desaparecido, no fim, mas por meses as crianças do prédio ficaram encontrando peças desmembradas do boneco suicida pela garagem, enquanto brincavam.

Moral da história: você pode ter sido moldado de acordo com a aparência de um super-herói, um guerreiro de anime, a patricinha do bairro rico, um animal da selva, um carro de corrida ou até um avião de combate – mas não é um de verdade. Você não tem superpoderes, conta de banco no exterior para comprar uma Ferrari rosa, motor a gasolina e, se for um ursinho de pelúcia, não será recebido de braços abertos por seus colegas maiores na natureza. Nem mesmo as crianças nos enxergam como as versões verdadeiras daquilo em que fomos baseados, por isso mantenha a cabeça no lugar. Confundir realidade e ficção pode te trazer muitos problemas.

3 — O Demiurgo nos deu alma, e um dia todos nós nos encontraremos com ele.

Ninguém sabe explicar ao certo quem ou o que é o “Demiurgo”, nem mesmo nós brinquedos. A explicação mais comum afirma tratar-se de um “Grande Artesão” responsável por guiar as mãos dos artesãos humanos, e até mesmo os componentes de suas máquinas, quando são fabricados brinquedos – assim nos dotando de alma. É graças a Ele que possuímos consciência e controle de nossos corpos como os humanos, o que faz do Demiurgo uma espécie de Deus para os brinquedos.

A crença comum também instituiu que todo brinquedo encontrará o Demiurgo quando morrer. Não pense que morremos como os humanos, ao sermos despedaçados, pisoteados ou seja lá o que for. Nós, brinquedos, morremos quando abandonados.

Ou você acha que o Superman do qual falei agora há pouco morreu na queda ou por ter sido ignorado por seu dono depois disso?

Se passamos muito tempo sem sermos alvo de carinho e afeto por parte de um humano, perdemos nossa alma – tornando-nos verdadeiramente objetos inanimados, como os gigantes pensam que somos o tempo todo. Humanos caridosos, como que compreendendo a única coisa que nos é letal, fazem a bondade de nos doar a escolas e creches quando aquele menino ou menina cresce e passa a nos ignorar, por exemplo... Porém nem todos têm essa sorte.

Por nossa existência depender tanto assim da atenção humana, diversos mitos surgiram tentando dar crédito a uma autonomia dos brinquedos, envolvendo o próprio Demiurgo. Um deles, famoso há séculos, trata de uma esperança a todos nós de conseguirmos sobreviver sem termos de manter o vínculo com os humanos... mas somente poderei explicá-lo bem se contar uma história que o envolve.

Já aviso ser uma narrativa longa – e neste momento sinto-me aliviado por ainda ter vários pedaços de papel à disposição (estou picando uma folha de caderno humana, na verdade, então poderia abrir minha própria papelaria) e mais alguns pedaços de grafite bons. Um amigo meu os surrupiou dos vãos do assoalho de uma escola. É incrível como essa criançada perde grafite, assim como clipes... porém isso também é assunto para outra hora.

Sem mais delongas, vamos à tal história relacionada ao mito...

CONTINUA...

Notas finais
- Esta é uma história que pretendo continuar sem muito compromisso, de acordo com a vontade dos leitores. Portanto, caso tenham gostado da proposta e da prévia desse rico universo dos brinquedos que esse prólogo mostrou, não deixem de comentar. - Minha grande inspiração para este projeto tem sido minha coleção de action figures, um hobby que descobri recentemente. Pena ser tão caro, o que impede a aquisição delas em larga escala. - Enquanto escrevia, minha figure Rin Tohsaka (Fate/Stay Night) da Revoltech caiu em cima da minha cômoda, empurrando a Saber (Fate/Stay Night) e o Rick Grimmes (The Walking Dead) para fora da estante, além de derrubar a Michonne e seus dois zumbis (The Walking Dead) que também estavam próximos. Acho que os bonecos ficaram empolgados quando me perceberam escrevendo sobre o mundo deles (minha mesa do notebook fica ao lado da cômoda onde coloco as figures), e a Rin resolveu trollar os amigos...