Crônicas da Dimensão Média

1 Capítulo 1 A primeira viagem, a última chegada


"O tempo ri para todas as coisas, mas as pirâmides riem do tempo".

Crônicas da Dimensão Média

Capítulo 1

A primeira viagem, a última chegada

Passava da meia noite,e pesadas gotas da tempestade que caia faziam ruídos confortantes contra as paredes de concreto velho, no quarto pouco iluminado pelos raios que caiam ao longe um garoto dormia debaixo das cobertas. Seu nome é Liam, tem 18 anos , cabelos pretos até os olhos e estatura média. Um trovão mais escandaloso que o normal o acorda por um instante, no momento seguinte o quarto é iluminado e ele pode ver suas roupas penduradas ao canto, e seus armários de miniaturas de aviões espalhados .Liam era fanático por aviação desde pequeno, quando seu avô lhe dera uma miniatura ele continuou com a coleção, coisa da qual se gabava para seus amigos mais íntimos da escola. Mais um trovão e o garoto se incomoda, se senta na cama e encara as cortinas que voavam do outro lado do quarto, por um instante pensou em ir até lá e fechá-las, mas acabou deitando novamente na cama e encarando o local, há pouco menos de 15 minutos ele completara 18 anos, e agora poderia fazer tudo que fora impedido por ser menor de idade, poderia dirigir, sair sem avisar e sem ter hora pra chegar... ser preso! Liam encara o teto de seu quarto, onde colara adesivos em formatos de estrelas que brilhavam no escuro, parecia que tudo estava em ordem, quando o lugar foi iluminado por uma rajada de luz vinda de fora, mais um raio ofuscante, o menino desce o olhar e encara seu quarto mais uma vez, porem desta vez tem um susto ao ver que havia alguém sentado na janela entre as cortinas.

Seu coração dispara, o quarto se escurece novamente, o garoto fecha os olhos imaginando ser algo de sua cabeça, abre seus olhos e fita o lugar novamente, que estava um pouco iluminado pela luz que vinha de fora. Um trovão fortíssimo gritava lá fora, e ele arregalou os olhos ao reparar que ainda havia alguém sentado lá, ele pensa por segundos em alguma reação, mas antes que pudesse fazer algo uma voz forte e determinada já o fizera:

- Não grite.- diz a voz que soou estranhamente como uma ordem, definitivamente era uma mulher.

- Quem é você?- pergunta Liam se sentando na cama e tentando não parecer assustado.

- Meu nome é Milla, e isso é tudo que você precisa saber agora.- disse ela destemida.- Quero que você responda uma pergunta, seja direto e sincero, e que não faça mais perguntas até que eu peça. Liam tentava enxergar o rosto dela, talvez fosse alguém que ele conhecesse lhe pregando uma peça.

- Porque eu faria isso?- pergunta ele desconfiado.

- Você fará ou não?- pergunta ela calmamente.

- Claro, manda.- diz ele que achava aquilo interessante, já não estava mais assustado.

- Se você soubesse do maior segredo que alguém já pode saber, e não pudesse contar a ninguém, você conseguiria guardá-lo?- pergunta ela enquanto a chuva continuava a bater contra as paredes.

- Sim.- diz ele estranhando o rumo daquela conversa maluca com uma estranha no meio da madrugada.

- Mesmo que esse segredo colocasse você em risco?

- Se o segredo valesse a pena ser guardado sim.- diz ele confuso.

- Meu parabéns Liam.- diz a voz que agora parecia doce, ela tira algo da jaqueta preta que vestia e joga para o garoto que tem dificuldade em pegar devido ao quarto ainda escuro, mesmo que seus olhos já se acostumassem a pouca luminosidade.- Só abra quando eu tiver ido embora por favor.

- Espere!- diz ele mais alto do que pretendia.- Quem é você? Como sabe meu nome?

- Se você for um cara esperto saberá de tudo isso em breve.- diz ela em tom calmo e firme.- Eu preciso ir, e você precisa abrir seu presente.

- Mas...

- Não seja impaciente.- diz ela subindo na janela novamente.

- Você vai embora nessa chuva? –pergunta ele estranhando o que ele mesmo acabara de dizer, pois nem sabia como ela tinha invadido sua casa e subido até sua janela, que era no segundo andar.

- Não se preocupe comigo. –diz Milla iluminada pela luz que vinha pela janela, notava- se que era uma linda garota de mais ou menos uns 20 anos e tinha cabelos louros até os ombros, não dava pra ver a cor de seus olhos, mas que os mesmos eram intensos e sedutores.- E troque a pilha do seu relógio de parede, ele está 13 segundos e 48 milésimos atrasado, e você não quer perder tanto tempo não é?- ela sorria enquanto o vento fazia seus cabelos esvoaçarem no topo da janela.

- Ok.- diz Liam muito surpreso.

- Nos veremos de novo. – diz ela descendo pelo telhado e desaparecendo em seguida, Liam corre até as janelas e olha para fora, nem sinal da garota no quintal ou na rua adiante que mau se via, ele estava chocado com o acontecido, mas estava tão curioso em abrir seu presente que se esqueceu completamente e se sentou em sua escrivaninha acendendo um abajur próximo.

O embrulho estava perfeitamente colado com um rótulo onde se lia “ O tempo é seu maior tesouro”, logo abaixo havia uma ilustração de um coelho preto, Liam o retira com cuidado e encontra uma caixa verde desbotada com um brasão desenhado na tampa, lá havia um símbolo em formato de ampulheta e uma inscrição logo em cima em algum tipo de língua ou símbolos que ele não entendera, o garoto abre a caixa e encontra duas pilhas com aparência velha de cor azul e um pequeno bilhete logo embaixo.O garoto ri.

- Inacreditável!- diz ele pegando o pedaço de papel: “Troque as pilhas do seu relógio”. O garoto acende as luzes de seu quarto e em seguida pega uma cadeira próxima para alcançar o relógio no topo da parede.- Não acredito que estou fazendo isso... – diz ele sorrindo enquanto trocava as pilhas pelas novas.- Pronto diz ele se sentando na cama e encarando o relógio como se ele fosse lhe dar respostas.

Liam se sentia decepcionado, mesmo que não soubesse o que esperava que acontecesse, ele se levanta fecha as janelas e se dirige para a cama novamente, quando o relógio solta um estalo baixo.O garoto rapidamente o encara surpreso e excitado, os ponteiro do mesmo começam a girar descontroladamente, até que param e nada é ouvido no quarto.

- Uau.- diz ele de olhos arregalados notando o ponteiro dos segundos agora com seu tempo ajustado.- Belo truque!!

Diana Lauren! – diz um homem de terno seguido por aplausos no grande salão que se encontrava. Do outro lado se levanta de uma das inúmeras mesas uma jovem garota vestindo roupas de gala, ela tinha cabelos vermelhos como fogo, olhos azuis marcantes e andava solenemente até o palco.- Meus parabéns minha jovem!- diz o homem lhe entregando algo que parecia com um troféu dourado, onde se lia “ Cientista Memorável”.

- Obrigado a todos.- diz ela se virando ao público enquanto todos a encaravam em silencio.- É um prazer compartilhar com todos, inclusive com a minha família mais esse prêmio, devo dizer que um ano atrás quando comecei a escrever minha tese eu não acreditava chegar tão longe...

Enquanto a garota fazia seu discurso uma jovem mulher observava a um canto, ela tinha os cabelos louros presos para trás e mantinha seus olhos pretos em Diana, que enfim terminara seu discurso e descia as escadas até sua mesa, onde se encontravam sua família.

- Sabia que seria você!- diz sua mãe que era incrivelmente parecida com ela.

-Vejo que a quantidade de dinheiro investida nos seus estudos não foi um disperdício! –diz seu pai ao lado.

- Não é hora de falar de dinheiro!- diz a mulher novamente.- Imagine o status que ela ganhará sendo tão genial!!

-Preciso de ar, vou dar uma volta.- diz Diana saindo ignorando a discussão e passando pelas portas de madeira nobre do saguão, lá fora a garota loura a aguardava na sacada.- Vai me dar os parabéns também?

- Não é mérito seu.- diz Milla séria.

- Não estou fazendo nada de errado.- diz Diana sorrindo.- Estou apenas mostrando a verdade para eles.

- Não é necessário que saibam, provavelmente nunca poderão comprovar...

- Eu lutarei pra que possam. — insiste ela. — A Teoria de Multiuniversos será comprovada um dia, e você pode me ajudar nisso...

- Não é por isso que estou aqui.- diz Milla olhando se não havia ninguém as observando.- Eu contatei Liam .

- Eu notei o coelho... –diz Diana.- Eles virão atrás de você.

- Eu sei.

- Devo fazer algo pra te ajudar? – pergunta Diana olhando ao relógio.

- Por enquanto não, mas fique atenta, pode acontecer a qualquer momento.

- Ok, posso voltar pra minha festa?

- Claro, aproveite enquanto pode, os tempos ficarão difíceis agora. — diz Milla começando a caminhar. — Eu estarei lá no horário combinado, não se atrase.

- Até. — encerra Diana seguindo até os jardins onde havia um homem bem vestido segurando uma coleira com esforço para manter um cachorro que agora parecia extremamente excitado ao ver Diana.

- Olá Hércules!- exclama Diana abraçando o cão que era muito preto.

- Seus pais não gostarão nada de saber que ele está aqui!- diz o homem que era motorista da família.

- Eles não saberão.- diz a garota que demonstrava muito amor pelo animal.- Você pode me levar pra casa?

- Preciso ver com...

- Meus pais?- pergunta ela sorrindo. — Eles nem notarão, a festa é mais importante para eles, por motivos diferentes, mas o que eles querem está lá dentro, me leve pra casa, vamos Hércules?

Ambos, a garota e o cão seguem até o carro, lá dentro Diana encarava o céu agora muito nublado após a chuva.

Milla caminhava pela rua logo em frente ao salão de festas onde encontrara Diana, a chuva voltara a castigar a cidade, porém trazia um ar sereno para a mesma, ela segurava um grande guarda chuva preto com ponteiros vermelhos desenhados em cima, como num relógio. Caminha até uma praça onde se via ao longe um velho casarão, mais alguns passos e ela o encarava sozinha, já era tarde da noite e os poucos carros que passavam em alta velocidade na avenida logo atrás mal podiam enxergá-la ali, parada como se esperasse algo... Milla se vira novamente para a rua e olha em seu relógio, em seguida se senta num banco de aspecto antigo logo ao lado do casarão, nesse momento dois homens vestindo preto se aproximavam lentamente, eles a encaravam como se esperassem que ela corresse a qualquer momento.

- Sempre pontuais... –diz Milla sorrindo, os homens que pareciam gêmeos de tão sincronizados em seus passos, tiram algo de suas cinturas que notava-se ser algum tipo de arma pontuda, como uma espada.- E sempre ameaçadores.- diz ela se levantando , atirando o guarda chuva para o lado e retirando o vestido que vestia, Milla usava uma roupa aparentemente de couro preto por baixo, com fios metálicos revestindo seus braços e pernas.

Um dos homens avança com a espada contra ela, que salta sobre o banco e lhe acerta um pontapé no rosto, o mesmo recua fazendo um sinal para que o outro o ajudasse.Milla sorri.

- Fracos como da última vez...- debocha ela.- Vou lhes mostrar como tratar uma garota.- diz saltando para trás do banco quando os dois avançam sobre ela, cada gota que caia contra eles agora gerava esguichos de água na grama molhada, os homens estocavam com uma rapidez impressionante enquanto Milla apenas se esquivava acompanhando seus movimentos, no momento em que as espadas tocavam no revestimento metálico da roupa dela faíscas voavam e se misturavam com a chuva numa cena extasiante. A garota se abaixa enquanto se desviava de outro golpe e aplica uma rasteira num dos homens que cai com impacto no chão, o outro tenta aproveitar-se da situação e avança sobre Milla com a espada, que apenas rola pela grama e salta acertando um chute em seu rosto. Os dois se levantam e atacam juntos, Milla pula girando sobre um deles, coloca suas pernas em volta do pescoço do homem no ar e os ambos caem em seguida, a garota pega a espada e crava no peito do homem imobilizado sobre suas pernas, ele para de se mover repentinamente e ela se levanta.- Sua vez.- diz erguendo a espada para o outro que avança como se nada tivesse acontecido, ela estoca com a espada que é defendida por ele com esforço, a chuva piorava e os raios caiam ao longe deixando seus trovões mostrarem sua imponência, os dois lutavam fortemente mas Milla não demonstrava sinal de cansaço, parecia até se divertir, quando o homem gira a espada sobre ela que se esquiva de ultima hora e quase é atingida.- Essa foi por pouco!- diz ela se afastando enquanto dava as costas para ele, o homem pensa por um instante e corre para atacá-la, porém ela já havia calculado seu movimento e com um movimento absurdamente rápido se volta para o atacante imprudente e arremessa a espada que atravessa o peito do homem que cai na grama assim como o outro. – Tenham uma boa noite. — diz ela soltando a espada junto ao moribundo, pegando seu vestido e seu guarda chuva e seguindo até a porta de madeira velha do casarão onde aperta um interfone junto a porta.- Coelho preto.- diz Milla, e com um estalo metálico a porta se abre.

Liam estava sentado em frente á seu computador sobre sua escrivaninha iluminada pelos raios de sol que passavam pelas janelas, o vento fazia com que as cortinas voassem pelo quarto num movimento fantasmagórico, o garoto olha ao relógio de pulso e coça a cabeça por um instante. Na tela há imagens de mapas e países, resultado de seu trabalho de geografia que mau começara. O garoto se cansa, se levanta e segue até sua cama logo em frente ás janelas, se deita ,o dia parecia lindo lá fora, ouvia-se os pássaros cantarem nas árvores próximas, ouvia-se o vento batendo nas telhas velhas dos vizinhos e ouvia-se um som ensurdecedor duas quadras á frente, como se algo tão pesado quando um estádio de futebol tivesse caído no quintal de alguém...

Gritos podiam ser ouvidos logo após o som destruidor, Liam corre até sua janela, mas de lá não conseguia ver nada, o garoto coloca seu tênis próximo á cama e sai pelas portas do seu quarto procurando seus pais, mas a casa parecia abandonada agora, sem pensar muito ele segue para fora onde dezenas de pessoas olhavam curiosas para o céu, alguns gritavam de desespero, outros pareciam extremamente impressionados, e não era pra pouco...

Há algumas quadras dali se encontrava um objeto metálico com vários quilômetros de tamanho, tinha a altura de um prédio de talvez sete andares, aparência envelhecida e escrituras estranhíssimas por todo seu comprimento, que lembrava um cano de esgoto, Liam continha sua surpresa, era simplesmente inacreditável que aquilo estivesse ali, mas a admiração foi logo interrompida por um sentimento de medo imediato quando o objeto começa a emitir um som que foi se acelerando e como um ventilador, cada vez mais veloz e próximo, entre os curiosos o que sobrava era o pânico de todos que começavam a se afastar.

Nesse mesmo instante quando parecia que o som levava á uma explosão tudo ficou em silencio, e apenas uma luz vermelha era visível no topo do objeto, que começa a girar lentamente sobre as casas , carros e prédios que destruiu, e assim cada vez mais rápido e violentamente. Liam se afasta como os outros, porém era tarde demais, o objeto girava tão rápido que destruía tudo a sua frente, o garoto agora corria de tão apavorado, quando passava próximo á uma loja de TVs, onde todos os noticiários alertavam para a invasão de algo que os cientistas não tinham nem pista de saber do que se tratava e de que havia objetos como aquele pelo mundo todo. Logo á frente ele podia ver no céu dezenas de objetos como aquele caindo como se fossem preencher toda a terra , a cena era tão apavorante que pessoas paravam e sentavam ao chão desesperadas por não terem pra onde ir, Liam se sentia encurralado, pensava em voltar e ficar em casa, pensava nos seus pais, até que vê uma mulher de roupas pretas caminhando sem pressa entre todos , era Milla.

- Venha comigo imediatamente.- diz ela séria.

- Pra onde?- pergunta ele bruscamente.

- Um lugar seguro, rápido!- diz ela em tom de ordem se aproximando e evitando que os outros ouvissem.

Liam a segue sem questionar, mesmo que não tivesse esperanças de que realmente houvesse um lugar seguro, porém ele não tinha outra opção, Milla o conduz para o estacionamento de um prédio, pelo caminho pessoas passavam em disparada com carros ou correndo sem rumo.

- Tem certeza que isso nos salvará?- pergunta Liam depois de uns quinze minutos, Milla não responde e para diante de um elevador, e logo ao lado uma tampa de metal no chão lacrada por grandes parafusos, a garota logo se apressa e tira de seu casaco algo parecido com uma faca, que usa para retirar a tampa.- Vamos para o esgoto?

- Sim, entre.- diz ela pulando para dentro do buraco, Liam desce logo em seguida receoso, o lugar era pequeno demais para ele, que teve que se abaixar para poder caminhar, estava tudo muito sujo, porém ele não podia duvidar que a idéia de Milla era coerente.- Isso nos levará até o centro, onde teremos que seguir para as ruas novamente, tem uma moto nos esperando do lado de fora , quero que você corra o mais rápido que puder e suba nela, não temos muito tempo.- resume ela.

- Não é arriscado?- pergunta ele, mas nesse momento seus pensamentos foram interrompidos por uma imagem impressionante, logo a frente havia uma espécie de estação subterrânea de esgoto, vários canos passavam para todos os lados, e o lugar era bem maior que o percorrido, ali centenas de pessoas se espalhavam sentadas ou espiando pelos ralos o terror que havia acima.- O que tanta gente está fazendo aqui?

- Eles estão tentando se proteger, mas é inútil, tudo isso estava inundado em alguns minutos, o canal de contenção será destruído em muito breve.- explica Milla enquanto passava rapidamente por famílias assustadas que a encaravam com expressões tristes .

- E porque você não diz á elas?

- Não há pra onde ir, elas tem a opção de morrer lá em cima ou morrer aqui.- finaliza Milla friamente , agora eles já estavam sozinhos nos canos pequenos novamente, Liam para.- Você está nos atrasando!

- O que está acontecendo?- pergunta ele ainda parado.

- Eu te conto enquanto caminhamos, agora VAMOS!- diz a garota que ficara vermelha de raiva, Liam volta a caminhas com demasiada pressa agora.- Seu mundo será destruído em questão de horas, vocês não tem a menos chance e não há nada que vocês possam fazer...

- Meu mundo?

- Eu não sou daqui. – diz ela impaciente.

- Como assim?- Liam ficara ofegante de tantas perguntas que surgiram na cabeça dele, misturadas com seus temores sobre todos que ele conhecia.

- É uma longa história, resumidamente alguém está prestes a destruir esse mundo, e eu tenho a missão de te resgatar antes que você morra.- ela diz isso e para diante do fim do túnel, ali havia uma escada de ferro que subia até outra tampa de metal.

- Mas como assim? Não podemos fazer nada? Porque você tem de me salvar?- Liam estava perdido.

- Eu prometo que te explico tudo numa outra hora, mas é que se não sairmos por aquele alçapão e corrermos até a moto nós vamos morrer.

- Eu não vou dar mais um passo sem saber tudo sobre o que está acontec... – nesse momento uma onda de água suja bate nos joelhos de Liam.- Mas o que...

- Está tudo inundado, nós precisamos subir agora!!

- Eu não posso, e sobre as pessoas que eu amo?!- pergunta ele agora desesperado com a água já na sua cintura.

- Estão a salvo, só falta você!- exclama Milla subindo nas escadas e erguendo as mãos para ele.- Pegue minha mão agora!

- Espero que seja verdade. – diz ele subindo atrás dela que empurra o circulo de metal com uma facilidade incrível.

- Você correrá sem olhar ao redor e subirá na moto assim que eu subir, corra!- enquanto ela diz isso correndo pelas ruas Liam sai do túnel e olha ao redor, há dois quarteirões dali ele só podia ver a imagem do terror, tudo tinha sido esmagado e destruído, carros , casas, prédios,ruas, pelo chão pedaços de vidas perdidas , ali o asfalto destruído estava pintado com sangue, isso o impressionou de tal forma que ele parou e se sentiu enjoado. – O que você está fazendo?!- pergunta Milla que voltava e agarrava o garoto pelo braço. – Temos que ir agora!

Logo no céu ele podia ver mais um objeto daqueles que parecia flutuar entre as nuvens do dia ensolarado, por um instante lhe pareceu interessante como o objeto não refletia a luz do sol, que se aquela imagem não fosse tão assustadora seria bela de uma forma fascinante, lhe ocorreu que Milla mentira para ele sobre seus pais, que não havia jeito de eles estarem a salvo, ninguém estaria, todos iriam morrer agora da forma mais estranha e poética do mundo, servindo de tinta para pintores desconhecidos. Milla o arrastava para a moto.

- Suba!- diz ela apressada subindo e ligando-a com uma chave que tirou de uma corrente no pescoço.

- Você mentiu pra mim. – diz Liam parado ao seu lado.

- Não é hora pra isso, apenas suba na maldita moto!- diz ela com raiva, Liam se afasta alguns passos dela. – Ok, eu menti, estão todos mortos há uma hora dessas, mas não há nada que você possa fazer a não ser se salvar agora!

- Porque eu? Porque não posso morrer com a minha família?

- É isso que você quer? – pergunta Milla descendo da moto e a desligando enquanto outro estrondo acontecia ao longe.

- O que você está fazendo, apenas vá embora e salvo você mesma. – diz ele se sentando no chão desesperançoso.

- Então morreremos os dois, e você levará com você a culpa por essa.

Liam encarava Milla nos olhos, agora ela parecia bem mais humana do que quando a viu pela primeira vez, ela estava machucada na sobrancelha direita, e tinha os cabelos bagunçados e sujos.

- Porque você tem que me salvar?- pergunta ele. – A ponto de perder sua vida?

- Porque você salvará esse mundo.- diz ela segura.

- Você mesma disse que é o fim!- diz ele subindo a voz.

- O tempo nunca tem fim, e você pode usá-lo a seu favor se souber. – diz ela.- Se confiar em mim, você terá a chance de salvar todas essas vidas destruídas, mas não darei mais explicações por agora.- Milla liga a moto novamente enquanto sobe nela.

Liam se levanta olhando a sua volta, os gritos ainda eram ouvidos no horizonte, a fumaça de toda a destruição manchava o céu como uma pintura borrada, ainda se viam objetos caindo do céu, ele sobe na moto e agarra Milla na cintura.

- Você tem que entender que isso tudo é muito louco pra mim.- diz ele enquanto arrancavam pelas ruas estreitas.

- Você se acostuma... – diz ela sem sorrir. – Ou falhará.

Milla acelerava o máximo que podia, mas a destruição pelo caminho impedia qualquer chance de escapar rapidamente, por uma ou duas vezes ambos quase foram atingidos por explosões ou pedaços das casas que voavam a cada queda de mais gigantescos objetos.

- Pra onde estamos indo? Existe um lugar seguro? – gritava Liam.

- Temos que ir pra biblioteca, de lá iremos pro lugar seguro.- diz ela tentando se concentrar no caminho, mais uns quinze minutos e estavam diante da grama úmida em frente á casa velha e cinza, ali o estrago era pouco, mas notava-se que não demoraria muito para começar, pois no céu havia um dos objetos girando no ar, aguardando o momento certo de causar sua destruição.

Assim que descem da moto Liam já se adianta enquanto passavam pelas portas velhas da mansão onde se localizava a biblioteca, lá dentro haviam fileiras bem organizadas de prateleiras com livros até o teto, tudo estava muito limpo e no ar podia-se sentir cheiro de flores, era contrastante com o caos total a que acabaram de presenciar.

- Sr Luck, não temos muito tempo!- diz Milla procurando por alguém.

- Não tenha pressa minha criança.- diz um velho que saia de trás de uma das prateleiras com um livro em mãos.- Tudo tem seu tempo.

- Você não está entendendo o que está havendo lá fora?!- pergunta Milla expressando um certo desespero pela primeira vez na frente de Liam.

- Claro que sei, mas também sei que você é competente o bastante para cumprir sua missão!- diz o velho entregando o livro para ela, ainda bem impaciente.- Você deve ser Liam, é um prazer!

- O prazer é meu...- começa o garoto, mas logo é interrompido por uma garota de cabelos vermelhos como fogo que adentrava o lugar com uma mala em mãos.

- Não é hora para apresentações, temos segundos até sermos atingidos.- diz ela .

- Você demorou.-diz Milla á Diana que finge não ouvir enquanto procurava algo em sua mala.

- Então pra onde vamos? –pergunta ela .

- Quem é essa? –cochicha Liam.

- Meu nome é Diana, mas acho que tem coisas mais importante que o meu nome, como por exemplo qual o local seguro afinal?

- Local seguro?-pergunta Liam ressentido.- Duvido que haja um.

- Egito.- diz Sr Luck seguindo até um grande mapa na parede.

Milla, Liam e Diana o encaram com ar repreensivo, como se ele não falasse sério.

- Chega de brincadeiras Sr.- diz Diana já nervosa.

- Não é brincadeira alguma, vocês tem que ir pro Egito, é o único lugar da terra que não será destruído.- confirma o velho agora bem sério.

- Mas isso da quase um dia de viagem de avião, é impossível chegarmos lá em segurança!- diz Diana se adiantando.

- O impossível é um limite que nós mesmos inventamos para justificar nossa falta de esperança.- diz o Sr Luck sorrindo.- Vocês devem ir de avião, você tem um jato não tem?- ele apontava para Diana.

- Sim, mas...

- Já entendi.- diz Milla.- Temos que ir até o porão.

- O que?! – exclama Liam.-Alguém poderia me explicar algo?

- Temos que pegar o jato do pai da Diana voarmos até o Egito hoje de manhã.- diz Milla.

- Mas... você pretende usar o tempo? –pergunta Diana.

- Devemos, é urgente. –diz ela .- Liam, você não entenderá absolutamente nada se eu lhe disser agora, mas resumidamente viajaremos no tempo e pegaremos um avião antes disso tudo começar...

- Nós...

- Isso, viajem no tempo, loucura né? –pergunta ela . – Não me questione mais agora, eu te contarei tudo em breve, só temos que ir ao maldito porão agora.

Com isso todos correm até os fundos da biblioteca, lá logo abaixo do sofá com estofado dourado havia um tapete, que Milla logo arranca revelando um alçapão, todos descem pelas escadas, Sr Luck acende as luzes e Liam se impressiona com o local. O lugar era grande, uma sala de uns dez metros, no chão havia tapetes marrons, que davam um ar acolhedor ao local, nas paredes pintadas de azul marinho havia centenas de relógios de todos os tamanhos, formatos e cores, todos funcionavam num tic-tac infernal.

- O que é esse lugar? – pergunta Liam tapando os ouvidos.

- É a sala do relógio. –diz o velho subindo numa escada ao lado e retirando um dos relógios da parede. – De quanto tempo você precisa?

- Preciso de um dia no mínimo.- diz Milla .

- Tenho apenas quatro horas!- diz ele.

- Serve, então usaremos o ultimo portal! — finaliza Milla determinada retirando um caderno do bolso, na capa havia um coelho preto estampado, ela escreve algo numa folha , a corta em dois pedaços e entrega para Liam e Diana confusos.- Guardem isso nos seus bolsos, vocês usarão para lembrar de mim!

- O que...?- quando Liam menos esperava a realidade se desfazia diante dos seus olhos, as paredes caiam com o peso de algo que afundava sobre eles, estava tudo acabado, um dos objetos os tinha atingido e essa história maluca acabaria ali.

Liam acorda com uma brisa quente no rosto vinda das janelas do seu quarto, estava tudo muito iluminado pelo sol do dia que nascera, ele se sente tonto ao se sentar na cama confuso.

- Que sensação estranha!- diz ele sentindo um déjá vu, ele se levanta e encara o relógio de parede á sua frente, eram onze da manhã, ao seguir ao banheiro o garoto encara o espelho e da um salto pra trás.- O que eu to fazendo com essa roupa?! – pergunta ele ao notar que vestia calça jeans e uma camisa de mangas compridas, ele tinha certeza de ter se vestido para dormir com roupas leves na noite anterior, outro déjá vu e ele sente que há algo nos seus bolsos, coloca sua mãos e pega um pedaço de papel rasgado, lê:

“ Pegue as pilhas do seu relógio de parede, corra até a biblioteca o centro imediatamente...”

“Stackk”

Assim que Liam leu a ultima palavra confuso ele teve uma espécie de arrepio pelo corpo todo, um pensamento estranho veio a sua mente de que ele deveria obedecer a aquelas palavras imediatamente, então flashes lhe mostraram tudo que havia acontecido, de que o mundo seria destruído e que ele tinha apenas essa chance de fugir para salvá-lo, o garoto corre até seu relógio e retira suas pilhas com desenhos de coelhos nelas, coloca nos bolsos e sai pelas portas do quarto após colocar seus tênis , desce as escadas num raio e quando pega na maçaneta das portas de entrada alguém diz algo logo atrás.

- Onde você vai Liam?- pergunta uma voz doce que ele podia reconhecer em qualquer situação, era sua mãe, seu coração gela.

- Preciso sair, mas volto rápido!- diz ele tentando sorrir.

- O que você quer pro almoço? – pergunta ela sorrindo.

Liam se aproxima mais .

- Você pode escolher... –diz ele se aproximando até dar um forte abraço na mãe que não entendera nada.- Eu te amo.- diz ele com lágrimas escorrendo pelo rosto.

- Eu também te amo.- diz ela sorrindo.- Volte logo meu filho.

- Eu prometo.-diz ele se virando para que ela não notasse as lágrimas e sai pelas portas em direção ao centro de bicicleta.

Diana olhava pela janela com seu pedaço de papel nas mãos, havia uma mala logo em cima da cama, ela a pega e começa a descer as numerosas escadas de sal casa gigante, logo no hall haviam duas empregadas que a esperavam.

- Café senhora? –pergunta uma delas .

- Não obrigado, estou com pressa. –diz a garota saindo pelas portas, lá fora um carro a esperava do lado de fora dos portões pretos de estaca, ela caminha apressada mas antes de chegar na saída um cão preto como a noite late ao fundo , ela o encara por instantes.- Adeus Hércules! – diz ela sorrindo para ele, o cão solta um uivo agonizante enquanto a garota entra no carro preto importado, que logo arranca rapidamente. Logo atrás os portões se fechavam, e por instantes o cão consegue atravessar por eles , ele para no meio da rua e enxerga o carro ao longe, e se poe a correr o mais rápido que pode atrás desesperado, mais algumas quadras e seu cansaço aparente o fez perder velocidade, até parar caído no chão exausto.

Na biblioteca o velho aguardava com Milla do lado de fora quando Liam para com sua bicicleta diante deles.

- Você está atrasado!- diz a garota abrindo as portas logo atrás.- Temos que ir agora!

Lá dentro Diana aguardava sentada num sofá desconfortável.

- Podemos ir agora?- pergunta ela.

- E o avião?- pergunta Liam ofegante.

- Sempre atrasado diz Diana revirando os olhos.

- Não temos tempo de ir mais voando, temos uma única saída que eu pretendia não usar no momento mas não temos outra saída.- diz Milla seguindo para a porta dos fundos.- Me sigam rápido.

Lá fora nos jardins bem cuidados havia no meio do quintal algo parecido com um balão vermelho amarrado com cordas pesadas.

- Você só pode estar brincado!- diz Diana chocada. — São mais de 10 200 quilômetros de distância!

- Não vamos de balão até lá.- diz Milla subindo .- Preciso dele pra abrir um portal que nos levará direto ao destino em segundos!

- Isso é possível?- pergunta Liam .

- Teoricamente sim, se tivemos um buraco de minhoca aqui.- diz Diana curiosa, Liam sorri achando que era uma piada, a garota o ignora, Milla ergue o balão até sair de vista, lá em cima ela pega um livro velho com a capa preta sem nome ou qualquer símbolo na capa e começa a folheá-lo, parando numa pagina qualquer.

Mais ou menos uma meia hora depois ela descia com o balão parecendo cansada.

- Não deu certo.- diz ela ao sr Luck que aguardava paciente.

- Isso não é instantâneo, deve demorar um tempo.- diz ele pegando o livro das mãos da mulher.- Está aqui, se você fez tudo certo em poucos minutos o portal estará aberto.

- Quanto tempo até o ataque?- pergunta ela.

- Temos mais duas horas e meia até sermos atingidos, da outra vez quase morremos todos!- diz ele sorrindo estranhamente.

- Vocês!- diz Milla tirando algo dos bolsos de seu casaco, pareciam pulseiras pretas.- Coloquem isso nos seus pulsos, caso nos separemos durante a viagem apertem isso.

- O que é?- pergunta Diana curiosa. — E quero saber o que você fez para criar o portal!

- Segredo de profissão. — diz ela. – Sou uma agente temporal, teria de matá-los se contasse esse tipo de coisa. — Ela pega uma espécie de spray das mãos do velho e desenha um quadrado na grama.

- Isso é spray de luz? –pergunta Diana se aproximando. — Não marca o chão!

Milla permaneceu calada enquanto reforçava a linha.

- Pra que isso?- Liam pergunta.

- Já disse... – é interrompida.

- Ela está apenas fazendo a área de incidência, pra não transportas a cidade toda, mas porque luz impediria o buraco de se expandir.

- Estamos prontos!- diz ela ignorando os dois completamente. — Adeus.

- Sigam seus destinos. — diz Sr Luck se afastando.

- Você não vem com agente?- pergunta Liam se colocando dentro do quadrado com os outros.

- Não posso. — diz ele com a voz abafada por um som parecido com um trovão.

Milla olha pro céu e vê uma luz azulada se formando nas nuvens, Liam podia ver as coisas ao redor ficarem embaçadas, sentia seu corpo se desprendendo do chão nesse momento, até ouvir latidos fortes vindo de perto, algo esbarrava nele quando sentiu ser arremessado para o alto como que uma bala de canhão, tudo parecia ser luz nesse momento, seu estômago revirava enquanto Milla segurava em suas mãos fortemente, com um forte impacto ele bate num chão úmido e perde a consciência em seguida, sem saber seu destino final.



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.