Crônicas Solares [hiatus]

10 Capítulo 10 - Encontro um astro no chalé 7


Notas iniciais
Hi! Mais um capítulo prontinho! O maior até agora... e o que deu mais trabalho. Não esqueçam que comentar o que acharam. E se quiserem dar dicas também, serão bem vindos! Sayonara!

Quando eu estava procurando o chalé 31, passei por todos os outros, inclusive o 7, mas não tinha reparado em nenhum. Vendo o chalé de meu pai com mais atenção, fiquei surpreso que não tivesse prestado atenção nele antes. Mesmo à noite ele brilhava em um tom dourado, não, ele era dourado. Uma cabana com vários detalhes de ouro. O desenho de um sol acima da porta parecia tão real que mal dava para olhá-lo diretamente.

— Até amanhã. — Adamastor se despediu e foi, bem, para o lugar que ele costuma dormir? Não sei.

Pedi a ele que me levasse até o chalé do meu pai e agora sei o que ele quis dizer com: É impossível você não achar sozinho.

Empurrei a porta e encontrei meus novos irmãos. Eram cerca de doze jovens, entre meninos e meninas de cinco até dezoito anos. A maioria estava dormindo em seus beliches, alguns estavam sentados escrevendo alguma coisa em cadernos. O lugar era aconchegante. Nas paredes havia desenhos de pentagramas com claves de sol distribuídas aleatoriamente que brilhavam em uma luz fraca. Um pouco mais ao fundo vi cavaletes com pinturas, vários instrumentos musicais, alguns instrumentos de medicina perto de frascos com várias cores diferentes e um enorme armário.

— É ai que guardamos nosso arsenal pessoal. Arcos e flechas. — falou um menino atrás de mim. Ele era tinha cachos loiros e olhos azuis, parecia um ator de seriado americano. Era o conselheiro do chalé. — Meu nome é Scott Collins.

— Espera! Você é mesmo aquele cara do seriado Nada de festas depois das doze*? — ele riu. — Astros de Hollywood também podem ser meio-sangues?

— Você se surpreenderia se soubesse quantos são filhos de deuses. — Scott me contou sobre vários atores, cantores, pintores e arquitetos, tão conhecidos que se eu dissesse vocês nem iam acreditar. — Muitos deles recebem o treinamento e voltam para as suas vidas normais. Entretanto eu gostei desse lugar. É menos problemático que nossas vidas de artistas.

Fiquei pensando em todo aquele mar de seguranças, paparazzi e fãs que cercavam os famosos mesmo quando eles iam à esquina comprar pão. Com monstros parecia se mais simples mesmo. Uma espada no lugar certo e seus problemas estavam encerrados. Nesse momento uma dúvida que ficou sem resposta na reunião voltou a me perturbar.

— Naquele vez, na reunião, o que quis dizer com muitos domínios e isso pode ser arriscado?

— Venha comigo. — segui-o até uma tabela pregada na parede. Era como um jogo de batalha naval, só que ao invés de números e letras tinha nomes e habilidades como as que Scott tinha dito na reunião. — Papai é, como gostamos de chamar, pau pra toda obra. Seus domínios se estendem além do comando do Sol. Medicina, artes, luz, loureiros, arco e flecha, profecias, serpentes, ratos... Essa tabela mostra a perícia de cada campista filho de Apolo. O Antônio, por exemplo, tem habilidades com medicina, e controle de serpentes.

Ele passava o dedo na linha que correspondia ao nome de Antônio. Tinha um X na coluna de medicina e de controle de ofídios. Scott citou mais alguns exemplos. Milena tinha as colunas de pintura, dominação de loureiros e fotocinese marcadas. Lílian tinha as colunas de resistência solar, medicina e controle de roedores. Tentei imaginar uma garota dominando um exército de ratos sem desmaiar.

— Enfim, arco e flecha é padrão então não conta. Eu tenho habilidades médicas, resistência solar, manipulação musical, fotocinese e controle de ofídios. — na tabela ele era o que tinha mais x. — Cinco é a fronteira da linha de risco.

— Linha de risco?

— Há anos que não aparece um campista de Apolo com mais de cinco domínios. E os últimos que apareceram nasceram com a maldição de Asclépio.

— O deus da medicina? O que aconteceu com ele?

— Isso é uma longa história. Digamos apenas que Zeus não gostou muito da interferência dele.

Não entendi muito bem o que ele quis dizer com interferência.

— E o que isso tem isso tem a ver comigo? Você disse que eu tenho, além da maestria com arco, resistência solar, manipulação musical, e influência profética. Três domínios.

— O problema é que os domínios podem se manifestar a qualquer momento, mas o primeiro que aparecem para aqueles com a maldição é...

— A influência profética. — olhei na tabela e ninguém tinha essa coluna marcada.

— Talvez com você seja diferente. Talvez você não tenha recebido a maldição. — a intenção de Scott era boa, mas ele não estava nem se convencendo. — É melhor você dormir. Amanhã vai ser um longo dia.

Concordei e fui até o beliche que ele me mostrou. Não conseguia tirar essa história da cabeça. Ainda tem a missão de amanhã para me preocupar. Fechei os olhos e torcia para não ter mais nenhum sonho perturbador.

Pelo menos dessa vez dormi tranquilamente. Quando Scott me acordou, todo o chalé já tinha se arrumado.

— Vamos, hélio. Só estamos esperando você.

— Cara que horas são? — olhei pela janela e ainda estava escuro.

— Umas cinco horas. Temos que pegar os primeiros raios de sol. Normas do chalé.

Tomei banho e segui os meus irmãos até a praia. O sol se arrastava lentamente e os primeiros raios me revigoraram completamente. O calor dele me fez sentir pronto para qualquer coisa. Meu verdadeiro pai poderia estar lá, em algum lugar, dirigindo uma biga acoplada à uma gigantesca bola de gás em combustão.

— Pai, não sei se está ai — sussurrei. — Mas se estiver, me ajude.

Não recebi resposta, nem sei se ele me ouviu, entretanto me senti mais aliviado por pensar que lá de cima alguém tomava conta de mim.

Após o banho de sol, fomos para o refeitório. Fui na direção onde a Dany estava, mas Scott me impediu. Ele disse que tínhamos que nos sentar com nossos companheiros de chalé, então me limitei a apenas acenar pra ela.

Ninfas do bosque ziguezagueavam entre as mesas carregando travessas com todo tipo de comida que alguém poderia pedir em um café da manhã: pães, frutas, queijo, leitão assado (isso ia para a mesa do chalé de Ares), etc. Scott me ensinou a usar o incrível “copo mágico que se enche sozinho com qualquer bebida, contanto que não seja alcoólica”.

— Café com leite! — o copo começou a se encher com o pedido.

Antes de comer participei de um pequeno ritual em honra aos deuses que consistia em queimar na lareira parte de sua comida. Era meio estranho pensar que deuses realmente aproveitassem a fumaça dos alimentos. Joguei o sanduíche de queijo que tinha preparado em honra a Apolo.

Terminei meu café e lancei um olhar de te espero lá fora para Dany.

Alguns minutos depois ela me encontrou. Ela estava mais linda que antes, se é que isso era possível. Seu cabelo estava arrumado em uma trança que caia sobre o ombro esquerdo. Usava um sobretudo curto e azul claro por cima da camisa do acampamento, calças de lycra e coturnos escuros.

— Oi! — Dany sorriu pra mim. — Precisamos de armas se quisermos estar prontos para uma missão.

— É claro, poderia me arrumar uma bazuca pra viagem?

— Não, temos coisas melhores.

Torci para ela estar brincando. Ela me levou até uma cabana e me mostrou o arsenal do acampamento. Espadas, escudos, lanças... Eles tinham todo tipo de arma lá (e sim, eles tinham uma bazuca).

— Quíron deixou pegarmos qualquer arma daqui?

— Sim. Agora vejamos... Que tal esse aqui? — Dany me entregou um arco.

Ele tinha cerca de um metro e era feito de madeira com alguns detalhes de ouro. Estiquei a corda e senti seu peso.

— Ah, não sei. Não tenho nenhuma prática com arco.

— Então vamos testá-lo. — ela pegou uma aljava com algumas flechas e fomos até a arena.

— Acho que é esse mesmo. — disse após atirar algumas flechas, todas no alvo. — Mas carregar um arco e uma aljava por ai não é meio... Chamativo?

— Essa é a melhor parte. Olha só.

O arco diminuiu de tamanho até se transformar em headphones em minha mão. A aljava virou um pequeno mp3.

— A maioria das armas é encantada para parecer algo menor. E ainda é por Bluetooth.

— E você Dany, não vai pegar nada?

— Eu já tenho a minha arma. — ela mostrou um colar que carregava. O pingente era uma pedra branca em forma de prisma. — Vá arrumar suas coisas para a missão. Eu vou procurar Adamastor para partirmos.

— E o que deveria levar em uma missão com altas possibilidades de ser morto?

— Tenho certeza de que não vai precisar de protetor solar. — nos despedimos com um beijo e eu voltei para o meu chalé.

Notas finais
*O seriado "Nada de festas depois das doze" é um sucesso mundial traduzido para dezesseis idiomas, foi interrompido depois que o personagem principal, Andrew (Scott Collins) decidiu abandonar as filmagens. O seriado de 12 episódios contava a história de Andrew, um garoto nova-iorquino que, após um acidente de carro ao sair de uma balada, passa a evitar todo tipo de festa. Até que recebe da menina que ele gostava o convite para o baile de formatura. Ele sabe que é sua única chance, mas o trauma daquele dia ainda o persegue. ~texto dramático para dar uma noção de quanto o cara era famoso. Sayonara!