Michael II

O jogo de vôlei foi bom, um total de cinco sets disputados. Com uma derrota do time de Mike para o time de Kenny. Ambos estavam cansados. Estavam voltando para casa, para comer pizza e assistir televisão, como há muito tempo não faziam. Porém o celular de Kenny toca.

– Alô – diz após atender prontamente.

Michael observava enquanto o amigo apenas concordava com a pessoa que acabou de atender.

– Sim. Sim. Ok. Tranquilo. Tudo bem. Estarei aí logo, logo. Beijos. – falou antes de desligar.

Após isso Michael olhou com uma cara de deboche, já esperando a fala que estava por vir.

– Então... Sabe como é que é, vou ir ver a Anna. Jogamos comemos pizza outro dia, beleza? – disse meio sem graça.

– Então a alforria dura uma tarde, vou me lembrar disso. – brincou – Relaxa, vai lá e depois nos vemos.

Então depois de se despedir, Kenny foi embora (correndo). Mike continuou sua caminhada até sua casa, passou pelo bar do Topera e pelo bosque enquanto observava a bela lua que tinha surgido com o anoitecer.

Chegou em casa, tomou um banho gelado e colocou uma roupa confortável. Desceu as escadas do seu quarto para a sala, olhou para o video-game em sua estante.

– “Não estou a afim de jogar sozinho” – pensou

Foi até a geladeira para pegar um pedaço de pizza de calabresa, que havia comprado no dia anterior. Ainda estava boa, mesmo que fria, resolveu comer sem sequer esquentar o pedaço.

Subiu até o quarto novamente, ainda não eram nem sete e meia da noite. Contudo, Mike sentiu uma vontade muito grande de descansar.

– “Acho que jogo me deixou muito cansado, preciso voltar a academia, meu preparo físico está péssimo” – pensou

Ao deitar-se na cama, ficou olhando para o teto para simplesmente deixar o sono vir. Pensou na vida nova que teria na França, como seria fazer a faculdade lá e quando menos percebeu já estava um lugar completamente diferente.

A floresta em que estava era relativamente fria e os raios da manhã passavam as folhas, entrando como lanças na mata fechada. Mike olhou de um lado ao outro sem parar, ele não reconhecia o lugar, não era o bosque que existia perto de sua casa. Nem parecia a floresta que ele foi acampar quando era criança, era muito mais silenciosa.

Ele começou a andar para ver se conseguia sair dali, ou pelo menos descobrir que lugar silencioso era aquele. Moveu galhos que estavam na frente dele, folhas que batiam em sua cara enquanto andava.

Mike reparou que nem insetos estavam presentes ali, o silêncio era muito quase o absoluto, o pânico começou a dominar o seu ser, sua respiração ficou profunda. Tudo que Mike fez foi correr muito para encontrar alguma coisa, nem que fosse uma trilha.

Após muito correr, abaixou e fechou os olhos para poder respirar, estava sufocando. Aos poucos foi recuperando o folego e depois abriu os olhos.

Já não estava em uma floresta densa, estava numa clareira.

A luz do Sol podia ser sentida na pele, o ar estava mais leve do que antes. Com isso veio uma sensação de alívio em todo o corpo de Mike.

Do meio da mata que cercava aquele lugar surgiu uma forma, com cabelos vermelhos e olhos carmesim, a forma do restante do corpo não conseguia ser distinguida a principio por causa da luz que envolvia aquele corpo.

– Tua alma é forte, deve ser você. – disse uma voz feminina.

A luz foi aos poucos se dissipando, e uma forma feminina se revelou. Tinha uma pele pálida de tão branca que em conjunto com aqueles olhos e cabelo formava uma mulher realmente bonita.

– Quem é você? – Michael disse ainda surpreso.

– Não cabe a você saber, apenas procuro o guardião. Deixe-o sair.

Mike não entendeu a ordem que foi dada pela mulher que estava ali na frente dele. Não estava assustado, parecia que o ambiente que ele estava impedia a manifestação desse sentimento, era como uma aura de tranquilidade estava presente naquela clareira.

– Guardião? – perguntou o jovem ainda confuso.

– Sim. Deixe- sair, por favor. — A forma feminina parecia séria, imóvel e com um olhar penetrante.

Logo depois que as ultimas palavras da mulher foram ditas, uma luz forte começou a entrar na clareira. Aos poucos o branco da luz começou a retirar a visão que Michael tinha dos arredores, o formato da mulher, das arvores, da grama, tudo foi sumindo enquanto a luz impregnava. Michael só ouviu as ultimas palavras da moça que sumia de sua visão.

– Por favor, deixe-o sair, estamos sem tempo...

A voz soou calma, e tudo sumiu em meio à luz forte.

E assim Michael acordou logo depois, quando abriu os olhos estava em seu quarto, e sentiu uma grande tontura, o que o obrigou a ir ao banheiro para vomitar.

Depois de colocar a pizza que comeu para fora, não conseguiu sair do banheiro. Estava fraco, não conseguia se mexer, sentia frio e seu estomago doía muito. Ficou deitado sem forças durante uma hora, e acabou vendo o Sol através dos primeiros raios que entravam no banheiro. Aos poucos foi melhorando.

Quando conseguiu ficar em pé, notou que estava com muita sede, tomou duas garrafas de dois litros de agua em grandes goles.

– Mas que merda foi essa?! – perguntou para si.

Vendo o estado em que ficou decidiu ir ao hospital.

Era aproximadamente sete da manhã quando chamou um taxi, em menos de dez minutos já estava entrando nos corredores do atendimento do centro de saúde. Estava bem frio naquele prédio vazio, logo Mike achou o atendimento, que era feito com uma senhora com cabelos muito brancos.

– Com licença, eu quero uma consulta. – disse de forma tímida.

– Qual seria seu problema?

– Acordei de um sonho estranho e vomitei, fiquei sem forças nenhuma para sair do banheiro, quando sai vim direto para cá.

– Tudo bem, o médico virá logo. – respondeu com uma face indiferente – Pode se sentar, não irá demorar muito. Aproveite e preencha essa ficha.

Michael sentou-se nos bancos de espera, e lá preencheu a ficha e ficou esperando por uns dez minutos olhando para uma televisão muda que estava ligada em um canal de jornalismo.

Após a espera, a atendente chamou seu nome e indicou a sala do médico para o jovem, quando entrou sentiu que a sala do médico estava muito mais fria que o hospital em si.

– “Devia ter pegado uma jaqueta” – pensou logo que entrou na sala.

– Senhor Fregs. – disse o médico olhando para ficha. – Sente-se.

O médico era um sujeito por volta de seus cinquenta anos, tinha uma barba fina e branca. Usava um jaleco branco e óculos. Olhou com um tom analítico Mike e sinalizou a cadeira para que o jovem pudesse se sentar.

– Então, jovem, qual é o problema? – perguntou logo de cara a Mike.

– Então doutor, eu não sei exatamente. Eu acordei no meio da noite depois de ter um sonho muito estranho. Acordei com uma tontura, uma vontade de vomitar, coloquei tudo pra fora sabe? – Deu uma pausa no discurso enquanto o médico anotava. – Fiquei muito fraco, passei horas no banheiro sem conseguir me levantar. Quando consegui me levantar, estava com tanta sede que bebi uns 4 litros de agua. E depois disso resolvi vir para cá.

O médico anotou os principais sintomas descritos, olhou na folha e olhou para o paciente.

– Tontura seguida de vomito, fraqueza com vertigem e sede logo depois... – Continuou olhando para o jovem – O senhor bebeu recentemente? Pois parece uma ressaca.

– Uma lata de cerveja ontem de manhã, nada que eu não faça normalmente. E não ficaria bêbado assim se é o que você esta pensando. – disse tentando adivinhar o que o homem estava pensando

– Tudo bem, tem histórico de labirintite?

– Não tenho.

– Então, bateu a cabeça recentemente?

– Também não.

– Muito bem. – falou enquanto largava o seu bloco de notas. – Tire a camiseta.

E assim Mike fez, o senhor mediu a pressão, olhou pupilas, ouviu a respiração. Ficou analisando durante um tempo até que no final resolveu falar.

– Olha, você esta se sentindo bem agora?

– Sim.

– Pelo que eu vi, nada de anormal. Se for o caso mandarei fazer alguns exames mais precisos, tudo bem para você?

– Se for para o bem, ok. – respondeu um pouco triste.

– Certo precisarei de um exame de sangue primeiro – anotou os detalhes do exame no papel – Volte aqui quando tiver os resultados. E não beba, deixe a cervejinha de lado por um tempo, tudo bem? – estendeu a mão para despedir do paciente.

– Certo doutor. – Cumprimentou o médico e saiu.

Enquanto caminhava pelos corredores buscando algum lugar para marcar tal exame, um frio lhe bateu a espinha, uma sensação claustrofóbica de ficar naquele lugar gélido e vazio. Era como estivesse assombrado de alguma maneira.

– “Quero sair daqui, vou marcar o exame pelo telefone”.

E se começou a ir até a saída, virava vários corredores, e parecia que estava completamente perdido naquele lugar, o caminho da saída era simples, Mike tinha certeza disso.

– “Como eu me perdi aqui?”.

O jovem começou a respirar muito fundo, quando ele menos percebeu já estava correndo sem saber aonde ia. Virava corredores, fazia meias voltas e absolutamente nada de conseguir achar a saída.

Quando de surpresa, uma imagem apareceu no final de um daqueles corredores. Uma luz em forma feminina, com cabelos vermelhos que balançavam mesmo ser ter nenhum vento. Parecia que ela tentava falar, se expressar de alguma forma, mas as palavras não chegavam até Michael.

Ele ficou paralisado por alguns segundos, a imagem luminosa estava ali e ele estava muito bem acordado naquele momento. Não conseguia se mexer, não sabia o que sentia. Quando alguma coisa tocou seu ombro, que foi seguido por um grito apavorante vindo de Mike.

Quando virou viu que era só uma enfermeira, ela parecia assustada. Então ele olhou novamente para o final do corredor e nada havia lá. Aquela altura o jovem já percebeu que ela estava assustada por causa do grito que ele tinha dado.

– Você viu aquilo?! – Mike não resistiu em perguntar

A moça permaneceu em silêncio, tinha estava olhando para Michael de um jeito esquisito.

– “Ela deve estar pensando que eu sou maluco, não sei, até eu estou achando isso.” – respirou fundo antes de dizer – Me desculpe, mas você sabe onde é a saída?

A enfermeira engoliu em seco, mas pareceu mais calma do que alguns segundos atrás.

– Logo ali, vire a esquerda no final do corredor. – apontou.

O caminho era simples, o que deixou o jovem ainda mais confuso. Mas não tinha tempo de ficar ali, ele tinha de sair daquele hospital.

Quando saiu, deu um longo suspiro de alívio. Sentiu o Sol, mesmo que entre nuvens, esquentar o seu corpo. Resolveu continuar a correr na rua, só para se livrar daquela sensação de frio.

Enquanto corria, suas reflexões e memórias vieram.

– “Aquela garota era a mesma dessa noite, é uma assombração?”

Aumentou a velocidade da corrida.

– “Me drogaram ou algo assim?”

Diminuiu a velocidade dos passos aos poucos, até estar andando normalmente.

– “Estou ficando louco?”

Eram muitas perguntas, muitas mesmo. Sentiu sua garganta seca enquanto corria, precisava tomar alguma coisa para reidratar. Mas não tinha dinheiro alguns nos bolsos.

Sentou em um banco para recuperar o ar, a cidade estava começando a ficar movimentada, pessoas indo para o trabalho na maioria. Mas Mike sabia o que estava procurando. Já estava com a cabeça fria naquele momento, pelo menos melhor do que anteriormente.

Percebeu que a casa de Kenny estava ali por perto, então deixou a garganta sece de lado e foi até a casa do amigo, precisava conversar sobre as alucinações com alguém e quem sabe beber alguma coisa, pois sua sede só piorava.

Andou mais ou menos quatro blocos, e chegou à frente do portão pintado de cinza do amigo.

– Kenny! Abre aqui! – gritou.

Depois de alguns segundos uma chave sai voando da janela e cai perto de onde Mike estava.

– “Você sabe quando é amigo mesmo quando jogam a chave da janela para você poder entrar”.

Michael abriu o portão e entrou na casa. Já na sala o amigo estava ali, compenetrado em algum jogo online. Headsets na cabeça e com o volume muito alto.

– Fala Ken! Voltou a jogar?! – falou de forma sarcástica.

– Espera aí! Tem cerveja na geladeira se quiser. – respondeu ainda com os olhos fixados na tela.

Michael foi até a cozinha, abriu a geladeira. Contudo, escolheu um galão de água gelada ao invés da cerveja.

–“Melhor adiar o álcool, com minha cabeça esquisita desse jeito...”

Conseguia ouvir os gritos e xingamentos do amigo que estava jogando. Resolveu voltar dando vários goles na garrafa de água.

Entrando novamente no quarto, olhou Kenny com seriedade. O que chamou a atenção do amigo.

– Preciso conversar com alguém, Ken.

– Ok, não te vejo sério assim desde a história da carteira do policial. – respondeu tirando os headfones e desligando o computador. – Vamos lá fora.

Os dois foram até os fundos da casa onde tinha um bom espaço aberto, Mike ainda carregava a garrafa e Ken pegou um copo para beber também a água.

– Então, o que precisa falar? – disse enquanto enchia o copo de água.

– Sabe aqueles sonhos? Não é coisa normal, eu sonhei com algo diferente essa noite. Apareceu uma mulher em uma floresta, uma mulher que eu nunca vi ela falou algo estranho: “Deixe sair”. Não sei o que significa. – estava começando a falar muito rápido. – Quando eu acordei, estava passando muito mal, vomitei e nem consegui ficar em pé...

– Calma, você foi no médico? – Interrompeu.

– Claro que fui, ele disse que ta tudo normal, mas me pediu uns exames. Só que de...

– Como ta tudo normal se você ficou desse jeito? – Interrompeu de novo.

– Sei lá cara, o que aconteceu depois foi o mais estr...

– Já marcou os exames? Porque pode ser sério... – Interrompeu mais uma vez.

– Cara, da para deixa eu falar!? – falou calar Kenny – Então, depois do médico, quando eu estava nos corredores do hospital, a mesma garota do sonho apareceu e eu estava acordado tenho certeza.

Kenny agora olhava para Michael com uma cara confusa, mas ainda curiosa. Parecia que tentava achar algum tipo de piada ali, porém sem nenhum sucesso.

– Mike, é melhor você marcar aquele exame.

– Não acredita em mim, não é?

– Não é que eu não acredite que você viu, só acho que o que você viu não foi real. Não acredito muito em fantasmas, cara. Vai ver são só memórias reprimidas sabe? Vai ver tem relação com sua mãe...

– Não quero ouvir você dando uma de psicólogo para cima de mim. – Não deixou o amigo terminar a frase — É melhor eu ir já. – falou irritado indo em direção a porta.

– Calma cara, só to tentando te dar razão aqui. – disse tentando concertar a situação.

– É melhor mesmo eu ir. – falou já olhando para porta.

Kenny de forma relutante abriu a porta, liberando o caminho para seu amigo ir embora. Enquanto Mike já estava andando na rua conseguiu ouvir o amigo gritando:

– Qualquer coisa ligue!

Michael não respondeu, apenas continuou andando, em direção ao centro novamente para de alguma forma esfriar a cabeça. Eventualmente, ele conseguiu algum direito para comer, mas a digestão não fez parar.

Ficou andando tanto tempo que aparentemente não notou que o dia já estava virando noite.

Resolveu então ir para casa, estava cansado e confuso. Teve que passar pelo bar do Toupera, notou que já estava fechado.

– “Só vou poder beber agua em casa. De onde vem essa sede?!”

Continuou andando, ainda que lentamente, estava quase chegando a sua casa. Quando de súbito sentiu um frio na sua espinha. O mesmo frio que sentiu no hospital.

Quando olhou para o lado, notou que estava em frente ao bosque e nele havia uma névoa, algo que nunca viu ali, saindo dentre as árvores e ganhos.

– Deixe sair. – Ouviu.

Uma combinação de coragem e curiosidade criou um grande magnetismo. Michael resolveu seguir a voz.

– “Não estou maluco, não estou maluco!” – pensou ao perseguir o misterioso som.

Foi correndo ao bosque criando um caminho para seu objetivo. Ou pelo menos pensando que estava, pois já tinha parado de ouvir. Apenas corria em sentido reto, desviava da mata e tentava evitar qualquer tropeção, já que estava escuro.

Sob a luz da lua ele enxergou, depois de muito correr, uma clareira. Parecia para ele muito familiar.

A mulher estava lá olhando para ele. Mike não conseguia distinguir os detalhes da face, com exceção dos olhos escarlates, por causa da luz que emanava da aparição.

– Quem.. O que é você ? – perguntou.

Foi andando em direção à clareira, buscando respostas para tudo aquilo. Porém, quando pisou na face desarborizada do bosque, sentiu uma tontura. As arvores ao redor dele, iluminadas pela lua, foram se tornando menos visíveis, tudo foi ficando escuro. Até que não conseguiu se mantiver em pé.

– O que é iss... ? – falou antes de desmaiar.