Notas iniciais
Nomes de personagens modificados neste capítulo e no anterior, para interesse da própria história e por consideração a amigos que serviram de inspiração a ela.

– Cinco da manhã? Sério?

– É assim a estadia no Mosteiro de São Bento. A nossa rotina é a dos monges, vamos para cripta sete vezes por dia para a oração da Liturgia das Horas e depois fazemos os trabalhos do dia. Ora et Labora é o tema da Ordem.

– Ora e trabalha. Maravilha! – Mayara Cherryheart levantou-se como um zumbi da cama, ainda olhando duas vezes no relógio para conferir se o que Luana Redstorm explicava era verdade. 4:55 – indicava o relógio ao lado da cama. Ela respirou fundo, preparou o feitiço de disfarce, conforme as orientações de Luana, e pegou um dos seus livros de orações – Liturgia das Horas III escrito na capa –, que recebera na noite anterior quando chegou ao Instituto, mais uma jovem caçadora fazendo intercâmbio. – E ainda tenho que ir como um homem? Isso é muito constrangedor.

– Regras, Mayara... Regras. Essa loucura não existe em nenhum outro lugar do mundo, só no Brasil.

– Ah! Novidade! E para ir ao banheiro, como faz? Tenho que ficar em pé no mictório, se tiver outro monge lá dentro? – Mayara fez cara de deboche, com um sorrisinho sarcástico, o que fez Luana soltar um risinho abafado pela mão, evitando o barulho na hora em que reinava o silêncio no mosteiro.

– Você é muito rebelde, Mei! Parece comigo quando cheguei aqui logo após minha Ascensão. Não me adaptava a nada! – Luana ia conversando com ela, enquanto se dirigiam pelo pátio à cripta, no subsolo.

Mei? – Ela sorriu para Luana, gostando do apelido – pelo visto eles te moldaram direitinho, esses homens... Mas vou te dizer uma coisa, Lu – olhou para os olhos da garota, desafiantes, ao que ela também respondeu com um sorriso –, seus dias de escravidão acabaram, até o fim da semana tiro a gente daqui.

– Tirar? – elas já estavam no subsolo, no corredor de acesso à cripta, quando Lu olhou de relance para o lado e viu a porta da Sala de Armas Antigas. Lembrou-se do caos recente sobre o roubo do Arco do Cupido feito por dois caçadores de sombras, um deles que sempre admirou, ou talvez sentisse um pouco mais que isso, o melhor aluno do Instituto, Matheus. – Não acho uma boa ideia depois do que aconteceu por aqui... A propósito, me chame de Ryo.

Mei olhou meio desconfiada sobre o apelido nada parecido com o nome da nova colega de quarto, mas não quis perguntar, com medo de alguma resposta apavorante vinda daquele jogar de mãos que ajeitava os cabelos vermelhos vivos esvoaçantes como tempestade. Resolveu voltar ao assunto mencionado pela garota.

– Ah! Dois parabatai bem interessantes, é preciso admitir. – Mei disse pensativa, enquanto Ryo arregalava os olhos de espanto com a perspicácia da noviça.

– Você os conhecia?

– Não. Mas como passaporte de saída, confesso que estou bastante interessada em conhecer.

Luana olhou para trás e não viu nenhum irmão se aproximando em direção à cripta e logo o canto gregoriano dos salmos da Liturgia das Horas ressoou a partir de lá por todo o subsolo, o que a fez perceber que já tinham se atrasado, justificativa perfeita para sua ação repentina. Ela puxou Maíra pelo braço – que soltou um gritinho de susto, tendo logo a boca tapada – e a arrastou a Sala de Armas Antigas, fechando a porta atrás de si em seguida.

– Au! Você me assustou! Acho que Augusto não vai gostar nada de a gente não ter comparecido.

– Tudo bem, depois me entendo com ele. Escuta, Mei, acho que podemos dar um jeito de sair daqui sim, mas como menores vamos arrumar muita encrenca com Augusto se fizermos isso.

– Ora, ora! E eu achando que você já tivesse tido a cabeça moldada por esses homens e fosse só mais uma irmã submissa do Instituto, quer dizer, irmão.

– Não seja tão dura com Augusto e os demais. Você chegou ontem e já acha que sabe de tudo aqui dentro, mas você não sabe. Dom Eliel tem feito o melhor na mediação entre os mundanos e os caçadores de sombras do Enclave, mas, assim como você, eu também não me senti em casa quando cheguei aqui – e ainda não me sinto –, só que nunca tive coragem de fazer nada para mudar isso, até porque não tenho para onde ir. Meus pais foram mortos por demônios há anos atrás em um ataque ao casarão onde morávamos com outras famílias, na Rua 13 de Maio, aqui perto, mas eu sobrevivi e fui trazida para cá pelos caçadores, porque tinha o dom da Visão. Um deles me viu no canto, assustada e com a perna quebrada, enquanto revirava os escombros em busca de pistas, e eu o encarei. Ele logo percebeu que eu não era uma garota comum e ordenou me trazer para cá. Seu nome era Augusto.

– Uau! O herói por trás da cara carrancuda! Tudo bem, tudo bem... Eu entendi seu ponto. Mas então você me puxou aqui só pra passar sermão ou realmente vai propor algo de interessante pra gente quebrar esse silêncio matinal?

– Não vamos quebrar silêncio algum, sua doidinha! Você ainda quer conhecer o Pedro e o Matheus?

– Blackshadow e Heartway? Os parabatai rebeldes? Até pediria um autógrafo se conseguisse isso. Espera... Você não está me dizendo que... Pelo Anjo! Vamos nos juntar aos rebeldes?

– É. Vamos. Você me deu coragem para vingar a morte dos meus pais contra esses demônios que andam por aí. Quanto mais eu puder matá-los, mais vou saber que meus pais tiveram justiça.

– Mas... Uma pergunta, Ryo... Como você vai encontrá-los se não podemos sair de dentro do instituto e eles sumiram de vez? A não ser que você tenha algum contato secreto com eles...

– Contato eu não tenho, mas tenho isso. – Ela esticou o braço e em sem pulso podia-se ver uma pulseira artesanal, com pontas trançadas e com corações desenhados na parte de cima. – O Matheus foi um dos poucos que se lembrou do meu aniversário de 17 anos e, como não tinha nada que pudesse me dar mais elaborado, teve o gesto meigo de tirar a pulseira que ele mesmo fez para se lembrar dos seus pais e colocou no meu pulso, dizendo que deveria, com ela, sempre lembrar os meus. Nós perdemos nossos pais no mesmo incidente e senti uma ligação com ele por isso. Bom, eu disse a ele que não aceitaria algo tão importante como presente, mas que guardaria como gesto fraterno e que lhe devolveria assim que meu luto passasse e minha coragem retornasse... Acho que já é hora de ele ter essa pulseira novamente, e como na verdade pertence a ele, acredito que seja o suficiente para que uma marca de rastreamento o encontre.

– Nossa, acho que senti que rolou um clima entre vocês, mas vou ficar calada pra você não me chamar de inconveniente...

– Você está sendo inconveniente, Mayara!

– Ok, ok! Vamos voltar à marca de rastreamento? Por acaso, o Augusto não tentou usá-la nas coisas pessoais que o Matheus deixou aqui no Instituto?

– Tentou, mas nada deu certo. Acho que o fato de o Matheus ter abandonado tudo aqui fez que tudo deixasse de ser sua posse e a marca não funciona se não tiver algo pertencente à pessoa. Na verdade, quando ele entrou no Mosteiro, tudo o que tinha eram suas roupas do corpo e uma caixa de madeira, aparentemente o Arco do Cupido, que ele e o Pedro subtraíram da Sala de Armas mais recentemente – assim ouvi os rumores.

Então, não podemos fazer nada além de confiar em uma pulseirinha que o Matheus também se desfez?

– Bom, vamos tentar usar a marca de rastreamento. – Luana retirou a pulseirinha do braço do braço direito e segurou-a com a mão esquerda, desenhando a marca de rastreamento nas costas da mesma mão. Primeiramente teve alguns flashes de Matheus fugindo pela escadaria de acesso à basílica, depois em direção à Estação São Bento, e tudo virou um grande borrão em sua mente.

– E então? – Mayara perguntou ansiosa.

– Também não deu certo. – Luana suspirou decepcionada, mas uma ideia veio em seguida. – Talvez possamos usar um feitiço de localização mais potente!

– Mas feitiços dessa escala são magia demoníaca, não podemos utilizá-la.

– A não ser que você seja amiga de um feiticeiro...

– Você tem um amigo feiticeiro? Sério?

– Bom, ele presta serviços ao Instituto e Augusto até cogitou contratá-lo para encontrar o Matheus, mas seria um preço muito caro. Ele preferiu comunicar ao Enclave que o mantivesse informado sobre o paradeiro dos parabatai rebeldes, pois achou que eles não iriam muito longe, mas até o momento não houve notícia deles.

– Então suponho que você vá pagar pelos serviços desse feiticeiro, certo?

– Ele esteve no incidente com meus pais, ajudando com os feitiços de disfarce do local, e me acompanhou quando Augusto me trouxe ao Instituto. Já esteve outras vezes por aqui, apesar de ultimamente não ter tido notícias dele pelas redondezas. Na verdade, acabei ficando muito amiga dele, sabe?

– Ah, sei! Deve ser um feiticeiro daqueles com cara de anjo novinho, mas com olhar de demônio devorador e que a gente fica amiga fácil, não é, menina?

– Irmão Castiel da Imaculada Conceição! Respeite seus votos!

– Ora, irmão Samuel do Santíssimo Sacramento, foi apenas uma brincadeira inocente... Mas como é mesmo o nome desse feiticeiro gosto... Quero dizer... Amigável?

– Lucas Draco. – E você, “novato”, já para a capela! São cinquenta ave-marias para purificar seus lábios e sua mente.

***

As meias nos pés de Matheus escorregavam enquanto corria desesperadamente atrás do suspeito encapuzado, diminuindo sua velocidade. Ele parou um instante, com raiva de si por ter se esquecido de tirá-las, e as jogou longe, enquanto via a capa que o rapaz a sua frente vestia deslizar flutuante e se afastar cada vez mais. Repetia para si que capturar aquele demônio – ele tinha certeza de que os desenhos do Livro das Sombras de Pedro eram claros quanto a ser um demônio Incubus – era a chave do entendimento do que ultimamente vinha acontecendo consigo.

Pedro e Felipe chegaram ofegantes onde Matheus se encontrava, mas antes que pudessem perguntar qualquer coisa, o enfurecido Heartway já havia corrido novamente, enquanto os dois olhavam um para o outro, incrédulos. Felipe gritou de ódio e se transformou em lobo, correndo em seguida a uma velocidade superior que a de antes, logo avistando o elemento de perseguição de Math. Enquanto isso, Pedro preparou o arco e lançou uma flecha apontando para frente, a qual voou zumbindo pelo meio dos dois amigos mais a frente, e se cravou no calcanhar do fugitivo que perseguiam.

Felipe e Math chegaram rápido ao rapaz caído no chão, que gritava de dor e xingava os nephilim com um extenso vocabulário profano.

– Você não é um demônio! – Math admirou-se, ao puxar a capa que envolvia o suspeito.

– Claro que não, seu imbecil! Você e seu cachorro de estimação são cegos?

– Cuidado com a língua, feiticeiro! – Felipe falou por entre as presas de lobo que regredia de tamanho ao poucos, enquanto retomava a forma humana.

– Acertei? Acertei? – Pedro vinha gritando logo atrás, aproximando-se dos amigos parados. – Que demônio pegamos?

– Já falei que não sou demônio!

– Então quem é você, diabo! – Matheus perguntou com sarcasmo.

– Lucas Draco. – E não sou um diabo! Fui contatado por uma nephilim do Instituto de São Paulo para encontrar você, Matheus Heartway, e acredito que esse outro metido a Robbin Hood aí também – ele apontava para Pedro Blackshadow com desdém.

– Pelo Anjo! – Math passou a mão direita na cabeça de preocupação. – Agora Augusto vai encontrar a gente e nos expulsar do Enclave ou pior!

– Augusto? – O feiticeiro questionou. – Isso não tem nada a ver com ele. – O rapaz começou a gritar de dor, assim que Pedro enfiou a ponta do arco em seu calcanhar ainda ferido pela flecha.

– Então acho bom você começar a falar. – Disse o nephilim.

– Luana! Luana Redstorm! Malditos caçadores de sombras, não sei por que ainda me meto com vocês!

– Talvez pelo bom dinheiro que pagamos a sua raça pelos serviços, não é verdade?

– Pedro, pare de atormentar o rapaz! – Matheus falou já empurrando o amigo e se dirigindo ao feiticeiro. Reparou outra vez os traços vistos sobre a luz do poste, quando o capuz do rapaz caiu com o vento, e percebeu que realmente eram bonitos. Desviando os olhos, viu as escamas na nuca e ombro direito, sua marca de feiticeiro. Por milésimos de segundo, Math fixou seus olhos nos de Lucas e se viu no sonho, dançando com o rapaz mascarado, e se perturbou internamente, mordendo os lábios inferiores, mas sem deixar transparecer. – Luana Redstorm, você disse? Onde ela está agora?

– Na minha casa, aqui mesmo em Santo André. Ela me contatou a poucas horas, pedindo para localizar um nephilim desaparecido, acusado de roubar um item antigo do Instituto. Eu não quis me envolver, argumentando que isso era assunto de vocês, caçadores, e que se Augusto não me procurou é porque já teria arranjando seus próprios meios, mas como ela insistiu muito e tenho muita afinidade com aquela menina, não fui capaz de negar seu pedido.

– Espera aí! – Pedro interrompeu o relato do feiticeiro. – Não teria como você nos achar, o Matheus não tinha nada dele no Instituto, deixou tudo para trás.

– Mas deixou isso aqui. – Lucas levantou o punho direito e mostrou a pulseira que Matheus deixara com Luana havia mais ou menos um ano, a qual ele reconheceu imediatamente. – Ou você vai dizer que isso também ficou para trás?

– Ah, claro! O pequeno romance do casal Luma... – Pedro falou irônico, dando as costas, de braços cruzados. – Vai me dizer agora que você confia nela só porque vocês estavam de casinho...

– Pêeee! – Matheus falou em tom de alerta para o amigo. – Para de ficar me shipando com a Luana, você sabe muito bem que ela perdeu os pais no mesmo incidente em que perdi os meus e que ficamos amigos por conta disso no Instituto. O que não entendo – ele voltou os olhos para Lucas, agora sentado no asfalto e tentando curar a ferida com magia enquanto retirava a flecha – é porque ela simplesmente não tentou uma marca de rastreamento...

– Ela tentou – Lucas respondeu de imediato –, mas uma marca de rastreamento funciona em algo que é de sua posse. Como você deixou com ela a pulseira e abandonou o Instituto, a magia da marca ficou limitada, mas nada que um feiticeiro bem treinado e competente como eu não consiga aperfeiçoar facilmente. – Matheus sorriu com o canto dos lábios ante o comentário do rapaz, o qual também sorriu discretamente.

– Ok! Já podemos sair daqui ou vamos ficar nessa treta gay para sempre? – Felipe olhava toda a cena impaciente, já imaginando como acabaria aquilo tudo: mais uma noite sem dormir e com briguinhas entre os parabatai que não assumiam o que sentiam. Não bastasse isso, virou-se e viu Pedro olhando em sua direção, com uma risadinha contida e, podia jurar, observando-o de cima a baixo. – Vamos logo sair daqui! Já está amanhecendo e temos um portal para esse Lucas Draco abrir direto para Brasília.

– Ah, então você é o lobisomem que a Praetor disse que me encontraria aqui em Santo André para tratar de um portal para Brasília?

– Isso mesmo. Pelo visto não precisei ir até você, já que coincidentemente me achou primeiro. Foi fácil saber que era você o feiticeiro que procurava, já que é o único de sua raça por essa região, afinal você disse que mora aqui.

– Boa análise de sua parte, felizmente eu não sou do tipo mentiroso, ou quem sabe vocês estariam indo para uma armadilha, não é verdade?

– Apenas tente me meter em uma armadilha, feiticeiro! – Felipe deixou os olhos brilharem cintilantes, em tom amarelado, e deixou as presas crescerem como intimidação. – Você, que foi ajudado pela Praetor Lupus, agora pretende nos trair?

– Ajudado pela Praetor? – Pedro soltou um assobio. – Altas revelações esta noite!

– Então você presta serviços para o Instituto e para a Praetor Lupus do Brasil e o Enclave não sabe nada sobre isso? – Perguntou Matheus ao feiticeiro, um tanto estarrecido com o que acabara de ouvir.

– Bom, não gosto de ficar falando sobre o meu passado para cada um que solicita meus serviços, mas tudo bem... Eu fui encontrado pela Praetor nas ruas quando criança, porque criei certos incidentes com fogo pela região e não sabia explicar por quê. Eles me explicaram que eu era um feiticeiro e me ensinaram sobre o Submundo. Também foram bem diretos em dizer que meu pai era um demônio e minha mãe alguém que nunca mais seria capaz de encontrar, já que fui abandonado. Enfim, traumas superados, estou ganhando muito dinheiro com isso, obrigado. Alguma outra pergunta?

– É por isso que seu sobrenome é Draco, porque você cospe fogo tipo um dragão? – Perguntou Pedro, com uma curiosidade ingênua tão infantil nos olhos, que Lucas riu consigo mesmo, balançando a cabeça antes de Felipe gritar impaciente.

– Pelas garras de Fenrir, vamos sair logo daqui!

Fenrir, Felipe? De onde você tirou isso?

– Mitologia nórdica, Pedro! – Disse Matheus indignado – Você não prestou atenção nas aulas de História Antiga mesmo, hein?!

– Ah, nephilins! – Lucas balançou a cabeça em reprovação e ficou de pé, agora com o ferimento do calcanhar já curado. Estalou os dedos e usou sua magia em movimentos com as mãos para abrir um portal, onde todos entraram e rapidamente desapareceram dali.