Crônicas Do Olimpo - O Mar De Monstros

10 O Dia em que Passei a Odiar Donuts com Açúcar...


Notas iniciais
"Jake nunca encontrou nada mais forte que sua Maldição...

Jake é muito retardado...

Enquanto caíamos direto na água ele continuava gritando "UHU" e essas coisas de sempre sabem? Bom, assim que despencamos na água, eu gritei.

- A Garrafa térmica!

Jake entendeu, Conseguiu abrir meu saco de viagem e tirar de lá a garrafa mágica sem largar o saco nem o bote. Mas a garrafa voou para mim. Flechas e dardos passaram por nós assobiando. Agarrei a garrafa térmica e torci para estar fazendo a coisa certa.

- Se Segurem! – berrei.

- Eu estou segurando! – disse Jake.

- Mais firme!

Enganchei o pé embaixo do banco inflável do bote, e enquanto Tyler nos segurava pelas costas das camisas dei um quarto de volta na tampa da garrafa. No mesmo instante, uma lufada branca de vento escapou e nos arremessou para o lado, transformando o mergulho vertical em uma aterrissagem de emergência a quarenta e cinco graus. O vento pareceu dar risadas quando escapou da garrafa térmica, como se estivesse contente por se ver livre.

- Eah! – gritou Jake por cima do vento. – Isso é demais!

- Não é não! – gritei de volta.

Quando atingimos o oceano, batemos uma, duas vezes, quicando como uma pedra, então disparamos como uma lancha, com água salgada borrifando o rosto e nada além de mar à nossa frente. Ouvi um grito de indignação vindo do navio atrás de nós, mas já estávamos fora do alcance das armas. O Princesa Andrômeda ia ficando menor a distância, até parecer um barquinho branco brinquedo, e depois desapareceu.

Enquanto disparávamos, eu e Jake tentávamos mandar uma mensagem de íris para Quiron, achamos que devia ser o certo a fazer, não tínhamos mais ninguém em quem confiar. Pensamos que seria importante contar a alguém o que Luke estava fazendo. O vento da garrafa agitou um ótimo borrifo de mar que formou um arco-íris à luz do sol – perfeito para uma mensagem de íris – mas nossa conexão ainda era fraca.

Jake lançou um dracma e rezou para íris, então o rosto de Quiron apareceu. Mas havia algum tipo estranho de luz no fundo e rock em volume máximo, como se ele estivesse em alguma casa noturna ou alguma boate. Contamos a ele sobre a fuga do acampamento e sobre Luke, o Princesa Andrômeda e o caixão dourado para os restos de Cronos, mas com o barulho do lado dele e o ruído do vento e da água do nosso lado, não sabia o que ele tinha ouvido.

- Megan! – gritou Quiron por cima do som. – Você precisa tomar cuidado com...

Sua voz foi abafada por uma porção de vozes aos berros, como guerreiros comanches.

- Quiron?! – gritei.

- Malditos Parentes! – exclamou ele.

Quíron desviou-se quando um motor passou voando por cima da sua cabeça e se estilhaçou em algum lugar fora de vista.

- Jake, você não deveria ter deixado que Megan saísse do acampamento. – disse ele. – Mas... Se vocês de fato conseguirem pegar o Velocino...

– Yeah, baby! – berrou alguém. – Iuuhuuuuu!

- Cala a boca, Jake! – falei.

- Não fui eu dessa vez... – resmungou ele.

O volume da música aumentou, os subwoofers ficaram tão altos fizeram o bote vibrar.

–... Miami – gritava Quíron. – Vou tentar ficar atento...

Nossa tela de névoa se despedaçou como se alguém do outro lado tivesse atirado uma garrafa contra ela, e Quíron se foi.

Uma hora depois, avistamos terra – uma longa extensão de praia com edifícios altos de hotéis. A água se tornou abarrotada de barcos de pesca e petroleiros. Uma lancha da guarda costeira passou a estibordo, depois virou como se quisesse dar uma segunda olhada.

Acho que não são todos os dias que eles veem um bote salva-vidas amarelo sem motor navegando a cem quilômetros por hora, tripulado por três crianças.

– Aquela é Virgínia Beach! – gritou Jake. — Como o Princesa Andrômeda chegou tão longe em uma noite? São cerca de...

– Quinhentas e trinta milhas náuticas exatas! – disse eu como se não acreditasse.

Jake me olhou estranhamente.

- Como raios você sabe disso?!

- Eu não sei... – falei. – Ou sei?

Ele parou para pensar um segundo.

- Megan... Onde estamos agora?

– Trinta e seis graus e 44 minutos Norte, 76 graus e 2 minutos Oeste. – respondi. Depois sacudi a cabeça. – Como deuses eu sei disso?

- Seu pai! – exclamou ele. — Quando você está no mar, tem um senso de orientação perfeito. Isso é muito legal.

- Não sei... – falei. – Não estou a fim de ser um GPS humano.

- Fique tranquila, isso é demais. – falou ele.

Tyler bateu nas minhas costas antes que eu pudesse responder.

– Outro barco vem vindo.

Olhei para trás. O barco da guarda costeira sem dúvida estava agora atrás de nós. As luzes piscavam e ele ganhava velocidade.

- Não podem nos pegar... – disse.

– Continue na direção da baía de Chesapeake – disse Jake. – Sei de um lugar onde podemos nos esconder.

Não perguntei o que ele queria dizer. Afrouxei a tampa da garrafa térmica um pouco mais, e uma nova lufada de vento nos lançou como um foguete e contornamos a extremidade norte de Virgínia Beach e entramos na baía de Chesapeake. O barco da guarda costeira ficava cada vez mais para trás. Não reduzimos a velocidade até as margens da baía se estreitar dos dois lados, e percebi que estávamos adentrando o estuário de um rio.

Me senti de repente exausta e irritada, não sabia onde estávamos e nem para onde iríamos.

Mas Jake parecia saber...

– Ali – disse ele. – Depois daquele banco de areia.

Ordenei ao barco que desviasse e fosse à direção de um cipreste gigante. Atracamos ali. Árvores cobertas de trepadeiras cresciam acima de nós. Insetos faziam ruídos no mato. O ar estava quente e úmido, e o vapor subia do rio. A não era Manhattan, e eu não gostei.

- Melhor cobrirmos o bote. – disse Jake. – É só nos seguirmos a margem.

- O que? – perguntei.

- Apenas me sigam.

Depois de esconder o bote salva-vidas com galhos, Tyler e eu seguimos Jake ao longo da margem, os pés afundando na lama vermelha. Uma cobra deslizou perto do meu sapato e desapareceu no meio do capim.

- Não é um bom lugar... – disse Tyler matando mosquitos apenas tapeando o ar com sua mão enorme.

Jake disse depois de uns minutos:

- Aqui...

Tudo o que vi foi uma moita espinhenta. Então Jake empurrou para o lado um círculo de ramos entrelaçados, como uma porta, e percebi que estava olhando para um abrigo camuflado.

O lado de dentro era grande o suficiente para três, mesmo com terceiro sendo um jovem ciclope como Tyler.

As paredes eram feitas com partes de plantas, como uma cabana de nativos, mas pareciam ser bem à prova d’água. Empilhadas em um canto havia todas as coisas que a gente poderia querer em um acampamento – sacos de dormir, cobertores, uma geladeira portátil e um lampião a querosene. Havia também provisões para semideuses – ponteiras de bronze para dardos, uma aljava cheia de flechas, uma espada sobressalente e uma caixa de ambrosia. O lugar tinha cheiro de mofo, como se tivesse vazio havia muito tempo.

– Um esconderijo de meio-sangue. – Olhei para Jake, pasma. – Você construiu este lugar?

- Não exatamente... – disse ele – Eu e... Esquece.

- Me conte. – falei e ele me encarou tristemente.

- Prometi a Quiron que...

Encarei-o mais profundamente, Ele bufou.

- Droga. – resmungou então ele se jogou em cima dos cobertores e começou a revirar o saco de viagem.

Virei para o grandão.

- Tyler... – chamei. — Você se incomodaria em dar um volta lá fora? Tipo procurar uma loja de conveniência silvestre ou coisa assim?

– Loja de conveniência?

– Sim, para comprar lanches. Donuts polvilhados com açúcar ou sei lá. Só não vá muito longe. – falei.

– Donuts com açúcar – disse Tyler muito sério. – Vou procurar Donuts polvilhados com açúcar no mato!

- Obrigada. – falei.

Ele foi saindo e começou a chamar:

– Donuts! Aqui! Donuts!

Assim que o grandão se foi, me sentei em frente de Jake.

- No verão passado você me contou que havia chegado com dois irmãos no acampamento, uma garota e um garoto... – lembrei.

Ele me encarou.

- O que isso tem haver com...

- Vocês passaram por aqui não é? – perguntei – Você me disse que eu te lembrava dessa garota... Quem eram eles, Jake?

Ele não respondeu.

- Luke disse algo sobre sua maldição... – falei. – Que maldição?

- Megan... Por favor. – ele estava sério. – Não me pergunte nada sobre isso.

Ficamos um momento em silêncio. Balancei a cabeça confirmando e ele me deu um meio sorriso e voltou a mexer na sua sacola de viagens, Suspirou.

- Hey. – chamou ele. – Sinto muito por você ter visto Silena, ela esta diferente.

- A culpa não é sua... Não é? – falei meio abalada. – Temos... Sete dias para buscar Hansel.

- Afinal, o que aconteceu com ele de verdade? Como ele esta? – perguntou Jake.

Suspirei e deu uma risada desanimada.

- Ele vai se casar com um ciclope se não o resgatarmos logo. – falei.

- Sério? – Jake ergueu uma sobrancelha. – Aquele garoto-bode se mete em cada uma...

Ele tirou seu sabre do bolso e começou a limpá-lo com um trapo.

- Luke... Nos deixou escapar com muita facilidade não é? – disse ele.

- Estava pensando a mesma coisa. Aquilo que o ouvimos falar, sobre um jogo e que "eles vão morder a isca"... Acho que estava falando de nós... Mas o que será a isca? O Velocino ou Hansel? – respondi.

Ele estudou a lâmina do sabre.

– Não sei, Megan. Talvez ele queira o Velocino. Talvez espere que façamos o trabalho para depois roubá-lo de nós. Não consigo acreditar que ele fosse capaz de envenenar a árvore. – disse ele. – Não... Acredito sim, depois do último verão, deveríamos ter acreditado em Benjamin.

- É... – concordei, Olhei para a aljava cheia de flechas no canto.

- Ai! – gemeu Jake franzindo a testa, ele havia se cortado na ponta do dedo. – Droga...

Olhei mais atenta para o ferimento, mesmo que fosse um pequeno corte, escorria sangue toda vez que ele tentava limpar.

- Odeio quando isso acontece... – ele deu uma risada curta.

Mas eu estava muda.

“É... Sangue...” Lembrei no verão passado, quando eu fiquei estática quando o sangue de Peter tocava em mim... “Fresco e Vermelho...”.

Um flash me veio.

Dessa vez eu lembrava, vocês se lembram da Rachel? Aquela garota que eu deixei encharcada no banheiro do orfanato Mr. Dixon. Umas semanas antes daquilo ela havia acidentalmente cortado o dedo com uma faca, ao ver que o sangue me deixava nervosa, ela começou a correr atrás de mim com o dedo sangrento e...

- Megan? Você esta bem? – perguntou Jake.

Percebi que estava tremendo, o dedo de Jake estava limpo... Odeio quando isso acontece.

- S-Sim... – gaguejei. – Estou.

Ele sabia que eu estava mentindo, eu sei que eu minto mal... Aff... Mas mesmo assim, ele preferiu não discutir.

A porta da cabana se abriu com um rangido. Tyler se arrastou para dentro.

- Donuts com açúcar! – exclamou ele orgulhoso, mostrando uma caixa de doces.

Olhei para ele estranhamente.

- Onde achou Donuts no meio do mato? Não há nada num raio de...

- Quinze Metros. – disse ele. — – Uma loja Donuts Monstro, logo depois da colina.

Jake me encarou.

- Isso é ruim.

- Donuts? – perguntei.

- Não... – disse ele me puxando para fora do esconderijo.

Seguimos Tyler, quinze metros depois da colina como ele havia dito. A loja de donuts estava no meio do mato. Parecia nova em folha, com janelas iluminadas, uma área de estacionamento e uma estradinha conduzindo para dentro da floresta, mas não havia mais nada em volta, nenhum carro estacionado. Conseguimos ver um empregado que lia uma revista atrás da caixa registradora. E era tudo. Sobre marquise da loja, em enormes letras pretas que até eu consegui ler, estava escrito: DONUTS MONSTRO.

Um ogro de desenho animado estava dando uma mordida no O de MONSTRO. O lugar cheirava bem, como donuts de chocolate fresquinhos.

Estávamos agachados atrás de uma árvore, olhando para a loja.

– Isso não deveria estar aqui – sussurrou Jake. – Está errado... Muito errado.

- O que está errado? – sussurrei de volta. – E porque estamos sussurrando? É uma loja de Donuts comum.

Jake me encarou. Ri nervosa.

– Ora, vamos, Jake. Donuts Monstro não quer dizer monstros. É uma rede. Nós temos em Nova York. – falei.

– Uma rede – concordou. – Não acha estranho que uma loja dessas tenha aparecido depois de você mandar Tyler comprar donuts? Bem aqui, no meio do mato?

De fato parecia meio estranho, mas, quer dizer, lojas de donuts realmente não estavam no topo da minha lista de poderes e forças sinistras... Eu realmente não sabia porque Jake estava tão...

– Pode ser um ninho... – disse Jake.

Tyler choramingava. Duvido que ele tenha entendido o que Jake estava dizendo muito melhor do que eu, mas o tom dele o deixava nervoso. Ele havia avançado em meia dúzia de donuts da caixa e estava com açúcar polvilhado na cara inteira.

- Jake, você esta assustando Tyler. – disse ele. – Tem como ser mais direto, por favor?

– Você já se perguntou como essas lojas de franquia surgem tão depressa? – perguntou ele. – Um dia não existe nada, e então, no dia seguinte... Bow! surge uma nova casa de hambúrgueres ou uma cafeteria, ou o que for. Primeiro uma única loja, depois duas, depois quatro... Réplicas exatas se espalhando por todo o país.

(Lay: Gente... Vocês já viram um Mc Donald’s sendo construído por acaso?)

- Nunca pensei nisso... – admiti.

- Algumas redes se multiplicam tão depressa porque todos os seus pontos estão magicamente ligados à força vital de um... Monstro... – ele pareceu paralisado por um momento. (Tipo estatua de Medusa...).

– Não... Se... Mexa... – disse ele bem baixo e devagar. — Muito devagar, dê meia-volta... Lentamente...

Então eu ouvi: o barulho de algo raspando, como se algo grande se arrastasse de barriga pelas folhas. Virei-me e vi uma coisa do tamanho de um rinoceronte se movendo pelas sombras das árvores. Estava sibilando, a metade da frente se retorcendo em todas as direções.

De início não consegui entender o que era. Então percebi que a coisa tinha múltiplos pescoços – pelo menos sete, cada um com uma cabeça de réptil, sibilando. A pele era coriácea, e os pescoços usavam babadores nos quais estava escrito: EU SOU UMA CRIANÇA MONSTER DONUTS!

- H-Hidra... – gaguejei.

Já havia encontrado um bicho daquele antes, foi tipo... O Terceiro monstro que enfrentei, mas ele tinha menos cabeças, pelo o que eu sabia, não deveria cortar a cabeça de nenhum deles se não cresceria outra no lugar e outro detalhe que eu tinha esquecido... A DO MEIO COSPE FOGO!

Tirei do bolso minha caneta esferográfica. Muitos monstros têm péssima visão. Era possível que a Hidra passasse por nós sem nos notar. Mas, se eu destampasse minha espada, o brilho do bronze certamente chamaria sua atenção. Nós esperamos. A Hidra estava a apenas alguns metros. Parecia farejar a terra e as árvores como se estivesse caçando alguma coisa. Então notei que duas das cabeças estavam dilacerando um pedaço de lona amarela – um dos nossos sacos de viagem. A coisa já estivera nosso acampamento...

Mal...

Estava seguindo nosso cheiro. Meu coração bateu forte. Eu já tinha visto uma cabeça de Hidra empalhada como troféu no acampamento e já tinha visto uma hidra antes, mas a sensação de que eu ainda não estava preparada para a coisa real, nunca... Passava.

Tyler estava tremendo. Ele recuou um passo e sem querer quebrou um graveto. Imediatamente, as sete cabeças se viraram para nós e sibilaram.

- Se espalhem! – gritou Jake.

Ela mergulhou para a direita. Eu rolei para a esquerda. A cabeça do meio cuspiu um arco de líquido verde que passou rente ao meu ombro e atingiu o tronco de um olmo. E este se desintegrou... Pior que fogo, tá... Só que não. A árvore inteira tombou na direção de Tyler, que ainda não tinha se movido, petrificado pelo monstro que agora estava bem na frente dele.

- Tyler! – o empurrei para o lado com toda a força antes que mais uma rajada o atingisse.

A Hidra investia e a árvore desmoronava em cima de duas de suas cabeças. A Hidra cambaleou para trás, puxando violentamente as duas cabeças e soltando-as, e depois urrando indignada para a árvore caída. Todas as sete cabeças lançaram ácido, e o olmo se derreteu em uma poça fumegante de imundície.

- Se mexa! – falei para Tyler.

Corri para o canto e destampei Anaklusmos, não podia cortar a cabeça, mas eu podia atingir o corpo... Mas como?!

Assim que minha lâmina reluzente apareceu, a Hidra moveu todas as cabeças como chicotes na direção dela, sibilando e mostrando os dentes. A boa notícia: Tyler por enquanto estava fora de perigo. A má notícia: eu estava prestes a ser derretida em uma poça de líquido pegajoso. Uma das cabeças tentou me abocanhar. Não pensei antes de erguer a espada.

- Não! – gritou Jake.

Não tinha mais o que fazer, eu não queria mirar na cabeça, na verdade eu queria mirar no corpo, mesmo assim eu acabei cortando a cabeça... É, “Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar”... Cabeças de Hidras também não.

- Megan... Você acaba de criar uma nova loja de Donuts Monstro em algum lugar do mundo! – exclamou Jake.

Rolei.

- Ah é? E estou prestes a virar acido, e você tá preocupado com isso?! – exclamei.

– Precisamos de fogo! – exclamou ele.

Recuei em direção ao rio. A Hidra me seguiu. Jake ficou à minha esquerda e tentou distrair uma das cabeças, duelando com seus dentes com o sabre, mas outra cabeça se moveu para um lado e, como um porrete, derrubou-o na gosma.

- Droga... – o ouvi resmungar.

– Não pode bater nos meus amigos!

Tyler investiu, interpondo-se entre a Hidra e Jake, Tyson começou a socar as cabeças do monstro tão depressa que me lembrou dum jogo de fliperama. Mas nem mesmo Tyler poderia combater a Hidra para sempre.

Continuamos recuando centímetro a centímetro, desviando-nos dos jatos de ácido e nos esquivando das cabeças que tentavam nos morder sem decepá-las, mas eu sabia que estávamos apenas adiando nossa morte. No final, acabaríamos cometendo um erro, um passo em falso, e a coisa nos mataria.

Então ouvi um som estranho – um chug-chug-chug que de início achei que fosse meu coração. Era tão potente que sacudiu a margem do rio.

– Máquina a vapor – disse Tyler.

- O que!? – exclamei.

Eu me esquivei enquanto a Hidra cuspia ácido por cima da minha cabeça. Então, do rio atrás de nós, uma voz feminina familiar gritou:

– Ali! Preparem o canhão de dez quilos!

Não ousei desviar os olhos da Hidra, mas se quem estava atrás de nós era quem eu pensava, calculei que agora tínhamos inimigos em duas frentes. Uma voz masculina áspera disse:

– Eles estão muito perto, milady!

– Danem-se os heróis! – disse a garota. – Em frente a todo o vapor!

– Sim, milady.

– Dispare à vontade, capitão!

Jake rapidamente entendeu o que estava acontecendo uma fração de segundos antes de mim, Então ele berrou.

- No Chão! – não sei como ele me alcançou, mas ele me derrubou no chão.

Tyler fez o mesmo.

E nós mergulhamos quando um BUUUM ensurdecedor ecoou, vindo do rio. Houve um clarão, uma coluna de fumaça, e a Hidra explodiu bem na nossa frente, fazendo chover um muco verde repugnante que se vaporizou assim que nos atingiu.

– Tripa de monstro. – torci o nariz.

Jake tossia por causa da nuvem de fumaça de pólvora que rolava das margens do rio. Assim como eu...

– Navio a vapor! – berrou Tyler.

Avançando pelo rio na nossa direção estava o navio mais estranho que eu já vi.

Navegava baixo, o convés revestido com ferro. No meio havia uma casamata na forma de trapézio, com aberturas laterais para canhões. Uma bandeira oscilava no topo – um javali selvagem e uma lança em um campo vermelho-sangue.

Enfileirados no convés havia zumbis de uniformes cinzentos – soldados mortos com feições tremeluzentes que escondiam o crânio apenas em parte. O navio era um encouraçado. Um cruzador da Guerra Civil. Mal pude distinguir o nome na proa em letras cobertas de musgo: Navio Confederado.

- Perdedores Forasteiros... – exclamou a garota, estremeci ao reconhecer a voz. – Mas acho que precisamos salva-los...

Então ali, diante de nos estava, a filha de ares. Clarisse La Rue.

Notas finais
...Agora sua vida esta em jogo para cumpri-la..."