Notas iniciais
Adorei esse!! Aki vai.

O Vingança da Rainha Ana respondia ao meu comando, como se fosse parte do meu corpo, avançamos nas ondas a uma velocidade que estimei em cerca de dez nós. Eu até entendia perfeitamente como aquilo era rápido. Para um navio à vela, extremamente veloz.


Estava tudo indo bem, até o ponto em que a falta de Tyler bateu em mim, e o quanto eu estava preocupada com Hansel. Não conseguia me recuperar da tremenda trapalhada que tinha feito na ilha de Circe. O lado bom de tudo isso é a mecha azul que ganhei no meu cabelo, ficou mesmo super legal... Mas isso não importa.

Navegamos noite adentro. Eu mantinha vigilância, Jake tentou protestar, mas navegar aquele navio não era realmente o forte dele. Avistei monstros mais de uma vez. Um jorro de água alto como um arranha-céu foi cuspido à luz da lua. Uma fileira de saliências verdes e pontudas serpenteou nas ondas – algo com talvez trinta metros de comprimento, mas eu não queria saber o que era. Uma vez vi nereidas, os espíritos femininos do mar. Tentei acenar, mas elas desapareceram nas profundezas e fiquei sem saber se tinham ou não me visto.

Estávamos passando por uma ilha vulcânica fumegante. Na costa, o mar borbulhava e o vapor subia. Desviei daquele lugar, A Voz de Jake me fez pular.

– As Forjas de Hefesto. — disse ele. — Fez bem em passar longe.

Navegamos afastados da ilha, que logo era apenas uma mancha vermelha de neblina atrás de nós.

– Sim... — falei. — Jake, a história que você me contou da sua vida... Aqueles irmãos da sua história.

– O que tem eles? — ele embrusqueceu.

– Se eu lhe fizer uma pergunta... — me segurei a amurada do navio. — Vai me responder?

Ele repetiu o gesto e olhou para o mar que refletia o céu estrelado.

– Talvez... Depende, se eu lhe fizer outra, ai ficaremos certo. — disse ele.

Pensei bem antes de falar, coisa que não costumo fazer.

– Aquela garota da sua história... — lembrei. — Sou eu?

Ele ficou em silêncio de repente muito interessado no que poderia haver na água, além daquilo. Jake parecia meio vermelho e ao mesmo tempo, verde.

– Por favor, isso pode me ajudar muito. — falei.

– É... — ele abriu a boca. — Você merece saber.

Ele se virou para mim.

– Aquela garota é você, e o garoto é Percy Jackson, aquele que vimos no Mundo Inferior no verão passado. — disse ele.

O Vento nos meus ouvidos era o único som vivo.

– Você... Sabia. — falei. — Por que não me contou?

Ele pareceu pensar na resposta que não tinha.

– Eu...

– Quiron. — sugeri. — Prometeu a ele que nada falaria?

– Não fique brava...

– Não ficar brava!? — exclamei. — Jake sabe quantos anos eu passei sem saber nada da minha vida? Você sabe como é perder uma parte sua?

Ele suspirou.

– Não, Não sei. — respondeu. — Mas eu te contei o que queria, minha vez de perguntar.

– Mas... Isso significa que é verdade mesmo, posso ter certeza... — murmurei. — Percy Jackson é meu irmão, mas ele é meu irmão apenas do chalé 3 ou...

– Megan, por favor... — começou ele, Jake parecia que queria morrer.

Suspirei, mesmo assim, eu podia ouvi meu coração martelando e minhas mãos suando, o ar fugira dos meus pulmões, senti que eu ia desmoronar, tudo sumiu e flashes de Percy nas garras do deus da morte no mundo inferior me vieram a mente. Me veio a mente que se eu sou a garota da história de Jake... Significa que...

– Nos competíamos muito quando eramos menores. — disse ele. — Adaga contra adaga, você não era muito boa com armas na época, acho que Anaklusmos é a unica para você, naquela época você era a unica que queria lutar comigo... Dizia que se pudesse vencer um filho do deus da guerra, poderia fazer qualquer coisa. Eu nunca soube da mãe de Percy, mas um dia eu encontrei com você e ele, e viviamos aventuras... Sempre Juntos.

Ele olhava para a frente, como se estivesse perdido em lembranças, me senti terrível por não me lembrar e dizer "Bons tempos...".

– Uma noite, Percy voltara de uma missão em que tinha ido com Annabeth Chase, a irmã de Benjamin, se puder, não comente sobre isso com ele. — continuou. — Combinado?

Assenti.

– Bem, Grover voltou com Percy, naquela época Hades estava atrás de você, as vezes eu ouvia você perguntando sobre sua mãe para Percy, foram meses e meses com as mesmas perguntas e as mesmas respostas que nada levavam. — disse Jake ainda sem olhar para mim. — Um dia, Annabeth levou você para um chalé na praia de Montauk, Annabeth lutava para te proteger, já que essa era a missão, o Chalé pegou fogo e Percy não conseguiu salvar vocês duas, o minotauro estava perseguindo vocês... Grover que nos avisou.

Eu não posso dizer que eu fiquei legal com aquilo tudo, era uma bomba, ou... Uma bola de boliche que eu deveria ter carregado esse tempo todo, eu chorava em silêncio, não iria interromper Jake, eu queria saber mais...

– O Minotauro levou Percy e os deuses lhe tiraram a memoria, eu observei tudo, um garotinho desarmado e medroso... — contava. — ... Me culpei por isso, depois, pensei que ter coragem era uma coisa estúpida.

Silêncio, meus olhos estavam cheios de água, Observava a constelação de Hércules no céu. Ao lado de Hércules estava ela, a Estrela Megan. Fiquei pensando na história, mesmo que Jake contasse, era estranho que alguém lhe contasse a sua vida quando você deveria saber dela.

– Desculpe. — disse Jake. — Eu não pude... Salva-lo.

Não respondi, a verdade era que eu não culpava Jake pela captura de Percy, mas ainda me perguntava aonde estava o garoto de olhos verdes. Deixei isso para lá... Quase.

– Eu... — achei minha voz. — Vou deitar um pouco...

Dei as costas e comecei a andar na direção do convés, me virei.

– Jake...

Ele se virou para mim, não sei o que ele esperava, mas o que eu disse a seguir deve tê-lo surpreendido.

– Obrigada.


Naquela noite, eu não sonhei com Hansel. Em vez disso, estava de volta ao camarote de Luke a bordo do Princesa Andrômeda. As cortinas estavam abertas. Do lado de fora era noite. Sombras giravam no ar. Vozes sussurravam à minha volta – espíritos dos mortos.


Cuidado, elas sussurravam. Armadilhas. Ardis.

O sarcófago de ouro de Cronos brilhava discretamente – a única fonte de luz no recinto. Um riso frio me assustou. Parecia vir de quilômetros abaixo do navio.

Você não tem coragem, jovenzinha. Não pode me deter.

Eu sabia o que tinha de fazer. Precisava abrir aquele caixão de vez! Destampei Anaklusmos. Fantasmas esvoaçavam à minha volta como um tornado. Cuidado!Meu coração batia forte. Eu não conseguia obrigar meus pés a se mexer, mas tinha de deter Cronos. Precisava destruir o que quer que estivesse naquela caixa.

Uma voz de menina ao meu lado me deteve.

– E então, Cabeça de Alga?

Eu poderia pensar que era Jake, mas Jake não era menina. A Garota usava roupas estilo punk com correntes de prata nos pulsos. Tinha cabelo preto espetado, delineador escuro em volta dos olhos azuis tempestuosos e sardas espalhadas no nariz. Parecia conhecida, mas eu não sabia muito bem por quê.

– E então? – perguntou a voz da garota ecoando. – Você vai detê-lo ou não?

Eu não conseguia responder. Não conseguia me mexer. A menina revirou os olhos.

– Ótimo. Deixe comigo e Aegis.

Ela tocou seu pulso e as correntes de prata se transformaram – achatando-se e se expandindo em um enorme escudo. Era de prata e bronze, com a cara monstruosa da Medusa se projetando do centro. Parecia uma máscara mortuária.Eu não sabia se aquilo era de verdade ou se o escudo podia de fato me transformar em pedra, mas desviei o olhar.

Tive a sensação de que derrotar o portador daquele escudo seria quase impossível. Qualquer inimigo daria meia-volta e sairia correndo chamando a mamãe. A menina puxou sua espada e avançou para o sarcófago. Os fantasmas escuros se separaram para deixá-la passar, espalhando-se frente à terrível aura de seu escudo.

– Não... Espere! – tentei adverti-la.

Mas ela não me ouvia. Andou na direção do sarcófago e empurrou a tampa dourada. Por um momento ficou ali paralisada, olhando para dentro da caixa.

O caixão começou a brilhar em uma luz dourada.

– Não. – A voz da menina tremia. – Não... Pode ser...

Das profundezas do oceano, Cronos riu tão alto que fez tremer o navio inteiro, eu cambaleei e cai.

– NÃO! — a menina gritou.

O sarcófago a engoliu em uma explosão de luz dourada.

Acordei em um grito. Sentei na rede em um salto.

Jake estava de frente para mim sacudindo o meu ombro.

– Calma... O Pior esta por vir. — tranquilizador ele, não?

– O que... o que foi? – esfreguei os olhos. – O que aconteceu?

– Terra. — disse ele. — Estamos perto da ilha das sereias.

O Sol batia fortemente na minha face.

– E dai? — gemi.

Jake revirou os olhos.

– Lembra do conto das sereias? — perguntou.

– Não lembro nem do último monstro que matei... — falei.

– Elas cantam modo tão encantador que sua voz enfeitiçava os marinheiros e os seduz para a morte. Ficaremos loucos se não nos precaver. — disse ele.

– Podemos simplesmente tapar os ouvidos. Há um grande barril de cera de vela no convés de baixo...

– Dizem que as sereias cantam a verdade sobre o que a gente deseja. Contam coisas a seu respeito que nem você mesmo percebe. Eu não estou nem um pouco empolgado para saber como é, e você também não deve estar.

Bocejei.

– E por que eu estaria? — perguntei. — Espera! Que história é essa de coisas que nem nos sabemos?

– Desista, Megan!

– Estou brincando. Seu chato.

Ele virou a rede e eu cai com um "Ai!" até ameaçaria mata-lo, mas sabemos que eu não faria isso, depois, nos encontrávamos no convés abaixo, pegamos duas grandes bolas de cera e amassamos até que estivessem no formato de tampões, seguimos navegando.

Ordenei ao O Vingaça da Rainha Ana que contornasse a ilha das sereias, não haveria outro jeito, eu não estava muito tranquila com correr o risco de nadar para a morte, mas quantas vezes eu já não fiz isso? Encorajei o Vingança da Rainha Ana a ir mais depressa. Eu ainda não conseguia ver a ilha muito bem – apenas nevoeiro e rochas – mas flutuando na água havia pedaços de madeira e fibra de vidro, destroços de velhos navios, e até alguns assentos flutuantes de aviões.

Como a música podia desviar tantas vidas de seu curso? Quer dizer, com certeza havia algumas canções entre as mais tocadas que me faziam querer mergulhar nas chamas em queda livre, mas ainda assim... Sobre o que as sereias deviam cantar?

Tive uma curiosidade tão grande que era difícil não tirar os tampões de ouvido, Eu ouvia um murmuro nos meus ouvidos, talvez eu acho que não devo tê-los colocado muito bem pois eu andava na direção da amurada, eu não controlada os meus pés, os múrmuros me ordenavam a tirar os tampões para ouvir aquela bela voz...

Era como seda, eu estava descontrolada, andando para a morte, narrando, eu pareço completamente ciente do que estava fazendo, mas a verdade, era que eu não ligava.

Como se luta contra uma canção? Eu queria lutar? não me importei, no minuto seguinte ouvi Jake, mas eu já estava na direção da voz, no mar.

Estava hipnotizada, nadando rumo à morte. Eu sabia, era tão puro e sincero, mesmo assim, eu não ligava, eu queria ouvir aquela canção e nada iria me impedir.

Eu ordenei que a correnteza contornasse meu corpo, num fluxo que me atirou para a frente, Tive de usar todo o meu poder sobre as águas para evitar que fosse esmagado contra as rochas ou preso nas redes de arame farpado esticadas logo abaixo da superfície... Eu iria ouvir, nada importava.

Atirei-me entre as duas presas de pedra e me vi em uma baía em forma de meia-lua. A água estava atulhada de mais rochas, destroços de navios e minas flutuantes.

Conseguira passar pelas minas e pelas rochas. Estava quase na praia negra. Então o nevoeiro se espalhou e eu as vi as sereias.

Imagine um bando de abutres do tamanho de pessoas – com plumagem preta enlameada, garras cinzentas e pescoço rosado e enrugado. Agora imagine cabeças humanas em cima desses pescoços, mas as cabeças humanas ficavam mudando. Agora imagine a voz mais bonita que você já ouviu, Enquanto as bocas se moviam, os rostos se transformavam nos de pessoas que eu conhecia...– Tyler, Poseidon, Silena, Benjamin, Quiron, Hansel...

Todas as pessoas que eu mais queria ver. Elas sorriam de modo tranquilizador, convidando-me a prosseguir. E eu fazia exatamente isso.

Entro em pânico quando alguma coisa agarra o meu pé, olho para trás e vejo Jake tentando me puxar pelo tornozelo, então o ignoro tentando chuta-lo e me inclinando para frente.

As sereias sumirão, agora eu via uma cena. Eu via Poseidon e uma mulher de cabelos castanhos e olhos esmeralda, eu estava sentada ao lado deles em uma toalha de piquenique, a imagem era de uma garotinha de dez anos, mas era eu. E ao lado dela estava uma garota de cabelos vermelhos meio rosados, Silena com a mesma idade.

Percy também estava lá, mas ele tinha quatorze anos e vinha na nossa direção ao lado de Jake que também tinha dez anos... Depois ao longo eu podia ver duas criaturas se distanciando juntas... Um Cavalo e um Javali.

Fui bruscamente puxada para trás por Jake, eu tentava ir de volta para a lembrança que realmente nunca aconteceu, mas Jake destruirá tudo...

Jake me abraçava debaixo da água tentando me acalmar, mas eu tentava o chutar, finalmente a musica parou, parei de me debater, Jake afastou um pouco, ele iria desmaiar, me pergunto como ele conseguiu aguentar tanto tempo sem respirar.

Afundamos, eu estava confusa sem motivos. Então a musica voltou e eu comecei a lutar de novo, mas Jake resistia, porque ele não queria me deixar ir? Eu tinha que ir! Mas ele me agarrou pela cintura.

Mergulhamos nas profundezas – três metros, seis metros. Jake não aguentaria tanta pressão por mais que ele nadasse bem, ele iria morrer e eu estaria livre...

Jake me puxava mais para baixo, mais para longe do meu objetivo, então ele segurou os meus braços e com a mão livre, tirou os tampões de ouvido, colocando-os nos meus ouvidos.

Por que ele estava fazendo isso comigo?

Bati a cabeça em alguma pedra, estava mais confusa ainda, então lembrei das sereias e o seu encanto, droga! O que eu estava fazendo ali? Jake arregalou os olhos e começou a nadar na direção das monstruosas criaturas, ordenei a corrente que trouxesse ele de volta, segurei Jake com uma mão, ele não ia aguentar muito e eu não tinha tempo de chegar até a superfície.

Ele lutou e se debateu para respirar enquanto bolhas subiam à nossa volta.

Bolhas!

Eu entrei em pânico, tinha que manter Jake vivo. Imaginei todas as bolhas do mar – sempre se agitando, subindo. Imaginei-as se juntando, sendo empurradas até mim. O mar obedeceu. Houve um turbilhão de branco, uma sensação de cócegas, e quando minha visão clareou Jake e eu tínhamos uma enorme bolha de ar ao nosso redor.

Ele engasgou e tossiu. Seu corpo todo estremeceu, mas quando ele me olhou soube que o encantamento tinha sido quebrado. Devolvi os tampões de ouvido.

– Desculpe... — murmurei.

– Não foi sua culpa. — disse ele.

Mas não me importava, aquilo foi a pior coisa pela qual já tinha passado, depois de é claro, ter entrado e saído do mundo inferior. Solucei contra a vontade, aquela lembrança, aquela cena de família, me fez sentir sozinha, sem pensar encostei a cabeça no ombro de Jake, ele por um momento não fez nada, depois me abraçou.

Os peixes se juntaram para nos olhar – um cardume de barracudas, alguns espadartes curiosos. Ignorei.

Eles se afastaram, mas pude perceber que saíram relutantes. Juro que entendi as intenções deles. Estavam prestes a espalhar boatos pelo mar sobre a filha de Poseidon e um garoto no fundo da baía das sereias.

– Vamos retornar ao navio. — disse ele.

Assenti. Ordenei a bolha que nos levasse para a superfície.

Fiz a corrente manobrar nosso pequeno e estranho submarino de ar por entre as rochas e o arame farpado, e de volta para o casco do Vingança da Rainha Ana, que mantinha o curso lento e estável, fugindo do alcance da voz das sereias. Então subi para a superfície e nossa bolha de ar se desfez. Ordenei que uma escada de corda descesse por cima do costado do navio, e subimos a bordo.

A tarde estava silenciosa, a não ser pelo som das ondas batendo no casco. O nevoeiro desfizera e o céu estava azul, como se a ilha das sereias nunca tivesse existido.

– Você esta bem? — perguntou ele.

– Acho que sim. — múrmurei.

– Eu vi o que elas te mostraram. — disse ele, senti meu rosto esquentar. — Não fique envergonhada.

Fiquei envergonhada.

– Na próxima vez vou colocar os tampões mais forte, tá? — falei.

– Rezaremos para que não tenha uma próxima vez. — disse Jake.

Silêncio.

Pensei no sonho com a menina e o sarcófago dourado. Não sabia muito bem o que significava, mas tive a sensação de que estava deixando alguma coisa passar. Alguma coisa terrível que Cronos planejava. O que a menina tinha visto quando abriu a tampa do caixão?

– Ah... Megan? — chamou Jake e eu olhei para frente.

havia uma outra mancha de terra – uma ilha em forma de seta com colinas cobertas de florestas, praias de areia branca e campinas verdes – exatamente como eu tinha visto em meus sonhos.

30 graus e 31 minutos Norte, 75 graus e 12 minutos Oeste.

Estavamos na cova de Polifemo.



Notas finais
Como fui?