Notas iniciais
"Coragem pra encarar, coragem pra viver,
coragem pra lutar, é nossa formula de ser"
- A Banca (Novo Passo.)

A cada passo que dávamos na direção da cela, os soluços ficavam mais altos, era um som agoniante de se ouvir. Quando eu vi a criatura lá dentro, não tive muita certeza do que eu vi. Ele era do tamanho de um homem normal, com sua pele cor de leite puro, olhos castanhos brilhando com lágrimas que teimavam cair, não sei o que você pensa quando eu digo olhar castanhos, mas eu não quis dizer somente a íris, mas completamente castanhos. Ele usava uma tanga como uma grande fralda. Seus pés pareciam muito grandes para o seu corpo, com unhas rachadas e sujas, oito dedos em cada pé. Mas o que mais me chamou a atenção era a sua parte superior, Ele fazia Jano parecer completamente normal.

Do seu tórax brotavam mais braços do que eu podia contar, em fileiras, por toda a volta do seu corpo. Os braços pareciam braços normais, mas havia tantos deles, todos emaranhados juntos, de forma que seu peito parecia uma garfada de espaguete que alguém havia enrolado. Várias de suas mãos estavam cobrindo seu rosto enquanto ele soluçava.

– Acho que o céu não é tão alto como costumava ser... — murmurei.

Mesmo assim, Tyler olhou encantado para a criatura.Ele caiu de joelhos.

- Briareu! – ele chamou se animando esquecendo até da perturbadora cena de Campe.

O soluçar parou.

– Grandioso centímano! – disse Tyler. – Ajude-nos!

Enquanto isso Hansel olhava para os lados como se o monstro pudesse voltar a qualquer momento.

Briareu olhou para cima. Seu rosto era comprido e triste, com um nariz torto e dentes estragados. Agora eu podia ver melhor seus olhos, poderiam ser assustadores se não estivessem tão tristes, como olhos formados do barro.

– Corra enquanto ainda tem tempo, Ciclope – disse Briareu. – Eu não posso nem mesmo me ajudar.

- Esta brincando? Você é um centímano! — exclamou Tyler. — Você pode fazer o que quiser!

Briareu limpou o nariz com cinco ou seis mãos. Várias outras estavam mexendo com pequenos pedaços de metal e madeira de uma cama quebrada, do jeito que Tyler sempre brincava com partes sobressalentes.

Era incrível de assistir. As mãos pareciam ter uma mente própria. Elas construíram um barco de brinquedo com a madeira, então o desmontaram tão rápido quanto. Outras mãos estavam arranhando o chão de cimento sem razão aparente. Outras estavam jogando pedra, papel, tesoura. Algumas outras estavam fazendo marionetes de cãezinhos e patinhos nas sombras contra a parede.

- Megan... — Jake chamou. — Pare de olhar.

Mas eu não conseguia, era tão... Incomum.

- Campe esta de volta. — disse o centímano. — Os Titãs ressurgirão e nos atirarão no Tártaro. Não temos chances.

- Coloque sua cara corajosa! — insistiu Tyler.

Imediatamente o rosto de Briareu se transformou em outra coisa. Os mesmos olhos castanhos, mas de outra forma feições totalmente diferentes. Ele tinha um nariz arrebitado, sobrancelhas arqueadas, e um sorriso estranho, como se ele estivesse tentando ser corajoso. Mas então seu rosto voltou para o que tinha sido antes.

- Eu... Eu não posso. — lamentou Briareu. — Minha cara assustada continua voltando.

- Uau! — eu nem disfarço... — Como você fez isso?!

- Não seja rude, Megan. — disse Jake. — Todos os centímanos têm cinquenta expressões diferentes.

- Deve ser complicado tirar uma foto pro anuário... — comentei.

Mas Tyler ainda estava completamente fascinado com o centímano.

- Você consegue Briareu! — insistiu Tyler — Nos vamos ajudar você! Mas... Pode autografar... Hum... Minha irmã para mim!?

Ele me puxou mais para frente.

- Ei! — eu protestei.

Briareu fungou.

- Você tem cem canetas?

- Galera? — Hansel interrompeu, sua voz estava vacilando ele mexia as mãos nervosamente. — Acho melhor irmos mais rápido, Campe vai nos sentir cedo ou tarde.

– Tyler! Quebre as barras. — falei.

- Sim! — disse Tyler com orgulho. — Briareu pode fazer isso! Ele é mais forte que os ciclopes! Vejam!

Briareu choramingou. Uma dúzia de mãos começou a jogar adoleta, mas nenhuma delas fez qualquer tentativa de romper as barras.

Jake bufou.

- Se ele é "Tão forte que pode partir montanhas", como é que esta preso em uma cela?

Dei uma cotovelada nele.

- Ele está apavorado! — falei. — Campe o aprisionou no Tártaro por milhares de anos. Como você se sentiria?

- Como vou saber! — Jake sensível como sempre... — Nunca estive lá...

O centímano cobriu seu rosto de novo.

– Briareu? – Tyler perguntou. – O que... o que está errado? Mostre-nos a sua grande força!

- Ah... Tyler. — falei. — Melhor você quebrar as barras.

O sorriso de Tyler se dissolveu.

- Certo. — disse ele. Ele agarrou a porta da cela e a arrancou das dobradiças como se fossem feitas de argila molhada.

- Vamos Briareu, vamos tirar você daqui. — falei.

Estendi minha mão para ele. Ele agarrou a porta da cela e a arrancou das dobradiças como se fossem feitas de argila molhada.

- N-Não posso. — gaguejou ele. — Ela me punira.

- Não se você não estiver aqui. — murmurou Jake.

– Você lutou contra os Titãs antes, e venceu, lembra!? — exclamei tentando anima-lo, qual é... É o ídolo do meu irmão! — Você pode!

- Eu lembro da guerra. — disse ele. Sua expressão mudou novamente, ergueu uma sobrancelha e fez beicinho. Sua face meditativa, acho. — O raio abalou o mundo. Nós jogamos muitas rochas. Os Titãs e os monstros quase ganharam. Agora eles estão ficando forte novamente. Campe disse que...

- Ah, manda ela ir catar coquinho na ilha de Polifemo. — falei perdendo a paciência. — Você é um centímano ou não? Tão alto quanto o céu e que pode partir montanhas? E aquela história toda?

Ele não se moveu.

- Megan... — a voz de Hansel era mais afinada agora e ele me cutucava no ombro como um alarme. Nós não tínhamos muito tempo antes que Campe voltasse. Mas eu não podia simplesmente deixá-lo aqui. Tyler iria chorar por semanas.

– Um jogo de pedra, papel, tesoura! – eu disse abruptamente. – Se eu ganhar, você vem conosco. Se eu perder, nós vamos deixar você na cela.

Jake me olhou como se eu fosse louca. Mas eu lhe lancei um olhar tipo sei-o-que-estou-fazendo. E ele pareceu entender.

O rosto do Briareu se transformou em duvidoso.

– Eu sempre ganho pedra, papel, tesoura.

– Só tem um jeito de saber. — eu disse.

Eu bati meu punho na palma de minha mão três vezes. Briareu fez o mesmo com todas as cem mãos, o que soou como um exército marchando três passos a frente. Ele veio com toda uma avalanche de rochas, um conjunto completo para sala de aula de tesouras, e papel suficiente para fazer uma frota de aviões.

- Vê? Eu disse... — disse ele, tristemente. — Eu sempre... — então sua expressão mudou para confusão. — O que é isso?

- Uma arma. — falei então eu dobrei o indicador e desdobrei logo em seguida dizendo: — Bang! Vê? Uma arma bate qualquer coisa.

Eu tinha aprendido esse truque com os irmãos Stoll, um dia eles estavam sem ideias novas para pegadinha e me chamaram para brincar de pedra, papel e tesoura, e eu aceitei — não pergunte porque... Nada pra fazer. — eles ficaram rindo como idiotas depois que fizeram isso comigo, nunca pensei que isso um dia fosse salvar uma vida.

- Isso não é justo!

- Eu não disse nada sobre justiça. — falei. — E Campe não vai ser nada justa quando nos vir aqui, ela vai lhe culpar por quebrar as barras. temos que nos apressar.

Briareu fungou.

– Semideuses são trapaceiros. – Mas ele se ergueu lentamente e nos seguiu para fora da cela.

- Por esse lado! — eu disse.

Comecei a sentir uma luz de esperança dentro de mim, tudo o que tínhamos que fazer era descer as escadas e achar a entrada de volta para o labirinto. Mas Tyler congelou.

Então eu vi, Campe rosnando para nós logo no fim das escadas.

- O Outro lado! — disse Jake me puxando.

Nós fugimos pelo passadiço. Desta vez Briareu ficou feliz em nos seguir. Na verdade ele correu na frente, uma centena de mãos se agitando em pânico total. Não muito diferente de Hansel que corria com seus tênis Converse na mão — como ele fazia quando precisava correr rápido. — enquanto ele corria logo atrás de Briareu ele gritava com sua voz afinada.

- AAAAAAAAAAAAAAAAH EU VOU MORRER! EU VOU MORRER! - enquanto dava pequenos saltinhos e tropeçava nos próprios cascos.

Eu, Jake e Tyler corríamos logo atrás.

Atrás de nós, eu ouvi o som das asas gigantes quando Campe ganhou o ar. Ela sibilou e rosnou na sua língua milenar, mas eu não precisava de uma tradução para saber que ela estava planejando nos matar. Nós corremos escada abaixo, através de um corredor, e passamos um posto de guarda – que saia em outro bloco de celas da prisão.

- Por aqui! — Jake nos guiou pela esquerda.

Nós irrompemos para fora e nos encontramos no pátio da prisão, cercado por torres de segurança e arame farpado. Depois de estar no subterrâneo por tanto tempo, a luz do dia quase me cegou. Turistas estavam andando em volta, tirando fotografias. O vento açoitava frio vindo da baía. No sul, São Francisco brilhava branca e linda, mas ao norte, sobre a montanha Tamalpais, gigantescas nuvens de tempestade se agitavam.

O céu todo parecia um cume negro rodopiando da montanha onde Atlas estava aprisionado, e onde o palácio do Titã no Monte Ótris estava se erguendo novamente.

Era difícil acreditar que os turistas não pudessem ver a tempestade sobrenatural se preparando, mas eles não deram nenhum indício de que algo estava errado.

- Isso é mal. — disse Jake, olhando para o norte. — Esta pior do que a última vez.

- Continue correndo! — gritou Briareu. — Ela esta atrás de nós!

Corremos para a parte mais afastada do pátio, o mais longe possível do bloco de celas.

– Campe é muito grande para passar pelas portas – eu disse esperançosa.

Então a parede explodiu.

- Acho que ela não gosta do modo tradicional... — comentou Hansel.

Turistas gritavam enquanto Campe surgia a partir da poeira e escombros, suas asas abertas tão amplamente quanto o pátio. Ela estava segurando duas espadas – longas cimitarras de bronze que brilhavam com uma estranha aura esverdeada, feixes de vapor em ebulição que cheirava azedo e quente mesmo do outro lado do pátio.

- CORRE A LAS COLINAS! — gritou um argentino.

– Veneno! - disse Jake. — Não deixe essas coisas tocarem em vocês, ou...

- Ou vamos secar lentamente até virar poeira? — sugeri.

- É... Tipo isso. — disse Jake.

– Vamos evitar as espadas... – decidi.

– Briareu, lute! – Tyler incentivou. – Cresça completamente!

Em vez disso, Briareu pareceu como se estivesse tentando encolher ainda mais. Ele parecia estar usando sua cara de pânico total.

Campe lampejou na nossa direção em suas pernas de dragão, centenas de cobras deslizando em torno de seu corpo. Por um segundo pensei em destampar Anaklusmos e enfrentá-la, mas meu coração foi parar na minha garganta.

Jake tirou as palavras da minha boca:

- Fujam!

Este foi o fim do debate. Não havia luta contra esta coisa. Corremos através do pátio da cadeia e para fora das portas da prisão, o monstro bem atrás nós. Mortais gritavam e corriam. Sirenes de emergência começaram a tocar.

Chegamos ao cais justo quando um barco de tour estava descarregando. O novo grupo de visitantes congelou quando nos viram correndo em sua direção, seguidos por uma multidão de turistas assustados, seguidos por... não sei o que eles viram através da Névoa, mas não deve ter sido bom.

- O barco, talvez? — sugeri.

– Voltar para o labirinto. Única chance. — disse Tyler.

- Temos que distraí-la. — disse Jake.

Tyler arrancou um poste metálico do chão.

- Eu distraio Campe.

Meu coração começou a acelerar, imagens de Morde-Costas atravessando o corpo de Percy, meu irmão mais velho, perturbaram minha mente. Jake me chamava, eu olhava para a multidão enlouquecida, eu não...

- Não! — puxei Tyler de volta com toda a força. — Não vou perder outro irmão.

- Esta tudo bem, irmã. — disse ele. — O veneno machuca os ciclopes. Muita dor. Mas não vai matar.

- Como pode saber?! — eu exclamei.

- Megan, não temos tempo! — Jake tentava me puxar, mas eu não ia largar Tyler tão fácil.

- Vá, irmã. Eu encontro você lá dentro. — disse ele.

Finalmente vacilei e o soltei, Jake me puxou me forçando a correr. Eu já quase perdi Tyler uma vez no Mar de Monstros, eu perdi Percy, eu não queria perde Tyler da mesma forma. Mas não havia tempo para discutir, e eu não tinha nenhuma ideia melhor.

Hansel pegara uma das mãos de Briareu e o puxara, corremos para os estandes de admissão enquanto Tyler rugiu, baixou o seu poste, e atacou Campe como um cavaleiro em combate.

- TYLER! — eu não segurei, eu berrei e quase fui na direção dele.

Jake me puxou de volta, ele segurou meu braço forte.

- Ele vai ficar bem se você ficar. — não me convenceu, mas eu não tinha escolha a não ser, ser puxada por ele.

Tyler pulou para trás enquanto o cabelo de Campe açoitava e sibilava, e as víboras em torno de suas pernas lançaram suas línguas em todas as direções. Um leão apareceu entre as faces meio-formadas da sua cintura e rugiu.

- Não... - eu murmurei.

- Confie nele. — continuava Jake.

Conforme corremos para os blocos de celas, a última coisa que vi foi Tyler erguer um estande de sorvetes Dippin’ Dots e arremessá-lo em Campe. Sorvete e veneno explodiram para todo lado, todas as pequenas serpentes no cabelo de Campe pontilhadas de tutti-frutti.

- Não posso fazer isso. — bufou Briareu.

Me voltei para o centímano, impaciente com sua falta de esperança e fé.

- Meu irmão mais novo esta arriscando a vida por sua causa, você vai fazer isso! — falei.

Quando alcançamos a porta do bloco de celas, ouvi um rugido zangado. Eu olhei para trás e vi Tyler correndo em direção a nós a toda velocidade, Campe atrás dele. Ela estava emplastada de sorvete e camisetas. Uma das cabeças de urso na cintura dela estava agora usando um par de óculos de plástico tortos de Alcatraz.

- Depressa! — Gritou Jake.

- Você não precisava dizer! — gritei de volta.

Nós finalmente encontramos a cela por onde havíamos entrado, mas a parede de trás estava completamente lisa – sem sinal de uma rocha ou algo do tipo.

- A Marca! Procurem! — disse Jake.

- Você não precisava dizer isso também... — eu disse.

- Ali! — apontou Hansel. Ele tocou um pequeno arranhão, e ele se tornou uma letra grega. A marca de Dédalo brilhou azul, e o muro de pedras se abriu.

Lento demais. Tyler estava vindo através do bloco de celas, as espadas de Campe golpeando atrás dele. Ela estava atrás dele, fatiando indiscriminadamente pelas celas e paredes de pedra.

Jake empurrou Briareu para o labirinto e em seguida Hansel.

- Megan! Rápido! — gritou Jake. — Vamos!

- Não sem Tyler, Cabeça de Javali! — eu disse e dei um passo a frente na direção de Tyler, não iria entrar antes dele. — TYLER!

Eu gritei com toda a força que tinha nos pulmões.

- VOCÊ CONSEGUE! — mas ele não conseguiria, Campe estava ganhando.

Ela levantou suas espadas. Eu precisava de uma distração – algo grande. Bati no meu relógio de pulso e ele se transformou em um escudo de bronze. Desesperadamente, eu o joguei no rosto do monstro.

O escudo a atingiu no rosto e ela vacilou apenas o suficiente para Tyler passar por mim e atravessar o labirinto. Eu estava bem atrás dele. Campe atacou, mas ela estava muito atrasada. A porta de pedra se fechou e sua magia nos selou.

Eu pude sentir todo o túnel estremecer com Campe esmurrando-o, rugindo furiosamente. Todavia nós não ficamos por perto para brincar de “toc, toc” com ela. Nós corremos para a escuridão, e pela primeira vez (e última) eu estava feliz por estar de volta ao labirinto.

Notas finais
Desculpa povo, fiz na correria T.T