Crônicas Do Olimpo - A Batalha Do Labirinto
25 A Fúria de Silena
Notas iniciais
Neste capítulo:
* Megan Vs Anteu
* Ethan Nakamura se vai...
* Conversa entre Megan e Daniel
* Ataque de ciumes de Jake
Haviam estrelinhas rondando minha cabeça, minha visão estava turva. A multidão berrava o nome de Anteu, uma voz gritava meu nome, meus amigos... Certo, eu tinha que ir logo com isso. Eu havia ido parar do outro lado da arena, mas a distância não era um problema para o gigante Anteu, já que ele era enorme...
Anteu investiu em mim novamente, dessa vez, por instinto, eu rolei por baixo de suas pernas, eu estava tremendo, fazia força para não soltar Anaklusmos então no momento seguinte apunhalei sua coxa por trás.
– Arrrrrrrgh!– praguejou Anteu em seguida me xingando de todos os palavrões que eu prefiro não comentar, mas haviam alguns que nem eram de meu conhecimento.
Onde deveria estar sangrando, havia um jorro de areia, como se eu tivesse quebrado o lado de uma ampulheta. Ela caiu no chão de terra, e a terra começou a rodear suas pernas, quase como um molde. Quando a terra caiu, a ferida havia desaparecido.
Encarei isso como o famoso: "Problemão".
Ele tentou me esmagar com o punho, mas eu rolei o mais rápido que pudo ainda surpresa com o que acontecera com a sua coxa. Anteu investia e eu desviava, a multidão gritava pelo o meu sangue.
– Lute meio-sangue! Prove-se filha do deus dos terremotos... — disse Anteu.
Desviei de mais um soco, uma parede de areia ergueu-se atrapalhando minha visão, mas duvido que isso fizesse parte dos planos de Anteu, como dizia-me Quiron: "O que um gigante deveria ter no cérebro, tem no tamanho."
Anteu ria de mim, me perseguindo como uma mosca que perturbava seu precioso sono. Até porque, mesmo Jake na maioria das vezes me zoando por ser tão... Magricela, isso até ajudava, pois me tornava mais leve e rápida.
– Esta com medo? Irmã... — ele socou o chão levantando outra nuvem de areia. — Vejo que esta tremendo...
Eu engoli um pouco de areia novamente. Anteu atacou.Por sorte eu tinha alguma experiência em lutar com gigantes.
– Estou tremendo... — falei me erguendo lentamente, qualquer um depois de tanto tempo correndo para lá e para cá ficaria cansado, mas eu não. — ... De ansiedade.
Desviei para o lado desta vez e golpeei embaixo de seu braço. A lâmina de Anaklusmos estava enterrada até o punho em suas costelas. Essa era a boa notícia. A má notícia foi que Anaklusmos foi puxada de minha mão quando o gigante se virou, e eu fui jogada através da arena, desarmada.
Anteu ria e a multidão gritava seu nome:
– Anteu! Anteu!
Eu me apoiei pelos cotovelos, havia um corte em minha testa, e meus olhos lacrimejavam por causa da areia.
Anteu gritou de dor. Esperei que ele se desintegrasse. Nenhum monstro jamais sobreviveu a um ataque direto da minha espada assim. A lâmina de bronze celestial tinha que ter destruído sua essência. Mas Anteu apalpou suas costelas, puxou a espada e jogou-a para trás. Mais areia jorrou da ferida, mas de novo a terra veio e a cobriu.
Areia envolvia seu corpo todo até os ombros. Assim que a terra caiu, Anteu estava bem novamente.
– Agora você vê porque eu nunca perco, semideusa! – grunhiu Anteu. – Venha cá e me deixe esmagá-la. Prometo que será rápido!
Anteu estava entre mim e minha espada. Eu estava desesperada, olhei para ambos os lados, e notei os olhos de Jake. Ele estava tentando me dizer algo. A mãe de Anteu era Gaia, a mãe terra, a deusa mais antiga de todas... Mas qual era a funcionalidade de eu saber disso?
Eu ergui minha mão e a limpei na minha calça, meu olho ardia muito, esfreguei meu olho com a mão, quem diria que um grão de areia incomodaria tanto... Então eu hesitei, meu olhar caiu em minha mãos e depois no chão, o que tinha no chão?
Areia.
O pai de Anteu podia ser Poseidon, mas Gaia o mantinha vivo. Eu não poderia feri-lo enquanto ele estivesse tocando a terra... Fazia sentido!... Eu acho, mas era apenas nisso que eu poderia apostar agora.
Eu me levantei cambaleando.
Eu tentei rodeá-lo, mas Anteu antecipou meus movimentos. Ele bloqueou meu caminho, rindo. Ele estava só brincando comigo agora. Ele tinha me encurralado. Eu olhei para as correntes que pendiam do teto, suspendendo as caveiras de seus oponentes. De repente tive uma ideia.
Eu fintei para o outro lado. Anteu me bloqueou. A multidão zombou e gritou para Anteu acabar comigo, mas ele estava se divertindo muito.
– Garotinha estúpida. — ele provocou. — Não é digna do deus do mar.
Senti minha caneta retornar ao meu bolso, mas Anteu não sabia disso. Ele ainda achava que Anaklusmos estava na terra atrás dele. Ele acharia que minha intenção era conseguir a espada. Não era muita vantagem, mas era a única estratégia de distração que eu tinha agora.
Eu investi para frente, abaixando-me para que ele pensasse que eu ia rolar por debaixo de suas pernas de novo. Enquanto ele estava parado, preparado para me pegar como uma bola, eu pulei o máximo que podia – chutando seu antebraço, subindo por seu ombro como se fosse uma rampa, pisando em sua cabeça. Ele fez o que se esperava.
Ele se endireitou indignado, e como previsto gritou: “Ei!”
Eu pulei, usando a sua força para me catapultar na direção do teto. Eu segurei o topo de uma corrente, e os crânios e os ganchos soavam estridentes abaixo de mim.
Enrosquei minhas pernas nas correntes sem medo de cair. Puxei Anaklusmos e arrebentei a corrente ao lado.
– Desça aqui, pirralha! — ele gritou. — Deixe-me esmaga-la!
Ele tentou me agarrar, mas eu já estava fora de alcance. Segurando pela minha linda vida... Em seguida eu gritei:
– Venha me pegar em tão! — eu provocava. — Ou você é gordo e pesado demais?
Ele pegou impulso e tentou me pegar de novo. Ele segurou uma corrente e tentou subir. Enquanto ele se esforçava, eu desci minha corrente cortada, o gancho primeiro. Precisei de duas tentativas, mas finalmente eu o prendi na tanga de Anteu.
– MALDITAAAAAAAAAW! – ele gritou.
Rapidamente eu escorreguei a corrente livre pela argola da minha própria corrente, puxei, e firmei o máximo que podia. Anteu tentou voltar ao chão, mas seu corpo estava suspenso pela sua tanga. Ele teve que se segurar em outras correntes com ambas as mãos para evitar ficar de cabeça pra baixo.
Rezei para que as correntes e a tanga aguentassem por mais alguns segundos. Enquanto Anteu praguejava e se segurava, eu me mexi pelas correntes, balançando como se fosse algum tipo de macaco maluco. Eu dava giros com os ganchos das correntes. Eu não sei mesmo como eu fiz aquilo. Lembro de Percy me dizendo que como ele, eu tinha um dom natural de enrolar as coisas, e que talvez isso um dia me ajudasse em batalha... Ou me matasse.
Particularmente, prefiro a primeira opção.
De qualquer forma, em poucos minutos o gigante estava suspenso sobre o chão, grunhindo entre correntes e ganchos, indefeso. Eu pulei no chão, ofegante e exausta. Minhas mãos estavam machucadas pela escalada.
– Solte-me! — gritava Anteu.
– Solte-o! Agora! — gritava Silena.
Eu destampei Anaklusmos e disse bem alto:
– Claro, madame!
Eu acertei o gigante no estômago. Ele rugiu, e areia derramou, mas ele estava muito longe para tocar o chão, e a terra não se ergueu para ajudá-lo. Anteu simplesmente se dissolveu, esvaindo-se pouco a pouco, até não sobrar mais nada além de correntes vazias, uma grande tanga de linho em um gancho, e um monte de caveiras sorridentes dançando sobre mim como se elas finalmente tivessem um motivo pra sorrir.
– JACKSON! — Silena gritava em fúria. — Eu deveria tê-la matado antes com minha própria adaga naquele tempo!
– Então porque não fez isso? — gritei de volta.
Ela hesitou, e eu continuei.
– O que foi, Silena? — perguntei. — Vai ficar hesitando agora? É o seguinte, é tarde demais! Você realmente deveria ter me matado, mas se arrependeria depois, acredite. Agora deixe-nos ir! Eu tinha um acordo com Anteu, eu venci!
– Anteu está morto! — respondeu ela. — Seu juramento morre com ele! Mas... — ela sorriu gentilmente. — Agradeça por eu ser uma boa pessoa, lhe darei uma morte rápida. Se fosse Luke provavelmente lhe torturaria antes.
– É... Obrigada? — eu disse. — Mas, hoje eu não estou muito afim de morrer!
– MATEM-OS! — gritou ela.
Cada monstro na multidão puxou sua arma ou mostrou suas garras. Nós estávamos encurralados. Desesperadamente em desvantagem.
Foi quando senti uma coisa em meu bolso – uma sensação gelada, um frio crescendo mais e mais. O apito canino. Meus dedos se fecharam em volta dele. Por dias eu evitei usar o presente de Quintus. Tinha que ser uma armadilha. Mas agora... Eu não tinha escolha. Eu o tirei de meu bolso e soprei. Não fez nenhum som inicialmente, mas logo depois fez um som doloroso e se estilhaçou em pedaços de gelo, derretendo na minha mão.
Silena riu divertida.
– Bela canção, mas o que isso deveria fazer exatamente?
Atrás de mim surgiu um grito de surpresa. O gigante Lestrigão que guardava Jake voou por mim e chocou-se contra parede.
“AROOOOF.”
Kelly, a empousa, gritou quando um mastim negro de mais de duzentos quilos a pegou como um brinquedo para mastigar e a lançou pelo ar, a mesma caiu em cima de Silena que xingou a empousa em grego antigo.
A Sra O’Leary rosnou, e as duas guardas dracaenae se afastaram. Por um momento os monstros na plateia foram pegos de surpresa.
– Vamos lá! – Eu gritei para meus amigos. – Aqui, Senhora O’Leary!
– A saída é mais longe! — gritou Daniel. – Aquele é o caminho certo!
Ethan Nakamura pegou sua deixa e decidiu acreditar em Daniel. Juntos corremos pela arena e pela saída mais distante, a Sra O´Leary logo atrás de nós. Enquanto corríamos, eu podia ouvir os sons desorganizados de um exército inteiro tentando pular das arquibancadas e nos seguir.
– Rápido! Aqui! — gritou Daniel.
– Como poderemos continuar acreditando em você? — perguntou Jake acusador. — Você nos levou direto para aquela armadilha da morte!
– Isso é... Verdade. — disse Daniel. — Mas aquele era o caminho certo! Agora é este. Venham!
Jake parecia emburrado, mas não tinha escolha mesmo.
Daniel parecia saber exatamente para onde estava indo como se já tivesse frequentado o labirinto mil vezes. Ele passava pelos corredores e sequer hesitava nas encruzilhadas. Uma vez ele disse:
– Abaixem-se!
E todos nós nos abaixamos quando um grande machado passou por cima de nossas cabeças. Então continuamos como se nada tivesse acontecido.
Perdi a conta de quantas voltas fizemos. Não paramos para descansar até que chegamos a uma sala do tamanho de um ginásio, com velhas colunas de mármore segurando o teto. Eu parei na porta, tentando ouvir sons de perseguição, mas não havia nada. Aparentemente tínhamos despistado Silena e seus seguidores no labirinto.
Foi ai que percebi mais uma coisa: a Sra O’Leary tinha sumido. Eu não sabia quando ela tinha desaparecido. Eu não sabia se ela tinha se perdido, ou se fora capturada por monstros ou algo assim. Meu coração virou chumbo. Ela havia salvo nossas vidas, e eu nem ao menos esperei pra ter certeza se ela estava nos seguindo.
Ethan despencou no chão.
– Vocês são loucos... — suspirou ele. — Aquilo foi... Foi loucura.
Mas todos o ignoramos ofegantes, Daniel olhou para mim sério.
– Aquilo foi... — sua voz vacilou, então em seguida ele sorriu e socou o ar. — Foi demais! Megan, você tem que me ensinar aquilo! Você parecia uma heroína dos desenhos em quadrinhos! Como fez aquela coisa? E você depois com a espada! E aquela garota é filha de Afrodite? E os monstros! Nossa...
Jake bufou, eu recuperava o folego respirando com dificuldade.
Daniel continuou empolgado:
– E o gigante! — ele disse, e depois ele engrossou a voz para imitar Anteu: — "Vejo que esta tremendo!" e ai você — ele afinou voz para me imitar. — "Estou tremendo... de ansiedade". Cara! foi... UAU!
Como aquele cara podia ter tanto folego para falar?
– Você é sempre assim, hein? — perguntou Jake.
Mas Daniel o ignorou totalmente, ele continuava falando e falando de como eu enganei Anteu e tal...
Eu olhava para Ethan.
– Você deve ser o meio-sangue do meu sonho – eu disse. – O que os amigos de Luke encurralaram. Afinal, não era o Nico.
– Que Nico?
– Não importa. — disse Jake. — Por que você estava tentando se unir ao lado errado?
Ethan sorriu desdenhosamente.
– Não há lado certo. Os deuses nunca se importaram conosco. Por que eu não deveria...?
– Se juntar a um exército que te obriga a lutar até a morte por diversão? – disse Jake. – Puxa, eu ia querer. Na próxima vez me chama.
Ethan lutou para ficar de pé.
– Não vou discutir com você. Valeu pela ajuda, mas eu estou fora dessa.
– Vamos procurar Dédalo – eu disse. – Venha conosco. Quando conseguirmos chegar lá, você será bem vindo de volta ao acampamento.
– Vocês realmente são loucos se pensam que Dédalo vai ajudar vocês.
– Ele vai nos ajudar, ele vai nos ouvir. — disse Jake, em seguida tirando lentamente seu sabre do bolso. — Se não nós o faremos ouvir, do jeito difícil.
– Jake. — adverti.
Ethan bufou.
– É, bem. Boa sorte com isso.
Eu agarrei seu braço.
– Você vai andar pelo labirinto sozinho? Isso é suicídio.
Ele olhou para mim mal controlando a raiva. Seu tapa-olho estava desgastado nas bordas e sua roupa preta desbotada, como se ele a estivesse usando há muito, muito tempo.
– Você não deveria ter me poupado, Jackson. Piedade não tem lugar nesta guerra.
Então ele correu para escuridão, pelo caminho por onde tínhamos vindo.
Jake, Daniel e eu estávamos tão exaustos que montamos acampamento ali mesmo, na enorme sala. Jake achou uns gravetos secos e fizemos uma fogueira. Sombras dançavam nas colunas erguendo-se em volta de nós como árvores.
– Silena estava diferente. — falei com a voz morta enquanto cutucava as chamas com um graveto. — Ela estava muito hesitante pro meu gosto.
– Ela parecia muito satisfeito pra mim – eu disse. – Como se ela tivesse passado um ótimo dia torturando heróis.
Eu o encarei.
– Jake, você não entende mesmo. — falei. — Ela realmente hesitava, as vezes eu falava com ela e ela não parecia ter resposta.
Ele suspirou e pegou na minha mão.
– Se você acha isso... É por que é. — disse. — Mas não acha que esta sendo um pouco precipitada.
– Não tenho escolha. — falei agarrando sua mão de volta.
– E eu fico aqui segurando uma... — a voz de Daniel vacilou. — No caso de vocês é tocha olímpica, não é?
Nós dois olhamos para ele que ergueu as mãos em rendimento.
– Tá, esquece.
Ficamos um longo tempo em silêncio.
– Bem... — suspirou Jake. — Aonde iremos agora, guia?
Ele havia queimado a ponta de um graveto no fogo e o estava usando para desenhar figuras de cinzas no chão, desenhos dos monstros que vimos. Com poucos riscos, ele desenhou uma dracaenae perfeitamente.
– Seguiremos o caminho – ele disse. – A claridade no chão.
– A claridade que nos levou direto para uma armadilha? – provocou Jake.
– Qual é Jake. — falei. — Qual o seu problema? Ele esta fazendo o melhor que pode!
Jake suspirou e se ergueu.
–Tanto faz, vou procurar mais gravetos. — disse ele. — A Fogueira esta apagando. Enquanto isso vocês dois discutem algumas estratégias...
– Jake... — comecei.
Mas ele já havia marchado pelas sombras.
Daniel desenhou outra figura com seu graveto – um Anteu em cinzas pendurado por suas correntes.
– Não sei o problema dele. — falei. — Normalmente ele não é... Tá, as vezes ele é assim.
Daniel riu.
– Eu sei o que é. — disse ele chegando mais perto. — Ele esta com ciúmes.
– Ciúmes? O Jake? Não... — eu ri. — Duvido, ainda mais de mim.
– Bem, para mim parece bem obvio. — disse Daniel. — Mas você que sabe.
– Olha, eu sinto muito por tê-lo envolvido nisso. — falei.
– Não, você estava certa – ele disse. – Eu posso ver o caminho. Não consigo explicar, mas eu vejo claramente. – Ele apontou para a outra saída da sala, para a escuridão. – A oficina é para aquele lado. O coração do labirinto. Estamos bem perto agora. Não sei por que o caminho nos levou por aquela arena. Eu... eu sinto muito por aquilo. Pensei que você fosse morrer e eu levaria a culpa por isso...
– Não. — eu sorri para ele. — Eu já estou acostumada a me meter em encrenca, acredite, já passei por coisa pior...
– Duvido. — disse.
– Bem, eu já lutei contra o deus da guerra quando tinha doze anos, eu já enfrentei um titã, eu já enfrentei o deus da morte, eu já lutei com um ciclope, com uma feiticeira, com um manticore, aqueles zumbis que você viu... Ah! Teve também aquela vez que eu quase fui devorada pela squila, e quase fui engolida por Caribdis...
– Já entendi! — riu ele. — Você venceu, já passou por coisas piores.
– Eu normalmente estou prestes a morrer. — prometi. — Então, aquela luta não foi nada demais, sem falar que eu posso ser a pessoa que vai salvar ou destruir o olimpo. É muito complicado.
Ele estudou meu rosto, agora sério.
– Então você faz isso todo verão? Luta com monstros? Salva o mundo? Você nunca faz, sei lá, coisas normais?
Eu nunca havia pensando daquele jeito, A última vez que eu tive algo parecido com uma vida normal foi... bem, nunca.
– Meio-sangues se acostumam com isso, eu acho. Talvez não com isso, mas... – mudei de posição desconfortavelmente. – E quanto a você? O que você faz normalmente?
– Hum, eu danço. — disse ele. — Desenho um pouco também, eu coleciono quadrinhos, toco guitarra, ando de skate... Faço várias coisas.
Ok, pensei. Até aqui o placar era zero em coisas em comum.
– E quanto a sua família?
Eu pude sentir sua blindagem mental se erguendo, como se esse não fosse um assunto seguro.
– Ah... eles são apenas, você sabe, família.
– Eles não vão se preocupar se você chegar tipo... Tarde em casa? — perguntei.
– Eles nem notariam... — disse ele.
Eu o encarei curiosa.
– O que quer dizer? Como eles...
– Uau, eu estou exausto. Eu vou dormir um pouco, tudo bem?
– Ah, certo. — falei. — Sem problema.
Mas Daniel já estava se aninhando, fazendo de sua mochila seu travesseiro. Ela fechou seus olhos e deitou bem quieto, mas eu tinha a sensação de que ele não estava realmente dormindo.
Voltei a olhar para as chamas.
Poucos minutos depois, Jake voltou. Ele jogou mais alguns gravetos na fogueira. Ele olhou para Daniel, e depois para mim. Ele se sentou ao meu lado e não disse nada.
– Como acha que estão Hansel e Tyler? — perguntei tentando matar o clima tenso.
Jake deu de ombros.
– Eles sabem se cuidar. Eu fico com a primeira vigia, você deveria dormir também.
Eu arranhava o chão com um graveto.
– Certo. — eu disse. — Mas sabe, você não precisa ficar zangado comigo, eu não fiz nada de errado. Eu não tenho culpa se estamos aqui agora... Não adiante descontar tudo em mim.
Eu me deitei, sentindo-me miserável. Até que eu ouvi Jake respondeu:
– Eu sei. — disse. — Desculpe, é que eu... Só quero que isso acabe logo.
Eu ri fraco.
– Nunca vai acabar. — falei. — Não adianta querer, entende? Somos semideuses, nossa vida é assim...
Não tive tempo de ouvir sua resposta, eu estava com tanto sono que quando fechei os olhos, instantaneamente, eu adormeci.
Notas finais
Daniel : Eu ♥ Doritos!
Lay : Eu ♥ Pudim!
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