Notas iniciais
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Domingão de sol, dia perfeito para uma família desfrutar a alegria que é um jogo de futebol. Jogariam no Mineirão, Cruzeiro e Atlético, pura rivalidade.

Normandinho não gostava de futebol, ao contrário do resto da família que era toda cruzeirense. A insistência que eles tinham em relação à filiação de Normandinho à torcida do Cruzeiro, era grande. Ele não queria ir ao estádio, mas como toda família iria, foi forçado a ir.

Eles saíram de casa duas da tarde pra não pegar trânsito. Besteira. A Avenida Cleiton Alves estava intransitável. Os carros se empurravam como se um tsunami viesse em suas direções. Havia vários ônibus com bandeiras azuis penduradas nas janelas. Ônibus que pareciam ter vida própria, pois eles cantavam, pulsavam e até gritavam. A divisória que a polícia havia feito permitia que as torcidas seguissem ao estádio por caminhos diferentes.

No carro, Normandinho já não agüentava mais tanta gritaria. A junção do calor intenso, o forte odor de bebida alcoólica, o vômito do seu irmão menor (em cima dele até) e a desafinação do seu pai, garantia seu desconforto. Depois de duas horas e meia, dentro daquela lata de sardinha humana, eles finalmente chegaram. Mas o pior ainda estava por vir. Aqueles milhares de torcedores querendo passar ao mesmo tempo pra dentro do estádio, só podia dar nisso: Normandinho perdeu-se do resto da família.

Ele deu graças aos céus por não ter que aguentar mais aquele choro de bebê, as provocações de sua irmã e, principalmente, por ter conseguido uma independência momentânea de seus pais. Sua vontade inicial era de sair daquela prática de pão e circo, mas a pressão do fluxo de pessoas num só sentido, o levou pra dentro. Indiferentemente da preferência de entre clubes de futebol, ele foi parar na torcida do Atlético. Ele sentiu medo. Seus tímpanos pediam para que aquele som ensurdecedor parasse. Der repente, uma loira de lábios carnudos o beijou na boca na hora do gol do Atlético. Ele sentiu simultaneamente desejo por aquela mulher desconhecida e amor intenso ao clube vencedor até então. Ele pulou, vibrou e gritou na hora do segundo gol. Ele não queria estar em outro lugar, se não aquele.

Depois do jogo a festa não tinha acabado. Saíram cantando ele, a loira e a multidão alvinegra pelas ruas de Belo Horizonte. Numa vaga lembrança de seus pais ele caiu em si e se desmembrou da multidão e foi seguindo a pé em direção à estação rodoviária, à procura de um escasso ônibus que lhe levasse pra casa. Quando conseguiu chegar lá, foram mais algumas dezenas de minutos de espera pelo coletivo.

Pra variar o ônibus estava cheio de cruzeirenses. Inicialmente Normandinho nem ligou muito pra isso. Ele estava mais pra baixo do que aqueles torcedores. Mas depois que um torcedor do time derrotado o reconheceu, dizendo: “Ele estava no meio dos galinhos...”, ele foi retirado a socos e pontapés do ônibus. Roubaram-lhe até a carteira.

Onze da noite. A família de Normandinho já estava preocupada. Com fome, sujo, sem dinheiro, um pouco embriagado e cheio de escoriações pelo corpo, ele chegou em casa. Todos estavam na sala a momentos de saírem em direção a delegacias e hospitais em busca do, até então, desaparecido. Sem demonstrar hesitação, Normandinho disse:

— Futebol é arte. A arte de me fazer sofrer...

Notas finais
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