Crônicas De um novo Tempo
1 A tragédia Rockenbach
Notas iniciais
Ilha de Milos — Grécia — Inverno de 1973
Todos dormiam na confortável mansão da famila Rockenbach. Num quarto, os tres filhos do casal Elefthérios e Helena: Milo, o mais velho com 7 anos; Achila, a do meio com 4 anos e o pequeno Camena de apenas 9 meses de vida dormia no bercinho, perto dos irmãos. A mãe dormia tranquila em seu quarto, não sem antes ter sofrido uma terrível insonia, pensando se seu marido estaria descumprindo com o que lhe prometera: nunca mais jogar.
Não muito longe dali, Elefthérios descumpria a promessa feita a esposa e estava mais uma vez diante de uma mesa de jogo, novamente perdendo. Depois de inúmeras tentativas e derrotas, o milionário havia acabado de perder absolutamente tudo o que tinha, ficando na total miséria com sua esposa e tres filhos ainda pequenos. O baque foi grande demais para que Elefthérios pudesse suportar.
Foi para casa, ao entrar, despediu-se de cada filho, beijando-os mesmo dormindo, e lembrando do nascimento de cada um e de cada momento especial vivido em familia até agora. Dos natais animados, da fartura de presentes e comidas e de como haviam sido felizes até aquela noite. Depois disso foi ao seu quarto, e despediu-se de sua amada esposa.

Pegou o galão de combustível bem cheio que havia providenciado, as lágrimas desciam desesperadas pelo seu rosto, molhou cortinas, mobilias e tecidos da casa toda, encharcou o máximo que pôde. Pegou o revólver calibre 38 que possuía, riscou o fósforo ateando fogo na linda casa que em pouco tempo, começava a arder prometendo destruir o que alí houvesse.
O estampido do tiro dado na cabeça, matando-o na hora, despertou o pequeno Milo, que ao abrir sonolentamente seus olhos azuis, se deparou com o clarão do fogo consumindo a enorme mansão. Milo assustou-se, gritou, mas apressou-se em tentar acordar a irmã, que dormia na cama ao lado e demorava a despertar. Correu ao quarto dos pais, apavorado e já suando pelo calor das chamas, desviando de labaredas, chegou á mãe, que dormia profundamente devido aos calmantes que precisou tomar para evitar a insonia. Logo o pequeno constatou que era inútil, e se permanecesse alí, morreria. Voltou com dificuldades ao quarto, Achila havia sumido, certamente já teria corrido para fora...mas e Camena? O pequeno berrava no berço, já havia inalado muita fumaça, Milo o pegou rápidamente e correu com seu pequeno irmão em direção a porta de saída, ao final do salão principal. A casa era enorme, e o trajeto entre o quarto das crianças e a saída era grande, e dadas as circunstâncias, para um garoto de 7 anos carregando seu irmão no colo, ainda maior.
Driblando o fogo, desviando dos pedaços de madeira e das mobilias que queimavam, respirando com dificuldade, os pequenos saíram. Milo se jogou com Camena na grama da entrada da casa, a chuva fina que caia amenizava o enorme calor que sentiam devido ao incêndio. Camena parou de chorar e apenas respirava lentamente, o único som que se ouvia naquele momento era o do fogo consumindo tudo: a enorme casa, sua familia e toda a sua vida.
Naquele momento um filme passou na cabeça do menino Milo, todas as recordações vieram, até mesmo a do primeiro aniversário, dos passeios na praia com o pai, que era acima de tudo um amigo, da comida gostosa da mãe, das brincadeiras com os irmãos. Tudo estava destruido. Olhou em volta e não viu Achila, desesperou-se e constatou que a menina deveria ter se perdido tentando sair e teve o mesmo destino dos pais. Milo não demorou a entender o que havia sido aquele estampido, sabia que o pai jogava, era testemunha do sofrimento de sua mãe com o vício de seu pai.
Olhou, chorando para Camena
– ao menos tenho voce, vamos ficar juntos meu irmão.
Mas Camena estava fraco, havia inalado muita fumaça e em poucos minutos morreu alí, nos braços do irmão mais velho.
Milo estava totalmente só, era o único sobrevivente da tragédia que devastara toda a familia Rockenbach. Milo vomitou e desmaiou.
Os bombeiros chegaram e encontraram o menino claro, de cabelos escuros caido na grama com o bebe morto nos braços.
Era a imagem mais triste que aqueles homens já haviam presenciado em suas vidas.
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