Viajo por entre a escuridão das ruas da cidade com a minha carrinha. Pela pequena fresta do vidro aberto sinto a brisa que corre na noite quente. Subindo e descendo as colinas de Lisboa pelas ruas calcetadas dirijo-me mais uma vez ao pátio do Carracos. Esta noite pretendo descobrir onde o Espírito de Luís dos Santos se esconde, isto se se determinar a aparecer esta noite. Depois de ter assassinado três pessoas não iria terminar por aqui, teria de ser parado.

Com bastante sorte, consigo um estacionamento pouco acima do Largo do Limoeiro, e sigo o resto a pé. É mais seguro não deixar o carro demasiado perto do local para não levantar suspeitas. O Pátio está visivelmente mais calmo que no dia anterior, contudo, apesar do adiantado da hora, notam-se alguns movimentos estranhos no perímetro.

Dois homens passeiam a passo lento conversando pelo passeio. Consigo reconhecê-los. São os dois policias que acompanhavam a detetive Laura na cena do crime do dia anterior. Não envergam a indumentária de policia, estão vestidos à civil, mas consigo perceber que possuem os intercomunicadores por baixo das camisolas. Atrás de mim passam outros dois homens com a mesma atitude dos outros. Deduzo que sejam eles também policias. Estão de vigia ao local com esperança que o assassino volte a atacar e o possam apanhar. Com o perímetro do pátio vigiado pela policia, fica o meu trabalho de busca pelo verdadeiro assassino dificultada.

Deste modo a minha abordagem tem de ser alterada. Não posso entrar de novo no pátio como um cidadão normal que anda a passear tão tarde à noite num local tão especifico. Seria suspeito demais ser avistado de novo a circular pelo pátio. Deste modo vou ter de voltar a assumir a forma animal e voar até um dos parapeitos da janela das habitações. Um corvo pousado num beiral não será tão suspeito como um homem a deambular por uma zona habitacional onde decorreram três assassinatos sangrentos nas últimas semanas.

Uma vez aninhado sobre o parapeito da janela de uma das casas, consigo ter a perfeita visão de todo o Pátio do Limoeiro. No local estão apenas a detetive e a D. Benvinda. A amável senhora que me contara a verdadeira história sobre a vida do Carrasco, continuava assustada como no dia da nossa conversa. Ou talvez até mais, depois da noite da segunda chacina. Do meu pouso consigo ouvir a conversa entre elas.

— Não se preocupe D. Benvinda. O pátio está a ser vigiado pela policia que se asseguraram que o assassino não entrará aqui de novo se se arriscar a aparecer.

— Não menina, eu não temo um assassino. Receio que o Espírito traga de novo a morte a este lugar.

— Isso são apenas histórias minha senhora. Posso-lhe garantir que está segura aqui. Não haverá nenhum assassino, Espírito ou alma penada que passará por aqui hoje. Vá para casa dormir, já é tarde.

Laura tentava tranquilizar a idosa, mas o medo que a assombrava era visível na sua expressão de pânico.

— Eu vou, mas todos vocês deveriam também abandonar este sitio assombrado e salvarem-se também.

Com a amabilidade habitual, a detetive sorriu-lhe tentado passar lhe a sensação de tranquilidade.

— É a nossa profissão. Corremos riscos em prol de um bem maior.

Apesar de toda a conversa que a detetive fazia tentando acalmar a velha senhora, nada a parecia apaziguar e os urros e suspiros que começavam a ecoar agora no pátio só a deixaram mais exaltada.

— Ouve. – Disse-lhe a velha alertando-a para os sons que surgiram. – É ele.

A D. Benvinda, em pânico, olhava em toda a volta em busca de sinal do Espírito.

— Não ouço nada. Deve ser apenas o seu cansaço. Vá descansar minha senhora.

Os barulhos começam a intensificar-se, e vejo um vulto surgir no pátio e sair em direção às duas percorrendo rapidamente toda a extensão do espaço. A idosa solta um grito agonizante quando o espectro trespassa o corpo da bela Laura. Ao ser atravessada pelo Espirito, a detetive fica pálida e suspira ofegante. Desanimado o seu corpo desfalece e embate no chão com um som seco. A D. Benvinda, apavorada com esta cena, gira sobre os pés e recua correndo o máximo que a idade lhe permite em direção a casa. Pouco antes de ser alcançada pelas mãos do Espírito de Luís dos Santos que se esticava para a apanhar, consegue esgueirar-se e pela porta. O Carrasco persegue-a, mas detém-se perante a ombreira da porta, algo o impede de entrar na casa da idosa.

Perante este cenário deixo o meu pouso e salto em direção ao Espírito. Os policias que passeavam no exterior ainda não se tinham apercebido da situação apesar dos gritos desesperados da velha, o que me permite volta a tomar a forma humana sem ser visto. Gritei para ele enquanto me aproximava pelas suas costas.

O Espírito do Carrasco tinha o aspecto de um humano. O seu rosto estava tapado por uma mascara usada pelos carrascos e apenas deixavam ver a sua boca que esboça toda a raiva de uma Alma torturada na eternidade do pós vida, e os seus olhos onde posso ver o ódio e desejo de morte que ainda carrega. Os seus membros estavam cobertos por queimaduras e feridas abertas e em sangue, muito provavelmente causadas pelas torturas do Inferno. Parado no meio do pátio, depois de me fitar de alto a baixo, arrasta-se na minha direção empunhando na mão direita um grande machado manchado de sangue de decepar cabeças e enrolada ao ombro esquerdo, uma grande corda com um nó de enforcamento numa das extremidades.

Apenas agora os quatro policias tinha tomado ocorrência da situação e correram pátio dentro dando de caras com a figura malévola que os encarava no centro do pátio. O olhar estupefacto dos agentes revelava que não era aquilo que esperavam encontrar quando pensavam no assassino em série que procuravam. Pávidos e sem saber como reagir perante aquela figura assombrosa que estavam perante, sacaram das armas que pendiam à cintura e disparam simultaneamente dois tiros cada ao peito do Carrasco. As balas atravessam o espectro sem lhe criar moça, contudo serviram apenas para o enfurecer. Uma arma de fogo não pode matar algo que já está morte e enterrado e não pertence a este mundo.

Enraivecido pelos disparos, o Espírito arqueia no ar a corda e numa investida forte, atinge-me nas costelas projetando-me até à entrada da casa da D. Benvinda deixando-me estendido no chão do corredor. Um ardor e sabor a sangue sobe-me do estomago até à boca e a vista enturvasse. Estou atordoado com a pancada sobrenatural da corda. Quando recupero completamente a visão, já o Espírito tinha apanhado todos os policias que jaziam agora no chão, dois deles inanimados e os outro dois com a cabeça decepada.

Agarro-me ao movel junto a mim usando-o como auxílio para me por de pé. Sobre esse movel, num vaso de porcelana azul e branco, está um arranjo de flores arroxeadas. É verbena. Tinha sido esta planta que impedira o Espírito de a perseguir pela casa dentro. A planta criava uma proteção à sua habitação. No fundo do corredor atrás de mim ouço passos. É o Sr. Mário, o filho da idosa que surgia para ver a razão de todo o alvoroço à sua porta.

— O que se está a passar? O que è toda esta barulheira? A Minha mãe diz ter visto a assombração do Luís dos Santos.

— E viu! Mas agora ajude-me. Pegue todo o sal que tem em casa e traga-me-o. Não tenha medo, eu trato do Carrasco.

O homem acatou a minha ordem sem questionar e correu para dentro para cumpri-la. Tiro a flor de verbena do vaso e corro para o pátio de novo. O local está ensanguentado e os corpos dos policias estão espalhados pelo chão já todos sem cabeça. Não há movimento no pátio e dentro das casas ouviam-se os moradores fecharem as portas e janelas o melhor que conseguem barricando-se no seu interior. Nenhum se atrevia a espreitar por uma fresta que fosse a ver o que se passava ou sair da segurança do seu lar com medo ao verem os corpos decapitados ensanguentando o chão à porta das suas casas.

Desfaço a planta de verbena e deposito-a sobre o corpo de Laura, caído inanimado, para lhe criar uma proteção do Espírito. Luís dos Santos surge agora na minha frente. Depois de decapitar quatro cabeças, a sua matança desta noite não tinha acabado, queria juntar-me ao seu rol de mortes e investia rapidamente sobre mim. Tiro de rompante a catana de prata brilhante presa à bainha das calças e escondida pelo meu casaco longo e uso-a para me defender do primeiro ataque do seu machado na minha direção. Contudo não fui suficientemente rápido para me desviar do ataque surpresa que se seguiu da sua corda e sou apanhado pelo pescoço. A corda aperta-me com força a traqueia e estou a ficar rapidamente sem ar. Os olhos do Carrasco, todos brancos sem íris ou pupila, olham-me profundamente cheios de cólera em busca da minha Alma.

Estou a sufocar e vejo tudo turvo, os músculos começam a ceder e começo a perder a força para conseguir erguer a catana e defender-me. Pelo canto do olho, pouco nítido mas no máximo que a visão me permitia, vejo sair de casa em grande correria no meu auxilio o Sr. Mário com o sal que lhe pedira em mãos. Ao deparar-se com o fantasma do Luís Alves dos Santos a sufocar-me o homem fica paralisado de medo, petrificado como uma estátua.

— Atire-lhe o sal...

São as únicas palavras que consigo soltar entre dentes quase a sufocar sem ar na esperança que me perceba e me ajude. Mas ele parece não me ter entendido ou o medo anulou-o por completo impedindo-o de agir.

— O SAL! – Grito de novo num último suplicio de esperança que o pouco ar que me resta me permite.

Se o sal entrasse em contacto com o Espirito não o mataria mas queimá-lo-ia o que talvez fosse suficiente para deixar de exercer tanta pressão na corda e me permite-se soltar. O homem continua estático sem reação e de olhos vidrados no Carrasco. Mas finalmente o sentimento de pavor solta-lhe os movimentos e arremessa um punhado de sal ao Espírito. Este ferido com as queimaduras provocadas pelo sal desaperta ligeiramente a corda que me sufoca o que permite que algum ar entre nos meus pulmões. À segunda campeada por parte do Sr.Mário não consegue suportar os ferimentos causados e a corda liberta-me por completo o pescoço.

Ajoelhado no chão coberto de sangue, luto para recuperar rapidamente as forças e os sentidos. Ainda estou abalado do primeiro embate e já o Carrasco avançava recuperado e com o machado em punho ataca o Sr.Mário. Saio em sua defesa e recupero a catana perdida no chão e num movimento continuo decepo a cabeça do Espírito maligno. O homem caído no chão não se moveu após o ataque do Carrasco. O seu corpo já não luta pela vida, perdera o brilho nos olhos que agora se fechavam. Vou em seu axilio mas já é tarde, já não respira. O pobre homem depois de me salvar, foi morto às mãos do nosso oponente.

Sinto movimento atrás de mim, o Espirito do Carrasco estava de novo erguido e com a cabeça de volta ao lugar, não o mataria facilmente. A prata da catana não o detinha, teria de queimar o seu corpo logo que o conseguisse derrubar ao chão. Para destruir por completo um Espirito e o impedir de retornar, é preciso queimar-lhe o corpo, as ossadas ou que resta-se dele. Mas este espirito era diferente, acho que foi invocado.

Deixo o corpo do homem para trás e volto a atacá-lo, mas sou derrubado. O Carrasco salta sobre mim e procura algo no meu casaco. Dou-lhe uma forte pancada com os pés no peito e afasto-o para longe. Da minha algibeira caí-me o pingente que tinha roubado à detetive. O Espirito repara e apressa-se a recuperar a posição e alcança-lo.

Agora entendi.

Tenho de destruir o pentagrama, é a sua fonte de energia. O amuleto foi usado para invocar, ao eliminá-lo o Espírito não pode voltar mais. Apresso-me e alcanço primeiro o pingente. É feito de osso, as ossadas de Luís Alves dos Santos. Desfaço-o com a mão. O Carrasco parece ter perdido o vigor com a destruição da fonte invocativa. Salto em direção a ele sem o deixar recuperar e apanhá-lo de surpresa. Aterro com o pé no seu peito e empunhando a catana mão com um movimento pujante volto a decapitá-lo. O corpo perde o animo e cai ao chão e a cabeça rola pelo pátio, não sangra, é um fantasma. Pego no sal do corpo estendido do Sr. Mário e cubro os restos do Carrasco com ele. Rego-o com o álcool que carrego no bolso do casaco e atiço-lhe fogo com o isqueiro. Os restos do Espirito ardem e solta um fumo negro que sobe ao céu tomando a forma de uma cabeça que grita histericamente enquanto abandona este mundo de volta ao Inferno.

— Vade, satanas, inventor et magister omnis fallacial. Hostis humamae salutis. Si sub potenti manu dei. Contremisce et effuge.

Devolvo-o ao Inferno mas antes do Espirito se dissolver no ar forma uma caveira negra que avança sobre mim a gritar, atravessa o meu corpo e vai-se. De todas as estruturas que constituem o pátio solta-se uma nuvem preta de fumo que se parte como vidro e desaparece. A maldição que este sitio carregava desapareceu para sempre mas no pátio jaz o terror causado por ela. Cinco corpos espalhados pelo chão num grande banho de sangue.

Ouço respirar.

Eram os primeiros suspiros de Laura que voltava a ficar consciente. A sua cabeça, possivelmente dorida, gira, olhando o lugar procurando descobrir onde se encontra. Está desorientada, mas já tateia o chão em busca do equilíbrio para se por de pé. Sacode a flor de verbena de cima e retira uns pedaços que se colaram à roupa. Como se tivesse acordado de uma longa noite de sono, esfrega os olhos e penteia o cabelo desgrenhado. Ao aperceber-se do cenário repleto de corpos ensanguentados à sua volta abre a boca de espanto e horror e fica sem reação de olhos arregalados.

Recolho ao casaco a catana de prata e precipito-me até ela, ainda sentada no chão. Com o choque de todo o festim de sangue nem se apercebeu da minha presença.

— Calma, está tudo bem agora. Não tenhas medo.

Os olhos dela brilhavam enquanto os fixava nos meus. Quase chorava, estava em choque. Embora fosse policia e pudesse ter visto algumas cenas de grande violência, nada preparava um ser humano para tamanha matança como a que acabara de decorrer ali. Acordar nomeio de um mar de sangue de quatro dos seus colegas de trabalho logo depois de recuperar os sentidos de um desmaio não era coisa que fosse suportável.

Uma brilhante e cristalina lágrima escorre-lhe pelo rosto abaixo deixando um rasto molhado pelas suas bochechas pálidas parando nos lábios arroxeados que tremiam de medo e estupefação. Sentia que queria perguntar-me algo, mas as palavras não lhe saiam. Finalmente, por entre soluços consegue deixar escapar uma pergunta.

— Estevão, o que fazes aqui?

— Apenas salvar-te.

Arriscar-me-ia a limpar-lhe a lágrima do seu rosto só para completar a cena melosa e dar algum conforto à dor que está a sentir. As suas mãos procuravam alguma proximidade que a pudesse consular mas eu evitei-o. Receio o seu toque, eram dolorosas as queimaduras que me causava. O seu belo rosto pálido fixado em mim suplicava por ajuda e atrevi-me a limpar-lhe a segunda lágrima que descia na sua face. O contacto da lágrima com o meu indicador não provocou as normais queimaduras que esperava. Apenas evaporou na minha pele fria dando-lhe uma leve sensação estranha. As lágrimas que se seguiram a esta, ela própria as limpou com a sua mão manchada de sangue. Ao ver o sangue ficou assustada mas tranquilizou quando reparou que provinha do seu joelho ferido na queda. Com os dedos tocava no golpe tentando analisa-lo e limpar o sangue. É apenas um corte superficial.

Retiro um lenço que guardava no bolso e cubro-lhe a ferida com ele. Deixo-a fazer pressão para estancar o pouco sangue da ferida. Com este gesto consigo que me solte um pequeno sorriso de agradecimento. É irónico que estejamos preocupados com o pequeno corte no seu joelho quando estamos rodeados de corpos decapitados. Mas pouco me importam os mortos que me ladeiam, não entendo porquê mas o mais pequeno arranhão nesta belíssima mulher preocupa-me mais do que centenas de cabeças que possam rolar. Não tenho sentimentos, contudo, ela, inexplicavelmente é a única que me consegue retirar algum sentimento de preocupação.

Já tinha recuperado um pouco a cor rosada do rosto e não tremia tanto.

Ao sentir movimento, olhamos ambos repentinamente para trás. O corpo que ainda a pouco tinha verificado e estava morto, não respirava nem apresentava pulso, movia-se agora. O Sr. Mário ressuscitava e punha-se de pé sozinho como se nada se tivesse passado com ele. O homem anteriormente decapitado pelo Carrasco, sacode a roupa amarrotada, olha-nos por cima do ombro e lança-nos um sorriso maléfico. Os seus olhos estavam negros e completamente baços sem qualquer brilho ou presença de vida, no entanto estava de pé e precipitou-se a correr pátio fora. Ficamos os dois pasmados, eu mais porque já o tinha dado como morto, facto que ela não sabia.

— Ele o assassino?

Não lhe queria mentir, mas dizer-lhe que tudo aquilo tinha sido provocado por um Espírito invocado do Inferno não iria soar a verdade. Não iria acreditar, não era uma explicação lógica que servisse para um policia que procurava por um assassino vivo. Quanto mais depois de presenciar o comportamento estranho que tomara o homem ao erguer-se e esgueirar-se pelo pátio em fuga. Contudo, ela não sabia que ele estava morto e podia não ter reparado nos olhos negros que denunciavam algo de sobrenatural nele.

Limitei-me a acessar afirmativamente.

Ao fundo em tom crescendo, ouviam-se as sirenes dos carros a aproximarem-se do local. Eram a policia e o INEM. Algum dos moradores tinha os alertado. Na frente, de preto e equipados com escudos protetores e metralhadoras, entravam as forças especiais que só deram autorização aos restantes policias e paramédicos de entrar no pátio após assegurarem toda a segurança do perímetro. Os moradores com a chegada da policia já se arriscavam a sair das suas casas e verificar o que se tinha passado mesmo à porta de casa. Ficavam horrorizados e agonizados ao se depararem com o sangue derramado, mas creio que nenhum deles soubesse o provocou realmente.

Junto a mim e à Laura já se encontravam dois paramédicos prontos a ajudar.

— Está ferido o senhor?

— Não. Mas ela desmaiou e tem um ferimento no joelho.

Os paramédicos com a pequena mala de socorros começaram a tratar do golpe no joelho de Laura. Eu aproveitei para me afastar e deixá-los trabalhar, procurando por uma oportunidade de me esquivar às perguntas da policia. Pouco tinha andado e já estava um policia no meu encalço pronto para me questionar sobre tudo o que tinha decorrido naquele espaço. Não me podendo esgueirar dali sem ser demasiado suspeito, terei de responder às questões que me colocar. Tento-lhe transmitir tranquilidade para que não lhe dê nenhuma suspeita do que lhe conto não ser verdade. Também porque a realidade parecia mais mentira que a mentira. Ao policia que me interrogava juntou-se um outro que analisava o meu rosto e expressões a cada pergunta que o parceiro me fazia. Os olhos semi serrados fixos em mim denunciavam mais do que os meus. Mostravam que era inexperiente no que fazia e que tinha estado a dormir à pouco tempo e a sua face avermelhada nas maças do rosto que talvez tivesse estado a ingerir alcool.

— Esse Sr. Mário que alegadamente atacou os oficiais da policia, pôs-se a monte de seguida? Pode facultar-nos a descrição física do individuo?

Dei-lhe os traços que mais me lembrava dele, o cabelo preto desgrenhado, o nariz abatatado a cara muito expressiva e pouco mais.

— É o pouco que lhe consigo descrever agora, mas pode pedir uma fotografia a mãe dele, a D. Benvinda, certamente que terá uma.

— Obrigado Sr. Cortês. Se se lembrar de mais algum dado que considere relevante para nos ajudar nas buscas e apurar o ocorrido nesta noite, contacte-nos.

Deixo os policia para trás e dirijo-me para fora do pátio por entre o ajuntamento de pessoas já concentradas junto ao estreito túnel de acesso ao Pátio do Limoeiro. A grande multidão era constituída por olhares curiosos e elementos da imprensa que procuravam por informações, mesmo que fosse escassa e pouco credível, para constituir uma noticia que lhes daria a capa de jornal e aberturas de jornal no dia seguinte. Uma matança tão grande era o motivo perfeito para esse destaque, quanto mais sangue e mortos, acompanhados pelas fotografias mais escabrosas que os fotógrafos conseguissem captar no meio daquele frenesim de flashes.

Na noite serrada levantava-se uma pequena brisa fria que fazia dançar as folhas caídas no chão. O aparato em torno do pátio era maior do que nos outros dias, mas a chacina também o era. As ambulâncias não paravam de chegar para dar auxílio aos poucos feridos e recolher os corpos mortos. Sentia-se no ar um clima bastante pesado.

— Estevão!

Mesmo atrás de mim, sentada na lateral de uma ambulância Laura chamou por mim. Estava com um casaco azul de policia pelas costas e o golpe que tinha no joelho esquerdo, notava-se por entre o rasgão das calças, já tinha sido tratado e estava ligado. O seu belo rosto ainda não tinha recuperado o tom habitual mas, já se notava o rosado das bochechas. Não chorava, mas os olhos continuavam húmidos e tinha olheiras. Dirijo-me a ela.

— Ias embora sem dizer adeus?

— Não te encontrava, pensei que tivesses a ser interrogada ou tivesses ido embora.

Ela sorriu, um sorriso magnifico que embora ela ainda não tivesse totalmente recuperada, já era maravilhoso e ajudava a descomprimir o clima pesado que se fazia sentir.

— Como estás? Já te sentes melhor? O teu joelho?

— Sim, já me sinto bem, já me passaram as tonturas do desmaio e o joelho já nem doi, é um mero arranhão que em dias desaparecerá. Tu não ficaste magoado?

Os seus olhos procuram em todo o meu corpo por algum sinal de mazela.

— Estou bem, não fiquei aleijado.

Ela olhou-me nos olhos analisando-me profundamente. Pôs-se de pé, era mais baixa doque eu.

— O que realmente se passou? Como desmaiei?

Respiro fundo e penso bem no que lhe vou contar, não lhe direi a verdade embora o olhar que me faz e a sua expressão de preocupação me façam fraquejar e pensar em contar tudo. Fico mais nervoso com esta questão dela do que com todas as perguntas feitas anteriormente pela policia.

— Eu não vi como tudo começou. Já estavas caída no chão quando cheguei ao pátio. Foi como disse à policia. Ia a passar e ouvi os gritos dos policias e fui ver o que se passava. Estava o senhor Mário com um machado na mão já depois de ter decapitados os teus colegas. – faço uma breve pausa devido à expressão que esboçou quando me ouviu dizer isto. – corri instintivamente na direção dele e desarmei-o. Lutamos e ele caiu ao chão desmaiado como viste. Depois foi o que viste Laura.

— Como é que foste capaz de o deter se quatro policias armados não o conseguiram fazer?

— Creio que o apanhei desprevenido e sei lutar corpo a corpo. Tive sorte.

Do pátio saíram doi paramédicos a acompanhar a D. Benvinda que gritava loucamente que a deixassem. Que o verdadeiro assassino era o Espírito do Carrasco e não o seu filho. A idosa estava bastante exaltada e os paramédicos tentavam-na acalmar recorrendo a medicamentos.

— Ela está bastante perturbada e não esquece a história da assombração.

— É compreensível. Não deve ser nada fácil aceitar que o filho é um assassino.

A história não era verdadeira, mas não soava assim tão descabida aos ouvidos humanos. Com a maioria dos envolvidos no massacre mortos, mesmo com o decorrer das investigações vai ser difícil concluir o que realmente se passou naquele pátio esta noite.

— Estevão, senti algo antes de desmaiar, uma sensação estranha dentro de mim. É só o que me lembro, mas não sei o que foi.

— Não sei como desmaias-te, mas deve ter sido a sensação do desmaio.

No rosto de Laura lia-se preocupação. Ela era detetive e naquela noite estava encarregue de assegurar a segurança do pátio, mas tinha falhado. Desmaiou e só recuperou os sentidos depois de todas as mortes terem acontecido e só se lembrava da sensação estranha que tinha sentido antes de desmaiar provocada pelo Espírito de Luís Alves dos Santos a atravessar o seu corpo.

Entretanto aproximou-se de nós um policia, todo fardado, baixo e com um bigode farto. Olhos brilhantes e postura rígida, anda com virtuosidade apesar da idade. O homem olhou todo o meu aspecto e fez me uma saudação com a cabeça. Depois disso dirigiu-se a Laura com um tom delicado como que se de um pai se tratasse.

— Laura, estou à tua espera. Quando quiseres que te leve a casa podemos ir.

— Obrigado, podemos ir já. – ela dirigiu-se a ele também com um tom amável que lhe era característico. Conseguia entender que entre os dois havia uma relação bastante próxima de respeito e amizade.

Reuniu os seus pertences e sorriu para mim. Antes de virar costas e seguir o homem que a esperava, deteve-se e voltou a trás.

— Onde moras? Queria saber onde te posso encontrar.

A pergunta dela apanhou-me desprevenido, nunca ninguém me tinha questionado sobre isso. Mas também nunca ninguém se aproximou tanto ficando com a confiança para me fazer essa pergunta. Não tenho resposta para ela, não tenho uma casa, limito-me a vaguear pelas ruas, sou o que designaria de sem abrigo, mas não tenho aspecto para isso, nem ficaria bem dar-lhe essa resposta. Tenho de pensar em assentar e passar-me por um vulgar humano, isso passa por ter um lar.

— Vemo-nos por ai.

Fiz-lhe um sorriso para que não me interprete mal a minha resposta. Não a quero magoar, mas não tinha pensado aproximar-me dos humanos a este ponto, mesmo de um ser tão belo e magnifico como a Laura.

— Vemo-nos por ai então.

Fiquei a vê-la afastar-se vislumbrando a dança hipnotizante das suas ancas e o cabelo ruivo esvoaçante. Ainda antes de dobrar a esquina e desaparecer do meu campo de visão, voltou a olhar para trás e lançar-me mais um sorriso. Eu retribui, o que a deixou corada. A sensação de leveza no estomago e o bater do coração tornaram-se menores à medida que a distância entre nós aumentava, mas sem eu querer os músculos da minha cara formaram um sorriso patético. Tínhamos passado pouco tempo juntos e as palavras que trocamos também não foram muitas mas, o suficiente para reativar parte da minha pacóvia humanidade que julgava perdida.

O meu corpo continua frio, mas a Laura conseguiu aquecer alguma coisa dentro dele. Esta chama quente que ativou extinguir-se-á porque é fraca a possibilidade de nos reencontrar-mos. Hoje estou por esta cidade a caçar algumas das almas penadas que assombram este lugar, mas partirei rumo a outra região em breve, nunca passo demasiado tempo na mesma cidade para não levantar suspeitas. Será bom partir em breve para não a reencontrar, porque parecer um humano não é ser realmente um e os meus dias como homem já terminaram e a minha vida acabou. Não há a possibilidade de retornar à vida de humano nem posso juntar dois mundos paralelas que existem em simultâneo mas que não se podem encontrar.

Retomo o caminho de volta para a minha carrinha estacionada ao cimo da rua. Encostado ao capô da pick-up consigo identificar a silhueta de um homem de estatura média e um pouco gordo. Só com a proximidade consigo deslindar de quem se trata.

— Dário Sousa. – é um velho amigo, se posso designar alguém de amigo desde que voltei do Inferno era ele. – Que fazes aqui?

Passaram-se anos desde a última vez que o vi. Dário é um bruxo muito antigo, embora a aparência de homem de meia idade. Está igual ao que me lembro dele da última vez que nos encontramos. Talvez apenas com mais uma ruga na testa mas, com as mesmas roupas velhas desleixadas, barba por fazer e cabelo um pouco grisalho. Os seus olhos negros com um brilhozinho demonstram a sua inteligência, é realmente um génio. O rosto está sempre envolto numa nuvem de fumo proveniente do cachimbo que fuma e deixa o seu farto bigode debaixo do nariz amarelado. O cachimbo é um grande vício antigo que tem.

— Estás com bom aspecto Estevão. Corri meio país para te encontrar.

Este seu gracejo era típico do seu tipo de humor. A minha aparência é lastimável, talvez não para quem me conheceu nos meus piores dias, mas não deixa de ser uma ironia o seu comentário ao meu degradado aspecto.

— Porque é que me procuras? Não estou perdido.

— Estou com uma ideia em mente e lembrei-me de ti. Quem mais me poderia ajudar que não uma alma libertada do Inferno?

Não entendo a sua misteriosa conversa e a razão por me ter procurado mas, os assuntos de Dário são sempre de grande importância, e para me ter procurado quase treze anos depois deve se passar algo realmente relevante.

— Tens razão, passasse algo.

Ele lia-me antes que eu conseguisse responder.

— Sabes que regressei à terra com um objetivo, sai do Inferno para cumprir um castigo, não estou própriamente a passar férias.

— E estás a tornar-te decadente por isso. Não podes apenas caçar espíritos e demónios, estás na terra há algo mais para fazer!

— Voltar à terra nunca foi a minha vontade.

O seu vício de fumar cachimbo é realmente grande. Dário mal tinha acabado de fumar e já estava de novo a acendê-lo e dar-lhe umas bafadas.

— Eu sei, mas tu pensas carregar uma chaga maior do que ela éna realidade.

— Mas afinal porque é que estavas mesmo à minha procura?

— Estou à procura de uma coisa e tu vais ajudar-me a encontrá-la.

— E o que é que vamos procurar?

— Sabia que aceitarias mesmo antes de saber do que se tratava. – lutou contra o puxador da porta da carrinha com a intenção de a abrir. – abre esta geringonça e vamos conversar para outro lugar.

Destranquei-a e mesmo depois de entrar no veículo, Dário continuou a fumar.

Dei à ignição e arranquei seguindo as suas indicações. Ele mandava, tinha uma personalidade forte. Não sei ainda o que pretende de mim, mas vou segui-lo. Dário tende a envolver num grande misticismo os seus assuntos, o mistério é outra das suas características fortes. Contudo a sua personalidade descontraída escondia agora uma certa preocupação que derivava do assunto que o levara a procurar a minha ajuda certamente.

Seguimos por entre a escuridão que cobre as ruas. Não sei ainda o que se passou, mas sei que algo está preste a mudar.

Notas finais
Finalmente, publico o final.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.