Notas iniciais
Este conto tem como base histórias verídicas de um Portugal assombrado. Esta história foi pensada por mim com base nessas histórias do meu país e escrito apenas para anotar ideias, que são muitas e achei que não podia desperdiça-las, durante o meu verão. Nunca tive contacto com a escrita antes nem tinha grande habilidade em fazê-lo, tratam-se apenas de um esboço anotado em dias que não surgia nada para fazer. Com isto nunca quis ser escritor ou partilhar a minha história, nem com a família, mas vendo este site em que se pode partilhar decidi por a minha ideia á prova vendo no que dá os frutos da minha imaginação.

O Último Carrasco

Querido diário, este era inicialmente o teu nome, mas agora és apenas um caderno velho de lamúrias e historias assombrosas.

O meu nome é Estêvão Cortês e hoje passam-se trinta e três dias desde a minha mudança, mas é escassa essa mudança que sinto em mim. Se a minha memória não apagou as lembranças dos piores anos estou no décimo terceiro ano da minha renascença, mas só recentemente me apercebi e aceitei no que me tornei. Sou um Shtriga, um demónio infernal que se alimenta do Spiritus Vitalis de humanos a cada dez ou quinze anos ou sempre que a minha necessidade surgir ou o meu instinto assassino o pedir. Roubar a alma a um humano para me manter vivo implica a sua morte, posso consumir qualquer alma mas preferimos as crianças ou os mais jovens pela sua voracidade e pureza. Vivo com a minha antiga aparência humana mas a minha humanidade foi quase removida por completo, apenas voltei á Terra com um castigo: perseguir e devolver aos escombros do Inferno os Espíritos, Demónios, Lobisomens e outros seres sobrenaturais. Durante o dia luto para me assimilar aos comuns humanos vivendo entre eles nas suas vidas normais e desprezíveis.

Sigo em passos largos pelo Terreiro do Paço. Está uma noite quente mas visto na mesma o meu casaco preto comprido. As pessoas olham-me estupefactas, não sei se pelo casaco se pelo meu aspecto desleixado, há uns anos que me deixei de importar com o visual o que pode chocar os comuns mortais, que vagueiam á minha volta ainda mais vazios de alma que eu.

Passo perto da estação de comboios de Santa Apolónia. Não percebi ainda a atracão de vários humanos decadentes sem rumo e perdidos de alma ou pensamento por aquele lugar. Mesmo á minha frente passa uma jovem, na casa dos vinte e poucos anos, quase despida. Francamente nem percebi se envergava algum tipo de calções ou se os despira devido ao calor. Um desprezível homem fixou-lhe o olhar desvairado mirando-a de alto a baixo, babando-se dos seus maravilhosos seios que espreitavam por um generoso decote e dos seu traseiro que oscilava a cada passo tornando-o numa dança hipnotizante. Quando a rapariga desapareceu do seu campo de visão, que era amplo pois tinha quase partido o pescoço numa posição inverosímil para poder vislumbrar o esplêndido corpo da jovem, logo se distraiu com outra insignificante coisa. O copo de cerveja que segurava firmemente na mão. Tremia compulsivamente mas pegava o copo da bebida como um tesouro bebendo dele pequenos tragos. Os seus olhos arregalados e vermelhos com remelas que davam a ideia de ter acordado á pouco tempo embora a noite já fosse avançada. Olhava freneticamente tudo á sua volta como se quisesse comer quem por ali passasse. Desconcertante. Chegava a ser assustador.

Não sei se por pena mas quis libertar aquela pobre Alma daquele corpo sofrido. Podia leva-lo para um beco escuro e roubar-lhe a Alma como faria a um outro Espírito ou Demónio que se ousa esconder num corpo de um humano como um parasita. Mas certamente aquele homem nem o merecesse. Deixaria o a sofrer pelos seus próprios erros. Não que não me apetecesse consumir um Alma, deixava-me com vigoracidade nos músculos, mas esta talvez já não. Já estava completamente possuída e negra. Possivelmente depois do seu corpo morrer tornar-se-ia num Espectro maldoso que assombra este mundo. Mas apenas mais um nada de perigoso.

Quando entrei no meu carro, uma pick-up cinzenta, retirei do porta-luvas o meu “bloco de missões” como o chamo. Risquei mais um ponto. Desde que decidira mudar o rumo da minha vida e começar com o meu castigo, ou exterminação como lhe chamariam se alguém soubesse que o fazia. Cada caso é um caso a resolver, derivava de uma pesquisa que efectuei de Espíritos e outras assombrações que os habitantes diziam residir em alguns locais. Se se tratassem de seres sobrenaturais realmente e não apenas de histórias contadas pelos avós aos netos para que dormissem, eu teria de os combater e retoma-los ao Infernos ardente.

Espíritos, assombrações, bruxarias, fenómenos ou maldições que tinham de ser resolvidas e os seus Demónios ou Espíritos devolvidos ao Inferno eu os mandaria. Esta era a minha Chaga. Tenho outra razão para o fazer, gosto dos humanos e quero ajuda-los. Ou talvez não seja verdade mas di-lo-ei para me convencer que sou movido por outra razão que não o meu castigo.

Este caso que acabara de resolver á umas horas atrás era uma história já muito antiga, remonta ao séc. XIV. Era uma história conhecida por muitos alfacinhas que conhecessem bem as entranhas de Lisboa. Um simples Espírito de um bispo, D. Martinho de Zamora que vagueava ainda pela Sé de Lisboa desde que tinha sido jogado pela janela do edifício após revolta popular onde o acusaram de traição por não ter tocado os sinos em louvor do Mestre de Avis. Um Espírito que queria justiça pela sua injusta morte. Para que querem eles voltar a Terra depois de morrerem se isto é um lugar tão desprezível e mesquinho. Mas é sem dúvida melhor que o Inferno.

O motor do carro custava a pegar. Odeio automóveis. São um meio de transporte muito útil para os humanos, mas não para mim. Não tinha paciência para a sua manutenção, dar-lhes combustível e as filas de trânsito? Odeio-as mais que tudo o resto! Sacos de sangue enlatados ao molho em fila que parecem ser organizadas mas é tudo o que não são onde se buzina e sem anda num constante pára arranca sem sentido só porque querem ir todos para o mesmo local. Que seres tão previsíveis e iguais. São dispensáveis as viagens de carro ou qualquer outro meio de transporte mundano, mas tenho de me disfarçar de humanos. Como Shtriga posso assumir a forma de um insecto ou animal voador, embora fazê-lo me enfraqueça e me faça ter de me alimentar com mais regularidade para me revitalizar. O Spiritus Vitalis de uma criança me possa devolver a vigoracidade do corpo, mas a morte de um humano expõe-me demasiado. Eles são uma espécie que sente muito pela falta uns dos outros mesmo não gostando muito uns dos outros., mas disfarçam-no bem. Sempre que há uma morte estes fazem um enorme alarido em sua volta. E era isso mesmo que agora presenciava.

Estava a passar pela rua do Limoeiro onde vejo uma multidão e um dançar de luzes azuis proveniente de dois carros da polícia e uma carrinha amarela do INEM. Abrandei. Algo me parece que se passou. Os humanos gostam bastante de se juntar em multidões para dançar rodeados de luzinhas mas falta a música, por isso não se trata de uma festa.

Estacionei o carro e fui aproximar-me para ver o que realmente se passava. O pequeno Largo do Limoeiro, ou do Carrasco como era mais conhecido entre a população, com vinte e cinco habitações que devem ser pouco iluminadas pois apenas os pisos superiores possuem pequenas janelas e pórticos, está em alvoroço. Está uma gritaria infernal, os policias tentam por a ordem mas com aquelas mulheres histéricas tornasse difícil.

-AH meus Deus! Mas o que se passou aqui!? Isto é de loucos, ela não tem cabeça!

- Calma minha senhora e afaste-se. Precisamos de trabalhar, deixem os peritos trabalhar.

A mulher continuou a gritar incrédula com o sucedido e os polícias tentavam manter os curiosos em alvoroço afastados para que os peritos pudessem trabalhar. No chão jaz um corpo estendido já com um saco preto a cobri-lo, mas a cabeça do morto nem vê-la. O corpo encontrado não tinha cabeça. Assim se explicava tamanha histeria. Por todo o lado estão manchas de sangue de um vermelho bem vivo, deve ter sido uma grande chacina. Um corpo feminino caído no ladrilho todo ensanguentado e maltratado, os polícias no local também eles incrédulos com o horrendo crime que presenciavam. Os humanos são cruéis e conseguem fazer atrocidades dignas de Demónios. O ar está contaminado por um desagradável odor do corpo. Os polícias organizam-se como formigas pelo local para cobrir a área do crime e investigar. Recolha de sangue, identificação do cadáver etc.

Posso aproveitar agora e consumir a Alma da pobre assassinada jovem. O mal de uns o proveito dos outros. Talvez não seja assim tão grande ideia. Se me aproximasse do corpo, ali diante de todos, o alvoroço seria acrescido. Não estão habituados ao mundo dos mortos, mesmo não conseguindo ver uma Alma a abandonar o corpo iria assusta-los e o granel era grande o suficiente. Dois para médicos paramédicos surgem de trás e encarregam-se de transportar o corpo da jovem.

Posto isto vou repor ao meu caminho, não há mais nada para eu ver aqui. Vaguearei pela cidade porque não tenho necessidade de dormir. O meu corpo não se cansa como os comuns corpos humanos. Teria de exercer um grande esforço para o meu corpo pedir descanso ou então não me alimentar de Almas ou Espíritos durante um longo período de tempo para sentir essa necessidade.

Notas finais
Espero que tenham desfrutado desta primeira parte da narração. A história inicial não se encontra dividida em capítulos por isso foi me difícil encontrar um bom sitio da narração onde quebrar o texto sem deixar pendurada história. A continuação da publicação do conto depende do "feed back" que tiver da parte dos leitores e dos seus comentários e opiniões que agradeço que deixem sobre a história. Este conto encontra-se terminado e revisto, o seu seguimento, ou seja um segundo conto, tem já parte dele escrito e o terceiro todo pensado. Com esse "feed back" que espero receber pretendo ganhar motivação para assentar também essas ideias. Obrigado.