Crying In The Rain.
7 Hard news, taken harder.
Notas iniciais
Quando acordei, senti um cheiro de aroma de café no ar. Levantei sorrindo, me lembrando das manhãs na casa da minha família.
Cheguei até a cozinha e avistei Taylor. Andei com os passos mansos e a abracei por trás, dando um beijo em seu pescoço.
Ela riu.
– Bom dia amor.
– Bom dia. — Respondi. Dei um beijo em sua bochecha e continuei. — Eu vou dar uma volta, tudo bem por você?
– James Sullivan, — Taylor se virou para mim, com uma expressão divertida, com a boca aberta, fingindo indignação — é você mesmo? Querendo dar uma volta pelas ruas do Canadá?
Soltei uma gargalhada, acompanhada com a dela.
– Não posso ter medo para sempre. — Disse, racionando um pouco sobre a frase que acabei de dizer.
E eu estava certo. Não podia ter medo para sempre. Se aparecesse alguma situação em minha frente, que tivesse que enfrentar minha família, assim eu ia fazer.
Coloquei uma camisa preta, minha jaqueta de couro, calça jeans e tênis e sai pela rua coberta de neve.
Andando, respirando aquele ar congelante, minhas memórias voltaram.
Se não tivesse acordado tão insensível, sabia que alguma lágrima ia rolar, mas esse não era o caso.
E então, andando pelas ruas solitário, eu a vi. Quase não acreditei que era ela. Mas tinha certeza, podia passar o tempo que fosse, sempre ia reconhecê-la.
Fui correndo em sua direção e gritei:
– Katerina!
Assustada, a mesma se virou. Parecia que não havia reconhecido ou, assustada, por finalmente me ver depois de tanto tempo. Também estava da mesma maneira, assustado, indignado.
Embora, assim que aceitei o convite de Taylor, sabia que seria provável reencontrá-los, mas ainda não caiu a ficha.
Nós dois, quase que juntos, nos abraçamos. O abraço era gelado, porém quente ao mesmo tempo. A abracei com tanta força que senti que estava sufocando-a, mas parecia que nós dois não nos importávamos com isso.
E então, minha teoria de ter acordado insensível foi por água a baixo. Comecei a chorar, emocionado, e então ela olhou para meu rosto, meus olhos, Katerina estava chorando também.
Ela riu por um segundo e, sorrindo, ainda chorando, levou dois de seus dedos gelados para meu rosto, limpando minhas lágrimas. Sorri também.
– Tão bom vê-lo. — Katerina disse, sua voz soou quase como um sussurro, porém era suave, doce, que eu sentia tanta falta.
Minha irmãzinha, cuja qual amava tanto, estava bem ali, nos meus braços, novamente. Como nos velhos tempos.
– Estava com tanta saudade…
– O que está fazendo aqui? — Ela perguntou, fungando e tentando limpar as lágrimas insistentes.
– Taylor… — Parei por um segundo. — Minha namorada, ela queria que eu passasse o natal com os pais dela.
– E você veio mesmo assim? Sabendo que tinha possibilidades de reencontrar… — Ela revirou os olhos. — Carolline.
Eu ri. Ela riu comigo.
– Pois é. Mas sabia que também tinha possibilidades de te reencontrar, Katerina. Estava com muitas saudades de você, minha irmãzinha.
Disse sorrindo e ela riu.
– Você é o irmão mais chato que eu poderia ter. E eu te amo! — Nós nos abraçamos de novo.
– Aqui está muito frio. — Disse, sentindo minha pele congelar cada vez mais. — Que tal irmos tomar um chocolate quente em algum lugar?
– Hum, ótima ideia! Conheço um lugar ótimo, que nós irmos com papai e mamãe. — Ela abaixou a cabeça. — Antes de Carolline ser encontrada. Lembra?
Pensei por uns segundos.
– Sim. Acho que lembro.
Nós dois andamos em silêncio. Antes de Carolline ser encontrada. Pensei um pouco na frase.
Ao entrarmos na velha casinha que vendia bebidas quentes, o ar quente penetrou por minha pele e senti uma sensação muito agradável de conforto. Odiava frio. Lembro-me que Katerina também.
Pedimos dois chocolates quentes e nos sentamos em uma mesa qualquer.
– Então… — Mordi meus lábios. Precisava fazer aquela pergunta. — Como está nossos pais? E Carolline?
Katerina abaixou a cabeça, parecia estar chateada. Fiquei apenas observando e, depois de alguns segundos, ela suspirou e levantou a cabeça.
– Não falo com eles. Desde que você foi embora, eu comecei a me rebelar. Já estavam querendo me mandar embora, depois que descobriram minha opção sexual então… — Ela abaixou a cabeça de novo e vi uma lágrima caindo. — Meu pai falou que eu não sou mais filha dele.
Segurei sua mão e fiz ela olhar em meus olhos. Seus olhos carregavam angustia, depressão. Assim como os meus.
– Eles são uns idiotas. Despejaram seus dois filhos de verdade, ficando apenas com uma garota que nem é da familia realmente.
– É… Carolline é uma vadia. — Katerina riu, porém sua expressão ainda carregava tristeza.
– Não precisa ter rancor dela por minha causa.
Katerina olhou para baixo por alguns segundos e olhou em meus olhos em seguida, sentindo seu olhar penetrando em minha pele.
– Ela que contou à eles. — Falou friamente.
Olhei-a indignado. Como Carolline podia fazer isso? O que ela queria, afinal?
Meu sangue começou a subir, de repente me senti em um lugar tão quente quanto o inferno. Eu estava parecendo o próprio demônio. Aceito Carolline me derrotar, porém mexer com a minha irmã? Nunca.
Posso jurar que, se a ver nesse momento, arranco sua cabeça fora ou algo mais poético. Vamos ver.
Levantei-me depressa e Katerina segurou meu braço.
– O que vai fazer? — Ela me perguntou e senti sua voz um tanto desesperada.
– Ir atrás de Carolline, ter uma pequena conversinha com a mesma.
– James… Por favor. — Katerina me olhou com seus olhos brilhantes e devagar meus musculos foram voltando ao normal, ficando menos rígidos. — Deixe para lá.
– Não, Katerina. — Respondi seco — Isso eu não posso aceitar.
Katerina também se levantou, olhando para os lados e percebendo que estávamos falando alto demais, me puxou pela mão e me levou para fora, onde, ao pisar na neve, meu corpo voltou a congelar.
– Carolline tem uma… Não sei. — Katerina começou a pensar um pouco, com os braços cruzados, tentando se defender do frio. — Ela consegue convencer nossos pais muito facilmente. Ela nunca gostou de nós, isso eu percebi quando fui mandada embora.
– Você confiou nela para contar que era lésbica, Kat?
– Não… Ela me viu com a minha namorada, James. É claro que eu não contaria para ela! Ao vê-la, me desesperei e corri para falar com ela. Carolline se mostrou doce, disse que não contaria nada e me entendia perfeitamente. Porém, quando cheguei em casa… Meus pais já sabiam.
Suspirei fundo e, mesmo decepcionado, assenti com a cabeça. Ela entendeu e não tocamos mais no assunto.
Tínhamos muito para por em dia, então, andando pelas ruas do Canadá, ela foi me contando de sua vida desde que fui embora e eu fiz o mesmo.
Contei de Leana, o que fez com que eu sentisse cada vez mais falta da mesma. E então aquele vazio interior dentro do meu peito voltou a me encomodar.
Contei para Katerina do dia que Leana desapareceu depois de ter visto minha mão sangrar.
– Isso é… Realmente muito estranho. — Então minha irmã caiu na gargalhada, eu apenas dei uma leve risada de alguns instantes.
Contei que não a vi mais de um mês, estava totalmente desaparecida. Omiti a parte de que a vi perto da casa de nossos pais, apenas me observando. Katerina ia me achar louco.
Contei sobre Taylor também e ela me contou sobre sua namorada, Elena.
– Quando vou conhecê-la? — Perguntei, sorrindo.
– Ela viajou a alguns dias. Não creio que isso seja possível, mas… — Katerina começou a vasculhar o bolso de seu casaco, até que tirou um papel e uma caneta e começou a escrever. — Tome. Meu endereço. Pode me visitar quando quiser.
Sorri, peguei o papel e coloquei no bolso de minha calça jeans.
– Eu vou.
Ela sorriu também e quando vi já estávamos na porta da casa de Taylor.
Katerina reparou que a casa ao lado era de nossos pais, e deu um suspiro cansado.
– É… Azar o meu, os pais de Taylor moram do lado de minha antiga casa.
– Nossa antiga casa. — Katerina me corrigiu.
– Pois é.
Fiquei olhando para a direção onde havia visto Leana por alguns segundos e senti um toque suave em meu braço e me virei, minha irmã me olhava com uma expressão preocupada e logo em seguida deu um sorriso travesso, como antigamente.
– Um real pelo seu pensamento. — Disse sorrindo.
Cai na gargalhada. Assenti com a cabeça e Katerina tirou um real do bolso e me entregou.
– Como nos velhos tempos, mana. — Sorri e abaixei a cabeça. — Estava pensando em Leana.
– Sente falta dela?
– Muita.
– James… — Katerina parou por alguns segundos, olhando o horizonte, parecendo formular uma pergunta. — Tem certeza que você gosta da Taylor?
A pergunta havia me pego de surpresa. Olhei para Katerina, que agora me olhava séria.
– Eu… — Mordi meus labios, pensando um pouco mais antes de responder. — Eu creio que não superei Leana.
– Em tão pouco tempo…
– Eu sei. — Cortei Katerina. — Eu não sei como, mas sou apaixonado por aquela mulher!
– E está com a Taylor?
Suspirei fundo.
– É… Não é certo. Preciso encontrar uma maneira de falar para Taylor, só que não sei como.
– Acho que não precisa. — Uma outra voz penetrou na conversa. Uma voz feminina e familiar.
Surpreso, olhei para o lado e avistei Taylor, sua expressão estava rígida e seus olhos carregavam decepção. Olhei para Katerina que se mostrava com os olhos arregalados.
– Eu acho que ela já sabe. — Taylor continuou sua frase e vi lágrimas caindo sobre seus olhos.
– Taylor…
– Não. — Ela me interrompeu. — Eu havia ouvido vozes, pensei que eram suas. Arrumei suas malas e as minhas, vinha aqui fora para falar que estava quase na hora do ônibus chegar. E então eu tinha que ouvir isso… — Agora suas lágrimas estavam escorrendo pelo seu rosto e ela as limpou, rindo ironicamente e colocando uma das mãos na testa. — Como eu sou burra.
Olhou para mim séria, jogou minhas malas no chão e saiu andando.
Ainda não havia caido a ficha de que aquilo estava realmente acontecendo. Olhei para Katerina de novo, que estava perplexa.
– Bom… Como Taylor disse, o ônibus está chegando. — Disse, minha voz saindo quase como um sussurro.
– Se cuide. — Katerina disse, sorrindo de lado, meia tristonha.
Nos abraçamos forte. Não queria mais soltá-la, foi tão bom revê-la.
Fui em direção à estação, onde encontrei Taylor. Sei que ela me viu, porém fingiu que não.
Nossos lugares eram um do lado do outro. Ela sentou na janela dessa vez e eu, sentei ao seu lado, totalmente sem graça.
Não ousei falar sequer alguma palavra com Taylor, e logo havia pego no sono.
Sonhei com Katerina, com Carolline e com meus pais.
Quando acordei, faltava alguns minutos para chegarmos na rodoviária. Olhei de lado para Taylor, vi que a mesma estava acordada, porém seu olhar estava para baixo e parecia que ela estava perdida em seus pensamentos.
Suspirei fundo, olhando também para baixo. Me sinto mal ela ter descoberto dessa maneira o que eu realmente sinto.
Busquei minhas malas e sai do ônibus. Parei por alguns segundos, observando as ruas e sentindo o calor penetrar em minha pele.
Fui andando devagar, apreciando a paisagem até chegar em casa. Abri a porta devagar, todas as luzes estavam apagadas.
Coloquei minha mala no chão e, no escuro, tentei achar o interruptor. Ao sentí-lo, acendi a luz.
Olhei para o chão, peguei minha mala e fui levá-la para o quarto. Deixei minha mala perto da cama. Comecei a lembrar do dia em que Leana dormiu aqui. Do dia em que ela desapareceu.
Peguei um livro em cima da minha cabeceira para levá-lo até a mesa da sala.
E então meus pensamentos se voltaram para Leana. Nunca mais vou vê-la, preciso me conformar. Balancei minha cabeça para os pensamentos irem embora e continuei andando.
E foi aí que parei. Não conseguia mais seguir até chegar à mesa, pois fiquei paralizado com a cena que estava vendo.
Por um momento pensei que fosse um sonho, porém com o susto que eu levei, deixei o livro grosso cair em cima de meu pé, e percebi que era real. A dor foi real.
Não trocamos nenhuma palavra, apenas fiquei observando a cena.
Ela estava ali, sentada em meu sofá, imóvel, com uma regata preta apertada e uma calça jeans apertada e uma bota de salto também preta. Seus cabelos negros estavam presos em um rabo-de-cavalo, com apenas alguns fios soltos caindo em seu rosto.
Seus olhos demonstravam tristeza e eu consegui entender um “sinto muito” neles.
– Le-leana? — Perguntei, ainda não acreditando.
Ao ouvir minha voz, ela deu um sorriso sincero e largo. De repente aquela imagem de pavor e medo que eu estava sentindo se transformou em felicidade. Meus músculos estavam menos rígidos ao ver seu sorriso. Mas não completamente.
Parecia que algo havia mudado.
– Olá, James. — Seu rosto agora estava sério. Ela parou por uns instantes, parecia estar me avaliando. Então ela abriu a boca novamente, hesitei. Leana continuou a falar. — Senti sua falta.
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