Cry
1 Capítulo único: Não chore por mim
Notas iniciais
Little by little
I've come to this point
On my own I've been searching my way
Então era isso, aquele havia sido o ponto forte da decisão do adolescente pra toda aquela falsa vida que viera levando desde então. Cansou-se daquela vida de mentiras, onde fingia apenas pelo fato de que chorar exigia muito mais forças do que sorrir. Viu-se perdido em uma negritude qual sua vida se encontrava e duvidava muito se um dia encontraria aquele final feliz que todos os prometiam.
O garoto tentava sair daquele poço. Tentava acreditar nas pessoas a sua volta que diziam que aquilo apenas era uma fase, que Kurt precisava apenas se levantar daquela cama porque o que sentia era uma simples exaustão. Bom, não estavam todos errados. Kurt estava exausto sim, mas não de coisas materiais.
Fazia dois anos desde o ocorrido. Vinte e sete meses ou oitocentos e setenta e dois dias, como preferirem medir o tempo no qual o castanho não encontrava mais solução ou rumo pro que antes era uma vida. Perder Burt foi como perder sua identidade, seu corpo e seu nome. Perder o pai foi como sentir o mundo cair em cima de si quatrocentas vezes, e ainda continuava a cair. Era como voar, mas sem as asas. Perder Burt foi apenas o começo de tudo.
I lost you so early,
the days went so fast,
You don't know how I prayed every day
Foi como se sua vida desandasse, como se Kurt já não soubesse mais como agir. Seu pai o deixara despreparado para o mundo. Como agiria em certas situações da vida sem ao menos um conselho dele? Como conseguiria acordar todos os dias e se levantar da cama, quando sua mente tem que aceitar o fato de que se está só? E ele estava.
Claro, tinha Carole, mas Kurt achava que a madrasta estava mais perdida que ele mesmo.
Deixou mais algumas lágrimas caírem sobre seu rosto enquanto segurava fotos do pai, sozinho. Se Kurt tivesse uma foto ao lado do pai, seria muito. Lembrava-se de sair com o pai em sua infância para diversos lugares e trazer consigo nenhuma lembrança, e agora se arrependia de tudo. Não tinham fotos juntas pois não havia ninguém para tirá-las. Eram apenas pai e filho no mundo, agora não mais. Restava apenas um da longa linhagem dos Hummel, e não seria assim por muito tempo.
Suspirou mais uma vez diante um choro agoniante costumeiro finalmente criando coragem para poder fazer alguma coisa àquilo tudo. Se alguém fosse sentir sua falta seriam apenas dois ou três, mas Kurt era egoísta demais para ao menos pensar nessas pessoas. O tempo passaria e eles se acostumariam com sua falta, eventualmente. Coisa que nunca chegou a acontecer com seu pai, já que sua presença era tão iluminada que sua falta seria sentida por eternidades.
A song to remember,
a song to forget
you'll never know how I tried
to make you proud and to honor your name
But you never told me goodbye
Seus passos lentos até o antigo quarto do pai eram o único som daquela madrugada. Kurt abriu a porta antes de cair no choro angustiado novamente. Deparou-se com a cama vazia, qual costumava ficar deitado com o pai até o velho pegar no sono. Kurt nunca dera bola pra momentos assim antes, mas daria tudo atualmente para apenas mais uns segundos ao seu lado.
Seus olhos percorreram aquele cômodo como uma última vez e Kurt se viu automaticamente se dirigindo ao canto do quarto. Suas mãos trêmulas alcançaram uma caixa de madeira fria em cima do velho guarda-roupa, qual vazio agora se encontrava. O adolescente se sentou na cama antes de abrir aquele compartimento, imaginando mais uma vez o orgulho que seu pai dizia sentir de si, mas não tinha motivos pra isso.
Now that you are gone
casting shadows from the past
You and all the memories will last
“Eu me orgulho tanto de você”, disse o velho homem dias antes de realmente se for simplesmente por Kurt estar dedicado fazendo algum trabalho de escola. Porém o garoto sabia que nada que fizesse poderia um dia orgulhar o pai, porque Burt merecia o mundo e Kurt simplesmente não poderia dá-lo ao pai.
Don't you cry
or suffer over me.
I will be waiting for you
Secou as lágrimas que o impediam de continuar a abriu a caixa sentindo um enorme frio na barriga e uma incerteza ao ver o velho objeto do pai lá dentro. Algumas balas e um revólver qual Kurt nunca fez questão de descobrir que calibre ela. Na verdade, essa informação serviria apenas aos técnicos para o relatório que viria logo que achassem seu corpo morto. Se perguntava quanto tempo isso levaria, dias ou até meses até finalmente sentirem sua falta.
Não havia cartas ou bilhetes porque afinal não havia ninguém para quem Kurt quisesse deixar um último adeus. Seu meio-irmão e sua madrasta viviam em mundos diferentes agora e Kurt chegava a se perguntar se ainda eram sua família, como haviam prometido um ao outro na noite em que receberam a notícia. A noite que Kurt soube que sua vida acabaria ali, naquele instante.
Don't you cry,
Angels never fade away
I'll be watching over you
See you through
Sem confiança, Kurt segurou a arma com as mãos trêmulas, sem saber ao certo se queria aquilo mesmo. Chorou ainda mais, por se sentir covarde o suficiente para não conseguir tomar nem essa decisão. Covarde o suficiente pra não conseguir nem acabar com aquela mísera vida que estava o consumindo aos poucos. Kurt não se mataria, pois estava morto há tempos; apenas aceitaria a escuridão que o abraçava desde a noite fatídica.
Colocou uma bala apenas no tambor, não seriam necessárias mais. Fechou os olhos e posicionou a arma lentamente no canto direito de sua cabeça, alguns centímetros acima da orelha. Havia pesquisado, não queria sobreviver com sequelas daquela decisão. Sentiu seu coração parar de bater por alguns segundos enquanto seu polegar puxava o cão para engatilhar a pistola. Seus dedos suavam e sua mão tremia, fazendo a arma dançar sobre a lateral da cabeça.
E então Kurt simplesmente desistiu, deixando a arma cair sobre o colchão qual poderia sentir o cheiro do pai se ainda quisesse. Havia acontecido: havia pensado demais e desistido da decisão que tomara horas atrás.
Now I'm a man and I'm feeling you still
Could it be you were there all along
Sabia que não era o homem que o pai quisesse que o garoto fosse. Sabia que havia decepcionado o mais velho em algum momento e se culpava por isso. A casa rangia conforme a noite passava e, para Kurt, aquele lugar era como um museu que o torturava todos os dias.
Memórias de Burt espalhadas pelo local, memórias quais Kurt fez questão de deixar onde pertenciam.
A time to surrender,
a time to forgive
With solace I give you this song
Ainda com os olhos fechados, segurava o choro e suspirava por partes. Seu pulmão necessitava de ar, porém Kurt estava abalado demais para poder raciocinar naquele momento. Passaram alguns minutos com o castanho encarando o preto em sua frente, até ter coragem de abrir os olhos e tentar novamente. Encarou a arma jogada sobre o fino lençol azul, preferido do pai.
Ousou, por alguns instantes, a pensar no filme que assistira, que as almas mortas esperavam entes queridos em uma parte separada do submundo, onde eventualmente encontrariam as pessoas amadas por mais uma vez. Aquilo traria esperança à Kurt, por saber que se conseguisse aguentar a pressão e o peso dessa vida mísera que levava, poderia mais uma vez encontrar com aquele sorriso que o pai dava quando o encontrava. Mas seria verdade? Valeria a pena arriscar conviver com decepções para uma chance rasa como essa? Kurt negou com a cabeça.
Now that you are gone
Casting shadows from the past
In my dreams I hear your voice at last
Precisava de ajuda. Com os olhos longes, sacou o celular do bolso e discou o número que a psicóloga da escola havia o entregado. Era um centro de valorização à vida 24hrs, onde Kurt poderia ligar sempre que se sentisse sozinho ou estivesse com vontade de cometer alguma coisa grande. Aquele era o momento, certo? Discou os três dígitos com calma. Não precisaria da aprovação de ninguém para cometer o suicídio que havia planejado, porém gostaria de ouvir uma voz qualquer antes de finalmente partir.
O bipe acionou uma vez, logo duas. A espera para atenderem a ligação começa a ficar maior e maior e Kurt estava começando a interpretar isso como um sinal divino vindo dos céus, de alguém que Kurt segundos atrás desconfiava que existisse. Quando finalmente atenderam e uma voz soou pelo ouvido do rapaz.
– Você ligou para o Centro de Valorização À Vida. Posso saber seu nome? – Dizia a voz.
Kurt hesitou. Pensou por alguns segundos em desligar a ligação, afinal já havia conseguido o que queria: uma voz. Não seria esse o plano? Porém, como um último suspiro do lado consciente de seu cérebro, Kurt resolveu arriscar com aquela ligação. Não perderia nada adiar por alguns minutos sua inevitável morte.
– K-kurt. – Respondeu com a voz falhada.
– Boa noite, Kurt. – Responderam. – Eu sei o motivo da ligação, sei porque você está vindo até nós com esse telefonema. Eu queria apenas entender o que você sente para poder lhe ajudar. – Dizia a voz, porém Kurt não se sentia tocado com nenhuma das palavras. Eram contratados para fazer você se sentir bem, não como se realmente se importassem com você.
– E-eu sinto falta do meu pai. – Resolveu desabafar, por uma ultima vez. Talvez o que havia lhe impedido de apertar o gatilho não fosse a coragem, e sim o excesso de sentimentos que Kurt havia guardado pra si depois de tanto tempo. – Eu sinto tanta falta do meu pai. E-ele se foi como se tivesse levado uma parte de mim com ele e-e todo o resto do mundo parece não se importar, esfregando a felicidade deles na minha cara. – Kurt fungou, sentindo as lágrimas começarem a criar vida novamente. – S-sinto falta dele quando vou dormir, sinto falta quando acordo. Sobreviver d-desde a morte dele tem sido um desafio pra mim e eu sinto, todos os dias, q-que estou falhado nessa prova. – Disse com os dentes cerrados, tentando não cair em pleno desespero ali mesmo. Poderia ser um suicida, mas ainda tinha escrúpulos.
– Seu pai se foi desde quando? – Perguntou o outro lado da linha.
– P-parei de contar os dias a muito tempo. – Disse apertando o celular contra a orelha, como se aquilo tornasse a ajuda mais real. – Primeiro eram m-meses, depois anos. Simplesmente parei de olhar no calendário po-porque parecia que os dias seguintes olhavam com anseio da minha tortura psicológica. – Respondeu sentindo seu coração bater forte. Lágrimas ainda caíam sob seu rosto pálido e o azul de seus olhos se tornavam um vermelho imenso.
– Seu pai é uma boa lembrança pra você? – Perguntaram novamente.
– As melhores. – Respondeu com um riso fraco, não impedindo as lágrimas de caírem e a tristeza de sobre parecer. – E a-ao mesmo tempo as piores. Se houvesse um jeito de arrancar de mim as memórias boas, a-assim eu faria. Não consigo fazer uma tarefa sequer sem ao menos pensar em como meu pai a realizaria, o-ou em como me daria dicas de como fazer. As lembranças vem assombrando minha vida há tempos e-e eu s-simplesmente cheguei a um ponto qual não posso mais viver em harmonia com elas. N-não mais. – Disse com o coração quebrado, olhos vagos encarando um dos cantos do quarto e a chuva lá fora começava a ficar mais forte, dando apenas um cenário cada vez melhor para aquele drama todo.
– Se seu pai é uma memória boa, você não tem que fazer dele um mártir pra poder partir, Kurt. – Disse a voz.
– V-você não entende. – Disse em desdém. – Ninguém entende e-e eu parei de tentar fazê-los entender porque simplesmente eu não posso m-mais.
O garoto chorava compulsivamente. As lágrimas desciam seu rosto com vontade, como se Kurt tivesse colando pra fora toda a dor que sentia naquele momento, mas não era. A dor continuava lá e continuaria para sempre, até um dia finalmente cessar, seja com a presença do pai novamente ou com uma bala na cabeça, pensava o castanho.
– Kurt, me escute. Eu não sei o que você está passando, realmente, mas eu me importo com você. Todos nós aqui da CVV nos importamos. Não nos voluntariamos à atender casos como os seus todos os dias se não nos importássemos. – Disse sincera a voz. – Você pode passar por cima de tudo isso, só basta ter coragem!
– A mesma coragem que me faltou para apertar o gatilho?! – Falou em um tom irônico, ainda machucado.
Naquele momento, o atendente se assuntou. Kurt tinha praticamente tudo em mãos para praticar o ato, mas algo o alertou de ligar primeiro para sua central. Era um caso em milhares e agora o garoto se sentia na obrigação de ajudar o adolescente ao outro lado da linha.
– Kurt, você nos ligou. Isso significa alguma coisa, não? – Engoliu seco. – Talvez algo em você esteja tentando lhe dizer que isso não é o certo, não é a saída e não será. O sofrimento pode nunca acabar e eu detestaria ver você fazendo isso.
– Qual o seu nome? – Perguntou o Hummel.
– Nós não podemos passar informações pessoais, Kurt. – Lamentou.
– Como eu posso confiar em alguém qual não sei o nome?
O atendente suspirou fundo, encarando a tela de computador à sua frente aberta com tópicos que poderiam lhe ajudar com a ligação, porém nada que estava ali poderia ajudar Kurt. O atendente sentia isso de alguma forma, que talvez o único motivo de Kurt estar ligando seria querer saber que alguém se importa.
– Blaine. – Respondeu em um sussurro.
– Tudo bem, Blaine. – Kurt dizia com um pingo de raiva em seu tom, chorando e se embaralhando com as palavras com pequenos soluços do choro. – Imagine sua vida desabar na sua frente e você não poder fazer nada pra impedi-la. I-imagine você ter que organizar o funeral de seu pai sozinho, pois não há ninguém mais para fazê-lo. Imagine agora, t-todas aquelas pessoas, seus parentes, comparecerem ao velório e depois nunca mais manterem contato com você por acharem difícil demais encarar a dor da perda. A perda deles, de um tio ou de um primo. Mas você, filho, tem que acordar todos os dias e encarar além da dor da perda, saber que não há ninguém ao seu lado. I-imagine você ouvir piadas de seu pai pelas pessoas que te odeiam e não fazem questão de esconder isso de você. Imagine, agora, todos te desejando ficar m-melhor sem ao menos perguntarem como você se sente...
A voz de Kurt saía embargada pelo choro, como quem desabafasse com um melhor amigo em busca de relento. Como quem apenas quisesse um abraço e a frase que mais odiava, “vai ficar tudo bem”, vinda de alguém que realmente se importasse.
Blaine sentiu seu coração se quebrar em pedaços. Ele não poderia imaginar aquelas coisas.
– M-meus amigos... – Kurt continuou durante o silêncio de Blaine. – Meus amigos, ou como eles se chamavam na época, s-se afastaram de mim por achar que eu precisava de um tempo, e nunca mais voltaram. Eu me vi perdido em um b-beco sem saída, sem um auxílio e sem algum lugar pra poder ser eu mesmo. E as pessoas me viam na rua com um sorriso e achavam que eu estava bem, que não p-precisavam mais dela, mas elas estavam enganadas. Era nesse momento que eu precisava! – Dizia como se sua vida dependesse disso.
– Kurt, eu não sei como você se sente. – Blaine tentou confortá-lo. – Não sei como você está se sentindo e creio que nem você mesmo possa descrever essa sensação que é perder alguém com quem você se identificava muito. Eu poderia dizer coisas como “vai ficar tudo bem”, ou “você vai sair dessa”, mas nós sabemos que nenhuma delas te faria sentir melhor. O que eu posso te oferecer é um ombro onde você possa conversar, desabafar. – Blaine fazia movimentos com a caneta enquanto conversava com Kurt, tentando achar alguma frase que o fizesse sentir melhor. O atendente apenas não entendia qual era essa sensação nova de querer tanto ajudar o outro. – Não vou te ajudar se disser que o tempo vai curar essa saudade e dor que você sente e não vou te ajudar se falar que você precisa se esforçar, mas acredite, esses são os conselhos mais sábios que alguém pode te dar. E por mais que você ache que sua vida acabou, que está sem amigos e sem felicidade agora, um dia você vai poder olhar pra trás e tudo isso será apenas uma lembrança ruim, da qual você irá se livrar ao olhar no presente. – Blaine tinha um olhar compreensivo no rosto, tentando se imaginar no lugar do garoto. – Eu posso não ter passado pelos mesmos dramas que você, posso não ter sentido em minha pele o que você sentiu nesses últimos anos, mas acredite quando falo que eu quero seu bem, mais do que qualquer outra pessoa desse mundo.
– Blaine, você não sabe... – Kurt chorava com as palavras do atendente. Finalmente ele podia ter essa conversa com alguém, finalmente ele podia ser ele mesmo e falar o que sentia sem ser julgado. Podia simplesmente jogar o fato de que queria se tornar um suicida, e poderia não receber aquele olhar piedoso que sempre recebia dos inúmeros psicólogos que visitara,
– Sim, eu não sei. E particularmente, nem você sabe. A felicidade pode estar a dois dias de distância e você se limita a desistir dela. Se limita a achar que um fim doloroso pode ser mais eficaz do que algo que lhe faz sentir completo por dentro. –Blaine mantinha o tom calmo. – Sabe aquele vazio que você sentia quando pensava em seu pai? Logo ele se tornará algo bom, algo que você poderá sorrir ao se lembrar do homem maravilhoso que ele foi, das lições que ele te deixou para uma vida inteira. Mas você está pensando em hesitar, em desistir dessa vida que ele fez o possível e impossível para que você tivesse. Aposto que seu pai não gostaria de lhe ver assim e aposto que você já ouviu essa frase um milhão de vezes, mas você sequer parou alguma vez para pensar nela? Em qual efeito ela passa? – Antes que Kurt pudesse responder, Blaine continuava. – Kurt, acredite, você pode. Você pode e você é tudo que seu pai acreditava que você seria. Ele era um homem maravilhoso pelo o quê me contou, era uma luz na sua vida e um dia você será essa luz na vida de alguém. Porém você só conseguirá fazer isso quando afastar a escuridão que está ficando cada vez mais perto!
– C-como? – Foi a única coisa que conseguiu perguntar. Chorava desesperadamente, não sabendo ao certo o motivo das lágrimas caírem. Sabia de todas aquelas coisas, dizia a si mesmo todas as noites antes de dormir e não entendia o poder elas agora. Talvez o problema fosse que Kurt nunca pensou em escutá-las de outra pessoa, e que talvez isso as fizesse mais real.
– Eu não posso te dizer como, Kurt. – Disse sincero, como se aquelas palavras cortassem seu coração. – Eu posso simplesmente te ajudar e falar que, quando se sentir mal, esteja à beira de cometer uma loucura ou não, você pode discar o mesmo número e conversar com pessoas como eu, que querem te ver bem e querem que você consiga alguma lição de tudo isso. Que um dia olhe pra trás e veja que é um grande vencedor. Mas eu não posso fazer isso por você. – Blaine suspirou, com a sensação de não estar fazendo nada para ajudar o garoto do outro lado da linha. – Um dia você vai ter um casamento maravilhoso, três filhos correndo pela casa gritando sobre alguma coisa aleatória e uma casa fabulosa. Você vai olhar para o quadro de seu pai na mesa da sala e vai sorrir, sabendo que tudo aquilo que conquistou o fez orgulhoso. Você pode fazer isso, você consegue. E mesmo que, um dia durante a luta, se sentir fraco, será apenas um buraco no meio dessa grande estrada que você vai percorrer.
– E-eu... – Kurt tentou, porém se viu sem palavras.
– Kurt, você está passando pelo o que metade das pessoas nunca passaram. Você pode tirar uma vantagem disso, pode tirar disso um grande aprendizado. Só quero que, por favor, prometa pra mim que não desperdiçará sua vida em uma incerteza de alívio.
– Blaine, e-eu não sei se consigo.
– Você nunca saberá se não tentar.
– E-eu não vou conseguir... – Kurt assumiu, soltando as palavras depois de tanto tempo de silêncio. – Meu pai achava que eu era tudo, que eu conseguiria tudo que quisesse. Mas isso se fez bem claro nos últimos anos, eu não consigo e eu não posso. Eu sou só uma pessoa, não sou alguém extraordinário como ele achava. – Chorava baixo durante as palavras, dando algumas pausas para pegar ar. – Sinto que falho em tudo que eu faço e qualquer coisa que possa me trazer o mínimo de alegria também falha. E-eu simplesmente cansei de entregar minha vida ao destino e esperar que ele faça algo bom com ela. E-eu... Não dá mais, Blaine!
– Então não faça. Não entregue sua vida nas mãos do destino. Ele é traiçoeiro, Kurt. Entregue suas vidas em suas próprias mãos. Se o mundo tentar te derrubar, dê um enorme sorriso e tente de novo. Se o dia parecer frio e triste, faça-o virar algo bom e radiante.
– Isso faz de mim um tolo. – Resmungou.
– Isso faz de você um vencedor! – Blaine completou. – Apenas me prometa que, por pelo menos nas próximas vinte e quatro horas, você irá esquecer toda essa ideia de acabar com sua vida. E, depois disso, se ainda não tiver cem porcento de certeza, ligará de novo pra mim.
– Eu não posso prometer isso... — Dizia com os olhos fechados, celular pressionado contra a orelha em busca de algum conforto.
– Sim, você pode. – Blaine insistiu. – Quanto mais você puder adiar, assim será. E você fará isso por mim, fará isso pelo seu pai e por todas as pessoas que, pelo menos uma vez na vida, sentiram um pouco de empatia por você. E você sabe por quê, Kurt? Porque sua vida é importante. É importante pra mim, que levarei como uma grande lição, importante pros seus amigos que olham pra você e te admiram e é importante pro seu pai, seja lá onde ele está. Você é importante, e enquanto não acreditar nisso por si mesmo, ninguém poderá te ajudar.
– T-tudo bem. – Kurt sussurrou. – Vinte e quatro horas.
– Não te peço um segundo a mais. – Disse Blaine sorrindo, vitorioso por finalmente fazer Kurt tomar uma ação sensata sobre toda aquela história.
O castanho desligou a ligação, sem se importar em se despedir. Aquilo era sobre ele, certo? Encarou a arma jogada no lençol e suspirou, tentando imaginar nas trevas que enfrentaria pelas próximas vinte e quatro horas.
No fundo, Kurt nem sabia o motivo de ter prometido à um estranho algo que dependia somente de si, mas resolveu dar uma última chance a algo que nem ele tinha certeza. Resolveu estipular uma meta, e se, em vinte e quatro horas, nada de bom acontecesse em sua vida, bom, aquilo era obviamente um sinal de que nada aconteceria com o passar dos anos.
Segurou a arma com cuidado e a guardou na caixa, fechando a tampa e acabando com aquela visão com o instrumento que seria o causador de seu suposto alívio. A caixa logo foi guardada no mesmo lugar qual o Hummel havia a achado, e com passos firmes Kurt voltou ao seu quarto para uma cama que já o esperava há muito tempo.
Fechou os olhos e sorriu fraco ao se lembrar de ter entregue sua vida nas mãos de um completo estranho, porém agradeceu por Blaine ter aparecido em seu caminho. Suas costas estavam muito mais leves sem o peso das palavras, não havia desabafado com ninguém desde a morte do pai, e sabia que Blaine guardaria aquelas palavras consigo, não importa o que acontecesse.
Estava tudo bem pela primeira vez em anos. Pelo menos pelas próximas vinte e quatro horas.
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Kurt acordou tranquilamente, o que era novidade para o castanho. Acostumado com um mundo perverso de pesadelos, Kurt se sentou na cama e suspirou aliviado ao saber que o sonho da noite anterior havia sido mais leve do que o comum. Arrumou a cama lentamente, sabendo que se não fizesse ninguém mais o faria. Se vestiu com uma roupa qualquer – Kurt não ligava mais – e desceu as escadas da casa escura lentamente, se preparando para mais um dia de depressão.
Abriu o armário e pegou um cereal, sua única fonte de alimento há alguns dias. Os despejou em uma tigela qualquer que estava no escorredor de louças e seguiu até a geladeira para pegar um leite, porém a caixa estava vazia.
– Claro, como não estaria? – Perguntou irônico, afinal as coisas sempre davam errado mesmo.
Suspirando como se sua vida dependesse disso, Kurt pegou as chaves do carro que estavam em um porta-chaves perto da porta e seguiu dirigindo até um mercado próximo de sua casa. Caminhou lentamente e nem notou as pessoas o encarando com curiosidade. O Hummel não saía da própria casa há tempos e era novidade o ver fora da mansão do pai desde sua morte.
Pegou o primeiro leite que viu na prateleira e caminhou até o caixa, sem muita vontade de conversar com a operadora. Assim que a moça que o atendeu disse o preço, pegou sua carteira e pagou com uma nota só, avisando que podia ficar com o troco.
Seguia lentamente até o estacionamento quando uma mão o segurou pelo braço.
– Oi, me desculpa. – Dizia o homem com um sorriso estúpido. – Você esqueceu sua carteira sobre o balcão. Aqui está. – Entregou o objeto para o Hummel.
– Obrigado, ...? – Kurt hesitou.
– Blaine. – Ainda sorria. – Blaine Anderson.
Don't you cry
or suffer over me,
I will be waiting for you
Don't you cry,
Angels never fade away,
I'll be watching over you
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