Crushing Myself
1 Prólogo
Notas iniciais
Uma luz muito forte e dispersa projetava-se em direção à minha face. Mantive meus olhos semicerrados, procurando alguma referência visual que pudesse me orientar, até que subitamente, um vulto tomou forma à minha frente.
Com dificuldades de identificar o indivíduo, decidi pôr-me a perguntar.
- Onde estam- Calei-me. A pessoa, claramente do sexo masculino, pousou sua mão levemente áspera em meu rosto. Seus dedos grossos percorreram o breve caminho entre minha bochecha até meu lábio inferior.
Entrei em êxtase, seu toque com certeza havia me paralisado, e quando dei por mim, nossos lábios já se encontravam de maneira desajeitada. Eu não queria que aquele momento acabasse.
Ele me puxou para mais perto de si, delicadamente, envolvendo-me com seus braços. Sua pegada era forte, mas me transmitia conforto.
Senti sua essência, seu cheiro nada artificial invadiu minhas narinas, me agradando.
– É ele – Pensei comigo mesma.
O foco luminoso foi aumentando exponencialmente, até que...
Acordei.
Envolta em um desconfortável cobertor, permaneci deitada, confabulando sobre o sonho. Mergulhando em pensamentos profundos demais para quem acabou de acordar.
– Só posso ser a rainha das iludidas – Concluí, afundando minha cabeça no travesseiro.
Nesse momento, uma aleatória melodia soou, rompendo meu raciocínio. Eram seis e quinze, e eu tinha que acordar. Mas já estava acordada até demais.
Com um toque na tela desativei o alarme, em seguida retirando o carregador da tomada, tudo isso sem me levantar da cama, uma vez que o criado-mudo está perfeitamente alcançável.
Inundei-me de coragem e desci, pousando meus pés sobre pantufas de unicórnio. Em seguida, me esgueirei até a cozinha sem fazer barulho, para não acordar meu irmão.
Abri um pacote de bolachas, as quais estavam registradas como biscoitos. Mas pouco me importa, paguei por elas, posso chamá-las até de Jurandir, caso queira.
Uma caixinha de achocolatado e um pacote de Jurandir, esse foi meu café da manhã. Não podia me dar ao luxo de colocar nada no fogão, nem de sujar nenhuma louça.
Voltando ao quarto, busquei uma toalha. Já no banheiro, despi-me e tentei encarar a água fria, uma experiência terrível em qualquer época do ano.
Não demorei a sair, enxugando-me e vestindo o uniforme. Ridículo, por sinal. Uma escola deveria saber que azul e branco é uma combinação estranha. Penteei minha clássica franja, preferindo deixar o resto das madeixas de forma natural, porém organizadas.
Prendi meu broche na camisa. Uma lágrima prateada, ligada a um coração pequeno e vermelho, em seu centro. Meu pai me deu quando minha mão sofreu o acidente. Ele tinha me dito algo como “Toda lágrima é carregada de sentimentos”. Deve ter sido porque, quando ela morreu, eu não chorei. Não externei minhas emoções. Não porque eu não tenha ficado triste, na verdade, eu me retraí, criei quase que um casulo, onde não falava com ninguém. Era só eu e minhas boas lembranças. Estranho que dois anos depois disso, meu pai veio a falecer em decorrência da depressão.
Percebo que meus olhos começaram a lacrimejar, e os enxugo com a mão. Volto ao quarto, onde pego a mochila, percebendo pela janela que o dia estava muito nublado, apesar de estarmos no verão. Peguei um moletom e joguei de qualquer forma dentro da bolsa, fechando-a e finalmente pronta para sair.
Não estava frio, em torno de 20°. O colégio ficava apenas a 10 minutos de caminhada. O grande portão metálico estava aberto, não havia ninguém senão o porteiro.
– Bom dia – Cumprimento, ele é alto e aparenta ter uns 45, mas não deve ter cabelos desde a adolescência.
– Bom dia, Rachel – Respondeu-me, sempre muito educado.
Prossigo e adentro o corredor principal, cheio de cartazes nas paredes. Alguns alunos rodeavam ali. Chego até o pátio, um losango de paredes e teto brancos, flanqueados por duas escadas de acesso aos pisos superiores.
Várias cadeiras sem braços estão aleatoriamente dispostas, juntas às paredes. Portas dão acesso a lugares desinteressantes, como diretoria, sala dos professores, gestão; outras, a lugares mágicos como a biblioteca. No centro do local existem dez mesas, com quatro cadeiras cada. Escolho uma mais afastada e me acomodo. Irei ficar sozinha, já que minhas poucas amigas chegam somente mais tarde, porém não há como superar a praticidade de ter um local (a mesa) pra por a bolsa.
Abro-a, puxando o celular e os fones, levando quase dois minutos para desembaraçá-los. Apenas um lado dele é funcional, o que me garante a desvantagem de escutar o ambiente. Escolho minha playlist da Lorde e deixo as músicas tocarem em loop.
Não consigo entender o motivo de não nos deixarem subir para as salas antes do início dos horários, de modo que temos que esperar no pátio. Mais quinze minutos sem passam, e conforme as pessoas vão chegando, o barulho aumenta.
Porém, entre o ruído, uma voz vinda do corredor capturou minha atenção.
Eu podia ouvir seus passos se aproximando mais e mais, como se todos os outros do ambiente não estivessem mais lá. Era só eu e ele.
Lentamente fui levantando os olhos para vislumbrá-lo, quase pude sentir minhas pupilas se dilatando. Acompanhei seus movimentos com o olhar e vi que se sentou em uma das cadeiras, acompanhado de um amigo.
Meus olhos evidenciavam a necessidade de tê-lo, de jogá-lo no meu redemoinho de pensamentos. Há quase um ano ele me esmagou com sua presença. Não por beleza física, não por ser intelectual, não por seu dinheiro ou popularidade. Ele me esmagou com sua essência, me deixando com vontade de estar sempre por perto.
Ou será que a culpa dessa “paixão” é minha? Desejando algo fora de meu alcance, sem a coragem necessária para encará-lo? Nunca sequer troquei uma palavra com ele. Tenho vontade de comentar sobre como o tempo está frio e pedir para que me aqueça. Mas já ouvi sua voz, várias e várias vezes, e ela me desmonta.
Marcelo Alves Martins. 17 anos, ou melhor, 16. Vai fazer aniversário daqui a três meses.
Ele é relativamente baixinho, deve ter 1,67m; o que me faz uma pouco mais baixa ainda; olhos verdes, que depois fui descobrir que eram lentes. Sua barba maxilar encaixa perfeitamente nas costeletas, e seu cabelo em si é bem dividido, com um pouco mais de volume na parte frontal. Sua pele é clara, tornando os pelos de seus braços mais evidentes, e seu porte físico é mais “cheinho”.
Ele emana ser másculo e sensível, forte e carinhoso, com um ar introvertido.
A perfeita antítese, em um único ser humano.
E ele sequer sabe que eu existo.
Notas finais
O que posso adiantar é que desenvolverei nos próximos capítulos essa obsessão da Rachel pelo Marcelo. E também estarei postando concepts dos personagens que eu mesmo criei! Yes! Obrigado por ler até aqui e ajudar esse jovem gafanhoto em sua primeira empreitada.
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