Crush Culture

4 "Tentando me fazer ir atrás de você"


"Vou confundir suas verdades

Converter a sua crença

Te apresentar um lugar novo

Mais bonito do que pensa

Se entregue ao desejo (e vem de encontro a tentação)

Vem provar o meu beijo (e dar pra mim seu coração)

Para de se enganar (já não importa o que fizer)

Pode até tentar

Mas já sabe que me quer"

Kagami sentiu-se atordoada por tal frase. Não, não estava apaixonada, acreditava ela, mas também não sabia o motivo daquele transe ao admirar a doce feição de Luka, que parecia um príncipe encantado dos contos de fadas.

— Não seja idiota — reclamou, levemente vermelha pela raiva e pela vergonha ao ouvir e refletir sobre tal pergunta.

— Você é uma graça quando está vermelha, combina com você — disse Luka, sorrindo de canto, vendo a garota ficar mais vermelha ainda.

Kagami fez sua típica revirada de olhos e se preparou para se levantar, pois não suportaria mais uma provocação infantil com uma tentativa de galanteio, mas interrompera a ação quando Luka segurou a sua mão com um sorriso fraco e de canto.

— Fique, por favor — disse com uma voz levemente embargada apesar de estar sorrindo.

— Eu deveria? — perguntou Kagami, sem saber como reagir àquilo.

— Não sei, mas eu gostaria que sim... — respondeu com um sorriso fraco, tendo os olhos encobertos pela franja azulada.

A garota suspirou e, sem saber o motivo específico de tal decisão, sorriu fraco e derrotada, e aconchegou-se novamente ao lado do rapaz, sendo separados por dois palmos de distância um do outro.

Instalou-se um silêncio entre eles, restando apenas os barulhos de alguns carros que passavam e das águas do rio que corria por lá. Luka levantou a cabeça e olhou o céu que começava a ter colorações entre amarelos e vermelhos, brincando também com os tons de roxos e de rosas. Inspirou fundo e soltou vagarosamente o ar, sentindo o tempo começar a esfriar.

— Acho que é melhor irmos embora — comentou o rapaz, enquanto se levantava.

Kagami apenas assentiu e imitou a ação dele.

Eles começaram a caminhar pelas ruas de Paris em passos calmos ainda em silêncio, o que incomodava Luka. O rapaz sentia-se incomodado com o silêncio não intencional, aquele silêncio ruim e sem motivo. Buscou algo para falar, mas sentiu um nó na garganta por perceber que era sua única ideia de assunto.

— Você... — Começou a frase, mas pensou mais um segundo, por medo de perguntar, até que decidiu ter coragem e quebrar aquela barreira e matar sua "curiosidade". — Você teve algum tipo de... passado... com o Agreste ou com a Dupain-Cheng? Quarta-feira você ficou muito estranha quando os viu.

Kagami gelou ao ouvir aqueles sobrenomes vindos da boca de Luka outra vez, especialmente por ter lembrado dessa situação específica. Todavia, ela não poderia fugir para sempre daquela conversa.

— Bom... Talvez — afirmou, se encolhendo, não pelo frio, mas pelo receio de tocar naquele assunto fatídico. — Estamos estranhamente todos relacionados, todos os nossos problemas interpessoais estão entrelaçados, por assim dizer. Uma grande bola de neve...

— Gostaria de comentar sobre isso? — indagou sem jeito.

— Uau, quanta consideração! Depois de cutucar profundamente a ferida, você pergunta se eu estou à vontade com isso... Que cavalheiro! — Kagami o olhou cheia de dor e fúria, mas soltou um suspiro triste, desviando novamente o olhar e fixando-o no chão sem deixar de caminhar. — Perdão... É que não é fácil falar sobre esses assuntos...

A moça buscou palavras por alguns segundos, estalou a língua no céu da boca e começou a falar outra vez:

— O Agreste foi a última pessoa com quem eu me relacionei. Foi um término turbulento... Eu estava com problemas com a minha mãe, já que ela tinha perdido recentemente a visão, e isso a deixou com um extremo mau humor. Eu também não era a paciência em pessoa, como ainda não sou, mas na época eu não sabia lidar direito com essa situação que frustrava a nós duas. Acabei descontando em algumas pessoas, no Adrien principalmente, e isso acabou com a gente. — Kagami suspirou, colocando as mãos para dentro dos bolsos de seu sobretudo. — Ele também estava com seus problemas. Sua mãe havia morrido por tuberculose e seu pai estava ocupado demais com os negócios da família. Adrien havia ficado com depressão, e eu não ajudei-o a lutar contra isso, talvez eu tenha até piorado seu estado. Eu lembro de chamá-lo de egoísta, chorão e dramático. Meu sangue fervia, eu não sabia lidar com as minhas dores, muito menos com as dele.

Luka olhava Kagami perplexo. Ele jamais imaginaria que a garota agiria de tal forma com alguém, mesmo com o temperamento que tinha. Mas, ele não disse nada, apenas permaneceu esperando que ela concluísse a história.

Por outro lado, o nó na garganta de Kagami ficava cada vez maior. Depois de muito tempo, ela pôde ver o quão estúpida foi em um momento tão delicado. Ela não deu atenção a ele, mas cobrava que ele desse atenção para ela.

— E eu me lembro de vê-lo chorar na minha frente pela última vez... Nesse mesmo dia que eu falei essas merdas pra ele. Ele aturou todas as minhas reclamações, me ouviu falar dos meus problemas, e eu não soube ouvir os dele. Eu fui uma imensa idiota. Eu fiz o amor da minha vida chorar... — Os olhos da garota já estavam marejados a este ponto. Era horrível reconhecer a culpa, apesar de ser um alívio pode mostrar seu lado mais humano, aquele que é triste e egoísta, imperfeito e cruel, que não sabe lidar com os outros e muito menos consigo mesmo. — Felizmente, Marinette me substituiu e o acolheu como eu não soube fazer. Ela amadureceu tão rápido que eu nem percebi, e quando ela agarrou Adrien para si, realizou o sonho dela e ainda deu a ele o conforto que eu jamais saberia dar... Ela não o julgou, não zombou dele, mas, foi o refúgio que ele necessitava o tempo todo. Marinette foi minha melhor amiga, e eu fui me afastando dela, pois ela me contava como Adrien estava melhor a cada dia. Eu não suportava me lembrar da minha estupidez e de como eu não conseguia pedir desculpas pelo que havia dito. Então, acabei me afastando da minha única amiga aqui na França.

O rapaz surpreendeu-se com cada momento daquele relato e sentiu um aperto no peito por ouvir a dor que havia dos dois lados. Ele sabia da depressão do Agreste, visto que ele era amigo de Marinette e ela sempre lhe pedia conselhos do que fazer em um momento ou outro. Todavia, ele compreendia um pouco o lado de Kagami. Nem sempre era fácil ter empatia, especialmente quando já tinha seus próprios problemas.

Luka pensou em dizer algo, quando a garota pronunciou-se novamente:

— Talvez eu não odeie a Cultura Crush. Talvez eu só odeie fazer parte dela, pois sei que vou machucar alguém novamente se eu tentar — comentou, soltando um suspiro com um sorriso triste.

— Você foi uma grande babaca — comentou Luka, meio sem jeito, soltando um riso seco.

— Diga algo que eu não sei — respondeu irônica, imaginando que Luka não iria mais querer olhar na cara dela depois disso.

— Mas você não é aquilo que foi. — Aquilo chamou atenção da Kagami, que olhou-o, vendo que o rapaz caminhava olhando para o céu. — A vida é feita por escolhas, e você teve péssimas! Mas a pior foi não desculpar-se a si mesma por aquilo que fez. Eu percebi quarta-feira que o Agreste sorria genuinamente para você. Ele te desculpou. Vocês cresceram, se antes eram imaturos, agora podem fazer melhor como amigos, se ambos estiverem dispostos. Você se prende muito ao passado e acaba fazendo escolhas idiotas para o futuro. — Luka parou de caminhar e voltou o seu olhar para Kagami, fazendo que ela fizesse a mesma ação. — Pessoas machucam pessoas, mas pessoas também curam pessoas. Deixe que alguém cure você, já que você não consegue se curar sozinha.

Kagami ficou sem saber o que dizer com aquelas palavras. Apenas encarava Luka, pensando em como ele parecia "velho" demais para sua idade, sábio demais, sua mente até tentava lhe convencer de que ele poderia ter todas as respostas do universo, se isso fosse possível. Ela viu o rapaz se aproximar um pouco dela, e pegar suavemente em suas mãos, fazendo que seus dedos se entrelaçassem.

— Por favor, deixe que eu te cure... — falou baixinho, como um sussurro. Luka estava levemente envergonhado por dizer aqui, por parecer brega demais, ou muito clichê, mas não voltaria atrás com aquelas palavras.

— Isso soou tão brega... — respondeu sentindo um calafrio percorrer o seu corpo. Ela nunca pensou levar palavras como aquela a sério e muito menos vê-las sem malícia. — Tão brega quanto você.

— Brega não, romântico... — O rapaz riu fraco, sentindo o Déjà vu naquela frase.

Antes que Luka pudesse dizer algo mais ou ter alguma atitude, Kagami elevou-se nas pontas dos pés e buscou os lábios de Luka, selando os seus nos dele. Aquilo pegou o rapaz de surpresa, mas ele não recuou, ao contrário, apenas deixou-se levar no momento.

Suas mãos ainda estavam juntas, sendo possível sentir Kagami pressionar as suas contra as de Luka durante o beijo.

Kagami havia perdido todas as suas convicções naquele momento, mas sem perder sua dignidade. Se me é lícito dizer, Kagami podia sentir-se como que elevada em um pedestal, sendo apreciada e honrada por Luka, que havia demonstrado que ela ainda tinha valor, que alguém ainda lhe amaria com seus defeitos, sabendo de cada pedaço de sua alma despedaçada, e que ela deveria se amar também.

Quando interromperam o beijo, Kagami abriu os olhos e observou a face serena de Luka, que abria os olhos vagarosamente.

— Acho que você venceu — comentou observando as orbes oceânicas do rapaz serem novamente reveladas.

— Errado. Você venceu — retrucou com um sorriso de lado, enquanto observava a garota fazer uma careta confusa. — Você venceu a si mesma. A Cultura Crush não te fez vomitar dessa vez!

— Idiota... — Ela balançou a cabeça negativamente e riu fraco. Olhou sutilmente para o céu e disse: — Vamos logo, está ficando tarde.

— Mas já? Eu sou a favor da gente dormir só quando as pessoas acordarem... — falou Luka, com um sorriso de canto, fazendo Kagami revirar os olhos.

— Pervertido. — Soltou as mãos dele e deu um tapa em seu braço, fazendo-o rir.

— Ei! A gente pode muito bem conversar a noite toda! — exclamou o rapaz, fazendo a moça lhe olhar cética.

— Claro, claro... É isso que um adolescente no cio faz.

Kagami começou a andar, fazendo o rapaz rir, negando aquilo, e andar em passos largos para alcançá-la, assim caminhando ao seu lado. Ela tinha um sorriso sutil no rosto, assim como ele.

Mesmo que fosse difícil de admitir, Kagami poderia estar apaixonada... Kagami estava apaixonada. E tal tese foi comprovada quando sua mão se encontrou com a de Luka e segurou-a, como que inconscientemente.

Os jovens caminharam pelas ruas da cidade em um silêncio agradável, com as mãos dadas. Quem os olhasse pela rua acharia que eram um casal de meses que aguardavam ansiosamente o Dia de São Valentim para uma declaração mais melosa, e pouco saberia da real história por trás daquele casal recém nascido.

Quando chegaram na casa de Kagami, Luka deu um beijo na testa da moça em despedida, fazendo-a corar com tal atitude. Ela não se acostumaria muito fácil com tais atitudes.

— Eu amo você vermelha — comentou Luka, com um sorriso galanteador.

— Idiota. — Revirou os olhos, mas abriu um sorriso em seguida. — Vejo você segunda?

— Por mim, você me veria para sempre e sem parar, mas como não deve ser possível, segunda está bom. — O rapaz deu de ombros e riu, fazendo que a menina balançasse a cabeça negativamente ao ouvir aquilo. — Boa noite, Gami...

— Já falei que nada de Gami.

— Achei que tinha mudado de ideia. — Fez um biquinho chateado.

— Sobre Gami? Nem morta... — Ela riu e abriu o portão, entrando para dentro da área da residência. — Vá logo para casa, Luka.

— Ok, ok... — O rapaz fez um gesto de quem se rendia e acenou para Kagami, que acenou de volta.

Luka começou a caminhar, novamente em direção a sua casa. Ele sorria vitorioso pelo o que aconteceu hoje, pelo grande passo que ele havia conseguido dar.