Crush
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Renée achou que estava se metendo em encrenca. Não era normal ficar tão abalada por um simples beijo no rosto. Toda a sua família se cumprimentava assim. Isso não era nada demais. Não tinha porque fazer um bicho de sete cabeças. Entretanto, à noite na cama, o rosto de Cissa ocupou sua mente e não a deixou dormir.
Estava elétrica. Todo o seu corpo parecia ligado na tomada. Tinha vontade de sair de casa e ir até onde Cissa estava. Ela mesma reconhecia que isso era loucura, pois ninguém sai de casa de madrugada, procurando pelos amigos da escola. Somente às 4 horas conseguiu dormir de puro cansaço.
Pela manhã, foi acordada por seu pai que a ameaçava de surra, caso não levantasse imediatamente. Aparentemente, estavam lhe chamando há um tempão, e ela não acordara. Naquele dia ela não pudera ver Cissa na padaria e recriminava-se por isso. Esperava ansiosamente revê-la na escola.
Cissa entrou na sala de aula e a cumprimentou com um aceno. Sentou-se com a turma dela. Nunca Renée sentira tanta vontade de pertencer à turma do fundão como naquele dia. Esperou impaciente pelo intervalo da merenda.
_Oi Renée! Tudo bem? — Cissa a beijou no rosto de novo.
_Oi!
_O mal estar de ontem passou?
_Passou.
_Que bom! Escutas Renée, quantos anos tu tens? — Cissa perguntou seriamente, encarando Renée.
_Eu tenho 15, mas daqui a quatro meses faço 16. E você?
_Eu tenho 16, em dezembro faço 17. É estranho que uma moça de 15 anos nunca tenha visto um filme como aquele de ontem. O que é? Teus pais te prendem muito em casa?
_Não! Ninguém me prende em casa. É que eu não gosto daquele tipo de filme. Imagina, eu até tenho pesadelo com filmes de vampiros. — Renée arrependeu-se do que disse assim que fechou a boca.
_Ah, Ah, Ah, tu tens medo de vampiros?
_Eles são assustadores e são do diabo. — Renée falou isso contrita, e já enrubescendo, porque Cissa não parava de rir.
_Ah, Ah, Ah, minha nossa! Tu pareces um bebezinho.
Renée baixou os olhos e cruzou os braços. Ficou triste porque Cissa a ridicularizava, mas gostou que ela a chamasse de bebezinho. Por quê? Porque todos gostam de bebês.
_Que tal fugirmos dessa aula chata novamente?
_Tou dentro!
Naquele dia não foram ao cinema. Cissa a levou para sua casa. Os pais de Cissa não estranharam ou questionaram a presença da filha, em casa naquele horário. Eles mal olharam para Renée e nem se dignaram a cumprimentá-la. Cissa levou-a para seu quarto.
Aquele quarto era um sonho. Grande, espaçoso, cor-de-rosa, com pôsteres de filmes e de atores bonitões. Havia uma penteadeira com um grande sortimento de cosméticos e materiais para enfeitar o cabelo. Renée ficou impressionada. Não se parecia em nada com seu próprio quarto. Aquele que ela tinha que dividir com a irmãzinha, e onde sua mãe colocava a mesa de passar ferro e o cesto de roupa enxuta. O quarto de Cissa era definitivamente \"the bedroom\".
_Tem uma coisa que eu sempre quis fazer desde que te conheci.
_E o que é? — Renée perguntou num fio de voz, com medo da resposta que ia ouvir.
_Isso. — Cissa agarrou-a pelo braço e a fez sentar-se defronte da penteadeira.
Renée ficou um pouco desapontada, esperara outra coisa. Olhou-se no espelho à sua frente. Ela era comum. Estatura média. Nem gorda, nem magra. Olhos pretos, cabelos pretos, boca comum, nariz comum, um pouco bochechuda, dentes comuns. Ela era tão comum que era feia.
_Tu te achas feia? É porque ainda não tinhas passado pelas minhas mãos. Vejamos... Primeiro as sobrancelhas. Isso vai doer só um pouquinho. Agora uma base, o pó de arroz, o delineador, a sombra, um blush, e finalmente o batom. Não, não olhes agora. Eu ainda vou dar um jeito nesse cabelo. Gel faz maravilhas querida. Prometa-me uma coisa Renée, nunca mais corte os cabelos assim tão curtos. Pronto, pode olhar.
Renée virou-se e viu outra pessoa refletida no espelho. Estava bonita, interessante. Ficou imaginando se poderia ser assim para sempre. Não, nada é para sempre. Quando chegasse a casa e fosse tomar um banho, toda aquela produção iria escorrer pelo ralo. Era uma beleza falsa, feita para acabar.
_Não me diga que não gostaste. Por que este olhar triste? — Cissa segurou o queixo de Renée e virou-o na sua direção.
_Eu não gosto de maquiagem. — Renée arrependeu-se do que dissera, novamente. Percebeu que fora ingrata com a amiga.
_Eu... Sinto muito. Já vou retirar tudo. — Cissa já pegara um algodão e um líquido removedor de maquiagem, quando Renée segurou seu braço e a impediu de continuar.
_Desculpa Cissa, eu me expressei mal. Eu adorei a maquiagem, você foi muito bondosa comigo, uma verdadeira artista, não precisa removê-la. É que... Isso é falso. Eu não sou bonita assim. Eu me sinto mal quando penso, que por baixo de todos esses cremes e cores, tem uma pessoa feia. Eu prefiro não enganar a mim mesma. — Renée olhava-a sinceramente consternada.
_Tola. — Cissa deu-lhe um rápido selinho, que teve o mesmo efeito que uma bofetada em Renée.
A seguir foi até seu guarda-roupa e começou a tirar algumas roupas de noite, e jogá-las sobre a cama.
_Renée, eu tenho algumas roupas que não me cabem mais, experimente algumas, veja se cabem em ti.
Renée estava aturdida com o beijo que recebera. Levantou-se em transe e começou a segurar alguns vestidos. Não conseguia concentrar-se naquelas roupas, só conseguia pensar em Cissa lhe beijando. Cissa finalmente fechou a porta do guarda-roupa e começou a examinar as roupas sobre a cama. Pegava algumas e colocava sobre Renée para ver se combinava. Fez isso várias vezes. Renée desistiu de fingir que estava interessada nas roupas. Ela simplesmente ficou encarando Cissa. Esta percebeu que havia alguma coisa errada. Olhou Renée significativamente, então afastou as roupas para um lado e sentou-se na cama.
_Vem cá, sentas aqui do meu lado.
Renée a obedeceu. Cissa colocou o braço no seu ombro e apertou-a contra si.
_Querida, tu nunca tinhas sido beijada antes?
_Não.
_Bem, um dia tu irás conhecer um rapaz que irá te beijar como se deve. Aí quando tu te lembrares que ficou tão abalada por causa de um selinho, vais morrer de rir. Não querida, não chores, eu não quis te magoar, me dê um abraço. Já vai passar.
Renée deixou-se abraçar. Não conseguira controlar as lágrimas ao ser ridicularizada. Logo estava soluçando. Quanto mais soluçava, mais Cissa a apertava nos braços e passava as mãos nos seus cabelos. Então se acalmou.
Logo mais, ela foi para casa com um vestido usado de lurex que Cissa lhe deu de presente. Renée estava novamente nas nuvens. Não queria comer, mas como sua mãe ameaçou transformar sua falta de apetite em uma terceira guerra mundial, ela comeu um pouco de carne e arroz. Passou o resto da tarde lânguida e algo triste. Por quê? Porque Cissa percebera que estava perturbada e não a quisera.
No dia seguinte já na escola, permaneceu alheia ao que acontecia a sua volta. Pela manhã tinha visto Cissa novamente na padaria, e a outra apenas lhe acenara e fora embora. Na aula, mais uma vez Cissa estava muito animada com sua turma e não dera mais do que um aceno para Renée.
No intervalo da merenda algo muito ruim ocorreu. Renée ficou esperando que Cissa aparecesse para conversarem, mas isso não aconteceu. Resolveu procurar a amiga até que a encontrou. Cissa estava em um canto afastado, no maior amasso com um garoto.
Renée sentiu suas pernas falharem e teve que se segurar na parede para não cair. Ficou lá olhando, sentindo-se traída, desejando estar no lugar daquele rapaz, sentindo raiva e vontade de bater na garota, desejando ser tocada, apertada e beijada como a outra. Todos aqueles sentimentos e anseios juntos a deixaram com um fogo no corpo, e uma incômoda sensação de invasão, como se algo que não deveria estar dentro do seu peito estivesse brotando.
Então Cissa a viu. Ela falou algo no ouvido do namorado e eles se afastaram. Renée sentiu-se queimar de vergonha. Cissa iria pensar que era uma intrometida e que a estava perseguindo.
Fim do Capítulo
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