Crush

7 Capítulo 7


Notas iniciais
Renée conhece Nancy

Renée procurou desligar-se da lembrança de Cissa. Retomou os estudos e preocupou-se com a quantidade de notas vermelhas que tinha. Como não estudavam mais no mesmo colégio e Cissa não freqüentava mais a padaria, foi fácil tirá-la da mente, mas freqüentemente Renée ainda se espantava em se descobrir próxima à casa da outra. Dizia para si mesma que aquilo fora uma coincidência, mas lá no fundo uma vozinha lhe dizia que aquilo fora um ato falho, sinal de que ainda estava apaixonada.

Na sua escola, freqüentemente alguém lhe trazia um copo de suco, revistas de adolescentes e lhe pedia para revisarem juntas as matérias dadas pelo professor. Era uma colega muito alta e magra chamada Nancy. Ela era jogadora de basquete do time da escola. Nancy era negra e viera de outro país para fazer intercâmbio. A princípio ela misturava português com espanhol e inglês, mas com o tempo tornou-se fluente em português, mesmo que pronunciasse as palavras com uma entonação diferente.

_Então, a princesa estava grávida do iman, não podia dar origem novo reino em território árabe. — Nancy iniciara a conversa naquele tom de noticiário da BBC.

_Do que é que você está falando? — Renée ainda não sabia como lidar com as teorias de Nancy.

_Estou falando de Revelations, o livro de João. Por isso a rainha mandou matar a princesa, pois o rei do norte não podia ter um irmão bastardo árabe. — Nancy continuou falando como se aquele monte de palavras fizesse sentido.

_Pode parar Nancy, não entendo nada do que você fala. — Renée começou a rir. Por incrível que pareça, Nancy tinha o poder de fazê-la rir.

_Ok! I can speak in English for you. As I said...

_Desista. Fale em português mesmo. Que tal mudarmos de assunto? O que você acha de irmos ao cinema? Estão passando alguns filmes muito bons.

_Gostaria mesmo de ir ao cinema comigo? Somente as jogadoras de basketball gostam de sair comigo.

_Por que não? Você é divertida e inteiramente louca quando começa com essas teorias conspiratórias. Eu gosto de você Nancy.

_Eu também gosto de você Renée. Você é a minha melhor amiga.

Por um instante Renée sustentou o olhar de Nancy nos seus e sentiu se perder, mas foi somente um instante, então ambas pegaram suas mochilas escolares e foram ao cinema, assistir a um filme pipoca. Ao saírem da sessão ficaram recontando as seqüências do filme e caíam novamente na gargalhada. Andaram pelo shopping center vendo as vitrines e fazendo pequenos lanches, às vezes iniciavam uma conversa bilíngüe que terminava com Renée totalmente confusa e pedindo arrego.

Nancy tinha um bonito sorriso e uma altura que a tornava semelhante a uma top model, o que fazia com que muitos homens virassem a cabeça para olhá-la novamente. Como andassem o tempo todo juntas, as outras colegas da escola começaram a insinuar coisas. Renée pensava com amargura, que quando ela andava com Cissa nunca ninguém falara nada, e é certo que houve alguma coisa entre ela e Cissa, embora a bem da verdade, tinha que admitir que esta \"alguma coisa\" era praticamente nada.

Por vezes, num puro acaso não tão puro assim, ela via Cissa e Inês juntas e felizes, rindo alegremente, passeando de mãos dadas, como se isso fosse a coisa mais natural do mundo. Nestas horas ela sentia um travo de amargor na boca, como se seu coração tivesse sido retorcido até pingar veneno, que lhe matava aos pouquinhos por dentro. Numa dessas vezes ela estava acompanhada de Nancy que a observava com um vinco no cenho.

_Did you fall for this girl?

_É. Foi. Há algum tempo atrás. Mas eu estou tentando esquecê-la.

_Are you lesbian?

_Eu sinceramente não sei, Nancy. Se amar outra garota é ser lésbica, então eu sou. Mas quem sabe eu conheça um cara legal e me apaixone por ele também, então eu não sei que rótulo eu deveria usar nesse caso.

_Bisexual.

_É. Talvez. Eu sei apenas que eu estou sofrendo pra caramba. Se eu pudesse simplesmente parar de sofrer eu iria preferir ser heterossexual simplesmente.

_Forget a love with another love.

_Isso é imoral, e totalmente inútil. Eu ficaria o tempo todo lembrando a outra pessoa. Estaria enganando a mim mesma e ao outro.

_I could be lesbian for you.

_Ah, ah, ah, esqueça. Ei, olha, o que você acha de irmos a uma drugstore testar aqueles perfumes franceses?

_And don\'t buy anything? Great!

Um dia Renée e Nancy foram tomar banho de piscina. Nancy estava deslumbrante com um biquíni amarelo cítrico. Renée não quis se arriscar em ser ridicularizada, então usou um maiô do tipo usado em natação. Ficaram brincando na água e daí foram espreguiçar-se nas cadeiras, usando óculos escuros. Então alguém se aproximou das duas. Renée só percebeu quem era quando já estava bem próxima.

_Preciso falar contigo Renée.

_Cissa!

_Venha comigo. — Cissa virou-se e seguiu andando.

Renée ainda pensou em dizer não, mas Cissa já havia se afastado.

_Nancy, eu já volto, ok?

_Fine! I\'ll be here waiting for you.

Renée parou um instante pensando no que Nancy falara, então resolveu procurar Cissa para acertar as coisas de vez. As duas entraram no salão de jogos do clube. Cissa estava espetacular, com um biquíni minúsculo e sensual. Renée olhou em volta procurando por Inês. Ela a viu na área de rapel do clube, entretida demais para tomar conta de sua namorada.

_Inês me disse que conversou contigo, e que tu deste a entender que estás apaixonada por mim.

Renée sentiu como se tivesse levado uma bofetada. Procurou algo para se apoiar. Colocou a mão na mesa de snooker, esperando que suas pernas ficassem mais firmes.

_E então, o que Inês me disse é verdade?

_É.

_Tu és louca. Eu nunca disse que te amava. Nunca. Alguém alguma vez te disse que eu estava interessada em ti? Pois se alguém te disse isso mentiu. Eu não sinto nada por ti. Absolutamente nada. Eu só queria deixar isso bem claro. Era só isso.

Cissa virou-se e já ia saindo.

_Cissa, espera.

Cissa deu meia volta e postou-se em frente de Renée numa pose de calendário Pirelli.

_Cissa eu...

_Sim?

_Eu tinha tanta coisa pra te dizer.

_Sobre o que?

_Sobre nós duas.

_Não há \"nós duas\". Eu não sei que tipo de fantasias tu tens sobre isso, mas não passa disso, fantasias.

_... Eu pensei que...

_Pois pensaste errado. E tem mais. Não quero que tu voltes a rondar a minha casa, ou que importunes Inês ou a mim novamente. Se eu achar que tu estás me perseguindo, irei dar queixa na polícia.

Cissa esperou uma resposta, mas Renée mordia os lábios e olhava o chão agora. Cissa deu-se por satisfeita e foi embora. Renée levantou a cabeça e viu que estava sozinha, então se permitiu desabar. Caiu sentada no chão e começou a chorar baixinho, tremendo o corpo inteiro. Algum tempo depois ela sentiu a mão de Nancy no seu ombro. Nancy a ajudou a se levantar e a amparou para sair dali. Levou-a de volta às espreguiçadeiras, onde as duas ficaram sentadas e Nancy ficou segurando sua mão.

_Ela não merece você, Renée.

_Eu sei. Agora eu sei. Ela foi tão cruel...

_Chore querida, chore tudo, não guarde nada. Isso está matando você.

_Eu desisto dela Nancy. Eu finalmente desisto dela. Não quero mais saber se está viva ou morta. Ela não existe mais para mim.

_Um dia isso será verdade.

Fim do Capítulo

Notas finais
Isso podia ser infinitamente pior, e talvez ainda seja. Who knows?