Cruel Fairy Tale
9 Capítulo 8 - Família
Notas iniciais
Podem me matar, mas lembre-se que se vocês fizerem isso, eu com certeza não vou poder escrever mais caps.
xD
Agradecimento a todas as pessoas que mandaram reviews e o cap de hoje vai ser dedicado à Samantha Puckett Silva: a linda que nos deixou uma review.
Beijos, beijos e aproveitem o cap.
Ah, é, desculpem os palavrões.
É interessante olhar pra fora do carro. E ver a paisagem mudando numa velocidade muito alta.
É, eu sei você provavelmente esperaria que eu contasse como foi o jantar, mas o que eu posso dizer? Foi normal.
E com normal eu quero dizer que eu tive que usar alguns truques e blefes pra sair por cima das duas belas senhoras... E a quem eu quero enganar? Por cima das duas lambisgoias sem coração que estavam naquela mesa ao meu lado e a minha frente.
Pra não dizer que não aconteceu nada de interessante, foi comédia quando eu perguntei pra Pam onde ela estava três semanas atrás. Ela sorriu falsa e disse que estava acompanhando o prefeito em uma reunião. Eu sorri malvada e disse um simples “Engraçado, parece que eu te interroguei nessa noite... Mas eu to com amnésia, não ligue pra mim, deve ter sido outra pessoa.” Ela ficou branca na hora, eu ri e disse que era brincadeira de policial, fazendo todos na sala rirem forçosamente.
Menos Freddie que ficou me olhando com uma cara estranha.
Acho que depois disso a mãe do Freddie parou de me encher o saco... Ah, não! Na verdade ela me repreendeu dizendo que essa brincadeira era perigosa, já que eu poderia começar boatos perigosos. Eu olhei pro meu prato e disse “Que isso, não precisa me repreender por uma brincadeira boba. Quem não deve não teme, certo?” eu olhei pra ela bem fixamente, e continuei “Eu não lembro ter interrogado a Pam, afinal, minhas lembranças com ela é só de quando eu era criança.” Eu blefei “E também não é como se eu fosse brincar com algo que realmente aconteceu, não é?” Eu sorri.
“Dizendo assim parece que todos tem segredos a guardar. E que você sabe de todos.” Riu o pai de Freddie. Eu realmente tenho que aprender a guardar o nome das pessoas.
“Só alguns. Eu tento manter os mais importantes na memória” Eu disse ainda olhando fixamente pra Marissa. “Nunca se sabe quando eles vão salvar sua vida, não é? Eu ouvi uma historia de uma menina que foi raptada por não saber quando usar devidamente um segredo. Pelo que eu fiquei sabendo ela está desaparecida hoje.”
Marizza ficou branca na hora e eu sorri malvada pra ela, para só então olhar pro pai do Freddie. Ele não parecia notar aquele joguinho que eu estava fazendo com a mulher dele.
“Isso me soa um pensamento muito esperto.” Ele riu “Seria algo que Marissa falaria.” Ele se virou pra esposa e gargalhou “Querida, acho que vocês vão se dar bem...”
Marissa engoliu seco sua surpresa e sorriu forçosamente pro marido. “Realmente ela parece comigo.”
Daí sim ela parou de me torrar a paciência.
Mas como eu disse, o jantar foi normal. E chato. E entediante. Sabe como festa de rico é, né. Enfim, por isso eu decidi pular essa parte chata do jantar. Na verdade eu quero te falar do que aconteceu antes do jantar.
Te falar? Cara, tô até conversando comigo mesmo agora... Ah, dane-se.
Mas sério... Porque eu estava com aquela reação de mulherzinha? Desde quando eu fiquei tão besta? Digo, quando eu estava desmemoriada tudo bem, afinal, eu não sabia quem eu era. Mas agora? Com metade das minhas memórias?
“Freddie prometa que vamos embora mais cedo.”
Afe! Eu deveria morrer por ter dito isso. Convenhamos isso só fez o babaca achar que eu sou uma loira frágil que precisa de proteção, e sejamos sinceros: não sou eu o bebê chorão por aqui.
Eu realmente não acredito que fiquei toda assim só porque a minha querida mamãe disse que queria se livrar de mim.
Vadia. Como se eu já não soubesse que o mundo é pequeno demais pra nós duas. Que ódio daquela desgraçada. Sério. Nem a mulher que me criou disse que o mundo era pequeno de mais pra nós duas.
E olha que ela tentou se livrar de mim várias vezes.
Minha vida está atualmente uma merda...
Sem contar que Freddie também tem andado meio estranho. Ele vem com umas pegação de mão, uns sorrisinhos idiotas aqui e ali pra cima de mim. Será que ele acha que está gostando de mim...
Hum...Impossível... Você não concorda comigo?
Cara, eu realmente tenho que parar de falar com a segunda voz inexistente na minha cabeça.
Ele é apaixonado pela morta, faz todo um ritual lá pra reviver as lembranças com ela todo dia de manhã. É ele não acha que está apaixonado por mim. Talvez ele... Será que ele está vendo a Carly em mim? Acho que não... Pelo que a Charlie falou, eu sou completamente diferente dela.
A não ser que o subconsciente dele... Hum...
Freddie, você está tentando se curar sozinho?
-O que foi que você está me olhando com essa cara? – ele perguntou me olhando com um sorriso no rosto.
Se você não percebeu ainda, nós estamos viajando de carro. Ele alugou uma minivan pra essa viagem. Então todo mundo está bem confortável lá atrás e as malas couberam bem, digo... Isso se você levar em conta que Freddie teve que falar pra Charlotte comprar tudo novo em Las Vegas, então ela não trouxe as 17 milhões de malas que ela queria trazer.
-Não estou te olhando. – eu disse sorrindo – Apenas estou tendo uma conversa mental comigo mesma.
-Isso me parece coisa de gente louca.
-Talvez seja. – eu sorri sapeca e logo olhei pra trás e vi os outros dormindo.
Charlie tinha convencido Gibby de vir e eu tinha convencido Freddie a dar folga para Colin então estava eles, a irmã do Freddie e o Spencer. Todos babando no banco de trás.
-Tá todo mundo bem aí a trás? – ele perguntou e eu assenti.
Fazia algumas horas que a gente tinha saído de Seattle. Pra ser mais exata nós tínhamos acabado de sair de Oregon há alguns minutos e já estávamos na Califórnia. Quem tinha feito o mapa era o Spencer e por causa disso, nós teríamos uma parada obrigatória em San Jose pra dormir já que ele tinha aumentado em vários quilômetros nossa rota.
-Quer que eu dirija? – perguntei a Freddie. Fazia mais de seis horas que ele estava dirigindo sem parar. Não que eu estivesse com pena dele, mas é que ele estava a menos de 110 quilômetros por hora. Quer dizer, seguir a lei é certo e tal. Mas eu sou policial, poxa. Posso andar a velocidade que eu quiser.
Se bem que eu estou sem meus documentos originais então... Hohoho Nada que uma ligada pro Richard não resolva...
-Você sabe dirigir? – ele perguntou com a sobrancelha erguida
-Pra entrar no FBI tem que ter carteira, Freddie – avisou Spencer ainda de olhos fechados.
- Quando eu achar um posto a gente para pra abastecer e você pega.
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- Para o carro! Para o carro! – reclamou Freddie apavorado.
-Mais rápido, mais rápido! – gritou Charlotte do banco de trás
- Eu acho que vou vomitar. – reclamou um Paul meio esverdeado.
Gibby ria deles e Spencer parecia realmente dormindo. Não me pergunte como, mas ele realmente roncava alto.
Nós já estávamos chegando a San Jose e eu estava muito, muito mesmo cansada, então pra chegar mais rápido eu pisei no acelerador. O que o Freddie não achou muito lógico.
Eu achei completamente lógico. E eu estou dirigindo, então não conta muito o que ele acha.
Seguindo a rota do GPS, eu fui direto ao hotel. Não demoramos muito pra chegar lá. Paul quase beijou o chão quando desceu do carro e Freddie agradeceu a Deus. Não entendi porque tanto drama. Eu nem tinha passado dos 200 por hora...
Depois de rir da palhaçada dos garotos eu observei o hotel. E eu não gostei nada do que vi. Era simplesmente um hotel de no mínimo umas... nove estrelas. Precisava daquele luxo todo pra que? Era só uma noite. Todo mundo podia dormir no mesmo quarto, num hotel de classe média.
Será que esse povinho rico não conhece o significado da palavra economia. Mas não eles tinham que pegar o dinheiro deles e jogar tudo no lixo. Imbecis... Me fazendo entrar em sérias dívidas.
-Você parece meio mal-humorada – olhei pra voz e ele me olhava sério
-Precisava disso tudo? – perguntei enquanto voltava a ver Freddie, Spencer e Gibby falarem com a recepcionista.
-Disso tudo o que? – perguntou Charlie
- Esse lugar tão chique? – ela riu de mim e não respondeu. Colin continuava me analisando e depois de um tempo soltou um sorrisinho. Eles deveriam parar de zombar da minha cara só porque eu sou pobre.
Sério mesmo, isso está me irritando.
-Está reclamando do que? – perguntou Paul sorrindo malvado – Você tava querendo ir pra um hotel meia boca porque aí você teria que dormir no mesmo quarto que Fredward, né safada! – Eu revirei os olhos e ele me cutucou – Admita.
-Você não quer que eu responda algo no nível que você merece, né? – ele se afastou de mim e fez sinal de rendição. – Além do mais, eu pedi pra você parecer um homem perto deles.
-Desculpe, eu tinha esquecido – disse Paul – Isso não vai se repetir de novo, Charlotte.
- Eu não ligo dele ser do jeito que é comigo – disse Charlotte me repreendendo – Mas eu entendo porque você fez isso. Fred não... gosta muito.
- Ele tem uma cabeça fechada – disse Paul meio triste e cabisbaixo, por pouco tempo porque logo ele adiquiriu uma chama no olhar e um tom de confiança. — Tudo bem... Eu já estou acostumado em trazer esse tipo de gente pro lado rosa da força.
-Parece que ele está querendo roubar o Fred de você, Sam – riu Charlie.
-Oh! Como você pode fazer isso comigo, Colin? – eu coloquei a mão no coração e fiz cara de choro – Até você? Meu melhor amigo... – eu coloquei ambas as mãos no rosto como se tivesse tampando meu choro e eles riram.
-Mas é serio, os meninos são um tanto quanto... homofóbicos.
- Eu notei. Foi por isso mesmo que eu pedi – eu expliquei pra ela.
-Um dia viveremos numa sociedade que eu não precise me reprimir. – Ele fez drama
-Ah, meu bem, você pode ser tudo, menos reprimido. – eu ri dele que fez bico, me aproximei dele e lhe dei um selinho. – Você é tão bobo.
- Você me ama assim, não posso mudar. – ele riu e me abraçou.
Charlotte apenas olhava pra gente, sua linguagem corporal dizia que estava estranhando a situação. Logo os meninos nos chamaram e nós seguimos até os quartos.
Eu estava procurando algo pra vestir que se adequasse ao lugar e à quentura da cidade, mas parecia que todas as peças eram grossas; quando alguém bateu levemente na porta e entrou. Nem precisei me virar para saber quem era.
-Amiga, me conte porque essa cara de quem quer matar um. – pediu Colin sentando-se na cama.
-Porque talvez eu queira matar um.
-Quem? – ele me olhou com um olhar tão analítico que eu me senti envergonhada – Ninguém fez nada pra te magoar, pequena.
-Pequena é o cacete – eu reclamei e logo suspirei – Talvez eu esteja de TPM, eu não sei.
-Será que é por causa das bruxas velhas que ficaram te enchendo o saco? – ele jogou verde
-Talvez. Digo, as duas parecem que cortaram seus rabos, só pra não mostrar a ninguém o quanto eles eram presos. – eu disse – Mas ainda tem um rastro que as persegue e...
-Traduza por favor.
-Eu acho que estava estudando um caso que envolvia a Pam e acho que Marissa acabava entrando no meio. Só que eu não lembro o que era. – grunhi – eu tenho certeza que eu esqueci de algo importante!
- Claro que esqueceu. Você esqueceu sua vida quase toda, lembra? – ele se levantou e me abraçou. – Relaxe.
-Eu...estou com um mal pressentimento sobre as duas. Só isso.
-E esse pressentimento parece vir das memórias que você perdeu, certo? – eu assenti.
-Sam, eu... – Charlotte tinha entrado com tudo no quarto – Atrapalho?
-Não... — a gente se separou e eu olhei pra ela – pode dizer.
-Eu estou precisando de uma blusa emprestada, não achei nada que preste na minha mala. – Foi só quando teve o barulho, que eu vi que ela tinha trazido uma mala enorme. – Eu não devia ter trazido só isso de roupa pra San Jose! Vamos, me empreste uma das suas.
-Bem, parece que temos uma emergência feminina aqui! – exclamou Colin feliz e saltitante – Vamos à luta por uma roupa decente! – ele riu como um vilão e voltou a dizer – Melhor, uma roupa indecente...
Depois de banho tomado, e mais alguns vários minutos pra escolher a roupa, Charlotte quis ir comer pizza.
Me pergunto como ela se mantem magérrima comendo tanta pizza.
Enfim, como eles já estavam gastando demais e eu já estava pelo pescoço com aquilo eu fiz birra até todos concordarem que eu ia escolher o lugar. Sim, eu fiz birra com direito a beicinho, a quase batidas de pé e um choro falso estridente. Eu tenho meus métodos de conseguir as coisas...
Convenhamos, eu posso esquecer de toda a minha vida, mas nunca esquecerei do meu lugar favorito do mundo: A barraquinha de pizza mais especial do planeta terra ficava em San Jose e eu nunca perderia a oportunidade de ir lá pra comer. O dono da barraquinha era Josenildo. Ele era um cara simples, mas com um coração de ouro. Eu o conheci em San Jose, quando a gente morou lá há muito tempo. Ele recém tinha perdido o filho quando a gente se conheceu: um filho muito parecido com o meu irmão mais velho. Talvez por isso ele tenha salvado a gente várias vezes: e isso vai desde esconder a gente da polícia, dos bandidos e todo o resto até não deixar a gente morrer de fome.
Tradução: eu amava aquele cara como se fosse meu pai. Quer dizer, eu o amava mais que o meu pai, porque eu não sabia quem era meu pai... Mas isso era outra história e...
Eu tenho alguma deficiência mental de ficar falando comigo mesma, só pode.
Quando chegamos até a barraquinha de comida e depois de Colin fazer drama dizendo que eu tinha corrido muito, eles se depararam com um lugar que eu acho que eles só tinham visto em filmes: o lado pobre da cidade.
O lugar era simples e não tão limpo quanto eles estavam acostumados. Era um trailer que ficava estacionado em um lugar qualquer, que tinha algumas mesas na frente. Um lugar bem típico ao que eu estava acostumada.
Eu mostrei uma mesa pra eles se sentarem e fui até o balcão falar com o Jose. Dei uma olhada no local e um dos atendentes disse que o dono tinha saído e já voltava. Olhei pra mesa e não consegui não rir. Enquanto os meninos estavam tentando entender o que estava acontecendo e porque eu tinha escolhido aquele lugar tão cheio de gente mal encarada, Charlie estava babando pelos homens que estavam ali e de vez em quando ela comentava algo com o Colin que somente ria da excitação dela.
-Pe... Pequena Lola... – disse uma voz meio fraca num tom claramente assustado.
Eu olhei pro meu grande e antigo amigo e sorri o mais genuíno dos sorrisos.
Josenildo estava assim como eu me lembrava, grande, gordo, usando uma camisa branca de pizzaiolo e com um sotaque mexicano quase impossível de entender.
-E aí, rola uma pizza de graça hoje? – perguntei. Josenildo me olhou e piscou os olhos tentando descobrir se eu era real. Até que ele saiu da barraquinha e me abraçou tão forte que me ergueu do chão. – Ei, isso dói. – juntando os roxos que ainda não tinha sarado mais o abraço superapertado dele, realmente tinha doido.
-Niña! Que saudades! – ele exclamou feliz – Parece que é o meu dia de sorte. Teu irmão veio me ver mais cedo.
Eu fiz um sinal discreto pra que ele se calasse e Josenildo sussurrou desculpas, mas os outros pareceram ver e se aproximaram da gente.
-Meu irmão está em Las Vegas, não tem como vir aqui sozinho, ainda é uma criança. – eu disse a ele e ele assentiu — Esses são meus amigos. – Eu apontei pro grupo atrás de mim. Estamos indo ver meus irmãos mais novos.
- Ah, sim. Tenho certeza que eles estão com saudades – ele disse sorrindo – Posso trazer a sua grande favorita?
-Sim, por favor. Traga uma à moda da casa também.
- Certo, e pra vocês? Qual o sabor que vão querer? Temos todos os sabores que vocês possam imaginar. – ele entregou o cardápio pros outros
-Qual o tamanho da pizza? – perguntou Spencer
-30 centímetros é a menor. Uma de 60 dá pra vocês. – avisou Josenildo – Podem escolher até quatro sabores.
- Eu quero uma linguiça, porco, frango e parmegiana – disse Gibby enquanto entregava o cardápio pros outros – Podem escolher a de vocês.
- Parece que você achou alguém pra competir, Lola – riu Josenildo anotando o pedido de Gibby.
Assim que meu amigo se retirou, Freddie me olhou com a sobrancelha erguida.
-Lola?
-Apelido de criança. – dei de ombros. Eu precisava avisar ao Josenildo que eu estava usando Samantha como nome urgentemente.
Nós entramos numa conversa sem nexo até que as pizzas chegaram. Comemos todos em um clima barulhento. Divertido, diga-se de passagem.
Depois que eu tinha acabado de comer e só esperava os outros terminarem, Josenildo me chamou pra um lugar reservado. Eu pedi licença pros outros e o segui.
-Seu irmão veio falar comigo hoje – ele disse acendendo um cigarro, quando a gente estava longe o suficiente dos outros. – Ele fez uma parada de algumas semanas nessa cidade antes de ir atrás de você. Você parece muito bem pra alguém que foi sequestrada.
Eu suspirei e me encostei na parede completamente pichada.
-Freddie me achou no lixo da casa dele e cuidou de mim enquanto eu estava com amnésia – ele fez um sinal de positivo – estamos indo atrás dos pequenos agora, porque eu não consigo falar com eles por telefone.
-E a comitiva é pra...?
-Eu não consegui deixar eles fora disso. Mas foi melhor assim. Poucas pessoas se aproximariam de mim enquanto eu estou perto de tanta gente importante. – ele me olhou estranho – Eu não posso baixar a guarda enquanto eu não descobrir porque e quem me jogou no lixo.
-Você deveria falar com ele.
-Se eu conseguir despistar os outros, eu irei.
-Não foi um conselho, Lola. – disse Josenildo esbaforindo a fumaça – Ele fez essa pausa aqui em San Jose, mas ele estava indo pra Seattle atrás de você porque ele ficou sabendo que você foi raptada.
-Ele é o bandido com mais senso de herói que eu já vi na minha vida – eu ri. Aquilo era muito típico dele.
-E parece que ele descobriu coisas que você pediu pra ele investigar.
-Eu não me lembro de pedir pra ele investigar nada. Você sabe o que era?
-Não. Eu nem sei se estou certo sobre isso, mas eu o conheço como se fosse um filho, você sabe. Ele apenas estava com essa expressão no rosto. – eu fiquei séria tentando entender o que ele quis dizer com aquilo e ele sorriu pra mim – Não faça essa cara, nós já temos que ir.
Ele apagou o cigarro na parede que eu estava escorada e nós começamos a voltar. Charlie ainda estava comendo enquanto os meninos conversavam algumas coisas. E com meninos eu incluo o Colin.
Quando eu sentei entre Charlie e Paul, eu pude ver uma sombra enorme vindo até a gente. Charlie olhou pra onde eu olhava e abriu a boca. Aos poucos começamos a ver um cara alto, completamente torneado, com músculos, mas sem exagero. Lindo, simplesmente lindo.bEu imagino que ela se esqueceu de que tinha um pedaço mal mastigado lá dentro...
-Ora, ora, ora... Riquinhos... – disse o deus escultural quando ele parou ao nosso lado. – O que Vossa Majestade, Fredward Benson, está fazendo em meio a nós, pobres plebeus? — ele fez uma leve e irônica mesura e passou os olhos pela mesa e parou em mim – Principalmente quando está acompanhado da bela deusa Atenas.
Eu analisei a situação: Freddie estava assustado, apesar de tentar esconder isso. Spencer estava com as mãos embaixo da mesa de forma muito suspeita, Gibby estava petrificado e Paul estava com a mesma expressão que Charlie.
Eu suspirei. Se aquele ali fosse um babaca qualquer eu não estaria nem aí, mas ele não era. Atenas era o jeito que meu irmão me chamava desde que eu aprendi a atirar facas. Sabedoria e guerra. Era um jeito bem carinhoso de me chamar e eu gostava. Para esse cara me chamar assim, ele deveria estar obedecendo às ordens do meu irmão.
O que era bom, porque significava que meu irmão estava por cima da carne seca. Mas por outro lado isso só mostrava uma coisa: maldito Josenildo fofoqueiro.
-Isso não te importa. – eu disse me escorregando na cadeira e colocando preguiçosamente os braços em cima da mesa. – Agora caia fora
- Você conhece esse cara? – perguntou Spencer mexendo o braço por baixo da mesa.
Ou ele está se masturbando ou ele tem uma arma apontada para o ser a nossa frente. É melhor eu dar um jeito nisso, porque eu não acho que ele é um Colin da vida pra fazer esse tipo de coisa por causa de outro homem...
-Não. E eu tenho certeza que ele também não vai querer me conhecer. – eu soquei uma mão com a outra.
-Ah, a adorável deusa Atenas – o homem se aproximou de mim e pegou delicadamente minha mão direita – Fique tranquila porque eu não quero briga, afinal, eu nunca achei que a guerra caísse bem para uma bela sábia como você – ele beijou minha mão e sorriu de lado – Bem, quando você se cansar dele – ele apontou pro Freddie de uma forma debochada — e quiser um prazer de verdade, Zeus estará te esperando na cama dele até meia noite.
Zeus? Aquele babaca não podia ser mais óbvio?
- Eu irei. – eu disse fazendo-o sorrir e então ri malvada – Desde que você não seja o Zeus. – ele ficou desapontado e eu ri. – Se você cansou de me cantar, caia fora. Aqui não tem espaço pra gente da sua laia.
-Nem pra deles, deusa. Lembre-se que eles tão no nosso território.
-Eu estou no seu território. Eles apenas são meus convidados. Você sabe o que isso significa, certo?
Ele engoliu seco e virou de costas. Parece que eu ainda sabia fazer alguém ter medo de mim.
-Eu espero que você apareça para o maior prazer da sua vida. – ele disse dando um aceno com um dos braços. Até parece que eu ia deixar ele ir embora dando a última palavra e tentando parecer legal.
-Hei, filho da mãe – ele parou e olhou pra traz – Vai se foder.
-Pretendo fazer isso com você mais tarde – ele riu e continuou o caminho dele.
- O... O que foi aquilo? – perguntou um Gibby gaguejante
-Peraí, você vai ter um encontro com aquele cara? – perguntou Colin – Eu vou junto e ponto final. – eu ri dele, mas sabia que eu estava encrencada. Spencer não era tão besta pra não ter entendido aquela conversa.
Agora Spencer sabia que eu era do gueto. E isso quer dizer que a mãe do Freddie também saberia. Ou seja, eu nunca mais poderia retornar a Seattle se eu não quisesse aquela lambisgóia atrás de mim. Se eu soubesse que a mãe dele era daquele jeito eu nunca teria ficado na casa do Freddie. Me livrei dos caras que me jogaram no lixo pra cair na mão daquela vadia...
Em pensar que eu só fiquei na casa do Freddie porque eu queria sobreviver...
Isso me faz lembrar que... Porque a mãe do Freddie ficou branca daquele jeito quando eu mencionei a história da Carly?
Eu queria tanto minhas memórias de volta... Eu tenho certeza que eu sabia da ligação dela com a Pamela, eu sei que ela tem podre... Ah, droga, porque eu não lembro?
- A única coisa que eu vou me encontrar daqui a pouco é minha cama – bocejei – Eu to supercansada.
-Você conhecia aquele homem? – perguntou Freddie. – Porque essa conversa foi estranha.
-Não. Eu já morei aqui, então eu sei como esse tipo de gente se comunica – eu respondi sorrindo pra ele e ele olhou pra mesa meio envergonhado.
Ah não... mais um sinal de paixonite não...
-Tem certeza? – perguntou Spencer – Parecia que vocês já se conheciam de algum lugar.
-Bem, eu não lembro dele. – dei de ombros pra enfatizar.
-Se ela não lembra, é porque ela não conhece – começou Charlie, colocando um pedaço de pizza no prato – Não tem como esquecer um cara desses.
-Pode ir tirando o olho porque você tem namorado – ralhou Colin. – Ai, ai... Me pergunto onde é a cama dele...
Eu olhei feio pro Colin que deu de ombros como se dissesse “escapou”.
-Parece que você tem até meia noite pra descobrir – riu Spencer.
Depois de pagarmos pela pizza, nós voltamos até o hotel com Gibby reclamando que estava enjoado e que não sabia como eu aguentava comer tanto e naquela velocidade. Cada um foi pro seu quarto tomar outro banho, porque aquela cidade estava muito quente. Aproveitando que eles não iam ficar me vigiando, eu aproveitei pra ir até onde meu irmão pediu pra eu ir.
Pra nossa antiga casa.
Que não era uma casa de verdade, era um casebre desocupado e velho que quase estava desmoronando. O caminho até lá não era longe, mas também não dava pra fazer a pé. Foi por isso e somente por isso que eu peguei o carro que Freddie tinha alugado.
Isso não tinha nada a ver com o fato que eu tinha gostado de dirigir aquela minivã e muito menos com a sensação de família que um carro daqueles passava.
Não demorou muito e eu já estava entrando no casebre vazio que ficava perto da estrada. O lugar ainda era assustador pra qualquer um. Menos pra quem tinha morado ali por algum tempo, como eu e meu irmão.
E no quarto dele, eu o revi. Bem diferente do que eu me lembrava, lá estava ele.
Ele não era mais um moleque magrelo com um cabelo estranho. Agora ele era um homem formado, alto, atlético do tipo que não malhava, que tinha conseguido aqueles músculos na rua brigando. Meu irmão estava parecendo tão saudável!
-Samantha Puckett – ele abriu os bracos e eu pulei para abraça-lo –, quando quiser sair de férias, avise. Os pequenos ficaram preocupados.
-Você ficou sabendo quando que eu estava bem? – eu perguntei ainda envolvida no abraço dele – Já avisou os pequenos?
-Eu só soube quando o Jose me avisou. – ele segurou meu queixo e me fez olhar em seus olhos – Você me assustou. – eu abaixei os olhos, mas pude ouvir o sorriso que ele deu – Você continua igual, sua pirralha. Nunca vai achar um homem com esse comportamento de menina tímida – eu gargalhei.
- Vai se lascar. – a gente ainda estava naquela posição – E os pequenos, como estão?
-Eu fui lá há três semanas, eles estavam bem. Estão morando sozinhos numa casa enorme, parece que estão sobre a guarda de um tal de Richard. – eu suspirei aliviada – Eles me disseram que você estava morta, mas eu prometi a eles que eu reviveria você pra te levar de volta, caso precisasse.
-Como sempre prometendo coisas que você não pode cumprir – eu ri dele e o abracei mais forte. – É bom te ver...
-Lucas. – eu olhei pra ele com os olhos arregalados – Não é só você que pode usar seu nome original, ok?
-Lucas... – eu sorri – Fazia tempo que eu não falava esse nome.
Ele me segurou no colo e me levou até a cama, se sentando nela e me colocando com as pernas por cima das dele. Eu ainda estava abraçada no pescoço dele e ele me fazia leves carinhos na cabeça.
-Só faltava a Mei e o Josef agora – eu disse com um leve tom de pesar
-O Josef morreu – eu suspirei já esperava por aquilo
– Ele foi pego?
-Não. Ele foi morto por policiais que estavam atrás do traficante e não dele. – eu assenti
-Acho que nossa família é diferente – eu disse rindo – Onde mais a gente encontra pessoas que ficam feliz em saber que o irmão foi morto por policiais burros? – ele riu comigo — E a Mei?
-Mandei alguns homens protegerem ela assim que eu descobri sobre Josef – ele disse – Mas eu te chamei por outra coisa. Eu descobri o que você tinha me pedido.
Suspirei mais uma vez. Como eu poderia dizer a ele que tinha perdido a memória?
-Eu... Eu fui achada no lixo sem memória, Lucas. – eu avisei pra ele – Fredward Benson me encontrou e cuidou de mim até agora. – ele assentiu sério e eu continuei – Eu... acabei me lembrando de uma coisa ou outra, mas não lembro de nada desde entrar na polícia.
-Entendi. Parece que isso muda um pouco as coisas... – ele parou de fazer carinho e coçou o próprio queixo – Nós nascemos pra ser grande, Sam. É só disso que você precisa lembrar. Então não é importante você recuperar sua memória.
Nós nascemos pra ser grande? Isso me soa como algo que ele sempre falou pra mim. Mas parece que tinha um significado mais profundo que só aquilo.
-Se você não sabe o que está procurando, eu não posso mais te dar a resposta. – ele continuou.
-Eu sei o que estou procurando, Lucas. Mas não sei por quê. E não consigo me lembrar do que me levou a essa situação de agora. – suspirei – Eu só quero saber porque a gente teve que passar por aquelas coisas.
Ele ficou em silencio por um momento, parecia que estava escolhendo as palavras.
- Levante-se. Tem algo que eu quero te mostrar. — Nós fomos até um o ultimo andar do casebre. Tinha muita coisa lá em cima e era um milagre o chão não ter desmoronado com o peso. – Essas são nossas lembranças dessa casa. – eu olhei pra ele sem entender – Mesmo se eu colocar fogo nessas lembranças, nosso passado não vai mudar.
-Eu não quero mudar nada, só entender. – eu me defendi andando até as diversas coisas que tinham ali e mexendo em algumas, para ver se eu tinha algum flashback.
-Eu... Você deveria fazer igual a mim. – ele me disse me abraçando por trás – E deixar tudo pra lá. É melhor do que trazer o passado pro nosso presente.
-O que você queria me dizer, Lucas? – eu perguntei ainda olhando pras coisas. Ele me largou e começou a andar em direção a saída.
-Quando você lembrar o que tinha me pedido, eu respondo. Até lá, pense no que eu te disse – ele disse enquanto sumia na escuridão.
O maldito sempre conseguia fazer as saídas triunfais. Bastardo dos infernos.
Acho que era hora de voltar. O caminho foi silencioso e eu o fiz no automático. Pensativa demais pra prestar atenção no trânsito. Pensativa demais pra prestar atenção no homem sentado no saguão quando eu voltei.
-Você é desse tipo, então – disse a voz de Freddie me assustando.
-Do que está falando? – eu perguntei pra ele
-Você foi se encontrar com o Zeus, não foi? – ele não tinha um tom triste, nem um tom feliz... Ele apenas parecia querer constatar algo que sabia.
-Não. Eu fui ver uma pessoa que eu não via há muito tempo – eu sorri – Você está com ciúmes?
Ele me olhou nos olhos e por um momento eu me perguntei porque Freddie parecia ler minha alma sendo que não nos conhecíamos a muito tempo
-Eu fiquei preocupado com você. Algo podia ter acontecido. Você pensou que talvez podiam te raptar de novo?
Preocupado demais comigo. Chega, vou dar um basta nisso.
-Fredward, pare com isso. Eu sou uma menina crescida, não preciso de você cuidando cada passo que eu dou. Olha, eu não sei porque você está achando isso , mas você não está apaixonado por mim! – eu disse me sentando a frente dele.
-Eu nunca disse que estava! – ele reclamou com um bico adorável.
-É, mas tá dando sinais. – reclamei e a gente ficou em silencio por alguns momentos. — Certo... Eu tô de TPM, desculpe, não quis ser grossa. – eu olhei pra fora do hotel – O céu está lindo, não é?
Ele me olhou estranhando, mas logo se levantou e foi pra fora do hotel. Eu o acompanhei.
-Eu... não tinha olhado o céu hoje. – eu estranhei aquilo.
E isso me lembrou que eu não tinha reparado uma vez sequer no Freddie desde o jantar. Como eu sou uma ótima médica, hein.
-Nunca deixe de fazer isso então – eu sorri pra ele – O céu é sua paixão e nenhuma paixão gosta de ser ignorada.
A gente ficou sentindo a brisa fresca que de vez em quando passava enquanto a gente olhava o céu.
-Aquela é Vênus – ele disse apontando pra uma estrela qualquer. Se ele estava dizendo aquilo eu acreditava completamente. – A deusa da beleza. – ele olhou pra mim – Você deveria ser chamada de deusa Vênus, não de Atenas.
Uma vozinha irritante remedou o Freddie na minha cabeça: Eu não estou apaixonado por você. Não, sou eu que tô...
-Vênus... – eu ri dele – Prefiro ser Atenas. Sabedoria e guerra. A mulher perfeita. – eu olhei pro céu novamente. – A beleza morre.
-A guerra também. – ele revidou e logo riu – Estamos filosóficos hoje.
Nós ficamos ali, de pé, admirando a beleza do céu por mais um tempo. Até que eu quebrei o silencio.
-Eu... Desculpa, eu tinha esquecido que sou sua médica. Eu... não vou mais me esquecer disso até que você esteja curado.
-Oh, droga, você lembrou! – ele choramingou – Adeus, café... Adeus...
Eu ri dele.
-Sinta-se bem então, porque eu estou tirando seu remédio também. Eu sei que você odeia tomar aquilo. E bem, já que eles não estão fazendo efeito, você vai parar de tomar. — ele me olhou confuso – Eu sou sua médica e sou melhor que todos os outros. Você não tem TOC, não precisa de antidepressivo.
-Preciso do que então?
-Só de mim.
Notas finais
Eles começaram a trocar de lugar e estão entrando cada vez mais na família da Sam. Como será que vai ser o próximo cap?
Então, gente, como já sabem: vocês nos ajudam a escrever a história, então mandem reviews com seus comentários.
Bejinhos e vocês veem a Jaqs no próximo cap.
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