Cruel Fairy Tale
4 Capítulo 3 - Observando a Lua
Notas iniciais
Estou completamente impressionado com ela, a garota que encontrei no lixo e que se denominou Samantha Puckett. Certamente o que mais me surpreendeu foi o fato dela se lembrar do sobrenome. Puckett. Isso me deixou confuso e a questionar coisas. Sam não poderia estar mentindo. Claro que se eu não a tivesse achado e acompanhado cada passo dos procedimentos médicos poderia desconfiar dela. Afinal, os surtos quando se lembra de algo eram muito reais.
Como a garota loira que estava dormindo no quarto de hóspedes nesse momento pode estar envolvida com a família Puckett? O que estava acontecendo na vida dela? Será que é filha da Pamella ou somente parente? Irão sequestrá-la novamente? Minha cabeça começou a doer. Perto de mim, a vida era extremamente perigosa e o risco de sequestro aumentava exponencialmente. Meu sobrenome atrai pessoas gananciosas, impostoras, psicopatas, aproveitadores e o mais comum: falsas.
Respirei fundo e ao invés de me acalmar com esse procedimento, me senti sujo. Flashes de sonhos e perturbações que já passei não pedem licença para invadir minha mente.
Dói. Dói saber que não posso me aproximar de alguém normal, pois em todo lugar tem perigo e o nome que levo sempre irá atrair sequestros. A prova é o que aconteceu com a Carly, minha amada e perfeita Carly Shay. Lembro que minha mãe me avisou que a posição social da família dela é inaceitável. Minha mãe alegou que a família Shay não teria como proteger a filha. Uma semana depois, a minha noiva estava nas mãos de sequestradores.
Dói saber que o sangue dela estava nas minhas mãos e tenho receio em dizer que posso ver esse sangue nas minhas mãos em alguns dias específicos no ano. Sujo. É o que eu sou. Fredward Benson é sujo. Eu encontrei a Samantha em um saco de lixo e mal ela sabe que eu sou tão sujo quanto o lixo que a jogaram. Mas realmente não importa que ela sabia, por mais que tenha grande simpatia por ela eu desejo que essas duas semanas acabem rápido... Simples, porque eu não quero que ela saiba que sou louco.
Tenho medo que pense isso, assim como tenho temor que as pessoas saibam, por isso gosto de viver sozinho e me embebedar com as recordações que esse apartamento mantém. Nunca encontrarei alguém melhor que Carly, pois ela foi a única que aguentou minha família, negou ser comprada pela minha mãe e ainda me suportou!
Deitado ainda pego o meu relógio e resmungo... São 5:33 da manhã. Números ímpares. Eu posso sentir a minha mão suar e mais uma vez respirofundo, olho para o teto da base da minha cama e conto mentalmente segundos, minutos e até que dê seis horas da manhã.
Meu quarto é o cômodo que mais gosto, seguido do escritório onde eu estudo astronomia e depois dele é a pequena e singela adega que tenho, pois uma paixão comum entre mim e o meu pai é o vinho. O piso do meu quarto é marfim, as paredes e teto são brancos, tornando o cômodo iluminado. Eu gosto dele e da forma que tem iluminação extra em cima da base meia lua da cama. Na parede direita e junto a pequenas, finas e práticas plantas da parede que tem a base meia lua de madeira da minha cama.
Seis horas da manhã. Suspiro aliviado e me levanto, começaria minha rotina matinal obrigatória. Arrumo a cama com máxima atenção e deixo simetricamente alinhados os dois travesseiros da cama de casal. Sento no sofá preto de couro, na frente da minha cama, e ligo a tv, como a base de madeira da minha cama é meia lua e termina simetricamente junto com a cama, tem filetes de madeira marfim separadas por alguns centímetros e firmadas por três tubos finos de aço, no centro dessa estrutura de filetes, tem a TV. Assisto por cerca de quinze minutos um jornal matinal de domingo e só então entro no banheiro, deixando a TV ligada.
A Carly sempre teve bom gosto e quando nós compramos essa cobertura, ela fez questão que nosso quarto fosse minha cara. Claro que deixei nas mãos dela essa parte de design e acabei garantindo uma boa briga com minha irmã, que ama esses assuntos. Acabou que para Carly ganhar um pouco da simpatia da Charlie, a deixou fazer tudo que quisesse no quarto de hóspedes. Acho compreensivo, apesar que eu podia pagar uma cobertura só para essa garota e nem sentir tanto a falta do dinheiro.
Isso me lembra que essa garota desconhecida tem certa prática de me irritar de forma diferente. É claro que eu tinha percebido que tinha fechado a porta cinco vezes ontem no consultório, mas não sei por que eu gostei dela ter fechado por mime ao mesmo tempo me irritei porque era pra mim fazer. Eu que precisava fechar a porta, mas felizmente a minha ansiedade não foi grande por causa disso. O importante foi que a conta deu oito, ela me ajudou a fechar a porta oito vezes e isso é bom. Número par ou múltiplo de dois é muito bom. São números perfeitamente seguros...
Depois de tomar banho duas vezes e me enxugar, andei tranquilamente para o closet. O melhor é que tenho passagem livre, sem nenhuma porta que separe o quarto do banheiro. Mais uma manhã de domingo muito tranquila. Abro as portas escuras do closet e entro ali. Olho para as roupas femininas do lado esquerdo do closet e finjo escolher as roupas rapidamente com as mãos, mas pego a mesma roupa de todos os dias. A roupa que Carly usou um dia antes de desaparecer e certamente a que me proporciona a segurança para um bom dia. É esse vestido que faz meu dia andar bem, sem ele é como se minha estabilidade estivesse em risco. Ando até a cama e coloco o vestido esticado, sorria um pouco ansioso. Busco rapidamente o par de sapatos e coloco ao pé da cama.
- Agora sim. — Falo baixo e minha mente recria o barulho do chuveiro como se Carly estivesse o usando. Volto ao closet e me visto normalmente.
- Quatro vezes. — Sussurro e escuto um grande barulho. Pelo susto erro minha contagem e invés de quatro faço cinco. Cinco vezes que fechei o closet. Minhas mãos começam a suar e sou obrigado a respirar fundo. Encaro o closet fechado e em minha mente passa maneiras até fantasiosas do perigo desse erro de contagem. Mecanicamente fecho e abro o closet por sete vezes. Quatro vezes a mais do que seria necessário.
Olho ao redor do quarto e verifico se estava tudo nos conformes. Respiro até mais aliviado. Roupas da Carly guardadas, TV desligada e tudo em ordem simetricamente. Ando tranquilamente até a porta e realizo a minha mania, abrindo e a fechando quatro vezes. Satisfeito caminho até a cozinha, onde me deparo com a metade da mesa cheia de alimentos, jarras e pares de xícaras, pratos, copos de vidro, etc, ou seja, a mesa posta com o que seria o meu café da manhã. Sinto aquela sensação de uma recordação tomar conta de mim.
"-Você sabe que não precisa arrumar a mesa do meu café da manhã. — Eu falo e sorri ao vê-la terminar de colocar uma jarra de suco de laranja entre vários tipos de bolo, iorgute, frutas, roscas e etc.
Carly se vira pra mim com um grande sorriso nos lábios, devidamente arrumada ela se aproxima de mim com pressa e pressiona os lábios nos meus.
- Meu leão tem que se alimentar bem. — Carly faz um bico e ela enlaça meu pescoço com seus braços. Automaticamente seguro a cintura dela e a puxo para mais perto.
- Seu leão?- Dou uma risada pequena e ela suspira como quem não quer falar sobre isso.
- Eu vou indo, aliás, a empregada que Liz sugeriu está para chegar... Veja se ela é boa e confiável como Liz falou. — Carly mandou, selando mais uma vez nossos lábios, saindo dos meus braços e pegando a grande bolsa no sofá.
- Como é o nome dela? Preciso autorizar a entrada dela... — Perguntei curioso.
- Ela se chama Jéssica e se for muito bonita é melhor você dispensá-la. Arrumamos outra empregada... — Carly falou alto e abriu a porta principal. Ela me olha com carinho, então percebi que esperava uma resposta do seu comentário.
- Isso é ciúmes antecipado? Como se uma empregada pudesse ser mais linda que você... — Falei galanteador e Carly gargalhou.
- Cuidado, meu amor... A gata borralheira esfregava o chão, a dita cinderela que se casou com o príncipe. — Ela falou com um ar fantasioso e eu me sentei no braço do sofá.
- E? — Perguntei interessado.
- Qual é, Benson. A cinderela era filha de um comerciante rico, ou seja, sua mãe aceitaria essa gata borralheira... Mesmo que seja somente um personagem... — Ela fez bico e eu a entendi.
- Ela vai te aceitar um dia. — Eu disse querendo acreditar também, Carly riu e me olhou séria.
- Só no dia que eu estiver morta... — Sussurrou e eu me levantei, mas antes de alcançá-la ela já tinha fechado a porta e a trancado.
- Não se esqueça, se a Jéssica for bonita não é para contratá-la. — Escutei sua voz abafada por trás da porta e pude ouvir os passos dela se distanciando. Olhei para mesa do café da manhã e sorri largamente. Certamente amo isso. "
Voltei a encarar a mesa e dessa vez vi a loira próxima a mim. Ela me olha inexpressiva, sem falar nada, me sentei à mesa e sorri para ela.
- Eu te chamei quatro vezes e você não fez nada... — Sam me disse e eu a olhei com expressão fingida de confusão.
- Porque fez isso? — Perguntei apontando para a mesa e a analisei.
- Para te agradecer por me deixar...
- Não precisava. — Eu a cortei e ela pareceu não gostar. — Você é minha médica e eu sou o dono do lugar onde você está dormindo... Então essa relação já é o suficiente para mútuo agradecimento.
- Alguma conta errada? — Ela pareceu arriscar o palpite da qual perguntava. Sinceramente não entendo como é fácil ver quais eram os meus problemas. Com certeza, ela é bem observadora.
- Porque?
- Parece agitado e há dois minutos estava encarando o nada... — Ela disse baixo. Ignorei e olhei para a xícara.
- Fez café? — Perguntei mais animado e ela deu uma risada sobre algo.
- Eu fiz chá de alecrim pra você. — Sam sorriu largamente e eu grunhi. Eu preciso de café, desde sempre eu tomo café e não seria basicamente agora que iria deixar. Como um bom paciente viciado, irei fazer o meu melhor na frente dela e tomarei o bendito café escondido. Afinal, ela não perceberia.
- Chá? Sério?- Perguntei fazendo a melhor cara de nojo.
- Sim, chá é bom e gostoso... — Ela pareceu estar forçando o que disse e sorriu concordando com ela mesma em algo que não sei dizer. Talvez estivesse concordando com algum pensamento dela.
- Eu não vou tomar chá. — Reclamei.
- Vai sim. — Ela disse me encarando e servindo a minha xícara de chá. É definitivamente uma junção com médica, criança pirracenta e mãe enjoada, com esse jeito dela... De... Mandona.
- Que seja... — Resmunguei pegando a jarra e servindo suco de laranja em um copo, esperava que daquela forma ficasse claro que eu não tomaria o chá. Ela me observou calmamente e assim que terminei de tomar o suco ela fez questão de me lembrar do chá.
- Ele é bom para ansiedade e então vai ser bom pra você. — Ela me explicou.
- Mas é de alecrim... — Novamente fiz cara de nojo e peguei uma torrada, mordendo-a em seguida.
- Eu fiz com mel... — Ela cantarolou e consequentemente me assustou. Eu gosto muito de mel e como ela saberia disso?
- Como sabe disso? — Perguntei intrigado.
- O que? — Ela pareceu confusa e ri da forma que ela me olhou.
- Sobre o mel. Eu gosto muito de mel... — Falei baixo.
- Eu não sabia. — Ela esclareceu um pouco irritada. — É que quando eu acordei eu lembrei de algo...
- Lembrou do quê? — Perguntei extremamente curioso, pois talvez pudesse ser alguma informação sobre o sobrenome Puckett que ela se lembrou ter ontem.
- Vai tomar o chá? — Ela perguntou sorrindo. Sam estava me chantageando?
- Tem mel extra?
- Sim. — Sorri satisfeito e tomei um gole do chá quente. Fiz uma careta exagerada e ouvi o som da risada da loira. — Agora, fala!
- Acho que minha mãe gosta desse chá. — Ela sorriu fraco. — Mas parece não gostar muito de mim. Foi isso que me lembrei.
- Ela se parece com a mulher do jornal? Pamella Puckett? — Perguntei e ela respondeu negativamente, visivelmente decepcionada por ter se lembrado de sua mãe.
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O resto do café da manhã se passou tranquilamente e pude confirmar que a Sam come muito. Ontem pensei até que era por causa da fome de dias sem comer, mas hoje pude ver que parece ser normal o tanto que ela come.
- Sam, não precisa lavar a louça. — Falei enquanto a mesma continuava a lavar cantarolando algo que não pude identificar, talvez ela tivesse se lembrado de alguma música ou algum momento com uma música, pois cantarolava extremamente concentrada.
- Sam. — Voltei a chamar, mas agora selecionando uma forma de chamar sua atenção.
- Samantha, preste atenção em mim. — Falei mais forte e parece que desencadeou uma memória, pois ela ainda com as mãos cheias de espuma tampou os ouvidos e fechou os olhos com força.
Me assusto e sem pensar duas vezes a seguro com receio de que algo a mais pudesse acontecer. Segundos depois vejo ela voltar ao normal e suspirar passando as mãos na testa. Eu tento não rir, pois não era somente seu cabelo que estava com sabão... Seu rosto também.
- Do que se lembrou?
- Eu não sei. Eu não entendi essa lembrança... — Ela suspirou irritada.
- Você estava bem? — Ela me olhou de forma estranha e sorri.
- Eu termino isso. — Disse com comando e ela assentiu. — Você está toda... — Hesitei e apontei para as mãos dela.
- Eu vou...
- Está bem. — Disse antes que ela terminasse, acompanhei com o olhar ela andar em direção ao quarto de hóspedes até que saísse do meu campo de visão.
Olhei a pequena bagunça feita e apesar de me incomodar, gostei. Gostar do incomodo não me parece ser tão ruim. Abri a segunda gaveta ao lado da pia e peguei as luvas de silicone, coloque-as nas mãos e terminei o serviço. A campainha toca e ao abrir a porta vejo Charlie com um semblante contraditório e logo atrás dela um garoto, deduzi ser o tal barman que ela tanto fala.
- Oi mana — Saudei e ela entrou com o rapaz logo atrás segurando quatro grandes sacolas.
- Aonde está a Sam? — Perguntou ela entusiasmada.
- No quarto, eu acho... — Encarei o rapaz e ele pareceu incomodado. Charlie viu e entendeu, enlaçou o braço no do rapaz e sorriu satisfeita.
- Ele é o Adam E. Barlow... — Charllote beijou a bochecha do rapaz e ele sorriu colocando as sacolas no chão.
- Prazer, Adam. — Ele deu um passo a frente e estendeu a mão.
- Sou Fredward... — Falei apertando sua mão com força.
- Eu sei. Na verdade todo mundo sabe... — Ele deu uma pequena risada e Charlie o puxou dirigindo-o para a sala. Sentaram no sofá creme e ela me olhou séria.
- Fred, a mamãe tentou comprar o Adam. Tipo, ela ofereceu quarenta milhões para ele ficar longe de mim. Ela é um inferno! — Ela começou a falar quase gritando e eu ri. Aquilo era a cara da minha mãe oferecer dinheiro para realizar tudo que ela quer.
- E? — Ela deu um largo sorriso.
- O Adam aceitou, é claro. — Disse como se fosse óbvio demais.
- Vocês enganaram a dona Marissa Benson, sério? — Perguntei assustado, pois eu bem sei que isso ainda vai render grandes problemas para esse tal de Adam.
- Sim, ela vai surtar. Imagino até ela ligando para o Me... o Spencer. — Charllote disse e eu entendi o porquê não falar sobre o Meião na frente dele. Charllote pode se revoltar e odiar muito a minha mãe e o sobrenome que tem, mas ela bem sabe que os segredos da família são sagrados e de lei. Ela pode não querer ser, mas ela é da família e guarda os segredos que a família tem. Realmente acho bom que não fale do Meião, afinal é ele quem nos livra de muita coisa.
- Charlie! Voltou aqui cedo. — Sam falou perto das compras e minha irmã se levantou do sofá para cumprimentá-la.
- Eu comprei algumas roupas mais folgadas e tal, pra você. Afinal essas roupas servem em você, mas vejo que não são confortáveis. — Charlie diz à loira com entusiasmo. Eu olho pro Adam e ele estava com uma expressão confusa.
- O que foi? — Pergunto a ele.
- Eu acho que conheço ela... — Ele falou enquanto colocava a mão no queixo.
- Conhece da onde? — Perguntei com atenção. Talvez... Não... Será?!
- Não... Eu acho que não é ela. Eu pensei ser uma médica com quem trabalhei quando fazia técnico de enfermagem. — Ele falou sem graça. Olhei para as duas garotas que conversavam sobre algo baixinho e me incomodo. Não gostaria que Charlie estivesse dando pedaços da história que tive com Carly. Afinal, não quero falar mais sobre isso com ninguém. Não vou chamar a atenção dela porque tenho que conversar com o Adam.
- Tem quanto tempo que você fez esse técnico de enfermagem?
- Faz dois anos e três meses... Eu acho. Cara, só essa médica que eu confundi com ela — Adam aponta para a Samantha -, tinha cabelos pretos...
- Como essa médica se chama mesmo? — Perguntei interesado. Afinal, dois anos atrás ela poderia ter pintado o cabelo de preto...
- Como era mesmo? — Ele diz confuso. — Acho que era Jéssica ou Samara... Não... Eu acho que ela se chama Savannah. É. — Ele diz convicto.
- Tem certeza?
- Sim... — Ele hesita um pouco. — Sim, eu tenho certeza. Lembro-me bem no técnico de enfermagem e nos hospitais em que passei...
Espera aí, técnico de enfermagem?! Quantos anos esse "rapaz" tem? Voltei a olhar para ele. Minha irmãzinha não namoraria alguém da minha idade ou mais velho. Não mesmo. Ela bem sabia que eu nunca deixarei ela namorar alguém muito mais velho que ela.
- Adam, certo? — Perguntei e me sentei na poltrona branca mais perto do sofá.
- Sim. Adam E. Barlow... — Ele respondeu estranho.
- Quantos anos você tem? — Adam pareceu entender do que aquela pergunta se tratava e engoliu seco.
- Eu... Anos... Eu tenho 18 anos. — Ele respondeu gaguejando um pouco. Se comigo ele estava gaguejando, certamente mijaria nas calças tendo uma conversa com meu pai.
Dezoito anos. Dezoito estava bom.
- Respira, cara. Está tudo bem... — Levanto e dou dois tapas no ombro dele.
- Charlie, ficará e almoçará com a Sam?
- Claro, podemos fazer lasanha. – Ela disse e olhou para o Adam com um pequeno sorriso. Eu não sei o que foi e nem o porquê daquele sorriso direcionado a ele. Mas, né.
- Você não vai ficar? — Sam me perguntou. — É claro que não. Você acabou de falar que não... Desculpa. — Ela pareceu falar consigo mesma e me permiti rir disso. Samantha realmente era engraçada e o pior é que seus traços me parecem comuns demais. Claro que eu percebi isso quando ela estava mais arrumada e é estranho ter essa sensação que já a vi em algum lugar antes da noite em que a encontrei.
- Eu vou almoçar com um amigo... — Avisei as duas e Charlie riu.
- Qual é, mano. É melhor falar que vai almoçar com o Spencer! Já que Gibby estava viajando e você não tem mais nenhum amigo. — Charlie falou caçoando e fingi rir, ironicamente.
Peguei as chaves do carro no chaveiro, me despedi de todos e dirigi para um setor menos luxuoso, claro, comparado ao setor em que vivo.
Entrei na recepção de boa e ignorei os gritos do porteiro estranho, o serviço de segurança do Bushwell é discreto e o mais disfarçado que já vi. Bati quatro vezes na porta do triplex onde Spencer mora e não demorou para ele abrir a porta.
- Você! — Ele exclamou.
- Sim, eu. — Falei enquanto entro no apartamento organizado do meu amigo. Me sentei no sofá grande de couro marrom escuro e o olho curioso.
- Você não avisou que viria... — Ele disse e eu o encarei.
- Hoje é seu dia de folga, o único do mês. É claro que seria previsível que estaria aqui! — Falei como se fosse extremamente óbvio, sempre no dia de folga de Spencer era de lei eu e o Gibby nos reunirmos aqui. Só que bem cedinho para jogar Pólo.
- Só que não veio jogar Pólo. — Spencer falou cético e pegou seu tablet. Logo estava sentado no mesmo sofá que eu. — Meião me mandou algo interessante essa manhã.
Spencer falou enquanto abria o arquivo que estava no dropbox premium. Ele me olhou e sorriu, mostrando duas fotos de duas garotas diferentes.
- Essas são Melanie e Jéssica? — Perguntei. Não tinham nada haver com a Sam, a não ser o fato de serem loiras de olhos azuis.
- Pelo menos é o que estava registrado. — Ele me disse divertido.
- Você dúvida que são elas. Alguma teoria?
- Essas não devem ser as gêmeas de Pamella, seria fácil demais. Só acho que ela deve ter bons contatos. — Spencer disse e abriu outra pasta e outra foto.
- Essa não era pra ser a Jéssica? Parece ser uma pessoa diferente nessa foto... — Falei alarmado. — Mas que foto ruim! Não dá pra ver o rosto dela, mas pelo menos sabemos que também é loira.
- Era para ser a Jéssica.- Gargalhou Spencer. — Mas, essa beldade foi presa aos dezesseis anos por matar um homem que tentou estuprar ela. No depoimento escrito ela diz que deve ter sido a mando da mãe e que tem certeza que o homem iria matá-la em seguida.
- Ela se parece com uma empregada que tive... — Exclamei. — Apesar que a empregada tinha cabelos pretos...
- Acho que temos um quebra-cabeça para montar... — Spencer disse se divertindo com essa confusão.
- Porque tanto empenho em esconder a verdadeira identidade delas? O que Pamella fez? — Perguntei interessado.
Vejamos. Samantha diz que se lembrou que seu sobrenome é Puckett. Melanie e Jéssica tem "vidas" falsas perante os registros delas e a garota que foi presa se chamava Jéssica, só que é diferente da foto que foi mostrada nos registros. Ou pelo menos eu acho que são pessoas diferentes que aparentemente tinham a mesma identidade. Então eu encontro a Samantha e me pergunto mais uma vez o que fizeram com ela. O que aconteceu? Porque se ela for uma Puckett, eu vou descobrir o que houve. Sinceramente? Sinto cheiro de armação e acho que isso não foi um acaso.
- Não sei sobre a identidade verdadeira delas, mas sei que o Dr. Carol esteve na sua casa e utilizou uma grande equipe para atender uma garota muito machucada. — Ele falou calmamente e grunhi.
- Uma história muito longa... — Exagerei e ele riu.
- Você pode me contar enquanto preparo nosso almoço... — Spencer se levanta e vai em direção à cozinha. Fui logo atrás dele e me sentei na cadeira mais próxima da bancada. Contaria resumidamente apesar de que é bem curto o que aconteceu...
- Pode começar... — Spencer falou colocando macarrão em uma panela.
- Tacos de macarrão?
- YEEEAH — Ele exclamou como se estivesse na cara o que almoçaríamos.
- Eu encontrei uma garota dentro do saco de lixo e a levei para dentro do meu apartamento. Ela vomitou em mim quando acordou pela primeira vez, mas estava muito grogue e desmaiou de novo. Quando acordou eu já tinha chamado o Dr. Carol para consultá-la em sigilo e tal. — Expliquei.
- Uma garota dentro de um lixo? Não é aproveitadora não? Louca? Com parafusos a mais ou a menos? — Confirmei a primeira pergunta enquanto as outras neguei.
- É bonita? — Ele perguntou parando de mexer nos pratos e me encarando. Eu ri porque fiquei sem graça.
- É. Samantha é bonita! — Falei.
- Onde ela mora?
- No momento na minha casa. — Eu respondi e Spencer me olhou sério e entendi o porquê.
- Ela não estava a mando da Liz e nem é uma Liz na vida. Ela não se lembra de nada...
- Sua mãe vai descobrir isso, você sabe, certo? — Confirmei o que ele disse com a cabeça. — O Meião já sabe, aliás, ele que me informou disso.
- São somente duas semanas. — Falei e ele assentiu.
- Mas, então... É morena?
- Não. A Samantha é loira. — Eu disse.
Contei a ele tudo que eu já sabia de Sam. Ou seja, a mania que ela tem de concordar com ela mesma, a forma inconstante de ser doce ou nem tanto, que ela é uma boa observadora, sabe cozinhar e certamente é engraçada. Fiquei no Spencer até as quatro da tarde, pois realmente conversamos bastante. Eu até agendei horários com os futuros clientes do banco internacional BB's Gold, para amanhã é claro.
Entrei em casa e aparentemente não tinha ninguém. Mas é claro que teria. Pelo menos Samantha estaria em algum lugar. Fechei a porta quatro vezes e só aí me senti seguro para procurá-la. Olhei a cozinha, sala, seu quarto, meu quarto e até entrei na adega! Somente então me lembrei da sala de tv na qual imediatamente me dirigi para lá.
Abri as portas de correr, quatro vezes como sempre, e somente então percebi que ela realmente estava no cômodo. Com um manto sobre os ombros, ela me olhou estranho. Eu podia jurar que era com pena. Certamente minha irmã mencionou a morte da Carly. Sentei-me no puff grande, largo e estampado, sem cerimônias. A sala de tv tem algo que gosto: o espaço. Ou seja, a sala é espaçosa. As paredes, o piso liso e o teto são brancos como praticamente todo o resto da cobertura. Tirei os sapatos e coloquei-os arrumados ao lado do puff. O tapete, realmente grande, é preto com uma extremidade retangular quadriculada de preto e branco, as outras extremidades retangulares são pretas.
- Como foi seu almoço? — Perguntei e ela sorriu.
- Foi bom. Charlie é sempre meiga?
- Nem sempre. Ela vive se metendo em confusão.
- Parece mesmo. — Sam falou e assentiu o que disse. Talvez ela tivesse pensado em algo sobre isso.
- Estava assistindo cinderela? Sério? — Perguntei divertido ao ver o que estava passando na grande TV. O que realmente gosto é o painel de TV que pega quase toda parede, pois nele é acoplado a um tipo de estante geométrica, diferente e branca.
- Yeah! — Ela pegou a capa do dvd em cima da mesa de centro e me mostrou. Na capa estava escrito "De Carly Shay para Leão" em meio a um monte de corações em vermelho. Ri envergonhado. Agora era fato que elas teriam conversado sobre a Carly.
- Encontrei dentro da mesa de centro e coloquei para assistir, queria ver onde é que aparece um Leão... — Ela disse e me olhou de forma gozada. — Sério? Leão?
- Eu mandaria você perguntar a ela o porquê, mas não dá. — Falei e ela pareceu compreender.
- Tenho vários dvd's aí dentro — apontei para a mesa — e você escolhe esse?
- Eu achei que... -Ela se calou quando escutamos a campainha. Sam tirou o manto dos ombros e se levantou, fui em seguida.
Ao lado da porta principal tem um mini-painel eletrônico, da qual acionei para ver quem estava na porta. Sim, eu tinha uma microcâmera na porta. Eu vi minha mãe e senti minhas mãos suarem.
- Se tranca no quarto de hóspedes. — Falei baixo e a loira assentiu. Ela realmente parece não querer me causar problemas.
Abri a porta e fechei a mão direita, deixando minha mãe adentrar no apartamento. Quero que ela pense que não sou louco, como ela me chamou quando fui diagnosticado com TOC. Então não posso abrir e fechar a porta na quantidade de vezes para me sentir seguro. Respirei fundo e a abracei.
- Fredward, querido... Porque não foi em casa? — Ela perguntou me olhando aflita.
- Mãe, eu te vi sexta. Não tem dois dias que você não me vê e a Charlie certamente deve ter falado que me viu ontem e hoje. Eu estou bem. — Eu disse e apertei com mais força minha mão.
Porta. Porta. Porta. É tudo que se passa em minha mente e por isso, me esforço para pensar em outra coisa. Não vou encarar a porta e nem fazer meu ritual ainda. Não com minha mãe aqui.
- Bom, seu pai quer saber como anda o andamento dos novos clientes. — Ela sorriu e se sentou no sofá.
- Mãe, eu não quero ser mal educado com a senhora. Mas, é que esse é o único tempo que eu tenho para fazer o que eu gosto... Você sabe...
- Astronomia. — Ela disse e suspirou. — Meu querido, sinto muito que a insistência da Carly e do seu pai tenham dado certo. Eu sei que esse era seu grande sonho, mas convenhamos que era imaturo. Gosto de saber que estudar astronomia seja um hobbie pra você. Todos saem bem e vencedores assim, certo? — Minha mãe fala e se levanta com um brilho nos olhos.
- Até amanhã, mãe? — Pergunto como uma forma para ela ir embora.
- Me ligue amanhã antes de ir, está bem?
- É claro! Vou lembrar disso. — Eu falo e vou até a porta abrindo-a.
- Adeus querido.
- Tchau mãe e, por favor, pare de se preocupar tanto comigo. — Peço e me escoro na porta.
Observo ela entrar no elevador e sem esperar nem um minuto, entro no apartamento. Fecho e abro a porta por dezesseis vezes. Concentrado encaro a porta e respiro aliviado. Dezesseis vezes é suficiente.
- Então você gosta de astronomia? — Sam pergunta e eu sorri. Se ela permitisse falaria de astros, objetos cósmicos, telescópios, binóculos especiais e tudo que mais ama. Afinal, faz tempo que eu não cito nada para alguém sobre esse assunto.
- Muito mesmo. — Digo com orgulho.
- Você tem aqueles telescópios? Eu nunca vi um deles. — Ela falou de uma forma interessada e eu entendi, pela última frase, que ela só estava querendo ser legal. É claro que ela nunca viu, porque ela não lembra nada além desses dois dias.
Assenti e a levei para meu escritório que não tem cara de escritório. Ele não tem porta, mas fica um tanto escondido. Entramos na sala de TV e ela pareceu se surpreender quando viu a entrada do meu "escritório". Acho que não tinha percebido. Aqui é onde me jogo na astronomia, e é onde observo o céu, porque tem uma porta de correr de vidro que dá para uma varanda grande. Eu tenho muitos livros de astronomia que ficam em uma estante preta acima da bancada marfim.
Na varanda, eu montei o tripé do meu Skywatcher Binocular de 70mm e posicionei para a Sam. Olhei pelo o binóculo a lua e sorri satisfeito. É bem visível as crateras enormes e as formações rochosas com muita claridade. Como digo, é algo fascinante.
- Vem cá. — Chamei ela e deixei de observar a lua.
- Eu queria ver em um telescópio e você vem com esse binóculo... — Ela reclamou.
- É melhor ver através de um binóculo porque você é iniciante e outra, isso não é um binóculo qualquer! É um Skywatcher Binocular de 70 mm! — Falei com orgulho e ela me olhou cética.
- Isso era pra fazer alguma diferença? — Sam riu do que falei.
- Cala boca e olha logo. — Disse irritado.
- Ninguém me manda calar a boca e tira a mão de mim! — Ela ordenou e eu ignorei. A empurrei para frente do binóculo e ela me olhou muito irritada.
- Desculpe. — Resmunguei e só assim ela se posicionou para ver através do produto da Synta Optical Technology, o binóculo,a lua.
- Nossa. Isso é... — Ela tentou balbuciar. Sam estava com as mãos segurando o binóculo e com um enorme sorriso no rosto.
- Fascinante. Isso é fascinante. — Eu falei e ela deu uma risada grande.
- A lua é tão clara e parece um grande pedaço de queijo- Ela comentou rindo.
- São as crateras... — Resmunguei.
- Mas é muita clara... Isso é normal? — Ela perguntou.
- Você acha que é muito clara? — Eu ri um pouco — Isso é porque hoje é dia de lua crescente. Ou seja, é menos clara do que as outras fases da Lua. Particularmente eu gosto quando é lua minguante. Fica melhor para observar a Lua e tal. — Eu falo e ela me olha interessada.
- Tem como ver Júpiter? — Ela pergunta.
- Tem sim. Mas acho que vai gostar de ver Sagitarius, é uma constelação bem interessante e revela alguns dos objetos que possui... Tipo Lagoon... — Eu me animo e ela me interrompe.
- Eu não sei o que diabos é Lagoon... — Ela fala irritada. — Mas você pode me mostrar ela? — Assenti e já fui mexendo no binóculo.
- Claro que posso!
- Vou pegar alguma bebida e algo pra comer... — Ela falou passando a mão na barriga. — Minhas lombrigas precisam de comida extra hoje.
Eu ri do que ela disse e não demorou muito para ela voltar com uma bandeja com quatro sanduíches de presunto e uma jarra de suco de laranja, claro que dois copos. Ela colocou a bandeja em uma mesa de vidro perto da onde montei o binóculo e começou a comer um sanduíche.
- Sabia que Júpiter tem luas? — Perguntei e ela me olhou cética.
- Seu nerd! — Sam exclamou e se aproximou de mim.
Comendo, ficou perto de mim e prestou atenção em tudo que eu falava. Às vezes zombava das coisas, mas em geral parecia interessada no assunto e encantada por ver as estrelas tão perto, mas também tão longe. Eu digo que ela gostou, pelo menos, um pouco de astronomia.
Se bem que eu poderia me acostumar com noites de domingo que nem hoje. Realmente, não parece que não vai ser ruim ter ela por perto nos próximos dias...
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