Cruel Fairy Tale

5 Capítulo 4 - Diagnóstico errado.


Notas iniciais
Oieeee. Demorei muito? Acho que não né.
Eu tive que pensar em algo que fizesse sentido e depois digitar esse cap...
Enfim, cap menor!!! Viram? Eu prometo e cumpro!
Acho que era só isso que eu tinha pra falar no começo.
Aproveitem o cap. Espero que vocês gostem.

– Você quer me contar? – ele perguntou do nada.

Nós estávamos cerca de três horas mexendo com aqueles trens de astronomia dele. E a cada segundo ele se provava mais e mais nerd e apaixonado por astronomia. O escritório de astronomia dele já estava todo revirado e ele olhava pra cada instrumento seu com orgulho. Tinha me contado algumas coisas que eu podia imaginar que nunca tinha aprendido aquilo mesmo antes da amnésia.

As coisas que ele mostrava eram realmente fascinantes. Até que ele começava a fazer contas e mais contas. Aí perdia a graça, mas olhar pros astros era algo tão legal. Era um mundo de descobertas. E pra mim, naquele momento, o que eu mais precisava era de fazer descobertas e preencher meu cérebro vazio.

Charlie tinha me contado um pouco da vida dele durante o almoço. Nada que pudesse comprometer muito. A não ser o fato que ele já teve uma noiva. Charlie disse que ela tinha sido raptada e morta. E pediu que eu não tocasse no assunto já que isso o deixava abalado. Mas... Se eu fosse a “terapeuta” dele, eu tinha que tocar no assunto.

Sem contar que tinha uma grande parte de mim que queria saber da vida dele. Afinal, como eu poderia infernizar o cara sem saber de nada?

Eu realmente tenho medo dessa personalidade do mal que aparece de vez em quando...

–Contar o que? – eu respondi com uma pergunta

–Você disse que se lembrou da sua mãe hoje. Talvez eu possa ajudar a descobrir algo. – ele se escorou na parede oposta à mesa que eu estava sentada

O escritório dele estava realmente uma bagunça de papéis e vê-lo ali, naquela pose tão despreocupada, junto àquela bagunça, me fez entender que talvez ele não tivesse exatamente TOC. Uma pessoa com TOC, mesmo que fosse sub-clínico, nunca iria ficar naquela posição. E quando eu digo nunca é porque é nunca mesmo. Independente do assunto que estivesse sendo tratado. Não, a pessoa arrumaria tudo e... Na verdade, aquela bagunça nem seria feita!

Não. Aquilo não era TOC. Talvez fosse trauma pela perda da... Vou testar essa teoria depois.

–Não é nada muito importante. – eu sorri pra ele – Eu lembrei que ela adotava várias crianças pra receber ajuda do governo. E que quando eu fiz... Eu não sei bem... Acho que dezesseis anos ela me expulsou de casa. – eu suspirei – Pela forma que ela me tratou, acho que depois disso eu perdi contato com ela. – eu suspirei e lembrei algo mais. — Acho que eu morava em Argentine...

–Como? – ele perguntou me olhando – Argentina? Na América do Sul?

Argentina? O que era? Era uma cidade da América do Sul?

–Eu não sei, mas lá faz frio. – eu sorri e eu mordi o lado de dentro da minha bochecha – desculpa, eu só lembrei isso. – Ah, minto. Eu recebi bolsa pra fazer medicina em Yale. – olhei pra ele -Yale é uma boa faculdade? Porque eu realmente estava feliz em entrar lá.

Ele sorriu e assentiu.

–Yale é bem famosa.

Fred, como Fredward gostava de ser chamado de acordo com Charlie, veio até o meu lado e ligou o aparelho.

–Isso é um computador? – eu perguntei – Parece pequeno.

–Você nunca mexeu num desses? – ele me olhou enquanto sentava-se à mesa, ao lado de mim com o aparelho no colo – Lembra o que é internet? — Eu assenti enquanto ele apertava algumas coisas direto na tela e digitava coisas no teclado. – O que exatamente te faz achar que você morava na Argentina?

–Minha mãe disse que era pra eu sair de Argentine e nunca mais voltar a vê-la. – eu respondi e ele digitou Argentine e pressionou enter.

–Tem mais alguma coisa? Algum detalhe? – ele perguntou olhando o computador concentrado

–Eu tinha uns... Bastante irmãos. Eu acho – ele pareceu se iluminar depois de um tempo.

–Sabia! Tem uma cidade chamada Argentine em Michigan

–O que é Michigan? – eu perguntei. Ele colocou o computador no meu colo e eu pude ver um mapa. Ele apontou uma área no mapa e sorrindo disse:

–Este é o estado de Michigan – ele aproximou o mapa e mostrou um pontinho no meio do estado – Aqui fica a cidade de Argentine. Você deve ter morado lá.

–Que coisa legal! – eu disse olhando pro aparelho no meu colo – E onde a gente está? – eu perguntei e ele andou o mapa para a esquerda mostrando que estávamos na extrema esquerda – Isso é Seattle? — Eu apontei pra um ponto grande no mapa

–Não aí é onde está o nome do estado: Washington. – eu sorri e ele apontou pra um ponto menor, mais ainda assim maior que os outros. – Aqui é Seattle.

–Ah. A gente está na maior cidade então? – e ele assentiu – E o que tem aqui em Seattle? –eu perguntei olhando pro mapa, extremamente curiosa. – Tem alguma coisa legal aqui pra eu conhecer?

Seattle também era um mundo de descobertas que poderiam preencher meu cérebro vazio.

–Tem alguns museus e tem alguns estádios e... – eu o interrompi completamente animada com aquilo

–Nós podemos ir lá algum dia? Gostaria de conhecer essas coisas... – suspirei. Menos, Sam, menos. Ele não era obrigado a fazer nada – Desculpe, não devia te importunar com essas coisas... Você já deve estar cansado de ir nesses lugares. Esqueça isso. Foi uma ideia boba.

Ele sorriu. O sorriso dele era lindo quando não era forçado e pela primeira vez que eu estava ali eu o vi dar um sorriso tranquilo, calmo e verdadeiro.

–Nós podemos ir quando eu estiver de folga – eu assenti veementemente sorrindo.

Sim! Ia ser tão legal! Eu ia conhecer coisas novas!

–E quando você vai estar de folga? – eu perguntei sorrindo. Ele mantinha o sorriso calmo no rosto e me olhava atentamente.

–Só posso no domingo que vêm. Quer me contar como foi exatamente essa lembrança? – ele perguntou e eu ignorei. Como assim ele só tinha um dia de folga?

–Espere, você só tem folga um dia por semana? – eu perguntei. – Isso está errado, você não pode pedir dois dias de folga?

–Eu tenho o final de semana com folga, mas só posso no domingo que vem.

Não me entenda mal, eu não duvidava nada de ele só ter um dia de folga. Os pais dessa criatura não pareciam ligar muito para a felicidade do filho. E pelo que a mãe dele disse mais cedo, nem a antiga noiva.

–A gente só pode ir passear quando você melhorar dos roxos. – ele disse depois de um tempo em silêncio. Eu assenti entendendo o ponto de vista dele. – Então não vai poder ser semana que vem.

Freddie tirou o computador do meu colo e o colocou na mesa cuidadosamente. Deveria ser um aparelho caro, ou ter coisas muito valiosas nele. Será que ele era ali que ele tinha anotado as coisas de astronomia dele?

–É muito invasivo se eu te perguntar o que você lembrou naquela hora do sabão? – eu neguei.

–Não sei. O que é invasivo? – perguntei

–Algo que invada sua privacidade. – Eu fiz uma careta de quem tinha entendido e neguei com a cabeça.

–O que eu lembrei é meio besta... E eu não entendi muito bem... – eu cocei minha têmpora que não tava machucada. Como eu ia dizer aquilo pra ele? – Quando eu lembrei o meu sobrenome eu vi um cara me chamando de senhorita Puckett. Acho que ele foi meu namorado. Porque quando você disse pra eu prestar atenção em você, eu me lembrei de ele falando pra eu prestar atenção nele e me abraçando.

–As pessoas mais próximas podem te abraçar sem ser seu namorado

–Elas podem? – eu perguntei – Na cinderela eles não eram muito adeptos a se encostarem com frequência. Só quem fez isso foi o casal e...

Ele me interrompeu com uma alta gargalhada.

–É um conto de fadas, nada daquilo é real – ele avisou.

Oh. Isso explicava bem porque eu achei tão estranho abóboras virarem carros.

–Ah – ele continuou rindo por um tempo até que parou e ficamos ambos em silêncio – Posso te contar como foi minha lembrança? A da minha mãe. – ele me olhou querendo entender porque eu tinha feito aquela pergunta – Você está me dando casa e comida, me deixando futricar sua vida... O mínimo que posso fazer é você ter um retorno. Mas isso é só caso você queira saber das minhas lembranças. – Ele assentiu e eu tomei aquilo como ele querendo saber.

E eu comecei a contar o que eu tinha sonhado naquela noite.

“Eu estava olhando pro papel na minha mão. O papel dizendo que eu tinha conseguido bolsa na faculdade de medicina estava ali. Finalmente iria entrar em uma das melhores e mais prestigiadas faculdades do país!

Olhei pela janela e nevava fortemente lá fora. Ao longe vi um vulto negro caminhando. Era ela. Com certeza era ela. Estava tão feliz que não pensei em nada além de fazer um chá de alecrim e colocar mel extra para eu celebrar minha entrada na faculdade, mesmo que fosse com aquela mulher.

Nossa casa não tinha muitos mantimentos, então aquilo era o máximo de comemoração que eu poderia ter sem que faltasse comida pros outros.

Quando eu estava colocando o mel no chá, ela entrou pela porta da casa e ficou com cara feia quando sentiu o cheiro

– Sua inútil, está usando o mel por quê? Eu já não disse que só eu posso usar o mel?

Eu com certeza não sentiria falta daquela mulher quando eu fosse pra Yale.

–Eu fiz chá. Alecrim, seu preferido. – eu sorri e ela me olhou estranho – Eu ganhei bolsa em Yale. Estamos comemorando!

–Realmente isso vale o gasto do mel – eu estranhei. Ela estava feliz por mim? Quem era aquela mulher, porque ela com certeza não era minha mãe – Nunca mais ver sua cara, realmente é pra se comemorar.

Ah, agora sim...

–Vou viajar em alguns meses. Tem algum sábio conselho? – eu perguntei irônica.

–Quando sair de Argentine, nunca mais pise os pés aqui de novo. Não volte a falar com seus irmãos. E esqueça que teve essa família adotiva. Esqueça que eu te salvei ainda bebê.

Ela sempre dizia que eu era uma ingrata porque ela tinha me salvado das garras da minha mãe verdadeira quando ainda era bebê, mas nunca falou nada além disso. Aliás, ela só falava aquilo quando eu fazia alguma coisa que ela considerava má-criação. O que era algo bem comum, diga-se de passagem.

Uma criança morena passou correndo pela casa. Ela era a última criança que tinha sido adotada por aquela mulher escrota.

–Anne vai sentir minha falta. – Declarei e Anne veio correndo em nossa direção como se tivesse ouvido e me abraçou. – Oi amor, eu vou viajar, vai sentir minha falta?

–Sim – ele mordeu o lábio e assentiu. Era a criança mais fofa que existia.

–Ela nem vai se lembrar de você. Nem os outros três. – riu a mulher – Me obedeça, criança, e nunca volte. – ela deu um sorriso malicioso – Eles não merecem as desgraças que você trás.”

–E que desgraças eram? – ele perguntou

–Eu não sei. – dei de ombros. – talvez ela soubesse disso – eu apontei pra um dos roxos no meu braço.

–Você disse que tinha cerca de dezesseis anos? – ele perguntou. –Medicina em Yale com dezesseis anos? Não é muito difícil de entender porque você foi aceita por Yale. – ele lançou um sorriso malicioso — E eu sou nerd depois.

–Acho que eu não tinha outra escapatória a não ser estudar. Eu estava comemorando com chá de alecrim, nem era com chocolate... – eu sorri triste e ele me acompanhou no sorriso.

–É verdade. A ocasião faz o ladrão, não é?

Eu olhei pra ele indignada. Ele estava me acusando de quê?

–Eu não roubei nada!

E novamente ele gargalhou da minha cara. Isso mesmo: GARGALHOU. Depois que eu der uns bons tapas nele eu quero ver ele gargalhar de mim de novo. As pessoas realmente acham que eu sou piadista. Só pode.

Até ele me explicar que aquilo era uma expressão e que eu não era ladra, demorou um pouco.

Depois disso a gente começou a conversar sobre idade. Ele disse que tinha vinte e três anos e chegamos à conclusão que eu deveria ter mais ou menos a mesma idade que ele. Digo, façamos as contas: eu entrei na faculdade com dezesseis e muito provavelmente já sou formada. Se eu fiz no tempo certo, eu já tenho pelo menos vinte e um. Como tinha a chance de eu não ter entrado em Yale com 16 e sim com 18, eu poderia ter a idade dele...

Se bem que...

A gente resolveu deixar essas coisas nada importantes pro dia seguinte e cada um resolveu ir pro seu quarto. Eu definitivamente não queria chegar à conclusão que eu tinha quarenta anos.

Eu o vi apagando a luz e saindo do escritório. Do bagunçado escritório. Preguiça de arrumar tudo ou mais um ponto pra provar que o diagnóstico dele tava errado?

Quando eu estava no meu quarto, resolvi me deitar. Estava começando a fazer bem mais frio e eu precisei pegar uns cobertores grossos. Que estranho, estava quente até a pouco e... Acho que o aquecedor estava ligado no escritório e por isso eu não senti a noite esfriando.

Pela posição no mapa, Seattle estava mais no norte, então era bem provável que essa época do ano fizesse frio. Será que Seattle nevava igual Argentine? Como será que é a sensação de pegar a neve e...

Suspirei. Acho que a amnésia me fazia ficar meio criança. Quero dizer, tem muitas coisas que eu não lembro e aí eu fico animada em conhecer!

Amnésia... Essa era outra coisa que eu tava começando a desconfiar do diagnóstico.

Amnésia por envenenamento de monóxido de carbono.

Não acho que tenha sido a maldita molécula de CO que tenha causado a amnésia, se fosse assim, o meu cérebro não reteria nada, nenhuma informação. Amnésia anterógrada é o nome desse sintoma. Talvez eu ainda não tivesse chegado ao momento máximo que meu cérebro conseguia guardar, então eu não poderia descartar totalmente essa possibilidade.

Mas o que me instigava era o fato de eu me lembrar do meu trabalho. Amnésia global faz a gente não se lembrar de nada! E eu me lembrava de algo. Das informações que eu tirei dos livros e das experiências de vida que estavam relacionadas ao meu trabalho. Eu estava apenas com amnésia retrógrada ligada ao meu lado pessoal. Eu realmente acho que não estava assim por monóxido de carbono.

Claro que já tinha me passado na mente o fato de eu já ter amnésia quando eu fui achada no lixo. Digo, se isso tivesse acontecido, eu teria acabado de ter uma crise de esquecimento. Mas eu descartei isso porque não tinha passado nem uma hora até eu ter um flashback.

Os flashbacks! Isso! Eu com certeza não tinha amnésia anterógrada ou amnésia global porque eu tinha flashbacks! Como eu sou burra! Claro que não era possível ter flashbacks!

Com certeza não foi o carbono e o oxigênio que causou a minha amnésia.

O que também não era bom... Porque isso tinha aberto a possibilidade de eu ter tido um traumatismo intercerebral e...

O que mesmo que eu estava pensando...?

E o sono me impediu completar o raciocínio.

–--

Quando eu acordei com o despertador tocando, eu arrumei o quarto rapidamente e segui pra cozinha. Conseguia ouvir Freddie tomar banho no quarto dele. Eu peguei algumas coisas e coloquei em cima da mesa. Fiz um suco de maracujá natural pra ele e adocei com mel, já que ele gostava. Como chá eu fiz de camomila. Não fiz café.

Isso me lembrou que eu tinha que ligar pra Charlie e falar pra ela não deixar Freddie tomar café.

Ele chegou, olhou a mesa e sorriu, igual o sorriso de ontem à noite. O sorriso verdadeiro.

– Não precisava – Eu sorri de lado. Ele deveria aprender a mentir.

– Bom dia, Freddie – eu o saudei com um sorriso verdadeiro também.

– Não me chama de Freddie. É Fred. – ele resmungou e eu ri

– Pena, porque eu te chamo de Freddie na minha mente e vou continuar te chamando assim. – ele resmungou algo que eu não entendi, mas mesmo assim se serviu feliz.

Ele realmente pareceu contente por eu fazer o café. Será que Carly também preparava o café? Não que eu queira entrar no lugar dela, mas eu preciso que ele me identifique com a Carly pra que eu possa fazer um teste.

Eu acho que posso estar certa e o diagnóstico dele estar errado. O que era uma coisa boa e daí ele teria cura, e também era uma coisa ruim, por causa do tanto que ele sofreu a toa e desnecessariamente... Enfim... Eu precisava planejar o que eu ia fazer.

Plano um: fazer o meu diagnóstico do que ele tinha.

Plano dois: traçar um plano terapêutico pra recuperação dele. Isso me lembra que eu não sei quase nada de terapias na prática... Vou ter que procurar na internet.

Plano três: fazê-lo seguir à risca o que eu mandar. Acho que eu teria que mexer meus pauzinhos e apelar pra Charlie...

–O que foi? –ele perguntou pegando um biscoito que estava em cima da mesa – Você está em silêncio há algum tempo.

Nota: trocar os biscoitos normais por biscoitos de aveia. Ele precisa de triptofano e...

–Sam – ele chacoalhou a mão direita na frente dos meus olhos e eu me assustei, fazendo-o rir – o que houve? Outra memória?

–Estou planejando a sua terapia e... – ele fechou a cara.

–Eu deixo você ficar aqui quatro semanas se você esquecer isso.

–Se eu aceitasse isso seria a mesma coisa que você ter me achado e me deixado no lixo. – ele me olhou sem entender – Minha estadia aqui está mudando minha vida. Eu tenho que retribuir o favor, então minha estadia aqui vai mudar sua vida também. – ele pareceu entender, mas continuou com a cara emburrada. – Eu poderia só infernizar sua vida sem propósito nenhum. Pense nisso.

Ele riu. Que tanto ele ri de mim? Eu tenho cara de palhaça?

–Você é dura na queda – ele serviu-se de suco e o aroma de maracujá se espalhou na cozinha – Faz tempo que eu não tomo suco de maracujá.

–Que bom que você gosta. Porque você vai começar a tomar bastante suco de maracujá.

Ele balançou a cabeça e eu pude entender que ele não gostou da ideia. Acho que eu teria que ajudar ele contra a vontade dele. Meu lado malvado gostou disso. Gostou muito disso...

–E então, você conversou com o tal de Adam E. Barlow? – ele perguntou, mudando de assunto de propósito.

–Sim. Ele é bem interessante. Um pouco velho pra sua irmã. Digo, a pirralha tem cara de uns catorze e ele tem vinte. Pedofilia é crime

–Ela tem dezesseis e ele tem dezoito – ele me corrigiu

–Não, ele tem vinte. – eu ri – Ele mentiu pra você dizendo que tinha dezoito. – bati no peito orgulhosa, me arrependendo em seguida. Ainda estava roxa. – Eu sou um detector de mentira ambulantes! – assenti concordando e ele sorriu.

–Ok, detector de mentiras ambulante. Então ele tem vinte anos. – Freddie se assustou com alguma lembrança – o filho da mãe quis roubar minha família e...

–Você está dizendo dos quarenta milhões? – eu perguntei calmamente enquanto fazia dois sanduíches e ele assentiu – Ele passou tudo pra conta da sua irmã. Ele disse que está com pouco mais de mil dólares na conta dele. Que era o que ele já tinha antes. – eu ri entregando um sanduíche pra ele – sua irmã só quis irritar sua mãe. De qualquer forma, ele já vai ter problemas demais se sua mãe resolver colocar ele na cadeia. Ela é menor de idade e... Ah, não... dezesseis? Tranquilo... – eu chacoalhei a mão como se isso não fosse importante.

–O que você faria se minha mãe tentasse te comprar? – ele olhou pra mim me analisando. Mordeu o sanduíche – Gostoso...

–Eu não sei. – dei de ombros. Auch! – Se eu tivesse recuperado a memória, porque não? Não é como se você fosse sentir minha falta. Mas sem memória, um amigo e ajuda são coisas que eu realmente preciso mais do que dinheiro.

–Tem lógica. Mas você é estranha. – ele disse e eu ri – Do que será o E.?

–Hum?

–Adam E. Barlow. O que será o E.?

“Eu estava com uma prancheta na mão. Ao meu lado tinha mesas e mais mesas. Todas elas enfileiradas e com corpos cobertos por lençóis brancos. Na minha frente havia cerca de dez pessoas de pé vestindo branco e com um jaleco branco. Era teste de emprego deles. Depois de algumas autópsias, com certeza as roupas não iriam continuar tão brancas...

– Barlow – eu chamei um dos pirralhos levantou a mão – Adam E. Barlow. – apreciei seu nome — Hei moleque, do que é o seu E? – eu perguntei e toda a sala olhou pra ele.

–Edward – ele disse meio nervoso. Estava claro que aquilo era mentira.

–Acho que está mentindo – eu disse fechando um pouco os olhos e ele engoliu seco, mas não falou nada. Eu iria sacaneá-lo já que ele não queria falar a verdade – É de Enjoys. – eu ri e eles não me entenderam – Adam Enjoys Lords. – eu gargalhei e ele fechou a cara – A partir de agora eu só vou te chamar de Enjoy, moleque.”

Quando eu voltei à realidade, tinha caído do banquinho que eu estava e Freddie estava ao meu lado me olhando com pena. Aquela merda de ficar me olhando com pena tinha que parar ou eu ia bater tanto nele que seria eu que ficaria o olhando com pena.

– Do que se lembrou? – ele perguntou e eu ri.

–Já sabe que é uma lembrança? – ele estendeu a mão pra me ajudar a levantar

–Toda vez que você perde o controle e começa a dar chilique igual a uma menininha eu sei que é lembrança – ele me ajudou a me levantar e a me sentar no banquinho preto da cozinha – cuidado com os cacos no chão. – avisou.

No chão havia um copo despedaçado de vidro que sem querer tinha caído quando eu comecei a me lembrar.

–Desculpa – ele deu a volta e se sentou no outro banquinho – Eu fiz um teste de emprego com esse Adam.

Ele não olhava pro caco de vidro, não olhava pra bagunça no chão. Nada disso. Ele olhava pra mim. Única e exclusivamente pra mim, concentrado no que eu ia dizer.

E ele ficou sério com o que eu disse.

–Ele disse que foi técnico em enfermagem há dois anos.

–Eu me lembrei que o chamava de Enjoy. Ele queria mentir sobre o E., aí eu apelidei de Enjoy. – eu sorri – Eu deveria testá-los pra saber quem fazia melhor e mais rápido uma autópsia.

Ele tinha completamente se esquecido da sujeira ali no chão ao meu lado. Eu com certeza estava certa. Aquilo não era TOC. Eu só precisava fazer o teste pra desencadear as lembranças que ele mais tinha medo. Se desse certo...

–O que tem a ver Enjoy?

–Adam Enjoys Barlow. – ele continuou não entendendo – Barlow significa Lords. – eu ri – Acho que ele não gostou muito de ser chamado assim. – Freddie riu.

– Parece que você foi o terror dos entrevistados. Bem, ao menos agora temos como começar a identificar o seu passado.

Eu sorri abertamente e assenti.

Talvez eu voltasse logo à minha antiga vida. Apesar de não estar completamente certa se isso era uma boa coisa pra mim.

–--

Antes de Freddie sair, eu perguntei algumas coisas básicas como a que ele tinha alergia ou se tinha algum assunto que eu nunca deveria tocar. Ele disse que não tinha alergias, mas que se eu quisesse conviver bem com ele, eu não deveria comentar sobre Carly.

Depois que Freddie saiu, eu liguei pra Charlie do telefone do apartamento mesmo. Pedi que ela não deixasse o irmão tomar café e proibir a todos de dar café a ele. Disse que se ele reclamasse de algo era pra ela falar que eram ordens médicas.

Acho que Charlie tem um quê cruel, porque ela aceitou isso de tão bom grado que eu me espantei.

Eu perguntei também se ela poderia vir me ajudar a arrumar o apartamento de Freddie. Ela não pareceu muito a favor de fazer isso, mas quando eu contei a ela que era pra reorganizar a ordem dos móveis, ela ficou super animada e disse que vinha assim que despistasse a mãe.

Só então eu pude arrumar as outras coisas. Eu limpei todo o apartamento e o deixei bem organizado, pra que ele não reclamasse de nada. Quando terminei, eu me estiquei toda. Afinal, meus músculos ainda doíam, apesar de bem menos do que quando eu acordei no sofá há dois dias.

Fui pra cozinha fazer o almoço dele, já que eu tinha mandado ele vir almoçar em casa. Tinha que preparar algo saudável e gostoso, já que ele fazia cara feia pra comida extremamente natural que era ótima pra ele melhorar da ansiedade...

Olhei a geladeira dele. Tinha tudo ali. O que eu podia fazer? O que?

Acho que ele gostava de lasanha... Eu gostava de lasanha e acho que todo mundo gosta de lasanha. Mas lasanha era muito pouco saudável... Talvez eu pudesse usar outra coisa no lugar da massa e acrescentar alguns vegetais no molho...

Ele ia comer, ser saudável e nem sentir! Sou um gênio.

–--

Acho que exagerei. Foi o que eu pensei quando vi a forma de lasanha que tinha ficado pronta. Ali deveria ter lasanha pra umas cinco pessoas! Eu comia por dois, então ainda sobrava uma porção. Minha janta, pensei feliz.

Três segundos depois, dois homens entram conversando alto na sala. Definitivamente, eu tenho um bom timer.

–Sam? – chamou Freddie

–Estou na cozinha. – eu respondi e logo vi Freddie e o que eu imaginava ser Spencer entrando na cozinha – Olá, eu sou Sam.

–A menina desmemoriada... – ele sorriu e estendeu a mão pra eu apertar e eu a apertei – Eu sou Spencer.

–Que história é essa de me proibir de tomar café? – Freddie perguntou irritado e eu ri.

–Você realmente achou que eu fosse deixar você me desobedecer? Ordens médicas, meu rapaz. Ordem médica abre portas. – Ele ainda parecia bem irritado. Fiz o que eu podia fazer naquele momento: o ignorei e peguei a jarra de suco. – Vocês vão comer aqui ou na mesa lá na sala?

– Na mesa – decidiu Freddie, ainda irritado, indo pegar os pratos – Vem ajudar, Spencer.

–Então, Sam, lembrou-se de algo mais? – eu neguei com a cabeça antes de ir colocar as coisas na sala. – Freddie me contou o que você lembrou e eu comecei a fazer algumas pesquisas. Nós vamos te ajudar.

Eu agradeci da sala mesmo. Arrumei os pratos que já estavam na mesa de forma que ficasse mais fácil de carregar e os levei pra cozinha. Não demorou muito, e nós três estávamos sentados na mesa, com uma lasanha bonita na nossa frente.

–Isso está com uma cara ótima. – elogiou Spencer.

–Primeiro coma, depois elogie – eu pedi, servindo um pedaço no prato dele. Servi um pedaço no prato de Freddie e depois coloquei no meu – Espero que ninguém morra com isso.

Eles riram e começaram a comer. O almoço foi bem tranquilo. Eu os deixei comerem até ficarem bem cheios e me elogiarem bastante antes de contar e a massa da lasanha era tirinhas de abobrinha.

Freddie engasgou e Spencer riu. Acho que eles não esperavam por isso.

Enquanto eu arrumava a cozinha, com a ajuda de Freddie, Spencer sentou nos banquinhos pretos da bancada e ficou nos olhando trabalhar. Folgado.

–Chegaram mais fotos da Jéssica e da Melanie. – disse Spencer – Mas continuam sendo iguais, digo a mesma pessoa.

–Elas tinham que estar diferentes? Fizeram cirurgia plástica? — Eu perguntei os fazendo rir

–Ah, seria bom se você visse as fotos das gêmeas Puckett – disse Freddie, enquanto guardava a louça – Quem sabe você não se lembra de algo.

Eu lavei minhas mãos e fui até Spencer que mostrou um pequeno aparelho preto.

–Essa é Melanie Puckett – ele disse e passou a foto, cutucando a tela do que eu imaginava ser um computador bem pequeno – e essa é Jéssica Puckett.

“-Que arquivos são esses? – eu perguntei. Na minha mão tinha uma pasta de papel que o cara loiro tinha me entregado. Ele sentou-se na cadeira na frente da minha mesa.

–Esse é o seu primeiro caso – abri a pasta e vi a foto da menina – Jéssica Puckett, teve passagem na polícia quatro anos atrás, sumiu há três meses. – Eu olhei o arquivo na minha frente. Tinha uma quantidade considerável de informações sobre a menina.

–Porque eu? –eu perguntei olhando o arquivo – Parece ser um caso difícil pra uma novata.

–Eu vou te supervisionar e ajudar, loira. – ele sorriu – Eu não te dei essa promoção a toa.

–Mas por quê? – porque aquele caso?

–Por causa dos sobrenomes iguais. – ele disse sorrindo – Bom trabalho – ele saiu do escritório.”

Eu estava segurando a cabeça e gritando. Porque aquela memória tinha vindo agora?

Sem que eu quisesse ou controlasse, algumas imagens apareceram na minha mente. Elas passavam de forma muito rápida e eu conseguia pegar algumas informações.

–Você se lembra de algo? – alguém perguntou, eu olhei pra baixo e quando ia responder, vi o meu braço roxo.

“Eu olhei meu braço já roxo pelos machucados que aqueles monstros me faziam e ouvi barulhos de tiro. Olhei rapidamente pra frente. Quem tinha sido descartado agora?

–Uma já foi – disse o homem entrando na cela que eu estava –As outras a gente cuida assim que resolver o que fazer com essa enxerida que fica bisbilhotando a gente.

–O chefe disse que queria ter uma conversinha a sós com ela. – disse outro homem, fora da cela – Antes de dar destino pra garota. Acho que ele quer descobrir o que os porcos já sabem sobre nosso negócio.

Eles me agarraram brutamente e me arrastaram. Eu olhei pros lados querendo identificar qual daquelas garotas tinha sido morta. Não demorou muito até eu ver a cela da garota morta com alguns tiros na face.

Minha protegida. Jéssica Puckett.

Eu nunca a reconheceria se não fosse pelas roupas que vestia. Atirar no rosto era muita profanação com o corpo dela.”

Eu acordei novamente gritando. Grossas lágrimas escorriam do meu rosto.

–Eu... Eu...

–Tá... Tudo bem... Você não precisa falar – disse Freddie com calma. Eu precisei respirar fundo algumas vezes antes de me acalmar.

– Precisa sim, você lembra algo relacionado a essas meninas que eu te disse? — perguntou Spencer

– Jéssica Puckett. – eu comecei limpando o nariz, por causa do choro – Ela está morta. Três tiros diretamente no rosto. — Eles me olharam espantados e eu continuei a falar – E essa não é Melanie Puckett. Elas não são gêmeas. Muito menos a mesma pessoa. Jéssica sumiu quando tinha 20 anos. E a idade da Melanie nessa época era de 23.

–Como você pode dizer tudo isso? – perguntou Spencer espantado.

–Elas eram meu caso. – eu limpei meu nariz mais uma vez.

Sangue.

E foi aí que eu desmaiei.

Notas finais
E aí? Qual foi a reação de vocês quando leram esse final? Simplesmente adoro finais dramáticos!!! huahuahuahuahua
Gente, eu sei que anda corrido pra todo mundo, mas eu gostaria que vocês reservassem um tempinho e dessem uma ajudinha pra gente. Às vezes nem sabemos como começar o próximo cap e quando a gente lê os comentários de vocês, parece que baixa o santo e a ideia vem. Então, por favor chutem o que vocês acham que vai acontecer na história, ok?
E aí? O que acharam do cap? O Adam, tadinho, era chamado de gay a todo momento pela Sam. (Adam Enjoys Lords = Adam gosta de senhores). E quem sabe inglês e traduzir as lembranças vai entender fácil qual é o trabalho da Sam. Ou não né, vamos ver o que a Jaqs vai fazer.
Beijinhos e até o próximo cap da Sam!!