Cruel Empatia
1 Empática demais
Notas iniciais
Eu era um menino.
Tocava o meu rosto, sentindo a barba rala roçando nas palmas de minha mão, incluindo algumas espinhas. Encarava meu reflexo no espelho embaçado pelo banho recém tomado e reparava em cada detalhe mostrado, desde as íris escuras até o cabelo loiro, sendo tomado por uma decepção. As marcas em meus pulsos eram evidentes e isso me fez lacrimejar com ódio de mim mesmo.
Porém isso acabaria hoje.
Andei em direção à minha cama e deitei, esticando a mão para apanhar todos os comprimidos que me acompanhariam naquela jornada. O som da discussão de minha mãe com meu padrasto no andar de baixo, fez com que todos os meus pelos se arrepiassem e eu tivesse ainda mais certeza do que estava prestes a fazer. Ele nunca mais me tocaria daquele jeito imundo e minha mãe nunca mais seria apenas uma observadora passiva.
A cada pílula que deslizava por minha garganta, tinha o ampliar de meu sorriso como consequência. O fim parecia cada vez mais doce e, quando todos percebessem a minha ausência, seria tarde. Minha porta trancada atrasaria meu salvamento indesejável e eu teria minha real liberdade.
Acordo arfante, olhando ao redor e tento me situar do que acontece. Ergo meus braços, procurando por marcas inexistentes em meus pulsos enquanto acalmo minha respiração. Tudo roda e meu corpo pesa como se eu estivesse grogue por contas das pílulas que não ingeri fisicamente.
— Athena! — meu pai vem em minha direção carregando um grande copo de água que engulo sem hesitação. Pisco, querendo que a ardência em meus olhos passe, assim como todos os efeitos colaterais. — Como foi dessa vez?
Baixo os olhos.
— Suicídio.
Ele põe uma mão em meu ombro.
— Sinto muito, querida. Gostaria que houvesse um jeito de controlar onde sua mente vai. — puxa uma cadeira, sentando-se ao meu lado e ajeita os óculos na ponta de seu nariz. — O quão perto você chegou dessa vez?
— Muito. — balanço a cabeça ainda tomada pelo sentimento de desespero que aquele garoto tinha ao ingerir aquelas pílulas. Tiro os fios coloridos da máquina de hibernação de minha cabeça, forçando o meu corpo a levantar. Não gosto do olhar inquisitivo de meu pai. — Tivemos bons resultados dessa vez?
— Não tanto quanto eu queria. — revela. — Esperava que tivesse evoluído o bastante para poder controlar as pessoas e evitar as suas mortes. Ampliar a sua empatia.
Retenho o comentário que está na ponta da minha língua, por mais que seu cenho franzido evidencie que ele percebeu minha hesitação. Todos que vivem em nosso complexo possuem uma parte de sua personalidade amplificada. Meu pai é um cientista admirado que usa as suas máquinas para testes e ajuda as outras pessoas para que possam dominar suas personalidades.
Eu acho um pouco irônico, contando com o fato de que eu — sua própria filha e única herdeira — não controla a sua personalidade empática, o que transforma a minha habilidade de entrar no corpo das pessoas e acompanhar seus últimos momentos de vida em um fardo. Minha mãe quando estava viva brincava com a ideia de eu literalmente me colocar no lugar das pessoas.
— Mesmo se eu tivesse conseguido, pai... — suspiro, cabisbaixa. — Ele queria morrer.
Meu pai fica em silêncio, buscando uma solução racional para melhorar meu humor. Por mais que isso me dê raiva, não poderia culpá-lo. Era o lado racional de sua personalidade ampliada que o faz ser desse jeito. Não estou com humor para ouvir as suas explicações sobre como a natureza humana deve se comportar, por isso vou até o outro lado do laboratório e pego meu casaco.
— Vou descansar, vai ficar mais um pouco?
Meu pai assente e fico aliviada por isso. Quero ter um momento sozinha, apenas para poder refletir sobre mais uma falha de minha amplitude, ou pelo menos será isso que direi ao meu pai caso pergunte. Ele não tem a mesma empatia pelos Norms como eu e não é por ser tão racial. Ele simplesmente não tem.
Paro no batente da porta, olhando para o laboratório que é uma réplica exata de uma sala de Raio-X Norm. Meu pai se inspirou em um seriado Norm chamado Doutor House quando estava fazendo o projeto e eu aprovei. Porém, em dias como este, acho o ambiente tão frio e impessoal que me dá arrepios. Dirigi-me ao corredor estreito, subindo as escadas e alcanço o meu local de vivência que os Norms chamam de casa. Alguns também chamam de lar, porém são poucos que os fazem.
Às vezes, desprezo ter nascido com a personalidade ampliada, mas como a Empática J.K Rowling escreveu em sua série de livros, você nasce assim ou não. Os Norms são como os trouxas, sem nenhum tipo de personalidade definida. Tem de tudo um pouco em suas características. Nós também seríamos assim, se não fosse as habilidades que acompanham nossas personalidades. Minha empatia possibilita que eu entre em um corpo hospedeiro em seus últimos momentos de vida, equiparando-se ao que minha mãe fazia. Meu pai era Racional, tendo uma resposta não emocional para quase tudo, o que lhe dava uma inteligência que abriria vagas em Havard.
Conforme mudo de cômodo, as luzes se acendem à minha frente e apagam atrás. Esse processo me acompanha até entrar em meu quarto. Paro para observar os pôsteres que enfeitam minha parede de um jeito macabro e mórbido. Rostos de celebridades mortas me encaram, desde Amy Winehouse, Kurt Cobain, princesa Diana e meu recém colado Alan Rickman. Todos famosos Empáticos, como eu. Seja através da música ou de sua arte. É ali que me sinto confortável depois de presenciar a morte como uma cobaia intocável.
Encaro meus pulsos novamente, recordando das profundas marcas que meu outro corpo tinha. Meu pai sempre me alertava para tomar cuidado. Experiências de morte podem me levar ao limite, caso eu permaneça por muito tempo. Minha mãe morreu por esse descuido. Se o corpo provisório morre e eu estiver dentro dele, tenho morte cerebral, o que não seria propício para as pesquisas. Abaixo os braços, sabendo que estou impossibilitada de dormir com aquelas imagens na cabeça. Entretanto, nunca vi suicídios e quero saber a razão desse — não que isso me reconforte.
— Eu sou louca — sussurro ao inserir minha digital no dispositivo do lado da porta e sair.
Poucas pessoas estão caminhando pela rua e todas estão apressadas. Não as culpo. Meus passos seguem a mesma velocidade em direção ao ambiente de vivência de Ava. Estou batendo na porta o mais natural possível, por mais que a ansiedade tenha lançado descargas de adrenalina por meu corpo. Talvez se pedir uma pílula de controle de humor, os pensamentos que me tomam sumam.
— Athena? Está tudo bem? — Hugh, o pai de Ava me atende. — Parece um pouco tensa.
Forço um sorriso.
— Estou bem. Ava está?
Hugh me olha por mais alguns segundos antes de ir chamar Ava. Não o culpo. Ele era um Empático também e percebia a tensão das pessoas a quilômetros de distância. Principalmente a minha, por termos personalidades similares. Ava desce me olhando inquisitiva, passando os longos dedos por seus cabelos escuros.
— Tem alguma coisa errada?
— Vir visitar uma amiga é errado?
— Quando se está com essa cara, sim. — ela me observa de cima a baixo. — Conte-me o que aconteceu.
Pressiono os lábios, sabendo que não poderia mentir. A personalidade de Ava e sua amplificação em descobrir mentiras não me permitiam. No entanto, senti constrangimento em contar uma fraqueza que já deveria ter controlado: a curiosidade acerca dos Norms. Por mais que essa não seja a primeira força da minha personalidade, ainda é presente em meu dia-a-dia, o que torna meus pensamentos empáticos mais profundos do que meu pai julgaria seguros.
— Pode me levar em um lugar? — peço em um murmúrio. — Preciso fazer algo muito importante e quero a sua ajuda.
Um dos motivos para Ava ser minha amiga é que ela não pergunta demais. Ser um detector de mentiras tirou a sua curiosidade apenas para evitar a decepção que a verdade carregava. Por isso, sem me questionar, vamos até a caminhonete de seu pai com a desculpa de que iríamos fazer compras. A vantagem de saber quando alguém está mentindo, é que todos julgam que Ava só diz a verdade.
Foi fácil sair do complexo, mais do que eu espero. Pego o endereço em meu bolso e mostro para Ava. Meu pai faz questão de tê-los para catalogar em suas pesquisas. Qual o local de índice de homicídio maior? Onde tem mais suicídio? Qual a situação familiar e financeira dessas pessoas? Tudo tem que estar perfeitamente organizado e articulado.
— Já contou para o seu pai que não quer mais fazer parte das experiências? — Ava pergunta.
Nego.
— Quero dar um avanço antes de decepcioná-lo.
Ava suspira.
— Tem que se colocar em primeiro lugar às vezes, Athena. Eu vejo como isso está acabando com você e aposto que isso — balança o papel com o endereço — tem a ver com sua última experiência empática.
Prefiro não responder para não mentir.
— Só preciso de algumas respostas.
Ava fica em silêncio o restante da viagem e o seu descontentamento é evidente. São necessárias duas horas para chegar ao local indicado pelo endereço e nesse meio tempo meu celular toca três vezes. Mas, quando vejo o nome de meu pai brilhando na tela, ignoro não querendo dar explicações.
— Está preparada? — Ava pergunta ao estacionar em frente a casa Norm. Balanço a cabeça, sentindo meu estômago se embrulhando somente ao pensar nas possibilidades. — Bem, sempre existe a opção de voltar para o complexo. Nem deveríamos ter contato direto com o Norms. É contra as regras.
Encaro-a.
— Eu tenho que saber o porquê, Ava. — digo antes de sair do carro. Escuto a sua porta se fechando e seus passos atrás de mim. — Sei que estamos nos metendo em encrenca, mas estou cansada de fazer uma coisa e nem ao mesmo saber as consequências disso! Podemos receber nossas punições quando chegarmos, mas se o nosso governo apoiou que eu fosse cobaia do meu próprio pai, eles também têm que entender que uma hora eu iria questionar isso.
Ava levanta as mãos com um pequeno sorriso orgulho nos lábios.
— Pode não parecer, mas entendo a sua motivação. — faz uma mesura forçada — Por favor, vá primeiro.
Hesito na porta, respirando fundo e querendo parecer o menos hostil possível. Não sei se o encontraram ou se sabem que tem um garoto morto no andar de cima. Depois de bater três vezes uma mulher mais velha com os olhos inchados abre a porta, aquilo respondia metade das minhas perguntas. Atrás dela, um homem com olhos vermelhos e estreitos nos encara. Tenho suspeitas de que seus olhos não estão como normalmente ficam por motivos difusos.
— Quem são vocês? — a mulher questiona.
Respiro fundo, procurando o apoio de Ava.
— Somos amigas do seu filho, queríamos falar com ele.
Isso faz com que a mulher desabe e em um gesto involuntário, aproximo-me e a abraço, afagando suas costas. Em situações normais aposto que ela me afastaria e acusar-me-ia como maluca. Porém seu filho tinha se matado e seu marido não aparentar ter qualquer nível de empatia que os Norms julgavam habituais.
— Aquele moleque não mora mais aqui. — o padrasto respondeu frio. — E nunca mais voltará. Caso não tenham entendido, ele está morto.
Tenho raiva dele por dizer uma coisa dessas na frente da mãe e reparo nas marcas roxas nos braços dela. Olho para Ava, dizendo em silêncio que ela assumisse o meu lugar. Ela dá um passo a frente, corajosa, sem se deixar intimidar pelo homem que era quase o dobro de sua altura. Enquanto isso, sento com a mãe do garoto morto no chão e continuo afagando suas costas, esperando que isso amenizasse sua dor.
— Ele foi para um lugar melhor — recito as palavras padrões dos Norms, buscando apaziguar seu sofrimento. Ela ergue os olhos para mim, como se me enxergasse pela primeira vez. — Seu filho deve estar te olhando e irá te guiar por onde quer que esteja.
Ela pisca e toca meu rosto com suavidade.
— Lucas me odiava — murmura entre soluços. — Sempre vi as coisas que seu padrasto fez com ele e nunca o defendi. Tudo piorou quando ele assumiu ser gay... O seu padrasto... — ela balança a cabeça e coloca as mãos no rosto, incapaz de terminar a frase.
Ava surge como um fantasma ao meu lado, seguido pelo som da porta se fechando com raiva.
— Você tem algum lugar para ir? — questiona.
A mulher soluça e assente.
— Minha irmã mora na divisa da cidade — seus olhos se enchem de lágrimas novamente. — Eu ainda nem contei a ela o que houve com Lucas.
— Iremos levá-la até lá. — garanto.
Ava e eu a levantamos e ajudamos a entrar no carro. Durante toda a viagem, minha amiga mantém o cenho franzido, talvez em um debate ou uma reflexão de tudo o que tinha acontecido diante dos seus olhos. Ela não entende o motivo que realmente me levou a ir até ali, mas respeita minha personalidade. Pego a mão da mãe de Lucas e a acaricio, repetindo palavras acolhedoras e minto ao afirmar que a culpa não era dela.
Depois de garantir que a mãe de Lucas — Marilyn — vai ficar bem com a sua irmã Íris, Ava me força a voltar para casa. Literalmente me força, pois cada célula do meu corpo pede para que eu permaneça ao lado delas, lhes dando apoio e encha seus corações com mentiras improváveis. Em contrapartida, é o momento delas e elas têm o apoio mútuo. Por isso, sinto-me menos culpada ao abandoná-las e retornar ao complexo.
— Você tem razão. — digo não querendo que caiamos em um silêncio constrangedor. — Tenho que dizer ao meu pai que não posso continuar com as experiências. Não com uma coisa que não compreendo completamente. Sei o que são experiências quase morte, mas não o que é morrer. Muito menos o que se passa na cabeça de alguém que quer encontrar a morte por livre e espontânea vontade.
Ava aperta suas mãos no volante, como se estivesse desconfortável em continuar a conversa.
— Lucas era gay, Athena. — conta. — E seu padrasto o estuprava. Na verdade, ele o fazia antes de Lucas se assumir. As coisas apenas pioraram, com surras e difamações. O padrasto tentou esconder, mas estava óbvio. Até o Norm mais burro veria o que tinha acontecido se os conhecessem.
Sinto a necessidade de conversar com Lucas e entender seu lado da história, mas se dissesse isso à Ava ela interpretaria como a velha curiosidade somada a personalidade Empática. Ela me deixa em frente ao meu ambiente de vivência e vai embora depois de garantir pela sétima vez que estou bem, por mais que nós duas saibamos que é mentira.
Quando entro no laboratório de meu pai, encontro-o enterrado em papéis e digitando rapidamente no computador. É como se eu nem tivesse me afastado por seis horas sem ao menos dar uma explicação coerente. Aproximo-me dele e toco em seu ombro, ganhando sua atenção momentânea.
— Como foi o dia? — perguntou voltando o olhar para a tela.
Suspiro, sem saber como começar aquele assunto de maneira suave. Estou esgotada mentalmente, mesmo que fisicamente possa correr uma maratona. Dou um passo para trás, querendo um espaço caso ele tenha reações adversas as minhas palavras.
— Pai, eu visitei a família do Norm que se matou — revelei. Seus olhos azuis — tão idênticos aos meus — se arregalam e ele se levanta. — Eu não posso entender o porquê os Norms fazem isso ao invés de lutarem por sua vida. — passo as mãos por meus cabelos loiros. — Isso está confundindo minha personalidade. Não quero acabar como a mamãe. Posso não entender o sentido da morte, mas quero apreciar minha vida.
Penso em me recolher, porém meu pai me impede.
— Espere, Athena! — ele pede. — Juro que será nossa última experiência. — garante e me espanto — Precisamos de resultados que gratifiquem os dois. Eu para a minha pesquisa e você para amenizar as dúvidas de sua mente. Não quero te forçar, mas os Norms tem atitudes que só entenderemos quando repetirmos — meu pai volta a se sentar. — Forçarei todos os seus limites amanhã, esteja preparada.
— Tudo bem — murmuro.
As palavras de meu pai soam em minha cabeça por todo o caminho até o meu quarto e me detenho na porta do seu escritório reserva. Sei o que ele guarda na gaveta e por mais que não seja hostil, ainda sinto o ferro gelado pesar meus dedos e meu peito se enche de pavor. Queria compreender a liberdade que Lucas tanto destacou em seus últimos pensamentos, enxergar além da empatia amplificada. Quero ter seus últimos momentos.
Tomo um banho e enrolo meu corpo na toalha, parando de frente ao espelho. Meu próprio reflexo me encara, mostrando que não é nenhuma experiência empática. Passo a mão por minha pele, sentindo até a mais discreta imperfeição roçando na ponta dos meus dedos.
Uma solitária lágrima desliza por minha bochecha em sinal de empatia por mim mesma. Só queria encontrar um sentido para tudo isso, a liberdade que minha mente e meu corpo anseiam. Saber que ao fechar os olhos permanecerei em meu corpo e não estarei apanhando de um marido bêbado ou sendo atropelada. Terei meu próprio último suspiro.
Quando deito na cama, um sorriso me pega desprevenida e consigo visualizar Lucas na minha frente, dando apoio nas minhas atitudes. Minha mãe deve ter sentindo a mesma coisa antes de desistir. Aquele vazio e a possibilidade de não sentir mais dores. Pego a arma de meu pai e miro em minha cabeça. Sorrio ao fechar os olhos e tenho um último insight antes de puxar o gatilho: meu pai conseguiria o avanço que queria.
Empatia elevada consequentemente leva ao suicídio.
Fale com o autor