Crows

2 Capítulo 2: Purple or red?


Aquela sensação era maravilhosa, indescritível. Filip estava com sua Night Rod Special indo em direção ao “famoso e temido” porão. Estava à 60mph em uma pista de 45, mas não estava ligando pra isso, não haviam radares nem policiais na estrada. O vento gelado o fazia sentir-se vivo, e a música (vinda de seu celular, que estava em um compartimento especial que ele colocara na moto) contribuía para aquela sensação estranha. Quando olhava para as coisas que passavam por ele via o quanto a vida passava rápido, o quanto cada momento era única, e aquilo despertava nele força de vontade, naquele momento ele não estava pensando no que iria fazer em instantes, nos problemas que tivera, tudo aquilo estava atrás dele e ele só pensava em como era bom estar vivo. A música que estava ouvindo acabou, dando início à música Hellraiser na versão da banda Motörhead, e com um sorriso, acelerou ainda mais a moto e deu uma ligeira empinada na mesma, seguindo em alta velocidade para seu destino.

—

No porão, Adam e Teng conversavam de maneira calma enquanto em outra sala um homem debatia-se preso em uma cadeira de ferro. Adam era um homem de altura média, físico de alguém que pratica exercícios físicos regulares e um rosto amistoso, tinha cabelos longos presos em um rabo de cavalo e uma barba mediana, seus trajes consistiam em uma camisa xadrez, jeans, e colete do motoclube. Teng era asiático e baixinho, tinha as laterais e a parte de trás raspadas, sendo que a parte de cima do cabelo estava sempre penteada para trás num “visual moderno”. Tinha um físico desenvolvido e praticava artes marciais, o que o tornava um lutador exímio. Trajava uma camisa social branca abotoada até a gola por cima de uma camiseta branca, o colete do MC, calças jeans e coturnos.

A imersão dos dois na conversa estava alta, até que ouviram um baque, levantaram-se num salto e correram para a outra sala, e após abrirem a porta, viram que o homem havia conseguido se derrubar junto da cadeira. O homem preso era hispânico, tinha altura média e a cabeça raspada. Estava utilizando um boné roxo, camiseta roxa, calças jeans e um tênis branco. Gritava alguma coisa em espanhol que Teng e Adam não conseguiram entender, mas presumiram que era alguma coisa como: “ME SOLTE, FILHO DA PUTA!”. Ergueram-no junto da cadeira, deixando-o em uma posição normal. Teng e Adam então, para prevenir que o imbecil fizesse algo do tipo de novo, sentaram-se no chão do local, passando a conversar ali até que o homem preso gritou:

[???] – EU VOU MATAR VOCÊS DOIS, EU VOU CHAMAR O MEU GRUPO E NÓS VAMOS ESTOURAR AS TRIPAS DE VOCÊS, VOCÊS ESTÃO NA MERDA.

Adam e Teng se olharam, levantaram-se e foram até ele. Em um tom de zombaria, Teng disse:

[Teng] – Como é? Não ouvi direito. Você pediu para te batermos? Você é idiota?

[???] – NÃO, EU ACABEI DE DECRETAR A SENTENÇA DE MORTE DE VOCÊS, SEUS VERM-

Sem deixar o homem terminar de falar, Teng desferiu um forte cruzado de direita contra o rosto do mesmo, fazendo com que ele cortasse sua boca por dentro.

[???] – FILHO DA P-

Teng interrompeu o rapaz com um cruzado de esquerda.

[Teng] – Ei Adam, quer adiantar um pouco as coisas pro Filip? Nome, essas bostas.

[Adam] – Pode ser.

Teng estalou os dedos, desabotoou as mangas e dobrou-as, cruzando os braços em seguida.

[Teng] – Então Sr. Tacos, qual o seu nome?

[???] – VAI SE FODER!

[Teng] – Vai se foder? Nome bacana. Sua mãe que escolheu?

Teng desferiu um forte tapa no rosto do rapaz.

[???] – NÃO, FOI A SUA MÃE, AQUELA PIRANHA.

[Teng] – Porra, dei sorte de ela não estar com raiva quando escolheu meu nome então. O meu é Teng.

O hispânico cuspiu em Teng, que desferiu um cruzado contra o rosto do rapaz.

[Teng] – Além de ter um nome escroto você ainda é meio lhama? Que azar o seu, cara. Enfim vai se foder, vamos jogar um jogo. Eu quero adiantar umas coisas pro meu amigo, assim saímos desse buraco mais rápido. Colabore e você não vai fazer jus ao seu nome, ok?

[???] – VOCÊ ESTÁ MORTO, EU VOU ESTOURAR SEU CRÂNIO COM UM TACO DE BASEBALL SEU MERDA!

[Teng] – OK, vamos lá. Só pra aquecer, quem é o cara mais idiota da sala?

[???] – VOCÊ, SEU MERDA!

Teng aproximou-se mais do rapaz e desferiu uma cotovelada no rosto do rapaz, abrindo mais um corte em sua boca.

[Teng] – Resposta errada.

O rapaz cuspiu sangue no coturno de Teng, que deu outra cotovelada nele.

[Teng] – Anda, porra.

[???] – É A SUA MÃE!

Teng deu uma espécie de tapa com a mão em forma de concha no ouvido do mesmo, o que poderia causar surdez temporária e tontura. Cansado de apanhar, o homem gritou:

[???] – PORRA, SOU EU!

Teng desferiu outra cotovelada, fazendo o rapaz cuspir um pouco mais de sangue.

[Teng] – Resposta errada de novo.

[???] – EU NÃO SEI CACETE.

[Teng] – Porra burrito humano, só tem três pessoas na sala.

[???] – É O BARBUDO?

[Teng] – Isso!

Adam olhou para Teng.

[Adam] – Vai se foder, cara.

[Teng] – Eu também te amo. Enfim, vamos continuar. Qual seu nome, vai se foder?

[???] — ...

[Teng] – Nada?

Teng desferiu um direto de direita no rosto do rapaz.

[???] – PORRA, É PAOLO MENDEZ!

[Teng] – Não, seu nome é vai se foder, seu burro.

Teng deu mais uns socos nele, porém logo Adam mandou-o parar.

[Adam] – Porra, tu vai estragar o cara ao invés de ajudar. Já temos o nome, vamos esperar o Filip.

[Teng] – Tá, tá.

Sentaram-se no chão e voltaram a conversar enquanto o mexicano balbuciava algumas coisas, até que de forma repentina se calou, aparentemente desmaiado, então surgiu um ronco de motor ao longe...

—

Filip parou sua moto no estacionamento da fábrica. Tirou o capacete, e antes de descer da moto para entrar, deu uma boa olhada no lugar. Estava caindo aos pedaços, a tintura estava descascada, as placas haviam perdido a cor e estavam quase ilegíveis. O local era uma espécie de esconderijo para onde membros iam quando tinham problemas ou quando precisavam extrair informações de alguém, mas o terreno estava no nome de uma empresa fantasma, então tecnicamente aquilo era apenas uma fábrica de roupas. Finalmente desceu da moto e foi em direção a entrada, porém quando foi empurrar a porta, alguém puxou-a. Era Adam, estava empunhando uma IAC Regent 1911A1, e do lado dele estava Teng com uma escopeta calibre 12 em mãos. Com um sorriso de escárnio, Filip levantou as mãos. Os homens abaixaram as armas e cumprimentaram Filip, indicando com a cabeça que o outro rapaz estava lá embaixo. Desceram as escadas, então subiu às narinas de Filip o forte cheiro de mofo daquele lugar. A sala onde estava o membro da gangue era suja, fétida e úmida, os pisos estavam quebrados e haviam até mesmo alguns cadáveres de ratos, a iluminação era precária, consistindo em duas lâmpadas que emitiam uma luz branca. Filip finalmente adentrou o lugar e viu o capturado que parecia estar dormindo preso na cadeira de ferro mais ou menos no centro da sala, caminhou então até ele e deu um tapa no rosto do mesmo. Ele acordou com um susto, fitando o rosto do presidente. Filip afastou-se um pouco dele e fez um aceno de cabeça para Teng, que saiu da sala. Levou as mãos até um dos bolsos do colete, retirando dali um par de luvas de couro um tanto amassadas, vestiu-as, então retirou o colete e a camiseta, entregando as vestes para Adam. Passou a andar de um lado para o outro impacientemente enquanto o capturado apenas o observava sem dizer uma única palavra, até que subitamente Teng entrou na sala, trazia consigo uma mesa auxiliar de hospital com alguns objetos como bisturis, fórceps, facas, alguns frascos, soqueiras inglesas com pontas e sem pontas, etc. Filip abriu um sorriso ao ver a mesinha, retirou-a de Teng e puxou para perto do capturado, porém antes que ele fizesse ou falasse qualquer coisa, Teng disse:

[Teng] – Ah, porra, tava quase esquecendo, nós já adiantamos um pouco, ele disse que o nome dele é Paolo Mend-

De súbito, o rapaz interrompeu-os.

[Paolo] – EU MENTI PRA VOCÊS, VOCÊS SÃO BURROS PRA CARALHO!

Teng e Filip olharam pra ele.

[Teng] – Sim, você revela que mentiu e nós somos burros. Genial, burrito-man.

[???] – EU REVELEI PORQUE VOCÊS BATEM FEITO UNS VIADINHOS!

Teng avançou em direção ao hispânico porém Filip o parou e fez um aceno de cabeça para que ele fosse para o canto. Teng ficou quieto e foi, Filip então olhou para o capturado e disse:

[Filip] – Você já está bem moído, eu vou piorar sua situação se continuar assim. Por que não nos poupa disso e fala o que queremos saber?

[???] – E o que demônios vocês querem saber?!

[Filip] – Primeiramente eu gostaria de saber seu nome, sua posição na gangue.

[???] – PORRA, EU AJO SOZINHO! SOU UM ARROMBADOR SEUS MERDAS, NÃO TENHO NADA A VER COM GANGUE NENHUMA! ME SOLTEM, VOCÊS SÃO LOUCOS!

Teng deu uma risada de deboche ao ouvir as palavras do rapaz e disse:

[Teng] – Engraçado, uns minutos atrás ‘cê tava falando que ia chamar teu grupo e arrancar as nossas tripas. O que foi? O cu trancou?

Filip desferiu um forte direto de direita contra o rosto do rapaz, fazendo com que seu nariz começasse a sangrar.

[Filip] – No próximo eu vou pegar aquela soqueira inglesa e você vai cuspir pelo menos 2 dentes. É bom que comece a falar.

[???] – EU NÃO VOU FALAR NADA.

Filip pegou uma soqueira inglesa comum, porém não colocou-a. Olhou para o rapaz por um instante, então pegou uma com pontas e colocou na mão direita, desferindo um gancho contra o maxilar do rapaz seguido de um cruzado de esquerda e um cruzado de direita. Após a curta sequência, o rapaz cuspiu sangue e baixou a cabeça, mostrando sinais de tontura. Filip retirou a soqueira inglesa e pegou um frasco com molho de pimenta, com uma das mãos abriu o olho do rapaz e com a outra jogou o líquido no olho do hispânico, que imediatamente gritou. Filip colocou o frasco na mesinha e disse em tom irônico:

[Filip] – Porra, tu é fraquinho mesmo, hein? Tomou umas porradas e já tá quase apagando. E aí seu verme, vai falar ou não vai?

O rapaz respondeu com uma voz ligeiramente arrastada:

[???] – Eu me chamo Melvin Sanchez, eu não sou do alto escalão dos Purple, eu juro, eu sou só um invasor de casas, eu não sei de nada, porra me deixa ir embora...

Em tom de zombaria, Filip disse:

[Filip] – Hm... Não sabe de nada? Por que será que não acredito em você? Rapaz, você sabe como os antigos mercadores de escravos faziam para deixá-los mansos? Eles abriam um corte e esfregavam vinagre e pimenta no corte. Estou começando a achar que devo amansá-lo para que então fale.

Imediatamente o rapaz arregalou os olhos e gritou:

[Melvin] – NÃO CARA, PORRA, VOCÊ É DOENTE! NÃO FAZ ISSO CARALHO!

Ignorando completamente os gritos, Filip pegou um bisturi e fez um corte em forma de X na testa do rapaz, pegou em seguida um pano branco e derramou no mesmo um líquido vermelho e um líquido transparente, então levou o pano até a testa do rapaz e esfregou-o ali fazendo com que também um pouco do líquido escorresse para os olhos do hispânico. O mesmo gritou em agonia.

[Melvin] – VOCÊ É UM FILHO DA PUTA, PARA COM ISSO, EU FALO O QUE VOCÊ QUER SAB-

Antes que terminasse a frase, Filip desferiu um cruzado de direita no rosto do rapaz, fazendo-o cuspir mais sangue.

[Melvin] – PORRA, EU DISSE QUE IA CONTAR E VOCÊ ME BATEU SEU ARROMBADO!

Filip deu um cruzado de esquerda no rosto do rapaz.

[Filip] – Da próxima vez que me chamar de filho da puta eu vou fazer você gritar e implorar pela SUA mãe, você me ouviu bem?

[Melvin] – ME DESCULPA, CACETE! O QUE VOCÊ QUER SABER?

[Filip] – Qual o objetivo de vocês nessa merda? E por que diabos nos escolheram como alvo?

[Melvin] – NOSSO OBJETIVO É O MESMO QUE O DE VOCÊS, PORRA! GANHAR DINHEIRO! E VOCÊS SÃO OS MAIORES DE SACRAMENTO, SE A GENTE FODESSE COM AS COISAS DE VOCÊS ATRAIRIAMOS FAMA E TOMARIAMOS O SEU LUGAR!

Filip ficou em silêncio por um momento, pensando. Disse então:

[Filip] – E de onde tiraram dinheiro para as armas, pagar as pessoas, a porra toda? Vocês não tem membros fora daqui, disso eu tenho certeza, então de onde saiu essa grana?

[Melvin] – EU NÃO SEI, CARA. EU JURO, EU SÓ INVADO AS CASAS PRA ELES, EU T-

Filip desferiu um direto de direita contra o rosto do rapaz, agora quebrando seu nariz.

[Melvin] – EU JURO QUE NÃO SEI CARA, POR FAVOR, ME DEIXA IR.

[Filip] – Você entende que quanto mais você falar, menos você se fode, não é? É melhor que abra a boca e me poupe de te quebrar.

O hispânico ficou em silêncio. Filip desferiu uma sequência de socos no rapaz, fazendo com que o mesmo quebrasse alguns dentes. Parou de bater nele, e de súbito o capturado começou a chorar, gritando:

[Melvin] – PORRA CARA, EU APENAS QUERIA FAZER UMA GRANA, EU NÃO SEI DE NADA, EU JURO! ME DEIXA IR, CARA!

Baixou a voz, passando então a sussurrar:

[Melvin] — Eu só queria dinheiro, cara... Me solta...

Enquanto sussurrava isso incessantemente, chorava baixo.

Filip abaixou-se e pegou um pequeno saquinho cujo conteúdo era sal. Abriu a boca do rapaz à força e despejou todo o conteúdo na boca do mesmo, fazendo-o engolir o sal. Pegou então um frasco que continha apenas água e disse:

[Filip] – Quer a água? Então é melhor falar.

Porém o rapaz apenas baixou a cabeça e, ainda chorando, balbuciava coisas como: “Me deixa ir...”

Filip, com raiva, pegou uma certa distância e desferiu um forte chute frontal contra o rosto do rapaz, derrubando-o junto da cadeira. No canto da sala, absortos em sua conversa e ignorando completamente o que estava acontecendo, Teng e Adam se assustaram com o barulho.

[Filip] – SEU MERDINHA, VOCÊ INVADIA CASAS, ROUBAVA PESSOAS, ESTAVA ATÉ AGORA POUCO SE ACHANDO O FODÃO E AGORA CHORA PEDINDO PRA IR EMBORA? VOCÊ ENTROU NESSA VIDA ESPERANDO FICAR VELHO E TER UM FINAL FELIZ, CARALHO?!

O rapaz chorava feito uma criança e não respondeu Filip. O presidente levantou-o junto da cadeira. Ficou em silêncio por alguns minutos, acalmou-se, então pegou o frasco d’água e depositou o líquido na boca do rapaz. Num último gesto de raiva, desferiu um forte direto de direita no rosto do mesmo, então retirou as luvas de couro e colocou-as em cima da mesinha e foi pegar sua camiseta e o colete com Adam. Sussurrou para ele e para Teng:

[Filip] – Matem-no, quero que a morte seja rápida. Desovem no lixão, arrumem uma bandana roxa e enfiem na boca dele, talvez isso mande uma mensagem. Depois eu quero que chamem os outros membros e avisem que é para nos reunirmos na sede, temos assuntos a tratar. Eu vou ver o mexicano no hospital. Ah, e queimem as luvas.

Teng e Adam responderam com apenas um aceno de cabeça, e Filip saiu do local.

—

Teng e Adam olharam para o rapaz que chorava incessantemente. A cena era patética. Um bandido que até uns minutos atrás estava se achando o fodão por usar cores de uma gangue agora chorava e pedia pra ir embora. Implorava pela vida. Apesar do comportamento dele antes, aquilo não deixava de causar certa dó. Após alguns minutos em silêncio sussurraram alguma coisa entre si de maneira preocupada, quase temerosa, então aproximaram-se do rapaz. Ele levantou a cabeça para olhá-los, Adam disse:

[Adam] – Você está livre. Se abrir a boca sobre o que aconteceu, vamos te achar e fazer pior. Entendeu?

[Melvin] – SIM, PORRA, SIM, EU JURO QUE NÃO VOU FALAR PRA NINGUÉM, EU VOU SUMIR DE SACRAMENTO, EU PROMETO.

[Adam] – OK. Teng, solte ele.

Teng aproximou-se dele, soltando as mãos do mesmo das “algemas” da cadeira de ferro. Foi então para trás dele a fim de soltar a espécie de gargantilha que trancava o pescoço do rapaz. Ela não estava muito apertada, o que o permitia movimentar o pescoço, mas certamente não conseguiria se levantar com aquilo preso (mesmo que meio frouxamente). Levou uma das mãos até a espécie de parafuso que mantinha a gargantilha prendendo o rapaz, afrouxou-a devagar, e em um gesto silencioso, antes de soltar completamente a gargantilha, retirou da parte de trás da calça (que era coberta pela camisa) uma pistola Colt M1911 municiada com balas .45 de ponta oca, disparou então contra a cabeça de Melvin e o matou. Uma morte rápida e indolor. Porém, logo após isso, Adam exclamou:

[Adam] – Puta merda, olha o estrago que ficou no maluco.

Teng foi para o lado de Adam e olhou o cadáver. Havia um rombo entre o nariz e a boca.

[Teng] – Porra, deu merda. Agora ele não tem mais boca pra contar a história, ou no caso, pra colocar o lenço.

[Adam] – Ah, que se foda. Coloca no rombo mesmo e tá tudo certo.

[Teng] – OK. Vai levando o presunto pro lixão que eu vou ver se arrumo a bandana.

[Adam] – Certo.

Teng então se dirigiu à saída, deixando Adam ali para cuidar do corpo.

—

Filip estava sentado na sala de espera de um hospital. Ao lado dele estavam outros dois membros do motoclube, Arno Rothschild e Edward Weston. Arno era dos “famosos” Rothschild, com as crises a família havia quebrado, perdendo quase totalmente os seus bens. Apesar de ainda serem uma família “tradicional”, agora não tinham poder e eram relativamente comuns. Arno havia ido para Sacramento com sua mãe que era funcionária de uma empresa e havia conhecido Filip em um show de uma banda havia 9 anos, pouco depois de ter chegado na cidade. Tornaram-se amigos, e quando Arno completou 18 iniciou seu período como prospect , tendo entrado de maneira definitiva aos 20. Agora, com 25 anos, era baixinho e magro, com cabelos loiros medianos, olhos castanhos e um rosto que lhe fazia parecer uns 4 anos mais jovem. Seus trajes eram simples, camiseta branca, o colete do motoclube, calças jeans e all-stars negros. Edward tinha a mesma idade de Filip e o conhecera quando chegou em Sacramento, em pouco tempo se tornaram bons amigos e Edward logo se tornara um membro, tendo ascendido rapidamente devido ao fato de fazer o tipo “durão”. Era o atual Sargento de Armas do MC, tendo assim a função de treinar os novatos e manter a segurança da sede e dos membros. Era alto, mais alto que Filip, forte e possuía uma cara de poucos amigos, seus cabelos eram negros e ficavam sempre em uma espécie de topete. Trajava uma camiseta negra colada ao corpo, o colete do MC, jeans e coturnos. Junto de Filip e Teng, era um dos únicos daquele charter a possuir o patch da Cruz de Ferro, dado à aqueles que já fizeram uma coisa grandiosa pelo MC. Os três estavam em um silêncio estoico, apenas observando o que estava acontecendo ali. Enfermeiras e médicos andando pra lá e pra cá, pessoas preocupadas, pessoas chorando, e pessoas fingindo estarem sentindo alguma coisa. De súbito, Richard apareceu no corredor indo em direção a eles, após chegar disse sem demora:

[Rich] – Ele tá relativamente inteiro, umas costelas e uns dentes quebrados mas vai melhorar logo. Já podem ir lá falar com ele se quiserem, mas não forcem a barra.

Após responderem com um singelo “ok”, foram até lá.

Ulisses estava deitado na cama sem qualquer aparelho conectado ao seu corpo, utilizava o traje típico de paciente e estava olhando fixamente para o teto. Ao ouvir o barulho da porta assustou-se, levando os olhos às pessoas que haviam acabado de entrar, que eram Filip, Teng, Adam e Rich. Apesar do susto não disse nada, apenas voltou a olhar o teto.

[Filip] – Porra, cara. Olha a merda que fizeram com você, você deveria ter metido o pé ou pelo menos ligado pra gente quando viu que foi notado.

Com uma voz rouca, Ulisses disse:

[Ulisses] – Eu não percebi. Eles tavam indo pro bairro industrial mas pararam em um bar, eu tirei o colete e entrei também, mas lá não era um bar. Tinha um monte de caras lá me esperando, eles me deram uma surra, eu fingi que desmaiei pra ver o que eles fariam e eles me colocaram em uma van, depois cobriram a minha cabeça. Quando chegamos no lugar, eles tiraram o saco da minha cabeça, me deram mais uma surra e eu desmaiei. Depois disso eu só lembro de ter acordado dentro da nossa van.

Os 5 ficaram em silêncio por alguns instantes. Arno então perguntou:

[Arno] – É uma pergunta imbecil, mas sabe pra onde te levaram? Não ouviu eles comentarem enquanto fingia que estava desmaiado ou algo assim?

[Ulisses] – Me lembro de ter ouvido eles falarem docas mas sei que não foi pra lá, não ouvi barulhos de barcos ou guindastes, mas ouvi barulhos de serras, só isso.

[Filip] – Pode ser a fábrica de processamento de carne ou a madeireira ou pelo menos um lugar próximo de uma das duas. Isso já ajuda. Descansa aí, nós vamos pra sede.

Sem dizer mais nada, os 4 se encaminharam à saída até que o celular de Filip emitiu um toque de mensagem. O homem desbloqueou o celular para ver a mensagem, a mesma dizia: “Purple agirão amanhã. Fique alerta.” Sem dizer nada para os outros, simplesmente saiu com eles em direção à sede.

Filip chegou na sede junto de Rich, Teng e Edward, os outros membros já estavam lá. Cumprimentaram-se e sem mais delongas foram todos para a sala de reuniões, sentando-se em seus devidos lugares. A mesa onde discutiam tudo era redonda, e cada cadeira tinha o nome do seu “dono”, apesar disso não sentavam todos sempre no mesmo lugar. O vice-presidente e o Sargento de Armas sentam-se sempre ao lado do presidente, então as cadeiras são movidas.

O presidente olhou para todos os membros, totalizavam 12 excluindo a si mesmo e ao novato porém incluindo Rich, Teng e Edward, e depois levou o olhar apenas para a administração. Mutley Harris era o tesoureiro. Baixinho, magrelo, cabelo raspado e muito pálido, parecia um cadáver e normalmente utilizava roupas largas como moletons e calças jeans. Apesar da aparência esquisita, era sempre sociável e muito inteligente. Ken Lynch era o capitão de estrada, apesar de ser irlandês conhecia as estradas americanas como ninguém. Era alto, meio gordo, tinha cabelos ruivos curtos e um cavanhaque. Marc Foltz, secretário. Não era muito tagarela, apesar disso era uma pessoa eloquente. Sua aparência era relativamente amistosa, tendo longos cabelos loiros, pele branca e olhos azuis. Seu porte físico era o de um homem comum. Esses membros são os que formam a administração do MC.¹ Filip deu uma batida com o malhete para chamar a atenção de todos, então começou a falar:

[Filip] – Eu serei breve, não os chamei para decidir alguma coisa hoje, mas como já sabem, fomos atacados hoje. Uma nova gangue, Purple Blood Killaz, resolveu tentar foder com a nossa vida, Teng e Adam pegaram um membro mas ele não revelou muita coisa, apenas disse que querem nos exterminar, e em compensação pegaram o Ulisses quando eu o mandei seguir um membro, deram uma surra e agora o infeliz está em uma cama no hospital, então fiquem alertas, andem armados, se virem alguma coisa estranha corram ou liguem pra um de nós. Entenderam?

Todos fizeram um aceno para indicar que sim.

[Filip] – OK. Outra coisa, amanhã é a nossa entrega, e eu recebi uma mensagem no meu celular quando estávamos saindo da visita ao Ulisses. Ela dizia que os Purple iriam atacar amanhã, talvez na nossa entrega. O que acham?

[Rich] – Pode ter sido um dos Purple querendo sacanear, talvez com a intenção de reunir muitos dos nossos em um canto e matar todos de uma vez só ou para nos afastar daqui e destruir a sede ou algum outro lugar, não sei.

[Filip] – Sim, realmente... Mas não acho que fariam algo assim, não seriam tão burros.

Mutley interrompeu.

[Mutley] – Qual a burrice nisso?

[Filip] – Poderíamos mudar o dia da entrega e eles perderiam tempo, poderíamos chamar mais gente para nos escoltar, uma série de coisas, eles não têm como prever isso.

Mutley apenas fez um gesto de cabeça e se calou.

[Filip] – Bom, eu tenho uma ideia do que podemos fazer...

—

2 homens de terno entraram no hospital, um deles trazia um buquê de flores roxas. Caminharam em direção à recepção e pediram para ver Ulisses Villanueva, mas como não estavam registrados a atendente disse que ia ligar para perguntar para Ulisses se ele queria receber as visitas. Feita a ligação, ele aceitou receber as visitas.

—

[Filip] – Bom, acredito que todos tenham entendido.

Assim como antes, apenas acenaram com a cabeça.

[Filip] – Ótimo. Estão dispensados, boa noite pra vocês e nada de tomarem um porre, em especial você Ken.

[Ken] – Não prometo nada.

Filip e Ken riram, então saíram da sede com os demais membros, montaram em suas fotos e cada um foi para sua casa.

Filip abriu a garagem e estacionou a moto, dirigindo-se à porta após sair da moto. Levou a mão até a cartola de uma pequena estátua de leprechaun que enfeitava seu quintal, retirou então a cartola de pedra e pegou as chaves da casa assim como um bilhete. “Porra, acho que o Rich virou vidente” pensou Filip, mas no bilhete a empregada havia escrito apenas que deu uma parte de uma grana que estava em cima da geladeira pra ajudar uma das mulheres que estavam na casa naquela manhã a pegar um táxi, e que ela iria repor. Filip abriu a casa, estava tudo limpo e com um ligeiro aroma de morango. Para que não se esquecesse, Filip escreveu um bilhete dizendo que a empregada não precisava repor a grana, deixou-o em cima da mesa e foi tomar um banho. Após sair do banho vestiu apenas a cueca, dirigiu-se ao quarto e sentou-se na cama. Em cima de uma mesinha estava sua Bíblia aberta. Após pensar por alguns instantes, levantou-se e foi até a mesma, viu que estava aberta no livro de Salmos e leu em voz baixa uma parte do Salmo 143: “ Bendito seja o Senhor, meu rochedo, que adestra minhas mãos para o combate, meus dedos para a guerra; meu benfeitor e meu refúgio, minha cidadela e meu libertador, meu escudo e meu asilo, que submete a mim os povos.” Abriu um sorriso. Sentou-se na cama e, após apagar a luz, deitou-se e se cobriu, caindo no sono instantes depois.

Notas finais
¹ - Eu não disse o nome de todos os membros porque ficaria muito longo, revelarei-os com o passar do tempo.