Resolvi ir embora Dalí, mas eu não queria voltar pra casa agora. Caminhei até uma praça e me sentei no banco, fiquei observando algumas crianças brincarem, por um momento esqueci os meus sonhos, até que voltei a sentir aquela sensação. Olhei para o lado e vi um garoto loiro se aproximar da pracinha onde eu estava, enquanto estava na lanchonete vi esse mesmo garoto passar pelo lado de fora indo em direção a uma sorveteria do outro lado da rua.

Eu estava parado apenas observando, ele parecia estar preocupado, tomava seu sorvete solitário, parecia evitar olhar para as pessoas a sua volta. Parece estranho, mas alguma coisa me dizia que eu tinha que falar com ele, mas eu não podia simplesmente chegar do nada e começar a puxar assunto. Eu não sabia quem ele era, não sabia o que falar, eu não sabia nem porque eu deveria falar com ele. Talvez tivesse sido isso, o fato de eu não ter idéia no que isso daria, que me fez tomar coragem para ir até ele.

-Boa tarde. – Eu disse enquanto fazia um sinal com a cabeça como se perguntasse se eu podia me sentar ao seu lado.

-Boa tarde. – Ele afirmou, logo depois me sentei. –O que você quer? – Ele não demorou muito a perguntar.

-Eu apenas quero companhia... Mas, se estou atrapalhando... – Eu já ia me retirar quando ele respondeu.

-Não, está tudo bem. Me desculpe se fui rude, mas é que...Bom esquece alguns problemas. – Ele voltou a tomar seu sorvete. Em quase momento algum ele pronunciava as palavras olhando pra mim.

-Entendo. Não é legal se abrir assim com um estranho. Mas se te consola eu tenho tido algumas preocupações também. Não sei se são de tão importância quanto as suas, mas tem me deixado um tanto abalado. – Não entendi porque estava me abrindo assim com um estranho, mas fazer isso estava me deixando melhor.

-Se quiser desabafar. – Pela primeira vez ele falou toda a frase me olhando.

-Eu não vejo problema em te contar, mas só o farei se você me contar o seu primeiro. – Sorri em sinal de gentileza.

- Está certo. – Ele disse, me virei para ele para prestar melhor atenção no que ele iria contar, então ele começou. — Já tem alguns dias que eu não consigo dormir, mas não é por insônia nem nada do tipo... Eu tenho tido um pesadelo. –

Me assustei um pouco, afinal o motivo da preocupação de ambos era o mesmo. Apressei-me em perguntar. –Como é o seu pesadelo? –

Logo ele prosseguiu -Eu estou em um lugar desconhecido, com uma sensação horrível, um pânico inexplicável, uma das piores sensações que eu já senti na vida. Não é só medo, é horror, é você ter certeza de que alguma coisa ruim vai acontecer e você não vai poder fazer nada para impedir. Mil coisas passavam pela minha mente enquanto eu estava nesse lugar até que chego a uma encruzilhada e quando olho pra frente vejo uma sombra, mas está muito escuro e não da pra ver direito quem é, ou o que é. Parece a forma de um homem, mas está um pouco longe, não sei se está de costas ou de frente pra mim, mas ele movimenta o seu corpo como se virasse para a direção oposta a que estava, e eu temo que essa direção seja de frente pra mim.