Crosses

1 Runaway (Eliza)


Notas iniciais
Então, aqui vai o primeiro capítulo, não muito o que falar na verdade. Eu já tenho o próximo capítulo pronto, então se vocês gostarem eu posto ele. Espero que curtam :)

Acordou de uma noite sem sonhos. Claro, depois de tantos pesadelos, Eliza meio que agradeceu o sono profundo, mas um sonho bom seria no mínimo reconfortante. Virou para o lado e tentou dormir novamente, sem sucesso. Não conseguia manter os olhos fechados, e isso já era comum. Eliza quase nunca dormia antes da uma da manhã, mas na outra noite, sua irmã tinha insistido que ela tinha que dormir cedo. “Não pode se atrasar para escola” havia dito Katarina. “Não no primeiro dia”. Ela foi para a cama decidida a se manter acordada, mas acabou pegando no sono, mais ou menos ás 10 da noite. Seu relógio biológico não estava habituado a mais de 4 horas de sono. Decidiu levantar.

Levantou com cuidado para não derrubar Conhaque, seu gatinho, que estava dormindo nos pés da cama. Caminhou até o espelho, para ver sua situação. Percebeu que tinha dormido com a mesma roupa do outro dia, uma blusa roxa, um jeans rasgado e desbotado, não porque ela tinha comprado daquele jeito como as outras meninas da escola, desbotado pelo tempo mesmo, e rasgado porque não tinha habilidade em estender roupas no varal de casa. Olhou mais para cima, no espelho e observou o próprio rosto. Estava escuro, mas as feições de cansaço eram claras. “Você já teve dias piores”, disse a si mesma. Percebeu o computador ligado e ligou o monitor, só para ver o horário. 4:00 am. “Tenho que voltar a dormir igual a alguém decente. Um dia eu vou me ferrar por causa disso”.

Caminhou até a janela, do lado da cama e abriu a cortina. As estrelas começavam a caminhar para o horizonte, a luz brotava do outro lado, mas ainda estava bem escuro. Não via a Lua, e ficou triste por isso. Quando se debruçou para abrir a janela (coisa que fazia sempre) quase derrubou o cinzeiro de metal, apoiado no batente. Abriu a janela com cautela, e jogou as cinzas e umas dez pontas de cigarro na calçada do prédio. Olhou para o pote prateado, vazio. “Queria que estivesse sempre assim, eu e meu vício desgraçado. Tenho que parar. Eu com certeza vou me ferrar por causa disso um dia”. Olhou para fora e ficou encarando o nada , com alguns pensamentos vagos na cabeça. Ouviu alguns passarinhos e acordou do seu devaneio, esfregou os olhos se afastando do parapeito por um tempo. Fechou a janela e a cortina, abriu a gaveta do criado mudo, de baixo da janela, e jogou o cinzeiro lá dentro, fechando a gaveta com força, o que fez barulho. Esqueceu-se de que só havia ela acordada na casa, torceu para não ter acordado ninguém. Acendeu a luz do quarto e se olhou no espelho de novo, dessa vez com mais clareza.

Olhou-se de cima a baixo, como se estivesse julgando outra pessoa. Talvez realmente estivesse. A pele pálida ressaltava as olheiras em baixo dos olhos acinzentados. Os lábios rosados, as sobrancelhas escuras, as poucas (amém) espinhas na testa, as bochechas irritantemente “maiorzinhas”, e o longo cabelo castanho escuro, caindo em leves ondas até um pouco abaixo do cotovelo. Se encarou durante um tempo, virou a cabeça para a esquerda, depois para a direita, sem nenhum objetivo aparente. Nunca tinha se considerado absurdamente feia, só não se achava tão bonita a ponto de precisar se cuidar. Segundo algumas pessoas, ela era bonita, mas Eliza não sabia se acreditava. Fingia que sim, mas sempre ficou com um pé atrás. “Você já teve dias piores”. Jogou-se na cama mais uma vez. Tateou em baixo do travesseiro, buscando os cigarros restantes. Quando os irmãos descobriram que ela estava fumando, Eliza fez um buraco no começo do colchão, que escondia com o travesseiro (foi uma confusão para esconder isso no dia da mudança). Eles nunca mais falaram da “mais nova fumante da casa”, talvez eles pensem que ela parou mesmo, ou simplesmente deixaram de tentar convencer a caçula. “Eu sou um caso perdido”. Ela percebeu que só haviam três cigarros no buraco. “Tenho que dar um jeito nisso”. Pensou se aquele não seria o momento de parar, mas desistiu, pela milésima vez. Acendeu o cigarro, e a cada sopro, ficava observando a fumaça se dissipar no ar. “Queria ser assim, poder sumir no ar”. Quando foi levar o cigarro na boca pela terceira vez, pensou melhor. Jogou o cigarro no chão, pisou nele e jogou debaixo da cama. Pegou uma roupa qualquer e foi tomar um banho. Abriu a porta com cuidado, deixando Conhaque escapulir para fora do quarto.

No chuveiro, gostava da água o mais quente possível, mesmo no verão. Saiu, se vestiu, e foi para a cozinha. Encontro café velho na jarra. “Eu que não vou fazer mais” colocou café na caneca e aqueceu no micro-ondas. Sentou na mesa com a caneca, Conhaque na cadeira do lado, ronronado, quase dormindo. “Gato preguiçoso”. Começou a acariciar ele, e esboçou um sorriso de leve. Ficou em paz por um tempo, por isso amava Conhaque (o gato, a bebida, só socialmente). A paz era tanta que nem viu a hora passar, e a movimentação da casa começando. Os irmão brotaram na cozinha, agitados, acendendo luzes, conversando alto. Isso não incomodou Eliza, até o momento que Arthur espantou o gato pra fora da cadeira, sentando-se nela.

—Alguém decidiu acordar cedo hoje

—Alguém decidiu incomodar o gato da irmã- Respondeu Eliza, com cara de poucos amigos.

—Bom dia Lizzie – Katarina deu um tapinha em suas costas, sorridente.

—Bom dia Kat — Disse Eliza, com um meio sorriso no rosto. Gostava muito da irmã mais velha, mas ainda não entendia como ela conseguia acordar com um bom humor tão grande.

Desde que a mãe fora internada, Katarina tentava contornar a situação da casa com um bom humor que chegava a ser irritante. Eliza era uma pessoa alegre, gostava de ver todo mundo sorrindo, principalmente a irmã. Apesar de ter um humor um tanto ácido e usar mais o sarcasmo do que deveria, abria uma exceção com a irmã e com a mãe. Mas seu irmão nunca viu graça nenhuma.

Arthur era um caso a parte. Katarina insistia que não, mas parecia que Arthur não ligava nenhum pouco para nada relacionado a família. Ele ficou assim depois que Henry, bem... partiu. Eles eram muito próximos. Nenhum dos deles gostava de falar sobre o quarto irmão. Arthur ficou com raiva de Deus e o mundo depois do ocorrido, e culpava a mãe por não ser forte o suficiente para suportar a dor ali com eles. “Babaca” foi o que Eliza escreveu na parede do quarto do irmão do meio, em tinta vermelha, quando ele se recusou a ir ao hospital comemorar o aniversário da mãe deles. Até Katarina ficou brava naquele dia. Ele está estudando para o vestibular de engenharia, só estava esperando o momento certo de voltar para a cidade grande, ainda não tinha dinheiro suficiente para sair do apartamento onde eles estavam agora, onde haviam morado por tanto tempo. Eliza adorava jogar esse fato na cara dele. Apesar de ter uma carinha fofa, ela gosta de admitir que tem talento para deixar as pessoas irritadas quando quer.

—Quer carona para a escola? –perguntou Katarina

—Prefiro ir de ônibus. Quero dar uma olhada na cidade, ver se reconheço alguma coisa.

—Tem certeza que não vai se perder?

—Eu sempre dou um jeito, não é?

—Claro que sim –disse sorrindo- Você não vai comer nada?

—Eu como no caminho. Até – disse já com o pé na porta.

Sempre achou legal ver essa cidade acordando. Quase não conseguia ver isso em São Paulo por que aquela cidade nunca dorme, e era bom estar ali de novo, depois de tanto tempo. Depois do acidente de Henry, a mãe de Eliza, Ana, desenvolveu depressão e ansiedade, e até tentou suicídio, mais de uma vez. Depois da última tentativa, decidiram se mudar para a cidade natal de Ana, onde os três irmãos haviam crescido antes de se mudarem para SP, para ver se ela tinha boas memórias da infância e melhorava. Infelizmente, ela teve que ser internada no hospital daqui, mas já era um conforto estar perto de casa. Mudaram-se no meio do ano, interrompendo o ano letivo e tudo, mas Eliza não se importava, não carregava boas lembranças de SP, viu isso como uma oportunidade de vida nova e de melhoras para a mãe. Apesar de ter se mudado a muitos anos, tinha memórias ótimas dali.

Acostumada a ir para todos os lugares sozinha, tomou gosto pelas caminhadas. Com a mãe sempre tendo que trabalhar para sustentar os filhos sozinha, todos eles sempre foram muito independentes e Eliza agradecia sempre por isso. Seus maiores momentos de paz eram caminhando, sempre sozinha.

Parou em uma lanchonete perto do ponto de ônibus e comprou um pão de queijo. Enquanto caminhava até o ponto, viu alguns adolescentes indo na mesma direção, alguns pararam no ponto, outros continuavam a pé, já outros pediam corona para os pais dos colegas. Colocou o fone de ouvido e ficou observando tudo aquilo, achando engraçado como o clima da cidade não havia mudado tanto assim. Do outro lado da rua viu três garotos andando. Um deles estava andando de costas, olhando para os outros dois e contando alguma coisa super empolgado. Um deles sorria e conversava com ele, um pouco mais discreto. Já o terceiro continuava sério, mas também conversava. Eliza sempre quis ter uns amigos de verdade, assim, que entendiam e gostavam das mesmas coisas que ela. Perguntou-se se os garotos também estavam indo para a mesma escola que ela, e de repente percebeu que eles estavam atravessando a rua na direção dela. Olhou para o lado e resolveu se distrair com a música nos fones. Tudo tranquilo, até que sentiu uma cutucada no ombro.

—Você não é daqui, né?- perguntou o garoto mais alegrinho

—Desculpe, como?- Disse tirando os fones, não tinha ouvido a pergunta direito.

—A gente nunca te viu por aqui- Disse o outro, o mais normal. O terceiro garoto continuava na dele

—Na verdade eu acabei de me mudar- Eliza disse sorrindo, tentando ser simpática. Melhor ficar como a garota nova, se dissesse que já morou ali teria que explicar muita coisa, e como já disse, ela queria coisas novas.

—Aaaaaa, então você deve ser a novata.

—Harry quer parar de gritar? Vai assustar a menina desse jeito... -Disse o que estava quieto até então, revelando o nome do garoto mais agitado.

—Tom, porque você não vai encher o saco de outro?

—Porque você não para de respirar?

—A moça tem nome?- Disse o mais simpático deles, desviando os olhares da briga e tentando puxar assunto.

—Eliza

—Bom, eu sou o Eduardo, e você já deve ter conhecido o Harry e o Tom- Disse eles, puxando os outros dois garotos que estavam se batendo, mas em tom de brincadeira. A cena fez Eliza rir um pouco.

Agora que os três estavam ali em sua frente, a garota conseguiu olhar para eles direito. Os três eram mais altos que ela, e eles, bem... chamavam a atenção. Harry tinha feições alegres, olhos azuis enormes e cabelo loiro escuro enrolado. Usava uma camiseta branca e tinha uma jaqueta xadrez amarrada na cintura. Usava várias pulseiras e tinha um brinco na orelha. Eduardo era bem mais discreto, mas continuava charmoso, com cabelos castanhos, intensos olhos verdes, usava um moletom largo e escuro e agora tinha as mãos no bolso. Tom tinha cara de ser o típico roqueiro revoltado, tipinho que Eliza conhece mais do que gostaria. Camiseta de banda, jaqueta jeans com as mangas arregaçadas e jeans rasgados, cabelo preto, liso e meio bagunçado. Há algum tempo atrás suspiraria por um cabelo como aquele, e quase o fez de novo. E também tinham seus olhos, profundamente escuros. Não queria olhar para eles por medo. “Nada vai acontecer. De novo não”, mas aquilo era diferente, eles não lhe eram estranhos. Segurou a tentação de ficar olhando para eles até descobrir o que havia despertado aquele sentimento familiar.

—Você vai pro Castelo Branco, né?- Perguntou Harry meio sem graça, quebrando o clima para o alívio da garota.

—Vou sim, mas acho que você já sabia disso- Disse tentando se distrair.

—Quer ir com a gente?

—Ei! A gente ia no porão antes!- Disse Tom, irritado

—Ah a garota parece legal vai! Ela chegou agora, precisa de amigos- Exclamou Harry, piscando para Eliza.

—Eduardo fala alguma coisa, por favor.

—Eu não vejo problema algum, e não seria educado deixar ela aqui sozinha- Deu de ombros.

—Ah tanto faz!- Tom disse recolocando os fones, e caminhando na frente dos três.

—Bom, então podemos ir?- Perguntou Eduardo, mostrando o caminho.

—Porque não?- Eliza respondeu, caminhando ao lado dos dois garotos e observando Tom um pouco a frente, caminhando ainda um pouco nervoso. Conversou com eles no caminho e descobriu que eles não eram nada como as pessoas do outro colégio, não ligavam pra nada, tinham gostos diferentes um do outro mas isso não os impedia de serem amigos, e Eliza achou isso muito curioso. “Isso pode ser divertido, afinal” pensou a “novata”, se alegrando cada vez mais.

Notas finais
Bom pessoas, é isso, como eu disse é complicado escrever estando no ensino médio, então eu não posso garantir que ela vai continuar, mas eu vou tentar escrever bastante enquanto ainda estou na vibe. Até a próxima :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.