Cross Destination
52 Capítulo Cinquenta e Dois
Notas iniciais

Felicity estava encolhida na cama. Ele estava grudado nela; dormia. Ela não conseguia se mexer; estava toda machucada, dolorida. Sentia alguns hematomas latejar, sentia seu corpo inteiro reclamar de dor. Ela sentia nojo do próprio corpo. Sentia nojo das mãos dele segurando sua cintura, nojo dos lábios dele em seu pescoço, nojo do peito dele grudada às suas costas. Não era Oliver. Não era seu marido. E não sabia por quanto tempo ela teria que passar por tudo aquilo novamente. Os tapas, as mordidas, aquele nojo. Ela não conseguia dormir, e enquanto ele dormia, ela deixava as lágrimas rolarem, pedindo para aquilo acabar, pedindo para que Oliver a encontrasse logo. Parecia que o dia não passava, e ela só queria poder sumir. Cooper havia dito cinco dias, cinco dias sem tê-lo por perto, mas quanto tempo exatamente estava ali, era o que ela mais gostaria de saber.
Não se arrependia de ter sido abusada, e não se arrependeria nunca, mesmo que isso tenha feito ele machucá-la daquela forma, mas agora, ela sentia tanto medo, que não sabia se conseguiria voltar a retrucá-lo. Sentia tanto medo, que não achava que conseguiria demonstrar força, mesmo tremendo por dentro, demonstrar que não abaixaria a cabeça, mesmo sentindo seu estômago embrulhar, pensando que ele poderia lhe machucar. Queria tanto que ele ficasse dormindo por mais tempo, mas alguma coisa lhe dizia que ele não demoraria a acordar, e fazer de sua vida um inferno. As lágrimas não paravam descer, enquanto sentia seu corpo doer, os machucados arderem, e o choro voltar mais forte.
Ela parou de respirar quando sentiu ele se mexer, parando de chorar imediatamente, mesmo que as lágrimas ainda descessem por seu rosto pálido. A mão que estava em sua cintura, apertou seu corpo, e ele a levou para mais perto dele. Seu corpo começou a tremer, e ela não sabia se conseguiria suporta ele tocá-la novamente. Por quantos dias ela teria que passar por aquilo, até que fosse encontrada?
Bom dia. – Cheirou o pescoço de Felicity, que ficou tensa. – Dormiu bem, amor? – Ela não respondeu, mas logo sentiu um aperto forte em sua cintura. – Eu perguntei se dormiu bem. – Ela engoliu um choro.
Sim. – Mentiu em sussurro. Ele sorriu.
Que bom. Eu fiquei preocupado com você. – Ela fechou os olhos, querendo correr para longe dele. – Ficou tão quieta depois da nossa noite de amor. – Ela não respondeu. – Já está com fome?
Não. – Dessa vez não mentiu. Ela sentia seu estômago embrulhar só de pensar na noite que teve com ele. Não conseguiria colocar nada na boca.
Você precisa se alimentar, ou ficará doente. – Beijou a bochecha dela e se sentou na cama. – Mas antes..., vamos tomar um banho. – Ela abriu os olhos, e estremeceu. A frase no plural não foi bem-vinda para ela. – Venha.
Não quero. – Ele franziu o cenho. – Não estou bem.
Você não está bem ou está fingindo não estar bem só para me provocar? – Ela o olhou, séria.
Eu.não.estou.bem. – Diz pausadamente. – Não estou mentindo.
E o que está sentindo? – Nojo, foi a primeira palavra que veio a sua mente. – Hum? – Ele apoiou o queixo no ombro dela.
Meu estômago... – Ela se interrompeu ao sentir a mão dele acariciar sua coxa nua.
Você vai melhorar quando comer.
Vai me obrigar a ir com você? – Ele se afastou, mas a mão continuou onde estava.
Se eu tiver que obrigar, eu irei. – Ela estremeceu. – Você quer ir por bem ou por mal? – Ela não queria apanhar novamente, ou sentir as mãos dele em seu corpo. Enquanto pudesse se esquivar, ela se esquivaria. Pensando nisso, ela se levantou, puxando o edredom para enrolar em seu corpo e caminhou para o banheiro. – Foi o que pensei. – Ele diz, seguindo-a.
**--**
Uma semana havia se passado. Nada de encontrarem Felicity, Renee ou Cooper. As buscas continuavam, incessantemente. Os gêmeos, por mais angustiados que estivessem, não pressionava o pai com respostas. Ele prometeu que quando as coisas estivessem mais calmas, ele contaria os detalhes, e ele cumpria a promessa. Seus filhos sabiam com quem a mãe estava e Oliver não se sentia no direito de deixar de lhes contar sobre as buscas, ou o detalhe de como ela foi levada, ou qualquer outra coisa em relação aquela situação. Bryan não precisou implorar ao pai para que ele não escondesse nada dele, afinal, se estivesse no lugar do filho, iria querer o mesmo. Ele tinha oito anos e meio, não era mais um bebê, e mesmo que alguns não concordassem em dizer a verdade ao menino, Oliver não se importava. O filho precisava disso, os dois filhos precisavam, principalmente agora que haviam voltado a ter os malditos pesadelos.
Hora de dormir. — Diz ao entrar no quarto.
Ele havia deixado os trigêmeos com Alissa e o marido da mulher, assim que Kallie finalmente havia dormido em seus braços. Ela, assim como os irmãos, estava inquieta, e isso desde que Felicity foi sequestrada. Se antes era complicado fazerem os três dormirem, agora, era quase impossível. Até mesmo Kallie que era uma dorminhoca, estava dando trabalho, e nenhum dos tios conseguiam acalmá-la. O pai, em contra partida, consegue tal feito, mas com muito custo. Era por isso que ele era o único a colocá-los para dormir, mesmo com a ajuda dos Buscher.
Não estamos com sono. — Oliver não estava surpreso pela “mentira” dos filhos, afinal, não era a primeira vez que ouvia aquela mesma frase.
Vocês podem não estar indo às aulas, mas mesmo assim não dormirão tarde. — Pegou o controle do videogame que estava nas mãos de Bryan e o desligou.
Papai...
Cama. — Apontou para a mesma, e o menino fez um bico e desviou os olhos. — Não precisam mentir sobre a falta de sono, sabe. — Brooke abraçou o pai.
Estamos com saudades.
Eu também estou. — Sussurrou, beijando os cabelos igualmente aos seus. — Mas ela não iria gostar de vê-los assim.
Ainda não nos contou o que houve. — Oliver suspirou.
Me dê só mais um pouquinho de tempo, está bem? Eu prometo que contarei.
Tudo bem. — O menino murmurou ao ver o quanto aquilo também estava machucando o pai.
Ei. — O menino o olhou novamente. — Eu prometi não esconder nada, confia em mim?
Confio. — Sussurrou.
Venham. — Os puxou até onde estava a cama.
Papai? – Olhou nos olhos de Bryan. – Vai trazê-la de volta, não vai?
Eu vou. Farei o que for para trazê-la de volta. — Os cobriu. — Vou ficar com vocês até dormirem... — Beijou os cabelos de ambos, depois de se sentar na beirada. — Terei que sair para resolver algumas coisas...
É sobre a mamãe? — O filho o interrompeu.
Sim. — Não mentiria. — Mas deixarei vocês com Tyler e outros quatro.
Greg também?
Não, filha, ele vai comigo. — Oliver sabia o quanto seus filhos gostavam de Gregory, em especial por ele ter salvo a mãe deles quando houve aquela armadilha no qual os trigêmeos nasceram.
Gosto do Tyler. — O pai sorriu ao ouvi-la.
Eu também. Ele é divertido.
Então se divirtam com ele, e quando eu voltar amanhã... – Respirou fundo e soltou o ar em seguida. – Contarei tudo o que houve.
Só vai voltar amanhã?
É importante, filho. — O garotinho não retrucou. — Mas não se preocupem, estarei de volta antes do jantar.
Vai ficar mesmo, né papai?
Eu prometo, princesa. — E ele pedia aos céus que seus filhos dormissem tranquilos, livres dos malditos pesadelos que os atormentavam todas as noites.
**--** **--**
Estavam todos reunidos na sala de reuniões da QC. Não era o melhor lugar de se falar sobre o que estava acontecendo, mas eles acreditavam que Renee havia grampeado toda agencia, então não confiavam em falar algo ali. Aquela sala foi revistada de cabeça para baixo, estava tudo normal. Além disso, o pessoal de IT que Felicity havia ensinado a procurar por tudo quanto equipamentos, não haviam encontrado nada naquela sala, então não tinha perigo. Àquela hora da noite, não tinha ninguém na QC, e esse era mais um motivo de acreditarem que ali seria um lugar perfeito para fazerem suas reuniões. Com os filhos em casa, não dava para conversarem sobre Cooper, ou seus planos. Não queria que eles soubessem de nada inconcreto, ou que ouvissem algo que os deixaria ter pesadelos pelo resta da vida. Tinha sido uma decisão de Oliver, e Roy apoiou totalmente.
Tyler havia se prontificado em ficar com os gêmeos, enquanto acontecia a reunião. Por mais que ele estivesse ansioso para saber onde Noah estava, e por mais que estivesse curioso a respeito daquela reunião, ele achou que ele seria o melhor a ficar no apartamento com as crianças, saberia distraí-los, mesmo que um pouco. Mas mesmo Oliver confiando nele completamente, pediu para que ficassem com Tyler, Luke, Alan, Nate e Ethan protegendo seus filhos, e era por isso motivo que os quatro agentes não participavam daquela reunião.
Eles haviam passado horas de cada um dos dias que se passaram, a procura de Felicity, e nada havia sido encontrado. Nada. Infelizmente, Oliver estava de mãos atadas, e isso o deixava irado. Não conseguiam encontrar Cooper, nem Felicity, e muito menos Noah, que havia desaparecido, sem deixar rastros, e Oliver acreditava cada vez mais que ele também estava do lado do homem que sequestrou sua mulher. Queria tantos estar enganado, mas com seu sumiço era difícil pensar diferente. Se lembrou de que Gregory havia lhe dito sobre a suspeita que tinha sobre o homem. Não era apenas ciúmes. E Gregory não era o único que desconfiava de Noah, a maior parte dos agentes pensavam como ele.
Nada de Noah? – Ray pergunta, curioso.
Nada. Ou ele está com Cooper, como eu penso que esteja, ou ele está morto em algum lugar.
Gregory. – O irmão o chama, pedindo com os olhos que ele pare.
O que? É a única explicação para o sumiço do desgraçado.
Eu concordo com ele.
Obrigado, Dimitri.
Não vamos nos focar em Noah. O importante é trazermos Felicity de volta.
Mike está certo. – Jayden descruza os braços, e desencosta da parede. – Esse não é o momento de encontrar culpados. Até porque o culpado que vocês querem pegar, não está aqui...
E nem sabemos se ele é culpado de algo.
Você realmente acredita no que está dizendo, Lucca? – O outro não respondeu.
Gregory, eu sei que você não gosta do Noah, e sinceramente, começo a concordar com você... – Oliver admitiu. – Mas no momento não sabemos dele, e de quem eu quero descobrir o paradeiro, é da minha mulher.
Vamos nos ater a isso, Greg. – O irmão pede.
Okay. Vocês estão certos. Vamos encontrar a loirinha. – Roy, que estava encostado na parede, desencosta, ainda de braços cruzados, se aproximando do cunhado, que estava tenso. O próximo a se pronunciar, foi Philip.
Pergunta: Como? – Nenhum deles sabiam aquela resposta.
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Felicity olhava para a mesa farta sentindo o estômago embrulhar. O homem do outro lado falava e falava, mas ela fingia não ouvir. Ele tocava sua mão vez ou outra, e ela tentava não a puxar para longe da mão dele. Não queria ser machucada de novo, tremia só de imaginar as bofetadas. Estremeceu levemente, ao se lembrar de cada uma delas. Durante o banho, teve de suportar os beijos e as mãos deles por seu corpo, sorte que não havia passado disso. Ela agradeceu mentalmente, pois não suportaria mais uma rodada de violência. Pelos filhos que a esperavam em casa, pelo amor de sua vida, pelos melhores amigos que tinha, ela se forçou a comer. Ela precisava ficar forte. Forte para sair daquele inferno viva. Forte para ter a chance de reencontrar seus filhos, forte para evitar que adoecesse nas mãos daquele homem completamente insano.
Felicity. – Praticamente pulou ao ouvir aquela voz grossa. — Estou falando com você.
E eu estou tentando comer. — Retrucou, mesmo temerosa.
Hum. É bom que se alimente bem. Quero você forte, completamente saudável. — Ela fingiu não o ouvir. — Eu quero um filho, e para isso precisa estar bem. — Ela arregalou os olhos, olhando para a panqueca com calda de morango. — Quem sabe daqui um ano?
Quem sabe nunca? — Sussurrou, ainda assustada com o que ele disse.
O que disse, querida? – Ela não respondeu. – Você está muito calada. Muito estranha... – Franziu o cenho. – Não está pensando em fugir, está?
Como adivinhou meus pensamentos? — Provocou, olhando-o.
Eu espero que isso seja apenas uma provocação.
Vai saber. — Deu de ombros.
Você não conseguiria fugir daqui.
Talvez sim, talvez não. — Continuou a comer, enquanto o retrucava. Ele não respondeu, e ela franziu o cenho, olhando-o. Ele estava estranho, ela percebeu assim que o viu sorrir.
Você está muito diferente. Se fosse a alguns meses atrás, você estaria gritando comigo, completamente assustada, pedindo, implorando para que eu te libertasse.
Não vai adiantar mesmo. — Voltou a dar de ombros. — Além disso..., não vou mais me humilhar e me rastejar por algo que você não vai fazer.
Você é minha. Minha e só minha. E ai daquele que se colocar no nosso caminho. — Diz de forma sombria, e por mais que ela não quisesse, acabou estremecendo. — O que acha de um filme romântico. — Ela balançou a cabeça dando uma risada debochada, e ela não soube de onde havia tirado tanta coragem.
Você acha que fazendo todas essas coisas... — Apontou para a mesa farta. — Sendo gentil e me propondo um filme romântico, vai conseguir alguma coisa de mim, que não seja nojo e o mais puro ódio? — Ele fechou a feição. — Isso não vai acontecer. Eu já tenho quem amar e ele não é você. E se você acha que eu vou lhe dar um filho..., está realmente com um parafuso a menos... — Ela parou de falar quando ele socou a mesa e se levantou jogando a cadeira em que sentava para trás. Ela engoliu em seco.
Eu vou fingir que não falou novamente naquele desgraçado... — Rosnou a última palavra. — Vou resolver algumas coisas, e quando eu voltar... — Chegou até ela, se colocando atrás de suas costas. — Quero vê-la completamente nua na nossa cama.
Vai sonhando. — Ela gemeu ao sentir as mãos dele apertarem seus braços.
Você o faz..., ou eu o faço por você. – Ameaçou, saindo a passos pesados, completamente furioso.
Felicity voltou a relaxar na cadeira, soltando a respiração, encontrando os olhos da mulher que cuida da refeição. Ela tinha visto tudo. A loira respirou fundo, e se obrigou a comer, afinal, precisava estar forte para fugir daquele maldito lugar, e enquanto fazia isso, ela implorava para que aquele dia demorasse a passar, por medo do que lhe aconteceria quando Cooper voltasse.
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Todas as ideias se resumiram ao nada, quando nenhuma deu certo, no final. Tudo que faziam para tentar chegar à Felicity, no final, era inútil. Não tinham mais ideias para encontrar Cooper de forma rápida e eficiente. Enquanto os agentes se dividiam – e isso incluía Roy –, Oliver ligou para os amigos dando notícias – que não era nenhuma que fosse importante –, e depois de alguns minutos no escritório, tentando conter a ira que sentia, ele foi em busca de seus filhos. Subiu as escadas, de degrau de degrau, pensando no que estaria fazendo caso a esposa estivesse em casa, pensando no que ela estaria fazendo com os gêmeos, desejando vê-la amamentar os trigêmeos. O quarto infantil que havia sido decorado por ele, a esposa e os gêmeos, estava organizado como sempre. Em uma poltrona, estava Alissa e em um banco acolchoado, estava o marido dela.
Oliver observava Alissa dar de mamar para Kallie. Ele era tão agradecido pela mulher lhe ajudar, ainda mais agora com o desaparecimento de sua esposa. Ele não conseguia parar de pensar em tudo que ela estaria passando nas mãos do maldito. Seu corpo tremia só de pensar. Havia prometido a si mesmo, aos gêmeos e a ela que Cooper nunca mais a tocaria e ele não conseguiu cumprir tal promessa. Não conseguia deixar de se revoltar por não ter conseguido deixá-la em segurança, por ela estar longe da família, por ela não estar acompanhando os dias dos filhos, cada um deles. Os trigêmeos estavam crescendo e a mãe não estava ali para ver. Os dias se passavam, e ele ficava a cada dia mais desesperado, e consequentemente não conseguia deixar de pensar, que provavelmente, ele não conseguiria vê-la tão cedo.
Kyle, Katie e Kallie sentiam falta de Felicity. Ele podia ver isso quando eles começavam a olhar ao redor, quando entrava de manhã cedo para dar a mamadeira; eles haviam demorado para pegá-la, pois sentiam falta da mãe. Ela tinha os horários certinhos para alimentá–los e quando ela parou de aparecer, isso meio que os deixou irritados. Como poderia culpá-los por isso? Ele mesmo sentia saudades dela. Aquele apartamento inteiro, fazia com que sentisse sua falta. O cheiro dela ainda se encontrava no travesseiro, a imagem da esposa cuidando dos trigêmeos ainda estava em sua mente, a cantoria, enquanto tomava banho, ainda estava gravado dentro dele. Depois de um tempo, seus filhos se acostumaram com o leite em pó, e o leite de Alissa, mas não havia sido nada fácil até isso acontecer. Oliver fazia questão de falar de Felicity o tempo todo perto deles para que não se esquecessem dela.
Ally, eu vou ver os gêmeos.
Pode ir, Oliver. – Quem respondeu foi Mattew.
Meu marido me ajuda com eles. – O homem loiro ao lado dela assentiu.
Com toda a certeza, pode ir despreocupado.
Okay, então, obrigado. – Diz depois de um suspiro alto.
Oliver sabia que os filhos estavam no quarto, pensando na mãe. Eles sentiam saudades, todos os dias. E mesmo que não dissesse, eles não conseguiam dormir sem que a mãe cantasse para eles. Desde que a esposa havia sido sequestrada, eles dormiam com o pai, mas não só pelo fato de que sentiam falta da mãe, mas também por conta dos malditos pesadelos, que haviam voltado a acontecer. Novamente ele havia falhado com eles, em especial com Bryan. Ele havia feito uma nova promessa, e novamente não conseguiu cumprir.
Quando entrou no quarto, encontrou os irmãos deitados, juntos, na cama personalizada do filme "carros". Um edredom vermelho e preto estava cobrindo os dois, até a cintura, e mesmo que tivessem ouvido a porta se abrir, eles não olharam para ver quem era, apesar de fazerem uma ideia de que fosse o pai. Os gêmeos tinham uma fotografia em mãos, e o loiro podia apostar, era de sua esposa.
Ei. – Eles olharam para o pai. – Querem jantar?
Não. – Oliver já esperava por aquela resposta. Seus filhos não estavam bem, e consequentemente não conseguiam comer bem. Nem mesmo o sorvete os fazia se animar um pouco, e isso o deixava se sentir impotente.
Eu sei que estão com saudades, eu também estou..., mas vocês precisam comer, ou ficarão doentes.
Queremos a mamãe. – O pai suspirou, e começou a se aproximar de cama ao ouvir a filha.
Eu entendo. Está difícil, mas eu estou fazendo o possível para encontrá-la.
Papai, por que isso aconteceu? – Os olhos de Bryan lacrimejaram. – A mamãe estava com os agentes. – Oliver suspirou, sentando-se na cama. – Você disse que quando tudo estivesse mais calmo, iria explicar. Prometeu que quando voltasse da reunião, explicaria tudo o que houve.
Okay, eu prometi, não é? – Os filhos estavam com os olhos presos no pai. – Não é fácil, e vocês não vão gostar do que vão ouvir... — Eles assentiram, sem tirar os olhos do pai. — Ela estava com um dos agentes, outros a esperavam em National City. Estava tudo certo para que não fossem pegos desprevenidos..., mas fomos enganados.
Como, papai? — Brooke perguntou.
Um dos agentes... – Ele ainda estava com raiva daquele homem, e por isso trincou os dentes. – Estava dirigindo o carro no qual sua mãe estava dentro, e... – Fechou as mãos em punhos. – Levou a mãe de vocês. Ele nos traiu, ninguém esperava.
Não é justo.
Eu sei, filho.
A mamãe deve estar com medo. – Oliver bagunçou os cabelos.
Por que esse homem fez isso?
Porque existem pessoas muito ruins no mundo, querida. Ele estava pensando no bem próprio.
Odeio ele. – Oliver olhou para o filho que tinha as mãos fechadas em punhos. – Ele e o Cooper. – Os olhos do filho se encontram com os do pai. – Eu quero eles mortos.
Oliver sentiu vontade de chorar ao perceber que o filho pareceu maduro demais para a idade que tinha. Ele havia passado por muita coisa, e era por esse motivo que tinha aquele tipo de pensamento. Alguém poderia culpar seu pequeno por isso? Claro que não. Ninguém que passou pelas coisas que Bryan e Brooke passaram, não teria algum trauma, ou mudança no comportamento, ou como seus filhos demonstravam a todo momento, amadureciam muito rápido. Ele perceber que sua filha concordava com o irmão, quando a Olhou.
Eu prometo, okay? – Decide dizer. – Eu sei que é a segunda vez que eu não consigo cumprir com a minha promessa...
Você não tem culpa, papai. – Brooke diz, abraçando-o. Ele a abraça de volta, beijando os cabelos loiros.
O senhor não sabia que alguém ia trair a equipe.
Nenhum dos seus filhos o culpava. Mesmo depois das crianças terem ficado transtornadas, quando contou que a mãe deles estava desaparecida, e nenhuma delas lhe gritar, o acusando, o que muito o surpreendeu, Oliver ainda achou que isso aconteceria. Em algum momento, ele esperava a gritaria, pelo menos vindo de Bryan. E ficou ainda mais surpreso, quando os dias se passaram, e isso não aconteceu. Seu filho ficava em seu encalço, quase nunca queria sair de casa, queria ficar por perto, queria sabe de tudo, e mesmo Oliver dizendo que Felicity ainda não havia sido encontrada, o filho apenas o abraçava, preocupado, triste.
Bryan não culpava o pai. Ou o tio, ou os seguranças que cuidavam da mãe dele. Cooper apenas foi mais esperto. E ele odiava aquilo tudo. O garoto de apenas sete anos, começava a ficar mais parecido com o pai do que de costume. Todos perceberam isso quando o garotinho, falou na frente dos tios, que queria que Cooper estivesse morto. Ninguém soube o que dizer, e Oliver, que só havia ficado sabendo sobre aquela história dias mais tarde, ficou tão surpreso que ficou igualmente como os outros, calado, sem saber como ajudar o filho.
E novamente ele se encontrava surpreso. E triste por perceber que seu filho estava amadurecendo mais rápido do que deveria. Por conta de tudo que passou, ele estava fechando o coração, e não era isso que Oliver queria. Realmente, esperava que quando Felicity estivesse de volta, e que tudo estivesse bem, seu filho voltasse a ser uma criança normal. Mas naquele momento, ele só queria dar a segurança que seus filhos precisavam.
Eu prometo que quando eu me encontrar com Cooper, vou tira-lo de nossas vidas de uma vez por todas. – Ele deveria ter falado daquele jeito? Provavelmente, não. Mas essa foi uma maneira de os filhos entenderem que não precisavam temer, mesmo com a mãe desaparecida.
**--**
Felicity andava pela casa mal-assombrada, que Cooper dizia ser a casa deles. Precisava encontrar uma forma de sair dali. Precisava encontrar uma saída. Ela abria cada uma das portas que tinha naquela casa, e eram muitas. Encontrou a sala de jantar, a sala de TV, passou por elas direto, tentando abrir janelas, que ela soube em seguida, eram falsas, assim como as de seu quarto. Não deveria estar surpresa. Ele a queria para si, não faria nada que pudesse dá-la a chance de fugir. E ela fugiria, sem pensar duas vezes. Ela precisava sair daquele lugar de uma vez por todas. Fechou os olhos, tentando pensar. Ela não conseguia, de tão temerosa que estava por saber que a noite já chegava, por conta do horário que batia no relógio de parede. Só de pensar em todas as coisas que ele a fez passar naqueles dias em que estava com ele, em cada toque das mãos deles, em cada beijo, em cada palavra saída da boca dele, seu estômago revirava e seu corpo estremecia por inteiro.
Respirou fundo, olhando ao redor. Pensa, Felicity, pensa. Por mais que tentasse, ela não conseguia. Temia que a noite chegasse. Olhou para o próprio corpo, sentindo nojo. Ela já não sabia quantas noites mais aguentaria ter ele tocando-a. Ter ele machucando-a, com a forma bruta que a tomava para si. Sentia nojo. Estremeceu ao se lembrar da última noite. Ele a pegou desprevenida no banho. Estava tentando relaxar, tentando se esquecer dos toques dele, tentando se esquecer que não estava em casa, ao lado de seu marido e filhos, quando de repente a porta do box é aberta, e ela mal teve tempo de se virar, pois o corpo dele a prensou na parede. Ela sentiu os beijos dele em seu pescoço, e ela pediu, implorou para que ele não fizesse. Ele não a ouviu. Como sempre, como um louco, disse que ela iria gostar. Tomou seus lábios de forma brusca, enquanto seus dedos tocavam sua pele molhada da mesma forma, e ela reprimiu o choro que vinha da garganta. Felicity balançou a cabeça, se negando a se lembrar. Se negando a voltar a pensar no momento em que ele a tomou para si, brutalmente, machucando-a de todas as formas possíveis, enquanto lágrimas desciam pelo seu rosto pálido. Ela não sabia nem mesmo por quanto tempo estava naquele inferninho particular e isso a assustava ainda mais.
Em algum momento, em meio aos pensamentos ruins, enquanto andava pela casa, ela encontrou uma porta. Ela havia encostado a mão na parede e de repente sentiu a porta "secreta". Ficou curiosa. Muito curiosa. Ela nem mesmo havia descoberto como havia chego até ali. Que lugar era aquele? Ela se perguntava enquanto olhava pelo corredor. Era escuro, mas pequenas e fracas lamparinas iluminavam o lugar. Olhou ao redor e percebendo que ninguém estava por perto, abriu a porta de madeira, encontrando uma escada. Seria sua saída? Antes que ela pudesse dar sequer um passo para sua provável liberdade, a porta é fechada de forma bruta. Ela se assusta e dá um passo para trás. Seu medo só piora quando o vê, olhando-a seriamente. Ele estava irritado. Sua respiração se tornou irregular.
Co-Cooper. – Gaguejou.
Onde você pensa que vai?
Eu..., eu só fiquei curiosa. – Mentiu.
Você acha que eu sou trouxa, Felicity? – Sua voz se tornou ameaçadora. – Você ia fugir? Você ia fazer isso, depois de tudo que faço por você? – Ela franziu o cenho. Tudo que faz por mim? ela se pergunta, incomodada. – Você ia fugir. Novamente. – Rosnou cada palavra dita.
Cooper, eu... – Ela estava tremendo, não sabia o que dizer. – É só uma porta, Cooper. Fiquei curiosa, nunca tinha visto uma porta como essa.
Um riso cheio de escárnio sai de sua garganta, antes de me responder. E isso a deixou com mais medo do que seu corpo inteiro já sentia. Deu um passo para trás, vendo-o passar as mãos nos cabelos, de forma irritada. Felicity podia esperar de tudo dele. Bofetadas, pela mentira que ele sabia que ela estava contando. Esperava pelo puxar de seus cabelos, esperava pela brutalidade de suas mãos em seu rosto, ao mesmo tempo em que a prensava na parede. E foi o que aconteceu, segundos depois, com brutalidade, fazendo com que sua cabeça batesse na parede. Ela reprime um "ai". Não deu tempo de levar a mão até onde machucou, pois sentiu a mão grande e pesada dele em seu rosto.
Você acha mesmo que eu sou otário? Que você faz o que quiser comigo? – Grita, fora de si, fazendo o corpo pequeno tremer. – Você acha que pode sumir, me deixar, novamente? Acha que tem o direito de me fazer comer na sua mão e me deixar como se eu não fosse nada? Depois de tudo que eu fiz quando aquele cara te deixou? – De novo a mesma história, ela pensou, mesmo que sentisse mesmo. – Você é desprezível.
Você é desprezível. – Não conseguiu conter. – Eu nunca prometi nada a você, além da minha amizade. Nunca.
Cooper a olhou de olhos arregalados, fulminantes. E ela tinha certeza de que podia ver as labaredas de fogo atrás da íris castanha clara. Ela engoliu em seco. E então, ela sente a visão turva quando sente o lado esquerdo de seu rosto arder. Tinha sido tão forte, que se não fosse pelo corpo dele a prensando, ela teria desabado no chão. Ela o ouve gritar chamando-a de vadia, mas ela não consegue reagir. Seu coração batia descompassado, pior do que já estava, suas mãos suavam, seu corpo tremia, seus olhos ardiam, por conta das lágrimas que ela reprimia. A loira leva a mão até onde ele havia lhe acertado. Ela precisava fazer que ele se acalmasse, não gostaria de levar uma surra.
Cooper...
Cala a sua maldita boca. – Ele grita, interrompendo-a. – Você perdeu a noção de com quem está lidando.
Eu sei bem com quem estou lidando... – Ela sussurrou, mas ele estava tão furioso que não a ouviu.
Você é uma mal-agradecida. – Rosnou.
E você um lunático, doente, completamente desequilibrado.
Felicity se surpreende e se desespera, quando ele coloca uma das mãos em volta de seu pescoço, fazendo-a bater a cabeça na parede mais uma vez. Ele aperta os dedos na garganta dela, pressionando-a para trás, chegando a tirá-la do chão com uma só mão, com tamanha fúria. Ela tentava respirar, enquanto suas mãos agarram o braço dele, tentando a todo custo fazer com que ele a solte. Ele nunca havia feito algo como aquilo, nunca. Enforcá-la, tinha sido a primeira vez, e tentar fazê-lo soltar seu pescoço era inútil, afinal, ele era muito mais forte que ela. Felicity começa a perder suas forças, em algum momento. Seus olhos se encontravam arregalados, por conta da falta de ar. Felicity se desespera, tenta socá-lo, mas estava muito fraca. Suas vistas pesam, e ela pensa no quão próxima de morrer ela estava. Ele a mataria, se a soltasse. Mas quando ela estava prestes a fechar os olhos, ela sente seu pescoço ser solto, e então seu corpo desaba no chão, sem forças, enquanto tosse de forma desesperada, procurando pelo ar que havia ficado sem, por alguns minutos, que para ela, pareceram horas.
Felicity. – Ela ouviu sua voz, dessa vez, de forma mansa. – Meu amor, me desculpe. – Ela não conseguia responder, e nem queria, porque com certeza o chamaria de louco, e acabaria levando uma bofetada. – Me desculpe. – A abraçou. – Não queria te machucar dessa forma, amor. Não queria. Mas você me deixou possesso. – Ele beijou os cabelos dela. – Eu não queria te deixar assim. Respira fundo, okay? – Ele não precisava pedir, ela pensa, enquanto continuava tossindo fortemente, sentindo o ar voltar para seus pulmões. – Vou te levar para o quarto. – Ela não respondeu, apenas o deixou a levar no colo, mesmo que sua vontade fosse fugir dele, dizer que tinha nojo, e se esconder em seu quarto pelo resto do dia.
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A barriga extremamente grande, lhe dizia que estava grávida. Felicity se olhou no enorme espelho do quarto, sorrindo. Passando a mão na barriga elevada, sentiu o bebê chutar. As roupinhas por de rosa em cima da cama, lhe dizia que era uma garotinha. Talvez a garotinha que ela e Oliver sonhou quando ainda eram apenas namorados, a tantos anos atrás. A garotinha identicamente a ela poderia nascer a qualquer momento. Sentiu novamente um novo chute e mais um em seguida. Ela era forte, e parecia estar querendo lhe falar. O vestido que vestia era um pouco curto demais, mas ela não parecia estar se importando. Andou pelo quarto, falando com a garotinha que parecia não querer parar de chutar tão cedo. Por mais que adorasse sentir aqueles chutes, estava cansada e precisava que a filha se acalmasse.
A pequena parou de repente. Felicity sorriu, se colocando em frente ao espelho novamente, agradecendo a pequena, por deixá-la descansar um pouco. Seus olhos estavam lacrimejados de emoção. A loira estava feliz, animada, extasiada. Mal podia esperar pelo nascimento daquela criança. Sua mão deixou a barriga elevada, andando até o quarto infantil, que havia a em frente ao quarto do casal. O quartinho infantil era completamente rosa, havia bonecas de pano, ursos de pelúcia e um berço igualmente ao que comprou para Bryan e Brooke quando eles eram dois bebezinhos. Sorriu com a lembrança, tocando no berço.
No instante seguinte, Felicity se vê, ofegante, e em uma maca de hospital, tendo sua filha. Ela não conseguia entender como havia parado ali, era como se tivesse dormido e acordado naquele lugar extremamente branco, sentindo a maldita dor do parto. Estava ansiosa para ver a filha, mas aquela era uma dor que ela gostaria de nunca sentir. Estava suada, e ninguém além dos médicos ao seu lado. Ela se perguntou onde estava Oliver, e teve a resposta, quando no momento seguinte, ele entra no quarto, agora mais para cor gelo, com a pequena criança em seus braços, coberta por um manto cor-de-rosa. Entregou a pequena para a mãe, sorrindo. Ela olhou para a menina e sorriu. Os cabelos negros, os olhos verdes, a pele tão leitosa quanto a dela. Era como se estivesse vendo a si mesma na filha. De repente ouviu a porta se abrir, quando seus olhos subiram, ela viu o homem que ainda lhe dava pesadelos.
Não.
Como está nossa princesinha, meu amor?
Não, não. — Balançou a cabeça. — Oliver? — Quando olhou em volta, não o viu. Ele já não estava ao seu lado. — Oliver? — O homem se aproximava cada vez mais, e as lágrimas começaram a descer por seu rosto, enquanto segurava com força a bonequinha em seus braços.
Nossa filha é linda, meu amor.
Não! — Gritou, sentando-se de forma desesperada, ofegante. Olhou em volta, percebendo que ainda estava naquela maldita casa assombrada, em cima da maldita cama na qual dormia todas as noites. — Oh, Deus. — Chorou, abaixando a cabeça. — Foi só um pesadelo. — Soluçou. — Só um maldito pesadelo. — Fungou.
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