Cromossomo X
1 Capítulo I
Notas iniciais
O silvo estrondoso da banda, de forma impiedosa, a despertou com suas cornetas e bumbos exatamente no momento em que o velho relógio de cascalho batia três horas. Se levantou como pode, ainda atordoada de uma noite de sono difícil, fechando a janela com um braço enquanto acariciava a sua própria cabeça como se estivesse se consolando pelo descuido de deixar a janela aberta aquela noite. Dentro do quarto o silêncio contrastava com o barulho exterior apenas o ventilador de teto produzia algum som naquele ambiente, o colchão sujo e suado exalava um odor que se assemelhava a repolho podre tal qual o eflúvio do seu corpo. Era dia oito de março e, como de costume, a banda oficial do exército/nação desfilava na larga Avenida Joana D’Arc, uma espécie de celebração e exaltação da vitória e do estabelecimento do novo regime. “Preciso de um banho”, pensou.
Ela era diferente, não compreendia bem o formato do seu corpo, não possuía curvas definidas como as outras e seus seios nunca se desenvolveram, coisa que disfarçava com uma quantidade considerável de papel higiênico e sutiã de bojo. Seu ombro era largo e musculoso, coisa que a incomodava pois nunca conseguia usar vestidos de alças finas, limitando suas vestimentas para apenas uma camiseta preta e jeans. Isso sem mencionar os irritantes cabelos escuros que brotavam como parasitas em seu rosto e por todo seu corpo toda manhã.
De fato, ela era diferente do resto. Por essa discrepância física, sempre fora impossível formar e consolidar as relações mais básicas humanas, as pessoas a olhavam diferente. Sua mãe, Dona Marta, antes de desaparecer, gastava horas tentando modificar e moldar o seu corpo. Produtos cosméticos, depilações, cintas que machucavam o disforme corpo na desesperada tentativa falha de torná-lo mais volumoso.
Nunca frequentou escolas, Marta sempre dizia o quanto não acreditava na educação oferecida, sendo ela pública ou privada. Todas as tardes, dissertava sobre suas visões, questionamento filosóficos e a enchia de exercícios matemáticos. Sua mãe era uma fêmea riquíssima de conhecimentos e questionamentos, trabalhava como progenitora na clínica de reprodução, porém não gostava muito de falar do seu trabalho. Apesar de fingir aceitar de bom grado as decisões de sua mãe, sempre se pegava pensando na possibilidade dela sentir, no seu mais íntimo pensamento, vergonha de sua filha.
Após seu longo processo vaidoso, correu para acompanhar o fim do desfile. Um desfile lindo, longas faixas coloridas se espalhavam como veias e artérias na grande avenida e o exército, sempre sincronizado, tocava as músicas no ritmo continuo que lembrava muito as batidas cardíacas. O posicionamento da banda era um show à parte, a formação da banda lembrava muito a estrutura externa do corpo humano. Um espetáculo que simbolizava a vida. Desfiles como esse se tornaram menos comuns depois que começara a Grande Guerra, o país se fechou completamente por possíveis ataque terrorista. Todos os dias as mídias relatavam os mortos e feridos fazendo suas devidas homenagens. Viagens foram proibidas, o país se fechou para se fortalecer. E isso já durava 200 anos.
– Ei — alguém a chamava, ela olhou para trás tentando descobrir quem tinha proferido aquele som e sem obter maiores respostar começou a pensar que havia imaginado aquele som.
– Eu sei o que você é — disse a senhora encapuzada que se aproximava como um nevoeiro, por sua voz notava-se que já possuía uma idade avançada.
– Desculpa, você deve estar me confundindo — disse com o sorriso mais simpático que poderia esculpir.
– Sou uma velha amiga de sua mãe, Marta e eu costumávamos trabalhar juntas.
– Bem, faz um tempo que ela desaparece, você deve ter acompanhado as notícias – disse sem jeito e com um tom triste.
– Podemos entrar? Por favor, a idade já não me permite ficar nessas baboseiras festivas.
– Certeza? É tão bonito
– Não tem nada de bonito nisso – respondeu com desdém e sem esperar um convite foi entrando na casa. “Que velha mal educada” pensou, mas por ser uma velha amiga de sua mãe reconsiderou qualquer tipo de desfeita que pudesse proferir.
– Aceita um café? – perguntou sutilmente enquanto fechava a porta.
– Escuta – interrompeu a senhora – Eu não tenho muito tempo e não existe maneira fácil de dizer isso. Você é um homem, um macho de nossa espécie.
– Acho que a senhora não está se sentido bem – respondeu rindo – Essa coisa de macho é só para animais, somos humanos! Não somos feitos em pares.
– Não, não! – exclamou – Seu nome é Gabriel e você é o único homem que ainda resta nesse país!
– Entendi, entendi. – respondeu com um debochado.
– Você não acha estranho suas diferenças, como seu corpo e seu rosto é diferente das outras pessoas? – gritou – Apesar de todo esforço da sua mãe, apesar de tudo, eu não sei como ainda não descobriram você.
– Como você ...
– Escuta, aqui não é um lugar seguro para você. – disse acalmando um pouco sua voz. – Siga-me.
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