Crisântemos & Margaridas
1 1°. Dormideira
Notas iniciais
É sério gente se tiver qualquer dica eu super vou ficar feliz em ouvir :)
DORMIDEIRA: variedade de papoula. Possuem folhas penadas cujos folíolos se dispõem ao longo do pecíolo; caracterizam-se por se contraírem quando tocadas.
Era noite de lua cheia. E os feixes de luz prateada brilhavam como holofotes sobre a frente da casa dos Watanabe. Laura Brunet olhou para os dois lados — torcendo para que nenhum vizinho visse o que estava prestes a fazer — e agarrou o topo do muro de pedra. Ela encaixou seu pé em uma fenda entre as rochas, jogou o corpo para cima e... Seus dedos ficaram presos. Laura fez ainda mais força para soltá-los, se impulsionou demais e ao invés de cair graciosamente como um gato, ela rolou pelo muro e despencou como um cacho de bananas.
Ignorou o instinto de bater a poeira ao se levantar e atravessou o quintal. Seu peito doía de tão acelerado, e ela não seria capaz de segurar um copo sem tremer. A casa do outro lado era toda feita de tábuas de madeira, como uma das cabanas dos três porquinhos. Só por essa noite, ela seria o lobo.
Ela colou o rosto a uma das janelas. Lá dentro havia uma sala simples, com o básico de mobília e nenhuma decoração a não ser prêmios acadêmicos e o que pareciam, embora ela não tivesse certeza, fotos de família. Era incomum que um homem na posição do Sr. Watanabe, com dinheiro e influência, morasse em um lugar como aquele. Laura não pode evitar comparar o lugar com sua própria casa, fazia a mansão dos Brunet parecer grande demais, branca demais, arrogante demais.
Algumas coisas que faltavam ao terreno, no entanto, não deviam ser consideradas dispensáveis. Como um jardim! Era tão estranho. Que tipo de bruxo não tinha um jardim ou uma horta? Poções são mais eficientes quando preparadas com ingredientes frescos. Todo mundo sabe disso.
Como alguém assim tinha ousado competir com ela? Como alguém assim tinha ousado furtá-la?! Será que ele realmente acreditava que teria vencido se ela não tivesse uma, vamos dizer... Vantagem?
Porque não teria...
Né?
Laura chacoalhou a cabeça, jogando suas dúvidas — e culpa —para fora. Ela não havia alterado muito a receita durante a competição de poções. Foi uma gota, uma única gota de sangue de não-bruxo, apenas para garantir a vitória. E agora tinha que invadir a casa de seu adversário durante a madrugada, porque o feiticeiro metido a Sherlock Holmes tinha roubado seu recibo.
Devido a toda a fiscalização da compra e venda de sangue, seria fácil chegar até ela, o número da licença do consumidor vinha estampado tanto no recibo quanto na própria ampola. E o maldito havia levado os dois! Se os pais dela descobrissem ela estaria morta. Ou algo pior.
Porém, o que mais a incomodava era que Kazumaki Watanabe não tinha nada a perder. Para ele a Competição Anual do Colégio Brunet era apenas uma disputa escolar. Mas no caso de Laura, a honra da sua família estava em jogo.
Seus avós tinham dedicado a vida para construir aquele colégio, uma instituição revolucionária em que jovens bruxos poderiam aprender matérias humanas como Geografia e matérias mágicas como História Bruxa. Quando eles faleceram, sua mãe se tornou responsável por dirigir o lugar, e algum dia Laura faria o mesmo. Por isso seria algo além de humilhante se ela perdesse.
Se ela não fosse a bruxa mais talentosa do colégio, seus pais prefeririam que nem bruxa fosse. Só de pensar em ter que dizer a eles o que havia feito, algo no fundo de seus olhos começava a arder. Heitor e Izabel não eram do tipo que perdoavam.
Mas Laura nunca permitiria que as coisas chegassem a esse ponto. Então ela se esgueirou para dentro da casa como um ladrão, seguiu até o corredor no final do cômodo e abriu a primeira porta. Por sorte, era o quarto certo. Ela soube imediatamente quando viu o mural na parede, dezenas, talvez centenas, de páginas arrancadas de livros. Todos poemas. Ela só conhecia um único bruxo estúpido o bastante para arruinar um livro propositalmente. Se ela já não o odiasse, agora seria um ótimo momento para começar.
Kazumaki dormia cercado por travesseiros; um entre seus braços, mais um entre as pernas. Um anjo entre as nuvens. Um anjo com cabelos e olhos escuros como um pesadelo. Ele parecia tão tranquilo. Se ela esmagasse a cabeça dele com uma pedra naquele momento mesmo, ele morreria em paz? Laura esperava que não.
Ele se remexeu.
Laura deu um pulo para trás. Retirou um pequeno saco de veludo preto do bolso, enfiou a mão, tremendo, pegou uma pitada do moído de plantas que havia deixado preparado e soprou sobre o rosto dele. Kazumaki espirrou, como era de se esperar, e se desligou gradativamente, até estar tão relaxado que roncava.
Laura suspirou de alívio e começou a busca, revirou cada canto daquele quarto, mas sem sucesso. Fechou uma gaveta com um pouco de força demais, Kazumaki se revirou e ela pensou ter escutado alguma coisa tinir. Abriu e fechou a gaveta. Ele se mexeu. Um tinido soou abafado, vindo do travesseiro embolado junto às pernas dele.
Tinha três opções:
a) Puxar o travesseiro. Mas a quantidade de pó de dormideira que havia dado a ele não era o bastante, ele com certeza acordaria com um movimento brusco como aquele.
b) Usar mais pó de dormideira. Só que poderia ser perigoso o forçar a ingerir mais. E se ele entrasse em coma? O Sr. Watanabe, pai de Kazumaki, era o presidente do Ministério de Controle da Magia. Se ela machucasse ele, ia acordar nas Masmorras.
c) Se aproximar e enfiar a mão por dentro da fronha do travesseiro. Oh, céus. Não ia ter jeito. Ela implorou a todas as suas ancestrais para que não permitissem que ela esbarrasse em... Urgh. Preferia nem pensar.
Colocou a mão para dentro, tateou e... Conseguiu! Ela deu as costas, pôs o recibo no bolso junto ao saco de veludo e analisou o conteúdo da ampola. Realmente tinha conseguido!
— Laura Brunet — a voz entoou atrás dela, com fagulhas de divertimento — Você é tão previsível.
Laura girou em seus calcanhares, dando de cara com Kazumaki de pé. Ela arfou e, em seu momento de espanto, o vidro que continha o sangue deslizou de seus dedos e se espatifou sobre o chão.
— Eu... Eu não...
— Não achou que eu fosse acordar? — ele arqueou as sobrancelhas, a expressão tomada por um meio sorriso — Você sabe onde pôs a mão?
Laura nem se incomodou em disfarçar quando revirou os olhos. Tão irritante. Mesmo assim, as bochechas dela esquentaram. Ela se apressou em cobrir com as palmas antes que ele visse.
— Nem foi tão perto.
— Infelizmente.
Ok... Ok. Essa era novidade.
Eles olharam um pro outro. Laura desviou primeiro. Dele para porta. Kazumaki deu um passo para o lado, se colocando no caminho, e suspirou.
— Caso você esteja se pergutando algo como "Caldeirões! Por que eu pensei que seria páreo para alguém tão esperto e bonito? Uma mente brilhante capaz de prever minhas ações e preparar um contrafeitiço antecipadamente! Como ele fez isso?" — ele parou, esperou que ela disesse algo. Mas tudo que conseguiu foi um franzir de sobrancelhas — Não olhe para mim assim, Laura. Eu sei que você está.
— Não. Nem um pouco.
Ele cruzou os braços e apertou os lábios um no outro, os olhos se estreitando com desconfiança.
— Então você não quer saber?
Laura sacudiu a cabeça em negação. Kazumaki deu um meio sorriso. Droga. Ele sabia. Ela não queria dar esse gostinho a ele, mas a curiosidade devia estar estampada em todo seu rosto.
— Pimenta — ele disse — Eu preparei um contrafeitiço a base de pimenta em pó. Foi uma situação bem desconfortável.
— Faz sentido — Laura começou a juntar os pontos, ela não conseguiu evitar relembrar a expressão de frustração no rosto dele ao dizer "infelizmente". Se ele usou pimenta... — Um dos efeitos colaterais pode ser o aumento da sua lib...
— O fato de que eu me sinto como um cachorro no cio? — deu de ombros — Como eu disse, é uma situação desconfortável. Mas eu sabia que valeria a pena. Você devia ter visto seu rosto quando percebeu que eu estava acordado. Impagável. Agora, se você puder ser sensata e me devolver o papel que eu sei que está no seu bolso — ele estendeu a mão, esperando que ela o entregasse o recibo.
Não mesmo. Ela não iria embora de mãos vazias. Kazumaki deve ter visto isso em seus olhos, porque deu um passo adiante. Laura não pensou, apenas sussurrou o encanto e prendeu a respiração.
Droga, droga, droga. Não costumava tomar esse tipo de atitude impulsiva. Um feitiço de ar, sério? Ela era péssima com magia de ar. O tipo em que você retira energia de si mesmo, o tipo que te deixa a ponto de desmaiar e que exige resistência física e treinamento. Ficar invisível era como mergulhar, cada vez mais fundo, com o peso do oceano sobre a sua cabeça. Com o tempo, seus pulmões começam a implorar por ar, você fica exausto. Mas não pode respirar antes de ficar visível, ou vai se afogar.
Um minuto, no máximo, era todo o tempo que sabia que aguentava. Ela se apressou em direção à porta. Infelizmente, Kazumaki teve a mesma ideia, correu até lá e girou a chave na fechadura. Depois voou com ela para frente da única outra sáida, a janela, onde parou como um guarda.
— Desista, Laura. Você não vai aguentar por muito tempo.
Pura verdade. Pelas contas dela já haviam se passado cinquenta segundos. A região da sua testa até o nariz já estava dolorida, faltava pouco para que a agonia se espalhasse até o tórax.
Ela tinha uma última ideia. Mas estava disposta a se arruinar ainda mais? Um pouco de pó de dormideira era aceitável, porém, a quantidade que ela teria que lançar em Kazumaki para passar por cima do contrafeitiço dele... Se desse errado, ela definitivamente estava indo para as Masmorras.
— Laaauuraaaa... — ele cantou — Eu sei que você vai aparecer.
Dois segundos. Ela se decidiu. Ficou visível.
Kazumaki assistiu ela puxar o recibo do bolso e atirar com tudo para dentro da boca.
— Não! — ele pulou. Espalmou as mãos nas têmporas dela, segurando-a pela cabeça — Cospe. Agora.
Os dois estavam muito perto um do outro. Laura encurtou ainda mais a distância e seus lábios se juntaram em um O. Por um momento, o luar dançou pelo rosto dela e o olhar dele, que já estava em sua boca, mudou. Seus olhos ficaram ainda mais escuros, tomados pelas pupilas. Devia ser a pimenta. Ele os fechou. E Laura soprou todo o pó de dormideira que havia colocado na boca junto com o papel.
Kazumaki caiu para trás instantaneamente. Ela agachou ao lado dele e botou um dedo sob seu nariz. Sentiu ar quente tocar sua pele.
Ele estava respirando.
Caldeirões! Ela tinha que se lembrar de agradecer às ancestrais.
Fale com o autor