Crise de Riso do Paciente no Leito 7
1 Nunca duvide da sabedoria sua avó.
09/12/2017
Era um sábado, fim de tarde, tudo aparentemente normal. A família de Erick estava no quintal de casa discutindo se iriam passar o Natal em casa ou na praia. Ele teria adorado participar daquela conversa ou mesmo estar se arrumando, como sua irmã Jéssica, para ir a alguma festa, mas felizmente ou não, não podia. Estaria de plantão naquela noite.
Passou pela porta e parou de frente à cadeira da vó, abaixando-se – Vai com Deus, meu filho. – a velha fez o sinal da cruz na testa do rapaz e em troca recebeu um beijinho na cabeça. Não que ele ligasse para a crença dela, mas respeitava o costume.
Erick era enfermeiro, recém formado. Por mérito, sorte, destino ou mera bondade do universo − como queira chamar − conseguiu uma vaga de emprego em um hospital conceituado em São Paulo, no qual recebeu efetivação no cargo após um longo ano de estágio ao final da faculdade.
Não era uma rotina fácil ter que trabalhar à noite e também aos fins de semana, com plantões exaustivos de 12 horas mais as horas extras que ele fazia quando na verdade deveria estar de folga. Apesar disso não reclamava, pois trabalhava exatamente onde queria: na UTI.
A UTI era um setor digamos... curioso. Era o local de internação dos pacientes mais graves do hospital e também um dos setores mais dinâmicos. Cada plantão era uma caixa de surpresas pois tudo, acredite TUDO mesmo, pode acontecer em uma UTI. Inclusive os eventos ditos como “sobrenaturais”.
Hospitais são vistos por alguns como locais de grande quantidade de energia mística, pois ele está bem em cima da linha que separa os grandes portões da vida e da morte... Bom, na cidade pelo menos.
Quando alguém nasce, é imediatamente recepcionado pelos médicos e obstetras e quando alguém morre é despedido e o corpo preparado ainda pelas equipes dos hospitais. Pessoas ficam por um fio dentro daquelas salas frias, esperando que a Velha Senhora venha com sua foice cortar-lhes os laços que atam sua alma ao corpo.
Para aqueles que têm consciência de que o invisível é tão vivo e real quanto o visível e palpável é um bom lugar para se estar, porém para um cético como Érick nada disso fazia o menor sentido.
Não fazia sentido, até aquele dia.
Para ele era apenas um lugar que servia de palco para a ciência, tudo ali era baseado em evidência cientifica, em teorias de autores renomados, protocolos instituídos, pesquisas e estatística. Além de, obviamente, ter a adrenalina de não fazer a menor idéia de como seria o desenrolar do plantão.
− Finalmente você chegou, Erick – Anna se aproximou tirando o estetoscópio do pescoço e colocando no balcão. – venha, vou te passar o plantão.
− Certo, você está bem?
−Sim... só estou cansada, como sempre. – Ela deu um sorriso amarelo e começou a folhear uma pilha de papel que estava em cima da Ilha. Além disso estava com o cabelo um pouco desgrenhado, talvez por que o turno tenha sido agitado, e olheiras por ter feito um plantão de 24 horas.
Eles percorreram a unidade em circulo, passando pelos 6 leitos até chegar ao número 7 . – E este aqui é o último... – eles pararam de frente para o homem que estava sedado. − ...Se envolveu numa briga durante o trabalho e o colega acertou o rosto dele com um maçarico. Está estável agora, 10% de área queimada, sem comprometimento de vias aéreas e demais sistemas em homeostasia. Se continuar assim receberá alta da UTI amanhã de manhã. – ela colocou o prontuário dentro do suporte de papel que ficava grudado aos pés da cama, bateu no ombro do rapaz e sorriu com vontade – Boa sorte.
Erick a acompanhou até a ilha onde pôde se despedir dela e cumprimentar os demais colegas de trabalho: duas técnicas de enfermagem e um médico intensivista.
Começou a executar seu trabalho delegando tarefas, checando exames, conferindo o que havia sido feito nas ultimas 48 horas para poder adiantar as evoluções de enfermagem dos pacientes e atualizar a SAE de cada um que estava sob sua responsabilidade. Nada que exigisse muito dele naquela noite. O plantão estava tranqüilo, os pacientes dormiam na maior parte do tempo enquanto ele ficava ali, vez por outra, checando os monitores.
Era 03h15min da madrugada, o médico do plantão se ausentou da UTI e foi descansar na sala de Conforto Médico. Uma das colaboradoras foi buscar material no almoxarifado e a outra ajudar a equipe do centro cirúrgico. Erick ficou sozinho no setor, mas isso não era problema o plantão estava calmo e não seria primeira vez.
O silêncio pairava na UTI e o vento forte uivava do lado de fora da janela prenunciando chuva. Aquela quantidade de papel o enfastiava e por mais que desejasse a melhora de seus pacientes, também desejava um pouco de ação e dinamismo. Pensava que talvez mudar de horário com a Anna não fosse má idéia ou, quem sabe, com qualquer outro colega da manhã.
Tudo estava quieto...até aquele homem do leito 7 começar a rir, de repente.
O homem começou com uma risada tímida enquanto olhava para o lado em que ficavam os monitores de cabeceira e as bombas de infusão. Erick se aproximou curioso em saber o que estava acontecendo, afinal, não era para ele estar acordado.
Quem foi que interrompeu a sedação dele? Será que a bomba está com defeito? O Dr. interrompeu e não avisou? Por que ele estava rindo assim? Checou os aparelhos, olhou em volta e tudo permanecia na mesma inércia, o médico não havia retornado nem as suas técnicas de enfermagem. Não tinha à quem pedir ajuda, ainda estava sozinho.
O rapaz retirou os papeis do prontuário do suporte e começou a folhear checando todos os dados e conferindo com o monitor, mas a essa altura todos os padrões já estavam alterados. Freqüência cardíaca, respiratória, saturação e temperatura já não eram os mesmo que há cinco minutos. O paciente ria e ria cada vez mais alto até não suportar mais olhar para o lado, abraçar a barriga e começar a se engasgar de tanto gargalhar. Aquilo não fazia sentido nenhum!
− Senhor, o que está acontecendo? – Ele elevou o tom de voz para que fosse ouvido, além disso, levantou a barra da cortina que dividia os leitos em busca de algo suspeito que aquele homem tivesse visto e desencadeado a crise. O paciente ao lado parecia estar em sono profundo mesmo no meio daquela gritaria.
− Senhor, senhor, preciso que me responda! Você consegue? – ele segurou os ombros do homem e o olhou atônito.
O homem começou a tossir para tirar a saliva da garganta, lágrimas surgiam no canto de seus olhos. Ele apontou para a ilha da UTI sem dizer uma palavra e quando Erick se virou, “entendeu” do que se tratava.
Toda a pilha de papel que estava em cima do balcão da ilha agora estava espalhada ao redor no chão, enquanto uma sombra escura se materializava tomando a forma de uma criatura onde antes só havia papel.
Crises de riso não são desencadeadas apenas quando estamos felizes ou achamos graça em algo. Ela surge quando estamos sob grande tensão, nervosos ou com medo. E era exatamente o que o corpo daquele homem queria dizer à Erick, que ele estava morrendo de medo.
Mas agora o enfermeiro sabia, por que estava vendo e também sentindo. Seu corpo tremia e sua mente se negava em acreditar naquilo, como isso era possível? Não conseguia se mexer e sua boca abriu involuntariamente.
Sentiu um vento entrar frio pela janela e num átimo, como se tivesse sido despertado de um transe, agachou-se e se encolheu próximo aos equipamentos cobrindo a cabeça e rezando o Pai Nosso que sua avó havia lhe ensinado na infância.
Pai nosso que estais no céu, santificado seja o Vosso nome. Venha a nós o Vosso reino, seja feita a Vossa vontade assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos daí hoje, perdoai as nossas dívidas assim como perdoamos os nossos devedores. Não vos deixeis cair em tentação e livra-nos de todo o mal! Amém.
Se sentia vulnerável, apesar de já ser homem formado e também um medroso por que há uns 10 minutos atrás podia jurar que essas coisas não existiam, que eram só historinhas para assustar crianças. Mas não, aquela porra era real. Ele viu! Estava sóbrio, bem de saúde, não usou droga nenhuma e que bem soubesse, não tinha problema nenhum na cabeça.
Respirou fundo e contou até três, não podia ficar ali feito um moleque chorão. Levantou-se e quando se virou novamente em direção à ilha franziu o cenho e coçou os olhos para tentar entender a cena.
Estava tudo normal, os papeis em cima do balcão do jeito que ele havia deixado, os paciente dormindo, só ele de funcionário, aquela nérvoa demoníaca já tinha ido embora e a porta da UTI estava aberta. Escancarada.
Olhou para o leito do homem queimado e ele já não estava mais lá, tinha fugido. Erick não fazia idéia de como ele saiu sem ele próprio ou outro funcionário ter visto. Não conseguia distinguir o que era pior, ver o demônio ou ser demitido por justa causa no meio de uma crise.
Chamou o médico para ficar no seu lugar e correu o andar em busca do homem até resolver partir para os demais andares, chamou o segurança e logo avisou “isso fica entre a gente”. Sabendo que perder um paciente de uma unidade de monitoramento contínuo, seria inadmissível. Por que afinal, quem acreditaria no seu motivo? Quem acreditaria no que ele viu? Ninguém.
Foi quando Deus se apiedou dele e permitiu que seu alvo fosse encontrado. O homem vagava errante pelo corredor da pediatria devagar e silencioso, descalço, arrastando o fio dos acessos venosos no chão, com olhar apático mas fixo como se estivesse seguindo alguém.
Erick se aproximou com o segurança e conteve o paciente, que não resistiu. O homem foi reencaminhado para a UTI e contido no leito para que não fugisse mais, o rapaz não perdeu o emprego mas foi advertido e ganhou também uns dias de folga além de uma consulta com o psiquiatra.
Nunca mais desdenharia das crenças de sua avó.
Notas finais
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Até mais.
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