Criminal
6 Allison
Na manhã seguinte, tudo o que se falava era sobre o assassinato de Dave Benson. Allison havia ido para escola acompanhada por Melissa e Connor, e o assunto era o que mais ouvia entre os sussurros do corredor.
- Achei que não fosse ter aula hoje. – disse Melissa. – Nos outros ataques a escola fez luto no dia seguinte.
- É a oitava vez que acontece. – falou Connor, fechando a porta de seu armário e jogando a mochila sobre um ombro. – Acho que eles decidiram abandonar essa de fechar a escola no próximo dia.
- Quem foram as outras? – perguntou Allison, repentinamente. – Digo, as vítimas anteriores.
- Foram quatro garotas, três delas eram veteranas e uma estava no segundo ano; e três garotos, todos do último ano. Dave foi o quarto menino a ser morto. – respondeu Melissa.
Allison ficou pensativa e não falou mais nada. Connor e Melissa estavam se dirigindo para a sala de aula quando perceberam que Allison não os acompanhava. Melissa virou-se para trás e falou, tirando Allison da espécie de transe em que se encontrava:
- Você vem?
- Ahn, claro. – respondeu, balançando ligeiramente a cabeça e piscando para se livrar dos pensamentos. – Qual a primeira aula?
- Temos Química. – disse Connor, suspirando. – E, infelizmente, hoje é dia de teste.
- Teste?! Eu mal entrei nesse colégio! – exclamou Allison.
- Não se preocupe, talvez o Sr. Cleffer só vá pedir que você se junte a alguém e observe. – Melissa tinha um tom tranqüilizador natural em sua voz. – E, além do mais, você já tem as notas da sua antiga escola. Talvez só vá ter que fazer o último teste do semestre.
Em frente a porta da sala de aula, Allison hesitou. Melissa sorriu e colocou o braço em volta de seus ombros.
- Ainda preocupada sobre a prova? Ah, vamos, mesmo que por um acaso o professor mande você fazer, tenho certeza de que é excelente em Química. Diferente de mim. – ela riu.
Allison deu um meio sorriso e entrou. Não estava realmente preocupada sobre o teste de Química, – Melissa estava certa, ela era consideravelmente boa na matéria – mas algo a fazia se sentir estranha. Apesar de já ter feito dois amigos em apenas três dias, sentia que não pertencia àquele lugar. Era uma cidade muito pequena, monótona – apesar dos ataques que vinham acontecendo ultimamente – e onde todos se conheciam. “Talvez seja apenas o fato de que eu não estou acostumada a viver em um lugar assim”, pensou. A cidade onde ela morava antes parecia, de certa forma, mais privada. As pessoas cuidavam de suas próprias vidas. No fundo, o que mais a fazia estranhar Breaken Valley era que todos na cidade conheciam um ao outro.
Como uma pessoa seria capaz de esconder o segredo de um crime em um lugar onde todos sabem os segredos dos outros?
Aquele pensamento a fez parar. O assassino não poderia ser alguém de fora. Não fazia sentido; se fosse apenas uma morte, ela até poderia considerar que algum serial killer invadiu a cidade, atacou uma pessoa aleatoriamente e depois saiu para continuar sua onda de assassinatos. Mas oito mortes? Certamente o assassino vivia entre os moradores da cidade. Ele era um deles. Porém, quem quer que fosse, era muito bom em se esconder.
A voz do professor cumprimentando a turma interrompeu seu raciocínio. Ao redor, os alunos foram silenciando suas conversas e virando-se para frente nas carteiras.
- Muito bem, turma. – falou ele. – Espero que já tenham escolhido suas duplas.
Allison olhou para o lado, para Connor e Melissa, que sussurrou:
- Fala com ele!
Hesitante, ela levantou e foi até a mesa do professor.
- Sr. Cleffer? – chamou. – Eu queria saber se também tenho de fazer a prova.
- Allison Robins, certo? – ele ergueu os olhos por detrás dos óculos e encarou-a. – Sim, falei com a diretora sobre você. Bem, você tem boas notas em seu histórico, e eu pensei o seguinte: Você faz a prova, e o que tirar será adicionado como bônus na sua média. Se for mal, não terá problema. Tudo bem se for assim, ou tem alguma outra sugestão?
- Não, tudo bem. – disse Allison.
- Então sente-se e escolha uma dupla. Alguém aí está sem um parceiro?
A turma pareceu não dar atenção ao professor. Todos continuavam cochichando ou mexendo nos materiais. Allison voltou ao seu lugar e olhou para seus amigos. Melissa percebeu o que a incomodava e falou:
- Allison, eu sei que você não conhece ninguém além da gente, e que você espera que um de nós faça dupla com você. Só que eu realmente preciso ir bem nessa prova, e Connor prometeu que me ajudaria.
- Tudo bem. – Allison respondeu, tentando esconder que se sentia completamente perdida naquela sala onde não conhecia ninguém além deles dois.
- Na próxima um de nós faz com você, ok? – disse Melissa, virando-se para Connor e começando a arrastar sua classe até juntá-la com a dele.
Allison olhou ao redor. Todos estavam com as duplas formadas, exceto cinco pessoas em um canto da sala.
Quatro garotas cercavam um garoto, cada uma pedindo-lhe para que fizesse a prova com elas. Elas exibiam sorrisos falsos e escancarados e mexiam no cabelo, enquanto jogavam-se para cima dele, e volta e meia discutiam entre si. Oferecidas, Allison não pôde deixar de pensar. Então reparou no garoto, que parecia impaciente e atordoado com a situação. Era Carter Black. O garoto que vira no refeitório no dia anterior, sendo seguido pelas líderes de torcida. Ficou alguns segundos encarando-o sem se dar conta e, de repente, viu que ele agora olhava de volta para ela. Desviou o olhar ao perceber, virando o rosto para o outro lado da sala, à procura de uma dupla.
- Chega! – ouviu uma voz masculina vinda do canto onde as garotas travavam uma disputa por Carter. Só poderia ter sido ele quem gritara. – Formem duplas entre vocês! Eu faço com a novata.
Allison congelou. Esperou alguns segundos e, quando percebeu, ele estava ao lado da sua classe.
- Ei, tudo bem se eu fizer o teste com você?
Ele era o único aluno que havia sobrado para que ela pudesse fazer a prova. Lentamente, ela virou-se para o lado onde ele estava, e sentiu-se ainda mais constrangida ao encará-lo. Se de longe já o achara atraente, de perto ele era dez vezes mais. Tinha olhos extremamente azuis e cabelos pretos um tanto despenteados. Ela fez que sim com a cabeça e ele sorriu de volta, exibindo um sorriso que completava sua aparência já estonteante.
Carter arrastou uma mesa próxima até a dela e sentou-se. O professor, depois de reclamar que a turma demorara a se organizar entregou as provas. Antes de receber a sua, porém, Allison espiou além de sua dupla, para onde estavam sentados Melissa e Connor, e pôde ver, por breves segundos, que Connor olhava para trás, para sua direção, com uma expressão mal-humorada no rosto. Então lembrou-se da conversa no refeitório, no dia anterior:
“- Quem é aquele?” – ela havia perguntado.
“- Carter Black.” – respondera Melissa. – “Ele se acha o melhor da escola. Connor o detesta, e eu também não gosto muito dele.”
Connor olhava feio para Carter, mas manteve a expressão por apenas um instante. Depois, virou-se para cochichar com Melissa, e Allison desejou poder ouvir o que ele estava dizendo.
De qualquer maneira, abandonou os pensamentos e concentrou-se no teste. Carter não era assim tão mau em Química; não que fosse um gênio, mas pelo menos não deixou que fizesse a prova toda sozinha. Ao final da aula, depois de entregarem as provas, ele escorou-se na parede e ficou esperando o sinal tocar. Quando o som que indicava a troca de horários ecoou pela escola, ele jogou a mochila por cima do ombro, sorriu para ela e acenou, despedindo-se e saindo em silêncio da sala de aula.
* * *
Allison estava prestes a ir para casa quando o viu novamente.
Depois de guardar os livros no armário e fechar a porta, ela virou-se para ir em direção a saída quando deu de cara com Carter. Ele usava agora um casaco vermelho com detalhes em branco, que não estava vestindo quando fizeram a prova. Reparou nele e percebeu que era a jaqueta dos jogadores do time da escola.
- Allison, certo? – ele falou. – Vi você escrever no teste de Química.
- É, isso mesmo. – disse ela. – Desculpe, esqueci de me apresentar.
- Não tem problema. – houve uma pausa. – Bom, então... eu queria saber se você já viu algum dos treinos do time?
- Não. – respondeu Allison. – Ainda não tive nenhuma aula de Educação Física, Ginástica, ou algo assim.
- Bem, se você quiser, vamos ter um jogo-treino essa sexta. Sabe, se você gostar de futebol.
Allison gostava de futebol e até ia assistir a alguns jogos com seu pai quando era menor. Também gostava de praticar alguns lances com ele nos fins de semana. Contudo, não respondeu com prontidão a oferta de Carter.
Ele ficou em silêncio, esperando pela resposta, enquanto Melissa e Connor se aproximavam.
- Allison, você vem com a gente? – gritou Connor. – Eu e Mel estamos indo pra ca... – ele parou, sem nem terminar a palavra. – Ah, vejo que já tem companhia.
- Não, estou indo. – falou Allison. – Carter só veio me perguntar se eu já conhecia o time do colégio. Vamos?
Ela colocou-se entre Melissa e Connor e, ainda encarando Carter, os três foram saindo dali. Allison, porém, olhou para trás uma última vez enquanto caminhavam em direção à saída, e Carter gritou:
- Sexta-feira, às quatro da tarde, se quiser ir.
Ela voltou a atenção novamente para o corredor à sua frente, sentindo-se um tanto constrangida. Connor e Melissa se entreolharam de um jeito enigmático, e ela ficou querendo entender o que aquela troca de olhares significava. Mas então eles voltaram a conversar com ela sobre assuntos diversos, e enquanto a ofuscante luz do sol invadia gradativamente o caminho à medida que se aproximavam da saída, a sensação de constrangimento e dúvida foi diminuindo, e desapareceu assim que ela cruzou a porta.
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