O caminho de sua casa até a escola estava completamente deserto. Allison estranhou o fato: com todas as casas que havia pela vizinhança, deveria ter algum jovem da idade dela que morasse por ali, certo? Ela ainda pensava sobre o assunto. Talvez fosse apenas porque ela saíra de casa mais cedo, pensou.

Depois de alguns minutos caminhando, ela chegou até a escola e foi direto à secretaria. Pegou os horários e os examinou enquanto caminhava pelo corredor. A primeira aula era a de Inglês Avançado, e a sala era a de número 17. Não precisou de muito para encontrá-la. A escola não era grande, e tinha apenas um andar térreo.

Quando entrou na sala de aula, todos os olhares se voltaram para ela. Numa cidade pequena como aquela, era óbvio que todos se conheciam. Qualquer pessoa nova era facilmente reconhecida. Baixou a cabeça e andou em silêncio até uma carteira no fundo da sala.

À sua frente, uma garota de cabelos castanho-claros estava inclinada para o lado cochichando com o garoto sentado ao lado dela. Eles pararam de conversar e viraram-se para Allison.

- Você é nova por aqui, não é? – perguntou a garota. Ela tinha olhos castanhos e seus cabelos eram encaracolados nas pontas, emoldurando seu rosto.

- Sou. – respondeu Allison.

A garota sorriu:

- Você não deve ter percebido, mas vimos você chegar ontem à tarde. Moramos na frente da sua casa.

Na verdade, Allison mal reparara nas casas ao redor da sua. Era como se tivesse se mudado para o fim do mundo, para um lugar longe de seus amigos. Ela nem percebera a vizinhança. Era como se, além de seu pai, ela estivesse completamente sozinha.

- Sou Melissa. – A garota continuou, vendo que Allison não respondia.

- Allison. – apresentou-se, e elas trocaram um aperto de mão.

- Este aqui é Connor. – disse Melissa, apontando o garoto ao seu lado com quem conversava minutos antes. Ele tinha cabelo castanho-escuro e olhos verdes. O garoto colocou os óculos que segurava nas mãos e avaliou-a.

- Prazer – disse ele, e ela percebeu que suas bochechas haviam ficado vermelhas.

- Connor é um pouco tímido, mas ele é normal depois que você conhece melhor – riu Melissa.

O garoto pareceu encabulado, e virou-se para frente, encarando as próprias mãos. Allison sorriu para Melissa e o professor entrou na sala.

* * *

Durante o intervalo, Allison procurava uma mesa desocupada para sentar no refeitório, quando viu Melissa acenando para que ela se sentasse junto dela e de Connor.

— Ei, somos vizinhas, lembra? – disse Melissa. – Não precisa ser tão tímida.

Allison deu um meio sorriso.

- É que eu ainda estou tentando me acostumar com a mudança. – falou.

Eles continuaram a comer e conversar quando um grupo de líderes de torcida entrou fazendo barulho no refeitório. Elas gritavam, pulavam e chacoalhavam seus pom-pons atrás dos garotos do time de futebol da escola, mas, especialmente, atrás de um único garoto, que Allison imaginou ser o capitão.

- Argh, lá vêm o time de exibidos da escola. – comentou Connor, com um tom de voz amargo.

- Não sabia que essa escola tinha um time. – falou Allison. – Quer dizer, vi o campo, mas achei que fosse só para as aulas de Educação Física.

- Temos um time. – disse Melissa. – Mas na maioria das vezes ele só joga contra times de outras escolas de cidades do interior. Deviam estar no treino agora, e as líderes provavelmente estavam usando a aula de Ginástica para ensaiar a coreografia. De qualquer forma, concordo com Connor. Não passam de um bando de exibidos.

Allison avaliava o grupo à distância. O garoto à frente, seguido pelas líderes de torcida, chamou sua atenção.

- Quem é aquele? – perguntou ela.

- Carter Black. – respondeu Melissa. – Ele se acha o melhor da escola. Connor o detesta, e eu também não gosto muito dele. Mas devo ser uma exceção, porque todas as garotas daqui parecem babar por esse cara.

Allison tinha que admitir que elas tinham uma razão para isso. Mesmo de longe, ele era muito atraente. Ergueu as sobrancelhas e virou-se novamente para seu prato. Melissa e Connor mudaram de assunto, e ela continuou conversando com eles.

* * *

O resto das aulas foi normal, e quando elas terminaram, Allison foi para casa junto com Melissa e Connor, afinal, eles tomavam o mesmo caminho.

A casa de Melissa não ficava exatamente em frente à sua, mas à esquerda da de Connor, que ficava alinhada frente a frente com a de Allison. Eles se despediram quando chegaram à porta de Melissa, que entrou em seguida. Connor continuou alguns metros e entrou em sua casa enquanto Allison atravessava a rua.

Quando entrou, Allison gritou:

- Pai, cheguei!

Não ouviu nada em resposta. Subiu as escadas e procurou no andar de cima. Não havia sinal dele.

Só havia um lugar onde poderia estar: no trabalho, na delegacia.

Allison largou suas coisas em cima do sofá e saiu novamente. Andou até o centro, e localizou facilmente a delegacia de polícia. Entrou, e estranhou o fato de o local estar tão vazio: apenas dois policiais estavam sentados lá dentro.

- Meu pai está? – perguntou.

- Seu pai... – falou um dos policiais, claramente tentando lembrar quem poderia ser o pai dela.

- O detetive Robins. – esclareceu ela. Tinha esquecido que os policiais de Breaken Valley não a conheciam como os da antiga cidade em que morava.

- O detetive está meio ocupado agora. – falou o homem. – Está investigando o ataque mais recente.

- Houve outro ataque? – perguntou, surpresa.

- No parque. – respondeu o policial. – Todos os ataques aconteceram lá.

Ela assentiu com a cabeça e saiu dali sem dizer mais nenhuma palavra.

O parque ficava além da escola, e quando se aproximou dele pôde ver a multidão que tomava conta do local. Guardas tentavam barrar as pessoas que queriam chegar mais e mais perto para ver o que acontecera. Ela foi se infiltrando em meio ao tumulto, acho uma brecha e conseguiu passar pelos guardas sem ser detida. A cena com que se deparou era assombrosa.

No chão, coberto por uma lona preta, estava o corpo da vítima. Uma fita amarela da perícia circundava o local, e profissionais trabalhavam em volta, examinando a área minuciosamente à procura de pistas. Ela avistou seu pai conversando com um policial que, pelo uniforme diferente que usava, deveria ser o chefe de polícia.

Ela caminhou cautelosamente para perto do pai. A expressão dele era séria.

- Pai... – sua voz morreu antes que conseguisse pensar no que diria em seguida.

- Allison, o que você está fazendo aqui? – disse ele. – Você não pode ficar na área das investigações. Vá para casa e mantenha as portas e janelas trancadas, ouviu bem?

Ela estava prestes a dar meia volta e enfrentar a multidão novamente quando algo além da cena do crime chamou sua atenção. Alguns metros adiante da área demarcada pela fita, um pedaço de papel branco estava preso a um arbusto por uma das pontas, enquanto a outra chacoalhava ao vento.

Allison andou até lá, os olhos fixos no papel. Talvez aquilo pudesse ser uma pista. Se o papel tivesse pertencido ao assassino, poderia conter suas impressões digitais, pensou.

Ela retirou o papel do arbusto. Estava dobrado ao meio duas vezes. Ela o desdobrou com cuidado, e uma onda de pânico invadiu o seu corpo como um calafrio.

- Pai! – gritou, enquanto corria de volta ao local onde o detetive estava.

Ele se virou com uma expressão que demonstrava estar sem paciência.

- Allie, já não disse para ir para casa?

Ela entregou o papel a ele e falou, com o coração acelerado:

- Encontrei isto nos arbustos. O vento deve ter levado para lá, ou então ele mesmo o colocou.

- Ele? O que você...? – o detetive parecia confuso, mas não chegou a completar a frase.

Sua voz desapareceu assim que olhou o que havia no papel.

Com letras recortadas de revistas, havia uma mensagem colada no centro da folha.

“Bem- vindo à cidade, detetive.”