Criminal

10 Allison


Notas iniciais
(No final do capítulo tem uma imagem de como seria mais ou menos a aparência dos personagens. Não é BEM igual porque eu peguei fotos de atores e tal, então não tá exatamente como imaginei, mas também não sei como vocês imaginaram então, whatever.)

Allison passara toda a segunda-feira e a manhã de terça pensando em como faria para ir àquela festa escondida.

Odiava fazer esse tipo de coisa. Não queria enganar seu pai. No fundo, sabia que aquilo que estava fazendo o ajudaria no final das contas, mas não conseguia deixar de sentir-se mal por isso. Ela havia prometido que não sairia depois de escurecer, e sabia que para seu pai, só a idéia de perdê-la já causava uma dor insuportável. Mesmo após tantos anos, ele não superara a perda de sua esposa, e Allison sabia que nunca superaria.

Esses pensamentos faziam-na se sentir uma traidora. Mas tratou de afastá-los e pensar em um jeito de escapar no meio da noite. Precisava fazer isso. Tinha de descobrir o que afetava Carter, assim teria certo controle sobre ele. E se ficasse ao seu lado a noite toda, talvez pudesse impedi-lo de atacar novamente.

Um arrepio percorreu seu corpo quando pensou que teria de passar a festa inteira perto de Carter. Respirou fundo e tentou se concentrar:

Quanto mais cedo eu conseguir provas para incriminar esse cara, mais cedo me livro dele.

Motivada a partir desse pensamento, conseguiu bolar um plano para a fuga noturna. O que Allison não esperava era que, além de enganar seu pai, seus melhores amigos também entrariam na lista.

– Você ouviu o que o time de futebol inventou? Vão fazer uma festa secreta para “desafiar a polícia”. – Melissa falou em tom de deboche. – Que ridículo!

Enquanto ela ria da idéia da festa, Allison encolhia-se cada vez mais.

– Parece que a escola inteira vai. – disse Connor, sem esboçar expressão. – Até mesmo os calouros.

– Não preciso fazer o que o resto da escola faz. – disse Melissa, de repente parecendo extremamente séria. – Não é mesmo, Allie?

– Eu... eu... — Allison gaguejou. – Eu acho que vou a essa festa.

– Você enlouqueceu? – Melissa exaltou-se, depois baixou a voz para um sussurro. — Seu pai é o detetive da cidade. Foi ele quem colocou o toque de recolher!

– Eu tenho um motivo. – Allison explicou.

– Tem que ser dos bons. – comentou Connor.

Houve um instante de silêncio constrangedor, e então Melissa perguntou:

– E qual é esse motivo?

Allison não sabia o que dizer. Não podia contar a verdade para eles, mas não podia inventar uma mentira muito fútil. Eles encontrariam argumentos para fazê-la mudar de idéia, e ela tinha de continuar com isso. Acabou contando quase a verdade, mas omitiu alguns fatos.

– Tudo bem. Andei olhando os arquivos do meu pai, e estou com uma suspeita de que o culpado pode ser alguém da escola. – Ela parou e encarou os rostos inexpressivos dos dois amigos à sua frente. – Mas ainda não sei quem é. Achei que seria uma boa oportunidade para ficar de olho, já que a escola inteira vai estar lá.

Melissa e Connor mantinham-se silenciosos. Allison estava esperando pelo bombardeio de acusações como “Você ficou maluca” ou “Acho que está tirando conclusões cedo demais”, mas depois de alguns intermináveis minutos, Connor quebrou o silêncio falando:

– Se vai por causa disso, então iremos com você.

Aquilo a surpreendeu. Não queria que se arriscassem por causa dela.

Melissa ainda parecia ponderar o assunto, mas por fim acrescentou:

– Três pessoas observam melhor o local. Vamos ajudar você a procurar algo suspeito.

* * *

Quando chegou a noite, Allison preparou seu plano. A festa começava às dez. Quando a hora estava se aproximando, ela disse “boa-noite” ao seu pai e foi para o quarto. Antes de fechar a porta, viu-o caminhando lentamente ao escritório, suspirando. Seria mais uma noite debruçado sobre os arquivos, investigando. Se pelo menos ela conseguisse algo que o ajudasse...

Quando tudo pareceu silencioso, ela começou a desenvolver sua fuga. Arrumou os cobertores de modo a parecer que ela estivesse sob eles. Desligou as luzes, e saiu do quarto sorrateiramente, até alcançar o banheiro, do outro lado do corredor. Lá dentro, alçou- se à altura da pequena janela, que apesar do tamanho, permitia a passagem de seu corpo. A janela do banheiro era a única pela qual podia fugir, pois assim que a pulasse, cairia sobre o teto da garagem, que ficava logo abaixo. Ao chegar ao jardim na frente da casa, Allison avistou seus dois amigos, do outro lado da rua. Seus rostos apavorados pela ameaça de um assassino à solta fizeram-na arrepender-se do que estava fazendo.

– Você tem o endereço? – Melissa sussurrou.

– Está aqui. – disse Allison, tirando um papel do bolso e estendendo-o a ela.

Melissa checou o papel em silêncio e os três saíram dali sem dizer mais uma palavra. A festa era em um armazém desativado do outro lado da cidade, quase em seus limites, porém a distância a se caminhar não era tão grande.

Bastava atravessar o pequeno centro e avançar mais um pouco para chegar ao local, e fizeram isso em vinte minutos. Quando chegaram, entenderam completamente o porquê de fazer a festa em um armazém velho: do lado de fora, não se ouvia nada além do vento uivando forte e balançando as árvores. A construção possuía uma proteção, que na época em que era usada para guardar alimentos impedia que eles pegassem umidade ou calor excessivo. Essa proteção formava um isolamento acústico incrível, capaz de abrigar uma festa com música alta sem que ninguém nos arredores pudesse ouvir.

A porta do armazém estava fechada e não havia sinal de alguém por perto.

– O que fazemos? – perguntou Connor. – Empurramos?

– O combinado era mandar uma mensagem de texto. – murmurou Allison. Quando viu que seus amigos a encaravam sem entender, explicou. – Todos que disseram que iriam à festa pegaram o número do Willians. O kicker do time. O combinado foi que quando chegássemos, deveríamos enviar uma mensagem a ele, para que viesse abrir a porta.

– Ok, então mande a mensagem. – disse Melissa. Ela parecia aflita, e Allison sabia que estava com medo de ficar naquele lugar deserto por muito tempo.

– Já mandei. Ele deve vir abrir a porta em um instante.

Logo após ter dito isto, houve um barulho vindo da porta, algo como se alguém estivesse puxando um ferrolho enferrujado contra a madeira, e aquilo não estivesse deslizando do jeito que deveria. Em seguida a porta se abriu com um estalo e uma porção de rangidos.

Um garoto alto, de cabelos loiros dourados e olhos verdes estava agora à frente deles, sorrindo e cumprimentando-os. Seu nome era Lennon, mas todos o chamavam apenas de Lenny. Era o melhor amigo de Carter.

– Melhor entrarem logo. – disse ele. – Se eu deixar a porta aberta muito tempo, os vizinhos podem acabar ouvindo.

Os três entraram e Lenny fechou a porta. Depois que o garoto voltou a se misturar na multidão, Allison olhou para Melissa e viu que ainda havia algo errado com ela. Porém, não parecia ser a mesma aflição que demonstrava antes de entrarem. Melissa estava tomada por um rubor que não tinha nem dois segundos atrás. Seu rosto inteiro estava vermelho e ela mordia o canto do lábio inferior de um jeito esquisito.

– Meu Deus, eu preciso de água! – falou ela, e saiu de perto deles assim que avistou a mesa de bebidas.

– O que houve com ela? – perguntou Allison. – Está agindo como se tivesse cometido um crime e não conseguisse guardar o segredo.

Connor riu.

– Ela gosta dele. Do Lenny. Fica toda estranha cada vez que ele chega perto.

Allison sorriu. Sempre vira a amiga como uma pessoa confiante. Ela estava sempre vestida com estilo, e parecia não se importar se as pessoas olhavam para ela. Mas havia uma pessoa que era seu ponto fraco.

Aquilo a fez pensar algo que nunca havia se passado pela sua mente. Todas as pessoas tinham um ponto fraco. Todos tinham aquela pessoa – ou mais de uma – que amavam incondicionalmente e, com certeza, perderiam a razão se ela fosse colocada em perigo.

Todos. Inclusive ela.

E se quisesse que seu plano desse certo, precisaria tornar-se o de Carter.

Olhou ao redor, tentando avistá-lo, mas o lugar estava muito cheio para que conseguisse enxergar além e distinguir algum rosto que não fosse os que estavam bem à sua frente. Quando estava prestes a atravessar a multidão que dançava, Carter chegou até ela.

– Allison, você veio! – disse ele, com um sorriso travesso no rosto.

Allison não sabia o que responder, então apenas dirigiu-lhe um sorriso amarelo.

– Isso aqui não está incrível? – disse ele, apontando para a festa. – A escola inteira veio.

Aquilo era perceptível. O armazém, que não era dos grandes, estava lotado, e as pessoas se movimentando faziam parecer com que o lugar estivesse mais cheio ainda.

– Já pegou uma bebida? – perguntou Carter.

– Acabei de chegar. – disse ela.

–Então venha, vamos nos divertir um pouco.

Carter passou um dos braços por cima dos ombros de Allison, e ela sentiu-se repentinamente desconfortável, pois apenas seu pai tinha o costume de fazer aquilo. Enquanto ele a arrastava para longe da entrada em direção à mesa de bebidas, Allison lançou um olhar para trás, para Melissa – que havia voltado onde estavam – e para Connor, que olhava para ela com uma expressão de incredulidade no rosto.

* * *

Depois de tomarem um copo de ponche, Carter levou-a para o meio da pista de dança.

Tudo que Allison queria era manter distância do corpo de Carter, mas fazer isso era praticamente impossível. As pessoas dançando tornavam o local apertado, e Carter chegava mais e mais perto dela. O que mais a incomodava era que ele era realmente bonito, mas ela não conseguia olhar para ele sem sentir repulso.

No limite da pista de dança, algo chamou sua atenção, e Allison viu naquilo uma oportunidade de fugir de Carter por alguns minutos.

Lenny discutia com uma garota, menor que ele, porém extremamente parecida, e Allison reconheceu na hora que era sua irmã, Erin.

Apesar de nunca ter falado com ela, Allison a conhecia de vista e apenas sabia que ela era caloura, do primeiro ano do Ensino Médio. Quando chegou perto dos dois, pôde ouvir um pedaço da conversa:

– Eu falei para você não vir! – disse Lenny, enfurecido.

– A escola inteira está aqui, inclusive os alunos novos. Por que só eu não podia vir? – rebateu a garota.

– Porque é perigoso! Meu Deus, Erin, eu falei tantas vezes! Não quero que nada aconteça a você.

– Você veio, sob os mesmos riscos que eu e que todas as outras pessoas aqui. Se há tanto perigo a ser evitado, por que fizeram a festa? – perguntou Erin, ironicamente.

Allison achou que era uma boa hora para intervir.

– Ei, Lenny, não se preocupe. Iremos embora em grupos, e eu posso acompanhá-la, se você quiser. Já que você vai ter que ficar um pouco mais junto com os outros que vão organizar isso aqui quando a festa acabar.

Lenny respirou fundo e por fim concordou.

– Tudo bem. Vão apenas você e ela? – ele ainda parecia preocupado.

– Vou com Melissa e Connor. – Allison respondeu.

Ele pareceu aliviado.

– Ok. Avise-me quando estiverem indo embora. Agora, preciso ir lá em cima ver como andam as coisas. – Ele virou as costas, indo em direção à escada que levava ao mezanino que havia no armazém, mas antes de subir voltou-se para ela. – Ah, Allison... Obrigado.

Allison sorriu, aceitando seu agradecimento, e virou-se para Erin, que ainda estava ao seu lado.

– Vem cá, como foi que você entrou aqui? Não era seu irmão que estava cuidando da porta?

– Sim, mas ele teve que me deixar entrar. Já era tarde e seria muito mais perigoso se ele me mandasse para casa e eu tivesse de voltar sozinha.

Allison riu.

– Muito esperta.

– Obrigada. – disse Erin, sorrindo com o canto da boca e baixando as sobrancelhas. – Olá Carter, como vai?

Allison sentiu um calafrio, e ao virar-se viu que Carter estava parado bem atrás dela.

– Estou bem. – disse ele. – Vamos voltar a dançar?

Allison sorriu timidamente em sua direção e Erin lhe disse:

– Dançarei se você me apresentar um de seus colegas do time.

– Acho que seu irmão não iria gostar nada disso. – ele respondeu.

Erin revirou os olhos e saiu dali. Melissa e Connor estavam fora de sua vista. Allison estava sozinha.

Era hora de pensar em algo que trouxesse alguma fraqueza de Carter à tona. Ela precisava descobrir pelo menos uma.

– Então, vamos? – Carter perguntou, indicando a pista de dança com um movimento de cabeça.

Ela entrou no meio da multidão sem dizer uma palavra, e ele a seguiu. Durante todo o tempo em que haviam dançado antes, ela permanecera alerta e insegura. Porém, agora, precisava se soltar. Precisava mostrar a Carter que não se sentia desconfortável na presença dele e que ele poderia confiar a ela qualquer coisa. Sabia que ele não conseguia resistir a garotas, mas não como aquelas no dia em que fizeram a prova juntos, que o estavam disputando como se fosse um prêmio. Ela precisava saber a forma certa de agir e chamar sua atenção.

A música começou a ficar mais frenética. Talvez o DJ tivesse separado as suas melhores músicas para colocar depois de certo horário. Luzes brancas começaram a piscar e a fumaça de gelo seco subia por entre as pessoas. Allison perguntava-se como os garotos do time haviam organizado aquilo em tão pouco tempo, mas decidiu deixar para lá. Provavelmente algum deles tinha o contato certo para conseguir tudo de que precisavam.

Enquanto pulava e dançava acompanhando a batida da música, percebeu que Melissa estava no limite da pista, conversando com Lenny. Connor estava sozinho, próximo a ela. Ele devia estar pensando que era o único que estava realmente olhando o local à procura de qualquer atitude suspeita por parte dos alunos. Volta e meia lançava olhares mal-humorados para Melissa e, Allison percebera, olhava para ela e Carter com uma expressão de total irritação no rosto.

Então, as coisas começaram a acontecer muito rapidamente, numa sequência que logo sairia de seu controle.

Carter aproximou-se. Encostou seu corpo ao dela e colocou as mãos em sua cintura. Allison arriscou olhar para Connor, e a situação parecia incomodá-lo mais do que incomodava a ela própria. De repente, Carter inclinou a cabeça para um lado e, sem que ela esperasse, ele a beijou.

Allison não reagiu. Não o repeliu, mas também não retribuiu o beijo. Apenas esperou que ele se afastasse, o que aconteceu de uma forma estranhamente abrupta.

Abriu os olhos bem a tempo de ver Connor ainda com os braços esticados, e Carter sendo impulsionado para trás devido ao empurrão que recebera.

Quando se equilibrou, Carter olhou furiosamente para Connor e correu para cima dele. Os dois começaram a se bater e as pessoas em volta recuaram, com olhares um tanto assustados.

– Connor! – gritou Melissa, correndo em direção à briga.

Nesse momento, Carter o havia derrubado no chão e dava socos em seu rosto e costelas, enquanto Connor debatia-se, vez ou outra acertando socos nas costas dele.

– Parem com isso! – Allison gritava. Vendo que suas palavras não surtiam efeito, agarrou Carter pela cintura e o arrancou de cima de Connor. Carter olhava para ele com ódio e respirava aceleradamente.

Melissa correu até Connor e o ajudou a se levantar. Sua respiração também estava acelerada e o olhar tão afiado quanto o de Carter, mas seu nariz e boca sangravam.

– Vamos embora daqui. – disse Melissa, conduzindo Connor em direção à saída. – Você vem, Allison?

Allison hesitou por alguns segundos, e este pequeno silêncio só aumentou a tensão no ambiente.

– Erin, vamos embora!

A garota andou até ela em silêncio e os quatro saíram, sentindo o peso dos olhares de todos à sua volta.

Notas finais
Enfim, mais um capítulo. Fiz esse um pouco maior dessa vez. espero que tenham gostado ;D Beijos.