Criminal
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Parece até um pouco clichê a frase: "A gente só dá valor para aquilo que a gente perde", mas clichê ou não, ali no banheiro de Freddie, de banho tomado, vestida com um pijama do Galaxy Wars e olhando para sua roupa suja em suas mãos, Sam parou um pouco para pensar no quanto a sua vida mudara e o quanto ela havia perdido até ali. Quantos caminhos errados, quantas escolhas mal tomadas ela fez até alcançar o fundo do poço. Este era o lugar que ela estava, o fundo do poço. E a única luz que ela enxergava neste escuro e profundo poço, era o homem que estava à sua espera do lado de fora do banheiro.
Quando o estômago de Sam roncou pela centésima vez aquele dia, ela finalmente resolveu sair do banheiro. Logo que abriu a porta do banheiro, ela sentiu um cheiro maravilhoso. Aquele era o tipo de cheiro que Sam só conseguia sentir em seus melhores sonhos: Queijo derretido. Freddie a esperava sentado à mesa, com um prato inteiro de lasanha só para ela.
– Eu não disse que você ficaria linda com esse pijama.
– Eu acho que você disse fantástica, mas eu aceito linda também. — Sam disse. – Devo ser a primeira garota a usar uma coisa dessas.
– Para sua informação, existem muitas garotas que gostam de Galaxy Wars. — Freddie se levantou e foi até Sam. – Posso pegar? — Freddie apontou para o emaranhado de roupas que ela segurava.
– Claro! — Sam deu o bolo de roupa para Freddie.
– Obrigada. Agora senta aqui e come logo antes que esfrie.
Sam sentou na cadeira à frente do prato de lasanha enquanto Freddie levava sua muda de roupa até um pequeno cesto branco que estava do lado da porta de entrada. Quando ia colocar a roupa de Sam no cesto, algo caiu do bolso da calça para o chão. Era uma bainha com a adaga que Sam colocou em seu pescoço. Ele deixou a roupa no cesto, pegou a bainha do chão e se aproximou de Sam.
– Isso aqui caiu da sua roupa. — Freddie entregou o pequeno objeto a Sam.
– Minha adaga. Obrigada! — Ela pegou a bainha da mão de Freddie. – Desculpe por antes. Mas eu achei que se eu aparecesse dizendo: 'Oi, Freddie! Como vai você?' era provável que você tentasse me prender de novo e não me desse a chance de falar.
– É, acho sim. Sei lá. — Uma quietude se instaurou por um momento. O único som emitido era o do tintilar dos talheres. Freddie resolveu acabar com aquele silêncio constrangedor que havia se instalado. – Como está a lasanha? — Ele perguntou.
– Já está no fim! Estava uma delícia, Benson. — Ela se levantou e entregou o prato sujo para ele. Freddie pegou o prato de suas mãos e o levou até a pia. Sam olhava para o chão enquanto brincava com a barra da sua camisa. Freddie se aproximou dela novamente.
– Vamos pro banheiro.
– Pro banheiro? — Sam perguntou confusa.
– É. — Freddie disse entrando no banheiro.
Quando Sam entrou no banheiro, Freddie estava revirando o armário. De lá de dentro tirou um pacotinho , o abriu e entregou à ela a escova de dentes azul que estava dentro dele. Sam pegou a escova da mão de Freddie.
– Eu não ganho uma escova rosa por ser menina? — Ela caminhou até a pia e começou a escovar os dentes.
– Nós dois sabemos que rosa nunca foi sua cor favorita. — Ele disse enquanto ainda revirava o armário do banheiro.
De vez em quando, Freddie colocava algo que retirava de uma porta em cima da bancada do armário. Quando Sam terminou de escovar os dentes, colocou a escova azul que havia usado ao lado de uma vermelha que já estava lá e se juntou ao lado de Freddie. Sam o observava curiosamente. Havia algo diferente em Freddie, diferente de como ele estava antes dela entrar no banho. Ele pegou um pedaço de algodão e o umedeceu com um líquido de um frasco marrom.
– Vai arder só um pouco. — Freddie levou o pedaço de algodão úmido nos ferimentos no braço de Sam.
– Ai! — Ela falou retirando o seu braço de perto dele. – Você disse que só iria arder um pouco
– Sam! Para de charme. Nem está doento tanto assim. — Freddie puxou o braço dela de volta. – Agora deixa eu continuar o que estava fazendo?
Ele novamente pegou o pedaço de algodão e voltou a passar em seus ferimentos expostos. A culpa que Freddie estava sentindo pelo que havia acontecido com ela gradativamente ia diminuindo enquato ele cuidava de seus machucados. Se eles havia sido o causador, mesmo que indiretamente, da maioria daqueles ferimentos, essa era a chande de compensar o que havia ocorrido.
Mesmo com todo esforço de Freddie em tornar aquela situação a mais natural possível, Sam ainda se sentia desconfortável. Há muito tempo que não tinha contato com ele, mas lá estavam eles reunidos novamente como se nada tivesse mudado durante todos esses anos e como se o que havia ocorrido mais cedo nunca houvesse acontecido.
– Você guarda um hospital inteiro dentro do seu armário? — Ela disse tentando iniciar uma conversa para ficar mais a vontade com a situção.
– Isso foi o presente que a minha mãe me deu quando eu me mudei pra cá.
– Falando nela, como a Srª Benson deixou que o filhinho querido se mudasse de casa é fosse para longe dela?
– No começo foi difícil. Quando eu disse para ela que iria me mudar, ela chorou muito. Mas acho que agora já acostumou com a idéia. — Freddie disse, agora cuidando dos ferimentos o rosto. – Eu ainda vou lá, mas venho para casa à noite.
– Porque ela ainda é muito chata?
– Não! Ela não é chata, Sam. Ela é meio super-protetora.
– Meio? — Sam riu. – Você tá sendo legal porque ela é sua mãe. Mas sério agora, porque você não mora mais com ela?
– Primeiro, por questão de privacidade. Eu já sou adulto, preciso da minha privacidade. Não dava para viver com a minha mãe me controlando a cada segundo. Segundo, aqui é muito mais perto do trabalho. — Freddie começou a colocar os curativos nela. – Mas às vezes, no meu dia de folga, passo o dia todo com ela e só volto para casa de noite porque eu não gosto de dormir lá.
– Porque ela te faz usar pijaminha de flanela com pezinhos? — Sam perguntou.
– Ela bem que tentou uma vez, mas não é por isso não. O meu quarto ainda está do mesmo jeito desde que eu era criança. Tudo que está lá é meu, mas ao mesmo tempo parece que não é. E tudo tão não-familiar. — Freddie colocou o último curativo. – E também tem a minha cama que é a mesma de antes. Eu estou acostumado a dormir em cama de casal, a minha antiga cama muito pequena para mim agora.
Sam saiu correndo do banheiro e Freddie foi atrás. Na sala e na cozinha não havia nenhum sinal dela, porém antes que Freddie pudesse começar a se desesperar, ele ouviu um barulho vindo do seu quarto.
Quando ele chegou lá viu algo um tanto incomum. Sam estava deitada sorrindo na cama dele abrindo e fechando os braços, como se estivesse fazendo um anjo de neve no cobertor.
– Tudo bem? — Freddie falou ligando a luz do quarto e se aproximando dela.
– Há um 2 anos que eu não deito numa cama. Eu não me lembrava o quanto era bom.
– Sério?
– Bom, tecnicamente, sim. — Ela parou de fazer o "anjo de neve" e sentou normalmente na cama. – No meu antigo apê, eu dormia num colchão velho no chão. Aquilo nem poderia ser considerado uma cama. Bom, talvez no Japão, sei lá.
– Onde você morava? — Freddie perguntou. As feições dela mudaram em um milésimo de segundo. De repente, sua expressão feliz se transformou para um semblante preocupado. – Sam, onde você morava? — Freddie perguntou novamente. Ela ainda não tinha o respondido e seu rosto estava abaixado e ela olhava fixamente para o chão.
Como eu já lhe disse antes, caro leitor. A vida de Sam estava um tanto conturbada ultimamente. Bom, ela estava sendo procurada pela polícia, não é? E esse é só um dos seus problemas. Desculpa por não revelar muito por enquanto, mas continue acompanhando a história que você saberá de tudo quando for a hora certa. Afinal, porque eu precisaria contar para você agora, se a nossa protagonista pode fazer isso no decorrer da história.
– Eu estou te ajudando, Sam. Acho que mereço pelo menos saber onde você morava.
– Se você for começar à cobrar por me ajudar, não precisa fazer mais nada por mim. — Sam se levantou da cama. – Eu vou pegar as minhas coisas e ir embora para não perturbar mais você.
– Eu não estou cobrando, Sam. Só quero saber o que custa você me contar onde morava? Mas se perguntar te ofende você não precisa falar mais nad...
– Nona Avenida — Sam falou o interrompendo. – Eu morava na Nona Avenida, número 13218.
O endereço soava tão familiar para Freddie. Ele tinha certeza que já havia escutado aquele endereço alguma vez. De repente, ele se lembrou.
– O prédio que você colocou fogo? Você morava no prédio que colocou fogo? — Novamente a expressão de Sam mudou. Seu rosto marcado com tristeza agora estava repleto de raiva. Freddie também havia notado a mudança de emoções da loira. – Desculpa, eu...
– É melhor eu ir para sala e tentar dormir. — Sam disse o interrompendo novamente.
– Não. — Freddie levantou da cama e ficou ao lado de Sam. — Pode ficar com a cama, eu insisto.
– Olha, se você está me oferecendo a cama só para compensar o que você falou, esquece. Eu durmo na sala mesmo. — Sam se virou para sair.
– Não, não. — Freddie segurou o braço dela. – De jeito nenhum.
– Não é justo tirar você da sua cama. Você pode dormir aqui também, se quiser.
– Com você? — Freddie perguntou.
– Se cada um ficar de um lado, tem espaço para nós dois.
– Se está tudo bem para você, está bem para mim.
Eles ficaram em silêncio por alguns instantes. Cada um olhava para o outro como um jogador de xadrez estudando os movimentos de seu oponente.
– Então, boa noite? — Sam disse, finalmente quebrando o silêncio.
– Boa Noite.
Sam foi até a cabeceira da cama de Freddie, levantou as cobertas e se deitou. Depois de observar ela se deitar, Freddie apagou a luz do quarto, foi até o lado oposto ao que Sam estava e se adormeceu também.
Desta vez, foi muito mais fácil para ele conseguir dormir. Seu pensamentos e dúvidas foram tranquilizados agora que ele estava com Sam por perto. Em alguns instante, já estava dormindo. Porém, infelizmente, seu sono não durou muito tempo.
Freddie começou a ouvir um gritos abafados, gemidos e choramingos. Ele se levantou rapidamente e viu que a loira ao seu lado se debatia e de gritava incessantemente. Sam ainda estava dormindo. "Pelo jeito que ela se mexe incontrolavelmente, deve estar tendo um terrível pesadelo.", Freddie pensou
– Sam? — Freddie chamava tentando acordá-la. Mas ela ainda não acordava. – SAM? — Ele gritou e segurou os braços de Sam para que ela parasse de se mexer.
Sam abriu seus olhos. Seu rosto estava completamente molhado de tantas que foram as lágimas que escorreram. Ela se sentou na cama e Freddie se sentou ao seu lado. Ele passou a mão na cabeça dela.
– Desculpa, eu te acordei. — Sam disse
– Você está bem?
– Tô. Foi só um pesadelo. — Sam se deitou novamente.
Sem saber o que fazer ou dizer, Freddie deu um beijo na testa de Sam e deitou ao seu lado para voltar a dormir. Quando ele se deitou, sentiu que Sam o abraçará. Freddie retibuiu o abraço, segurando-a contra seu peito. E continuou a abraçá-la até adormecer. Freddie não queria deixá-la, não podia deixá-la. Era como se ela fosse seu bem mais precioso. Seu tesouro perdido.
Notas finais
Até o próximo!
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