Crime & Música

3 Capítulo 3: Drama Queen


Notas iniciais
Olá! Como aqui só é permitido uma imagem por capítulo, convido a fazer a leitura no wattpad, pois também estou publicando as mensagens de texto pordas personagens! User: flavsm ♥

Não consigo ir sozinha ao ensaio da Très, por isso, peço à minha prima Martina para me acompanhar. Ou melhor: para ser minha motorista de fuga, pois pretendo jogar a bomba e sair correndo o mais rápido possível da garagem de Gus, onde costumamos ensaiar.

"Você podia encarar tudo de forma mais madura e conversar com o Gus e o Theo ao invés de sair correndo..." Martina comenta pela centésima vez enquanto dirige.

"Você não conhece os dois. Vai ser melhor assim." Respondo, enquanto olho para a janela.

Martina morou os últimos anos com o pai nos Estados Unidos e acabou de voltar para passar um tempo com minha tia. Ela acabou parando no meio da confusão entre o fim do meu namoro, minha saída da banda e claro, os assassinatos.

"Não, mas conheço minha prima e sei que ela tem uma certa tendência para o drama." Ela sorri e eu fico em silêncio por alguns segundos.

"Obrigada por me acompanhar" Respondo sem dar muita corda.

"Você quem sabe, Vic" Ela diz impaciente e revirando os olhos.

O resto do caminho é um tanto estranho. Martina muda de assunto para falar de Sara e perguntar se há alguma novidade sobre as investigações desde o funeral hoje de manhã. Não houve e meu estômago embrulha só de pensar.

Minha prima, em compensação está levemente empolgada, pois sempre foi a louca dos crimes e não conhece Sara ou os outros. Ela passou tempo demais fora do país e não tem laços em PP, então na sua visão, toda a história é instigante e não assustadora e dolorosa.

Ficamos o resto do caminho em um silêncio, pois estou nervosa demais para conversar e Martina respeita isso. Quando paramos na porta da casa de Gus preciso respirar fundo. Saio do carro o mais devagar possível e caminho lentamente em direção à garagem, onde ele e Theo estão me aguardando.

Theo, assim como eu, trocou a roupa do funeral e está parecendo ele mesmo novamente: calça preta e justa com rasgos nos joelhos acompanhada de uma camiseta cinza surrada com o escudo do Capitão América na frente. Ele está sentado em cima de um amplificador e concentra-se em Berta, a guitarra vermelha que o acompanha há anos, dedilhando alguns acordes distraidamente. Uma mecha dos cabelos escuros cai no rosto dele, que provavelmente nem percebeu. Meu peito dói em vê-lo.

Gus, por outro lado, está sentado na bateria, com os cabelos compridos escuros em um coque bagunçado. Está sem camisa e apesar de não conseguir ver, tenho certeza que usa apenas uma cueca samba-canção, seu uniforme quando está em casa.

Ele sorri quando me vê.

"Pronta para o melhor ensaio da sua vida?" Pergunta girando uma das baquetas na mão.

Essa é a abertura de todos os nossos ensaios , mas hoje, em vez de me fazer sorrir, meus olhos se enchem de lágrimas, o que não passa desapercebido.

"Merda, eu não deveria falar algo assim horas depois do funeral da Sara?" Gus arregala os olhos uma expressão preocupada toma conta do rosto dele. Incapacitada de falar, apenas balanço a cabeça em negativa.

Gus às vezes perde um pouco a noção quando se trata da banda. Está sempre tão concentrado em fazer o melhor possível que pode esquecer de agir feito um ser-humano. A música é sua paixão e vício, aquilo que é realmente bom e Gus não é só bom, é um dos melhores.

Ele passou anos sendo tratado como burro e vagabundo por professores e até os pais, que o praticamente o expulsaram de casa para morar com a avó quando repetiu de ano na escola — e como consequência, entrou na mesma sala que Theo e eu, onde nos aproximamos e criamos a Très.

Tudo isso parte meu coração, pois os interesses e capacidades dele não são acadêmicos ou até mesmo sociais, mas sim musicais. Gus tem ouvido absoluto, toca praticamente qualquer instrumento e é o melhor compositor e baterista que conheci, ele nunca sequer estudou ou teve uma aula, aprendeu tudo sozinho.

Com a música, ele finalmente encontrou seu lugar, mesmo que possa agir de maneira meio ausente nas interações sociais, mas ainda é uma das pessoas mais doces e incríveis que conheço. É uma pena que os pais e muitas pessoas não conseguem enxergar isso.

"Preciso falar com vocês." Digo em voz baixa.

Ao ouvir minhas palavras, Theo imediatamente levanta os olhos de Berta para me encarar com uma expressão séria, as sobrancelhas franzidas.

"Não." Ele diz me encarando, sabendo exatamente onde quero chegar, o que por sua vez dá um aperto no peito, pois ele me conhece tão bem que nem precisamos de muitas palavras para saber o que o outro está pensando. Merda, eu amo esse garoto.

"Você sabe que não vai dar certo." Respondo e Theo faz uma careta.

Gus nos observa com uma expressão confusa.

"Do que diabos vocês estão falando?"

"Ela veio aqui para dizer que vai sair da banda." Theo explica e eu o encaro com raiva por ter passado na minha frente.

"Não é bem assim."

Antes que possa continuar a explicação que ensaiei centenas de vezes, Gus me interrompe.

"A Vic não vai deixar a Très, isso é um absurdo!" Ele olha para Theo rindo e meu estômago embrulha.

"Vou ficar até encontrarmos um baixista ou alguém para me substituir. Depois disso..."

Baixo o olhar sem conseguir encarar nenhum dos dois.

"Não. Pode parar. Que porra é essa, Vic?"

O tom de Gus é realmente bravo e continuo encarando minhas botas surradas sem ter coragem de levantar os olhos.

"Não dá mais para continuar assim... as coisas estão estranhas demais." E não quero assistir o Theo seguindo em frente, ficando com outras meninas, acrescento mentalmente.

"Porque você quis assim." Theo resmunga pela centésima vez desde que terminamos.

"Vocês só podem estar de brincadeira!"

O tom raivoso de Gus faz com que eu olhe para ele e imediatamente me arrependo. Não vou conseguir conseguir permanecer aqui por muito tempo sem passar mal ou começar a chorar.

"Já tomei minha decisão." Digo fixando o olhar em um ponto na parede atrás de Gus. "Só vim avisar vocês pessoalmente. Fico até encontrarmos um baixista e, se for necessário, alguém para me substituir. Vocês quem sabem."

Então, como a verdadeira covarde que sou, viro as costas e praticamente saio correndo para o carro, onde Martina me espera e abandonando os dois. O próximo ensaio vai ser bem estranho. Mal posso esperar. Yay.

"E aí? Como foi?" Ela pergunta assim que fecho a porta e em vez de responder, começo a chorar compulsivamente. "É, acho que não muito bem. Não entendo por que você está fazendo isso se..."

"Se for para dizer para eu continuar na banda, nem termina." Digo, soluçando de forma ridícula.

"Não, eu ia falar que não entendo por que não conta logo pro Theo o que a bruxa da mãe dele fez."

"Não posso ficar entre ele e a mãe, Martina."

Meu choro fica ainda pior e ela começa a rir. Eu a encaro boquiaberta.

"Deus, você é tão dramática, Vic! E chora tão feio!"

"Cala a boca." Respondo, mas também estou rindo porque ela está falando a mais pura verdade.

Eu sou dramática e pareço a Murta Que Geme chorando, o que me faz rir ainda mais e logo estamos as duas tendo um ataque de riso... até meu celular apitar pouco tempo depois indicando novas mensagens.

Theo e Gus provavelmente devem te superado o choque inicial da bomba que soltei e a maneira como os deixei. Agora com certeza querem conversar comigo sobre nosso ensaio frustrado.

Martina aumenta o volume do rádio e foca na direção para que eu concentre em resolver o climão que ficou com os meninos. Não poderia ser mais grata à minha prima e por ela ter voltado para o Brasil neste momento confuso.