Crime Intra Terrestre
2 Capítulo 2 - Subida
O barulho da chuva fina caindo contra a janela do meu quarto havia me acordado de uma maneira bem agradável, acordar com chuva e um clima bem fresco só me fazia querer ficar na cama pelo resto do dia, mas infelizmente, aposto que nem a chuva iria parar nossa reportagem. Olhei para o relógio e vi que eram seis da manhã, o sol mal havia aparecido, e com esse tempo, aposto que nem iria dar as caras hoje, mas podia ouvir a voz de Kristian no corredor, bem eufórico. Quando abri a porta, vi ele repassando alguns scripts para Carolina que já estava toda arrumada, exceto pela maquiagem, que mediante a sua beleza, nem era necessária.
– Vocês não relaxam mesmo hein. – Disse enquanto abria a porta, ainda sem camisa e com uma cara de derrotado.
– Meu filho, vá se trocar, combinamos de sair às 7, você tá pensando que tá em uma pousada é? Vai abrindo a porta sem roupa assim, a indecência mandou abraços. – Kristian parecia bem enérgico pra alguém da idade dele, mas algo em seu tom de voz me fez ficar pensativo.
– Ele não tem jeito, esqueça esse babaca e peça pra alguma criança na rua filmar, acho que ela se sairia melhor. – As palavras de Carolina enquanto lia algo em uma folha de papel sulfite já não me afetavam mais.
– Mesmo com essa chuva vai rolar? – Perguntei para Kristian enquanto ele parecia mandar alguma SMS pra alguém.
– Está brincando? Esse ambiente úmido dará mais suspense e emoção, é perfeito. Vamo, se troca homem. – Voltei para o quarto com minhas esperanças despedaçadas, afinal, faríamos aquela maldita reportagem, eu não queria acampar em uma montanha, seria comido por mosquitos e borrachudos, além de que, aposto que dormirei com algum marmanjo em uma barraca ao invés da Luana. Ao me trocar, percebi que Edivaldo, no quarto do lado, fazia uma ligação para alguém, o que era atípico de sua pessoa. A conversa parecia bem séria pelo seu tom de voz, mas parei de ser intrometido e me preparei para descer, depois do café da manhã, seguiríamos nossa busca que, no fundo, não daria em nada, e todos já sabiam.
Quando me sentei na mesa do espaço de café da manhã do hotel, que era bem simples mas elegante, me deparei com duas pessoas que não conhecia mas que estavam conversando com Luana e Silmara, foi quando percebi que o homem de aparência bem magra, pele morena de sol, cabelos finos e ralos e um sotaque local, era o nosso guia, e ao seu lado, provavelmente sua filha, uma garotinha loura com algumas sardas em suas bochechas, seus olhos azuis me fizeram pensar que ela só podia ser adotada, ainda mais com sua aparência delicada em contraste com seu suposto pai que era bem desleixado. Me aproximei de ambos me apresentado.
– Olá, tudo bem? – Eu não sabia como me apresentar, nunca soube, mas acho que aquilo bastava.
– Pensei que dormiria o dia todo, você não se cansa de ficar na cama? – Silmara não se cansava de me envergonhar na frente de outras pessoas, mas um dia me vingaria. – Esse aí é o nosso câmera man, Luiz.
– Opa, tudo bem? – O rapaz se levantou e estendeu sua mão. Em um firme aperto, ele disse seu nome. – Me chamo Josias, vou ser o guia na expedição, parece que a chuva vai atrapalhar um pouco né? – Ele parecia uma pessoa boa, apesar de não ser tão sincero em sua maneira de falar, por outro lado, sua filha ficava em silêncio, ela nem se quer olhava pra mim ou para seu pai, apenas olhava para a mesa em sua frente, parecendo perdida em seus pensamentos. – Júlia, cumprimenta o moço! – Então a garota se chamava Júlia, um bonito nome, mas eu não entendia o porquê de uma garota de menos de 12 anos, subir uma montanha perigosa com uns jornalistas loucos em busca de aliens, e eu não podia deixar passar isso em branco, então fui logo perguntando, ainda sem ter um ‘olá’ da garotinha.
– Ela vai com você? – Silmara olhou para mim como se aquilo tivesse sido uma pergunta mal educada, mas não via desse modo.
– Ela sempre vai comigo nas expedições, ela é bem útil, ensinei umas coisa pra ela já, não tem problema. – Ele pareceu ler minha mente naquele instante.
– Oi. – Finalmente a menina se virou para mim, ela tinha um olhar inexpressivo, parecia mais com sono do que outra coisa, provavelmente alguém da idade dela que deveria estudar de tarde, não estava acostumada a acordar seis da manhã todos os dias.
– Hey, então vamos ter uma grande aventura hoje, não é? – Disse isso com intuito de tentar animar a menina, mas Luana riu baixinho virando seu rosto, e logo em seguida, soube o porquê.
– Acho que não, não tem quase nada lá, com essa chuva duvido que filme algo também. – Sua resposta foi mais madura e cética do que eu imaginava. Que tipo de educação aquela menina estava tendo? Seu rosto era angelical, ela parecia personagem de algum filme da Disney, mas algo nela me deixava inquieto.
– Até a menina sabe disso e você aí se iludindo achando que vai ver um pé grande e um grey. – Luana balançou a cabeça sabendo que aquilo estava, de fato, começando a me irritar. Naquele momento, quis contar o que vi ontem, além da matéria que li no jornal, mas deixei pra lá.
– Não é bem assim, aqui todo dia pelo menos alguém vê algo! Muitos não acredita, mas é bem isso sim. – O senhor em minha frente parecia honrar sua profissão de guia, ele não poderia desmitificar os acontecimentos daquela região, oras, aquilo era seu ganha pão, assim como eu, não poderia dizer que seria difícil filmar naquelas condições.
Depois de uma longa conversa e de eu ter tomado um bom café da manhã, me senti mais acordado. Todos levamos nosso equipamento para a van, e antes que pudéssemos partir, uma figura singular se aproximou de mim, um homem com uma blusa de frio preta bem comprida para sua estatura e peso, ele usava um boné da GAP e um óculos escuro, apesar do sol nem ter dado as caras ainda, de início, pensei que era um andarilho que me pediria grana, mas depois, mais uma vez, fui surpreendido.
– Vocês são a equipe de jornalismo? Eu to um pouco atrasado, mas consegui a tempo, pelo visto. – Sua voz era quase rouca por completo, ele tinha pinta de ser alguém que morava nas montanhas, aqueles lenhadores que tinham um programa no History Channel e comiam esquilos no café da manhã, só faltava ele portar uma espingarda em suas costas.
– Você deve ser o Oliver! Eu estava ficando preocupado já, achei que tinha esquecido. – Kristian se aproximou do rapaz e segurou sua mão sem mesmo se apresentar.
– Eu fiquei preso na merda da lama, esses carros de hoje em dia não aguentam nada, será que tem um espaço na van de vocês? – Ah sim, ele era o ufólogo que nos acompanharia. Achei que ele fosse um típico senhor de cabelos brancos e óculos bem simpático, mas acho que eu estava precipitado demais esses dias! Primeiro subestimei Kristian, depois essa cidade, agora o ufólogo, me senti mal por julgar tanto as pessoas sem um bom embasamento.
– Claro, pensei mesmo que iríamos dar uma carona, a van é antiguinha e pequena mas é um coração de mãe haha. – Kristian parecia feliz com a presença do suposto ufólogo. Afinal, por que precisávamos de um guia e um ufólogo? Aquilo não fazia sentido, era só subirmos aquela merda e filmarmos o que aparecesse, se bem que, pelo que a Luana me falou, eles se ofereceram gratuitamente, então não acho que teria problema, e com um guia, não nos perderíamos.
Finalmente, com todos na van, demos início a nossa subida, e de alguma forma, meu ânimo se foi quando pensei que poderia estar na cama sonhando com o lago próximo da casa da minha tia Inês lá no sul. A van estava levando mais passageiros do que ela comportava, ainda bem que a polícia não era muito presente naquela cidade, porque se não acho que não iríamos pra lugar algum.
– Eu sei que eu não devia dizer, mas o caminho tá um pouco fodido. – Edivaldo parecia ter dificuldade em guiar a van, já passamos por muitos caminhos bem precários juntos, mas naquele momentos, estávamos seguindo a trilha de uma montanha, eu não diria bem uma montanha, porque era mais como um planalto estreito, uma chapada com um topo curvado, até a metade do caminho, havia uma estrada para podermos ir de condução, depois dessa parte, iríamos a pé até uma parte próxima do pico, o caminho em si era bem fácil, uma estrada sem muita vegetação e com sinalização, ela recebia vários turistas, devia ter alguém por lá, pensei eu, se não fosse essa chuva, mas logo desconsiderei tal hipótese, pensando quem seria o louco de subir uma pseudo montanha em um sábado de manhã, mesmo sem chuva?
– Vamo firme Edi! Você já enfrentou coisas piores. – Kristian parecia animado, de alguma forma, mas aquela animação para mim, era só um pretexto, eu o conhecia bem para saber que ele estava preocupado.
– Falar é fácil, o barro tá acabando com os pneus. – Eu sentia a van deslizar em alguns trechos, ainda bem que nos lados não tinha nada além de mato, não estávamos em um local com perigo de queda, mas se Edivaldo não fosse o motorista experiente que é, certamente já teríamos dado de cara com alguma árvore.
– Só louco mesmo pra subir uma montanha com o tempo assim. – Carolina sussurrou enquanto Josias olhava atento para fora.
– Mas de alguma forma, isso é bom, com o tempo fechado, alguma luz no céu não ficaria mais aparente? Foi o que pensei quando saímos, não é Oliver? – Eu não gostava nada do fato de Luana estar sentada do lado daquele lenhador que bancava o ufólogo, ele estava no meio, entre ela e Josias, que tinha sua filha Julia bem exprimida do seu lado. Senti um pouco de dó da garota que se mantinha calada lendo uma revista infantil durante a viagem.
– Isso é! Com sol é mais difícil de ver algo, diria que nós estamos com sorte. A maioria das aparição daqui foi com tempo assim. – Josias respondeu no lugar de Oliver enquanto seus olhos fitavam os arredores lá fora, parecia que ele estava procurando por algo ou alguém lá fora. Eu me mantinha com a cabeça virada pra trás, no banco da frente ao lado de Edivaldo.
– Ainda mais que ontem mesmo, eu já vi algo. – Todos voltaram a atenção para Oliver, que finalmente havia tirado seu óculos escuro, seus olhos eram verdes, ele parecia uma pessoa bem serena sem boné e sem óculos, seus cabelos eram negros e espetados, ele não parecia ter nem 40 anos.
– Como assim? O que você viu? – Julia, pela primeira vez, abriu sua boca em 10 minutos de trajeto.
– Como sempre curiosa haha. Bom, não foi nada demais, era uma luz vermelha, isso foi de noite, enquanto eu tava na varanda do apartamento fumando, mas ela sumiu bem rápido, isso é frequente aqui, vocês devem não acreditar, mas essas coisas são reais, e aqui, é o lugar ideal pra se encontrar isso. – Oliver parecia bem crente com suas palavras, eu senti vontade de me intrometer naquele mesmo instante, oras, eu também havia visto aquilo ontem. Queria jogar na cara de Luana e Carolina, que eu não estava animado atoa no dia anterior, mas resolvi deixar pra lá, ele havia tomado meu lugar, eu devia ter falado antes, pensei comigo mesmo me odiando enquanto ele pegava meus créditos e o lugar ao lado de Luana.
– Sério mesmo? Não tem nenhum aeroporto aqui por perto? Alguma criança com um drone? Algum laser de casa de show? Nada do tipo? – Carolina parecia querer enfrentar as crenças de Oliver, que foram rebatidas fortemente por Josias.
– Nada nada! Não tem nada, aqui só tem uma mísera fábrica de carvão, não tem nada que pudesse dar origem as luzes que o povo vê. – O jeito simples de falar parecia ter deixado Carolina sem vontade de rebater.
Havíamos finalmente chegado no pedaço em que teríamos que abandonar nossa van e seguir a pé, e aquilo já me deixava um pouco inquieto, ainda mais com uma menina de 11 anos por ali.
– Viu, não é perigoso? Digo, subir essa montanha enquanto garoa, ok que temos botas especiais e tals, mas carregar uma câmera e vocês aí com todo equipamento... – Eu estava pensando racionalmente ali, não tinha como subirmos aquilo nessa situação.
– É 10 minuto de caminhada, o caminho não é inclinado, então não tem problema. – Josias parecia sempre tranquilo, e aquilo estava começando a me incomodar, mas pelo menos, ele tinha parado de ficar olhando para os lados feito alguém suspeito. Outra pessoa que estava agindo de maneira diferente naquele dia era Edivaldo, ele sempre foi de falar bastante, mas durante toda viagem estava em silêncio. Eu sentia a sensação de que algo ali não estava normal, de que algo estava sendo ‘encenado’, mas o que seria? Sem que eu pudesse argumentar mais, Oliver foi puxando a fila e nos guiando até o local que acamparíamos, e foi naquele momento, que vi algo que sabia que estava no lugar errado.
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