Crime Intra Terrestre

1 Capítulo 1 - Delfim Moreira


Notas iniciais
Prólogo

O frio invadiu minha espinha, eu não tinha conseguido se quer fechar meus olhos naquela noite, sabia que havia algo errado, mas o que seria? Quando vi Carolina minutos atrás, ela parecia assustada, atenta a alguma coisa. Claro que alguns estariam com medo, afinal, estamos na merda de uma montanha quase deserta no meio da madrugada, ninguém tinha uma arma por ali, e depois daquilo que li naquele jornal no dia anterior, eu tinha motivos para não conseguir fechar meus olhos, e minha ansiedade aumentou ainda mais quando havia ouvido aquela conversa minutos atrás, na barraca do lado. Aquilo aconteceu mesmo? Eu tentei deixar tudo de lado, se eu não dormisse, no dia seguinte, meu trabalho ficaria arruinado. Já realizei filmagens com sono e percebi que a diferença era imensa, então eu me deitei novamente, fechei os olhos e comecei a pensar na minha terra natal, Gramado. Aqueles dias era os melhores, realmente, pena que a infância não volta mais. Quando me dei conta, já estava imerso em meus sonhos, bastou apenas boas lembranças dos meus 11 anos, no entanto, no meio do sonho, ouvi um grito estridente. Pensei que era parte de um sonho que se tornaria pesadelo, como sempre acontece, mas senti um frio, e dessa vez não era na espinha, era o frio da madrugada. A barraca em que eu dormia foi aberta, cambaleando, me levantei e me estiquei para fora, enxergando tudo embaçado, alguém ligou a lamparina que estava no centro do local meio às barracas. Os olhares se voltavam em uma só direção, para aquela barraca ao lado da minha. Olhei para o chão e vi sangue escorrendo da mesma, e quando a mesma foi aberta, um cadáver tomava conta daquela paisagem, tornando não um sonho, mas a vida real em um terrível pesadelo.

Fui acordando aos poucos naquela sexta-feira quente de fim de outono, na minha frente, apenas uma pista dupla acinzentada, a van parecia estar a mais de 160km/h, provavelmente, Edivaldo se aproveitou enquanto eu dormia, visto que eu jamais lhe permitiria pisar tão fundo assim, visto que há seis pessoas em um veículo, e em Minas Gerais, principalmente no interior, as pistas são bem irregulares, na verdade, acordei mesmo ao sentir os pneus passando por cima de um buraco, pensei que estávamos em Bagdá e que havíamos passado em cima de alguma mina terrestre, felizmente, por trás dos meus óculos escuros, meus olhos enxergavam apenas uma vegetação seca rasteira nas laterais da pista, provavelmente estávamos a alguns quilômetros do nosso destino, Delfim Moreira, uma cidade no interior de Minas Gerais, não devia ter nem vinte mil habitantes, eu não sabia muito sobre o local, afinal, era só o câmera man, um dos funcionários mais aleatórios e esquecidos de uma equipe jornalística, até a Luana que é maquiadora deve ganhar mais do que eu, mas bem, isso não importa, eu sei do meu valor e amo o que faço, sem mim, a imagem, ou seja, o principal de uma matéria, não chegaria até os expectadores, e nesse fim de semana, meu trabalho seria essencial, visto que uma imagem valeria mais que todas as palavras da Carolina.

- Cara, você dormiu por uma hora, nesse sol forte, você por acaso veio da Paraíba, ou então tomou uns três dramins ao sair da capital? – Edivaldo era o motorista, um homem bom e bem simples, com seus 45 anos e 25 de profissão, podia-se dizer que era a pessoa que eu conhecia a mais tempo dentro da RKS, emissora local de Belo Horizonte, trabalho lá a mais de 15 anos, e agora, com meus 32 anos, o considero quase como um irmão, já rodamos o Brasil todo, ou diria que pelo menos o sudeste todo, em busca de reportagens sensacionalistas e satisfatórias para um público sedento de informação desnecessária e manipulação de primeira. Ele possuía uma testa enorme, todos brincavam com ele por conta disso, até o nosso diretor, seu corpo era robusto, mas mais para o lado de ser obeso do que forte, sua pele morena só demonstrava o quanto ele já tinha viajado durante sua vida, mas pelo visto, assim como eu, ele também gostava de sua profissão.

- Ele andou bebendo ontem, pode ter certeza – Olhei para trás com desdenha, Silmara era a pessoa que cuidava dos efeitos sonoros e também responsável pela parte administrativa e gastos da viagem, ela é daquele tipo de pessoa que não para pra respirar nunca, está sempre ativa e disposta a fazer alguma coisa, sua pele negra e olhos bem castanhos deixavam um realce bonito junto aos seus cabelos cor de mel amarronzados, apesar de sua estatura baixa a fazer parecer bem mais jovem do que é, quando na realidade, ela possui dois anos a mais do que eu.

- Eu não bebo a anos, e todos aqui presentes são testemunhas. – Disse enquanto voltava meu rosto para a estrada, ainda estava com sono, antes de ser acordado pelo buraco de Bagdá, estava tendo um ótimo sonho com um churrasco gaúcho caprichado, que saudade da minha terra, pensei enquanto fechava os olhos novamente.

- Todos são testemunhas de que você não bebe socialmente Luiz, mas ninguém garante que sozinho em sua casa, ou na companhia de certas pessoas, você não enche a cara de vodka e acorda no dia seguinte com olheiras, aí é obrigado a usar um óculos escuro e a dormir em uma viagem de menos de duas horas, fingindo que tomou dramin ou algum remédio pra enjoo. – Ao lado de Silmara estava Luana, uma mulher de 26 anos, quase o oposto de sua amiga que se encontrava ao seu lado, ela tinha cabelos negros mas a pele era bem clara, olhos azuis e lábios carnudos, ou nem tanto, descrevo assim porque acho que, depois desse tempo com ela, passei a nutrir alguns sentimentos que pensei que não existiriam, ou ao menos, eu não queria que existissem tão cedo.

- Continua ácida como sempre, mesmo com seu futuro esposo. – Nos últimos bancos daquela van branca ano 2002 que o canal devia trocar a algum tempo, estavam Kristian e Carolina. Kristian, o que havia gerado o comentário que causaria uma resposta irônica de Luana, era nosso diretor, mesmo sendo homossexual, ele era respeitado por todos, não por ser uma pessoa bacana, mas por sempre ajudar todos quando precisam, com seus 52 anos, ele era o ‘pai’ de todos naquelas jornadas semanais que fazíamos, ele havia sido promovido para ser chefe executivo do telejornal de maior audiência do canal, mas recusou, dizendo que essa era a equipe dele, depois disso, passei a respeitá-lo muito mais.

- Pra aguentar ele, ela tem que ter ácido e veneno. – Carolina era uma mulher de 33 anos, cuja qual eu havia tido um caso a alguns anos, mas pelo visto ela ainda guardava, no fundo, algum ressentimento contra minha pessoa, ela era alta e tinha cabelos louros naturais, parecia mais uma modelo do que a repórter principal.

- Esses seus ataques estão se tornando clichês, Carol. – Respondi já sabendo que não adiantaria muito, ela era uma mulher orgulhosa e de nervos de aço, perto da Luana, era como se fosse uma víbora contra um girino que acabara de nascer.

- Mas ela mentiu? E eu também não menti quando disse que acabamos com uma garrafa de vodka em menos de meia hora, então nem vem com seus papos de bom samaritano! – Luana não tinha nenhuma elegância, ao contrário de Carolina que parecia uma aristocrata, mas de alguma forma, eu gostava tanto daquela mulher, apesar de nunca ter planejado algo sério com ela, parecia que seus comentários eram sempre dirigidos para que Carolina ficasse com ciúmes, mulheres, afinal, são assim, mas parecia que a loura nem se importava e ainda ria de um casal peculiar.

- E isso precisa ser exposto aqui, em um ambiente de família tão agradável? – Refutei enquanto abria um pouco o vidro, estava cansado daquele ar condicionado, queria sentir o ar puro.

- Tão familiar que achei umas revistas pornográficas do Edi aqui embaixo do banco! Um absurdo. – Kristian balançava sua cabeça negativamente enquanto Edivaldo ria olhando para o retrovisor do meio.

- Você tá com medo de gostar é?

- Deus me livre filho, já vi todas essas divas aqui nuas e só senti inveja.

- Você é mesmo um cara abençoado. – Com minha resposta, Luana me olhou torto, ela sabia que eu falava aquelas coisas brincando, mas o gênio forte da mulher sempre me repreendia automaticamente só com seu olhar.

- Olha, só mais dez quilômetros e finalmente vamos ver alguns aliens, hahaha. – Silmara apontou para a placa que acabamos de passar, nossa jornada até essa cidade até então desconhecida por mim tinha um motivo não tão desnecessário como eu havia citado logo antes e como são quase a maioria de nossas reportagens, dessa vez, acamparíamos em uma montanha em busca de atividade alienígena, e confesso, que estava começando a ficar empolgado.

- Se quer ver um et é só olhar pro volante. – Eu não me segurei e comecei a rir do comentário da Carolina, ela falava de uma forma tão séria que tornava tudo mais engraçado, Edivaldo já nem ligava mais.

- Só tome cuidado pra eu não te abduzir minha lady. – O motorista não ficava atrás nas respostas afiadas.

- Sua mulher vai gostar de saber que, além de revistas eróticas, você também assedia as companheiras de trabalho? – Disse Silmara sorrindo enquanto se inclinava para pegar um chiclete que ficava perto do câmbio.

- Minha mulher é da cultura árabe, ela entenderia. – Na verdade, Edivaldo nem casado era, como nenhum de nós naquela equipe, um bando de seres humanos solitários em busca de...aliens!

Depois de mais alguns minutos, finalmente chegamos na tão esperada cidade. A entrada do lugarejo possuía uma placa bem velha dizendo frases prontas de boa vinda, como se muitas pessoas visitassem aquele lugar todos os anos, o fato é que, tirando as recentes aparições de supostos aliens e luzes no céu, aquele lugar não possuía nada que pudesse ser rotulado como atração turística, nem mesmo as paisagens da serra eram tão inesquecíveis assim, haviam outras cidades nas proximidades que ganhariam uma nota maior nesse quesito, por isso não fiquei muito animado quando soube dessa reportagem repentina, mas nosso canal, sendo bem sincero, era mais uma rede local sensacionalista que corria atrás de qualquer coisa por falta de assunto, afinal, os grandes jornais de BH cobriam os acontecimentos importantes, tudo em primeira mão, para os menores, só restava procurar algo fora do comum, apelar para temas que brincam com a inteligência humana, que, nesse caso, conseguiam gerar ao menos uma boa audiência para manter o meu salário. Edivaldo foi virando em várias ruas logo que entrou na cidade, as casas do ‘interior’ parecem sempre todas iguais, o clima também, parece que é sempre quente, por mais que a cidade se situasse em um local alto, haviam também crianças brincando nas ruas e vários cachorros passeando como se não quisessem nada da vida, essa e outras visões típicas interioranas me causavam certo conforto e me faziam esquecer o estresse da cidade grande, não particularmente da cidade, mas sim do meu trabalho e da correria em poder pegar o metrô todos os dias e almoçar na velocidade da luz. Naquela sexta-feira, iríamos ficar em um hotel próximo da entrada de uma das montanhas mais visitadas da cidade, Kristian estava bancando tudo, apesar de ser uma pessoa bacana, ele também era bem pão duro, aposto que pegou um hotel com camas de palha e chuveiros que derramam terra, não querendo ser alguém exagerado. No dia seguinte, acordaríamos às 06:00 para preparar todo equipamento, se encontrar com o ufólogo e o guia, e assim então, subirmos a montanha encantada em busca de algum vulto que poderíamos chamar de alien ou alguma luz que não era nada mais que um satélite passando pelos céus, mas a televisão pode manipular tudo que quiser, com um texto e uma câmera, podemos fazer de um avião um óvni que ameaça o estado de Minas Gerais.

Ao chegarmos no hotel, percebi que dessa vez estava enganado, Kristian havia reservado um local agradável, o prédio possuía a arquitetura bem moderna para uma cidade antiquada, parecia ter boas acomodações, quando fui retirando meu equipamento do porta-malas, percebi o vento rarefeito de chuva que impregnava meu rosto pálido, não havia muito movimento naquele local, mesmo sendo sexta-feira à noite, foi quando Carolina se aproximou de mim com um olhar discreto.

- Está mesmo animado com isso tudo? Digo, já fizemos reportagens em um vulcão, em uma aldeia, em um galinheiro, e até mesmo naquela fábrica de preservativos, bom comparado a isso, não estamos no fim do mundo. – Não consegui entender o motivo do diálogo repentino de Carolina comigo, apesar de saber que ela sempre se direciona até mim com alguma razão, e a maioria, era sempre pra extrair algo e alimentar o seu rancor que ela sabia esconder bem. Ela retirava o celular do seu bolso enquanto esperava uma resposta.

- Animado? Eu sempre estou animado, esse é meu trabalho, estou aqui pra registrar tudo, quem não está animado nem precisa subir a montanha.

- Sempre tão resplandecente, hein. – Carolina escrevia uma mensagem em seu celular enquanto se afastava lentamente de mim, andando de costas, mas antes, ela proferiu algumas últimas palavras. – Sabe, eu sinto que deveríamos desistir disso, não vai ser uma boa ideia acampar em uma montanha. – Não entendi onde ela queria chegar, mas no momento, Luana já estava atrás de mim, ela parecia me observar enquanto eu fitava Carolina.

- Essa foi sua segunda mentira de hoje, não é? – Me virei para a mulher, que sorria enquanto comia uma barra de cereal.

- Está com seu regime ainda? Não sei onde mais quer emagrecer.

- Não, é que eu não gosto da comida de hotéis mesmo, e vai saber né, alguém pode nos envenenar, haha, seria uma boa matéria pra quem veio aqui atrás de ‘mistério’. – Os olhos de Luana pareciam como de uma garota de doze anos animada ao ir para uma excursão, de alguma forma, ela era a mais ansiosa sobre isso tudo, e eu não conseguia entender esse sentimento, visto que ela sempre odiou locais assim, ela era uma mulher da cidade, que gostava de luxo e tecnologia, analisando tais aspectos, me perguntava como isso não me incomodava no tempo em que passei e ainda passo com ela.

- Acha mesmo que vai acontecer algo? Que uma nave vai nos raptar? Você lembra de 2013, né? Varginha foi a mesma coisa, só que não era uma montanha, e pagamos umas crianças pra fazerem barulho atrás de uns arbustos enquanto filmávamos aquela casa. Acho que Kristian já deve ter pensado em algo.

- E é isso que me assusta. – Respondeu Luana, fechando o seu rosto repentinamente enquanto as nuvens no céu ficavam ainda mais negras. – A criatividade do Kristian pode ir além dos limites. – Dito isso, ela carregou suas bolsas, e todos nós, seguimos até o hotel.

Cada um ficaria em um devido quarto, o que era uma pena, queria passar uma noite com a Luana antes de dar uma de Winchester, mas não podia reclamar, eu calei minha boca ao deitar na cama, era um local extremamente confortável, até as televisões eram de plasma, o ar condicionado não fazia barulho e o frigobar gelava bem, me senti até mal quando pensei aquilo do Kristian mais cedo. O que foi combinado antes de sairmos de Belo Horizonte, era que apenas faríamos uma vigia no sábado, Kristian estava confiante de que não precisaríamos armar nada, porque algo iria acontecer, ele veio enfatizando isso a viagem toda. O que diabos poderia acontecer? Eu sou uma pessoa cética, e não nego, nunca vi luz alguma no céu e muito menos aliens, chupacabras ou seres tirados da imaginação fértil humana, mas eu sabia que no fundo Kristian viajava muito na maionese, sua fé era grande, não fé em Deus ou alguma religião, mas fé de que sempre daria merda, e que com isso, teríamos sempre, como consequência, uma reportagem. Eu sinceramente, nunca vi dar merda, e não era dessa vez que isso iria mudar.

O clímax da noite chegou, mas como eu havia dormido no carro, parecia que o sono estava longe de me atacar, e sendo assim, resolvi dar uma volta, não queria ficar preso em um quarto sozinho e silencioso com insônia, a tv aberta era um grande lixo, por mais que eu fizesse parte desse sistema, o que me fez parecer um grande hipócrita. Saí do hotel com meu binóculo, um instrumento que carregava para todos os cantos, gostava de observar as coisas, não sou o que dizem de ‘exímio observador nato’, mas eu apenas era curioso, ou em dito popular, um enxerido. Não que eu fosse observar mulheres tomando banho nem nada do tipo, apenas gostava de ver o que acontecia ao redor. Na frente do Hotel que tinha a denominação de Plaza Delfim, um nome bem criativo ironicamente se pensando, havia uma pracinha daquelas que não possuíam nem 10 bancos, no meio tinha uma fonte velha quebrada, aos redores, alguns arbustos que morriam aos poucos junto da grama verdinha e algumas plantas desconhecidas. Me sentei e um dos bancos para sentir a brisa da serra, o tempo estava nublado a algum tempo, mas parecia que nunca chovia, aposto que estava só esperando para amanhã, nossa equipe era conhecida como Equipe da Boa Sorte, claro que, ironicamente falando também, visto que nas duas vezes que fomos fazer reportagens no litoral de SP, choveu. Isso já era natural e ninguém se surpreendia, e eu já dava certo como uma falha subir aquela montanha, provavelmente, voltaríamos pra casa de mãos abanandos, mas Kristian, pra não perder o dia, resolveria criar algo sensacionalista de última hora pra fazer os telespectadores engolirem à força. Tentando não pensar nas possibilidades do dia seguinte, apenas coloquei o binóculo em meus olhos e o apontei para o céu. Me senti um tanto idiota fazendo aquilo, no fundo, queria mesmo encontrar alguma luz que daria voltas em círculos ou realizaria piruetas sem nem considerar a atmosfera, e mais, o tempo estava encoberto, como eu poderia ver se quer uma estrela por ali? Coloquei o binóculo em cima de minhas pernas novamente me sentindo infantil, quando pequeno, eu sempre fui fascinado com coisas sobrenaturais, mas não pensei que levaria isso até depois dos trinta, fingindo a todo custo, ser cético e racional. Ao bater minhas costas contra o banco de concreto em que estava sentado, me deparei, bem do lado esquerdo do banco, com um pequeno jornal jogado naquele canto, era um tabloide pequeno, daqueles distribuídos gratuitamente, resolvi pegar e ver os tipos de notícia que circulavam aquela cidadela, como fofocas de vizinhos e feira de gado e galinhas premiadas. Mas pra minha surpresa, mais uma vez, eu havia me precipitado. Cidades do interior não eram tão calmas como a maioria imaginava, logo na primeira página me deparei com a notícia: “Mais dois corpos são encontrados em casa abandonada no munícipio de Sarapuí, a 20km de Delfim Moreira”. – Se o Kristian ver isso, será que ele mudaria de ideia? – Claro que uma matéria dessas faria mais sucesso do que uma falando de objetos voadores, ok que os telespectadores, em sua grande maioria, para assistirem um canal merda como o nosso, precisam ser bem alienados e digerirem facilmente as coisas, mas temas como óvnis, chupa cabras e assombrações já era algo bem saturado que ninguém leva a sério, as pessoas são sádicas e preferem ver assassinatos, corpos, tragédia, isso sim, é o que movimenta um bom jornalismo sensacionalista. Eu me sentia um rato de esgoto diante dessa tranqueira, mas eram anos vivendo como um verme, então não havia nada que eu pudesse fazer, eu não tinha esperança de conseguir trabalho em outro lugar, então apenas aceitei, afinal, eu era só o câmera man. Antes de começar a ler a matéria, me deparei, bem distante, a umas duas quadras do hotel, com uma pessoa toda vestida de preto olhando para o céu. Pela distância, não reconheci o sexo da mesma, ela estava de costas, mas parecia ser um homem pelo corpo robusto, nesse momento olhei para a direção que essa pessoa estava olhando, eis que me deparo com uma pequena luz vermelha opaca brilhando fixamente entre uma nuvem cinza escura. A cidade predominava em silêncio, não haviam nem grilos ou cachorros latindo, aquela cena parecia saída de algum filme noir, algum tipo de detetive ou assaltante (aquela pessoa poderia se encaixar perfeitamente em um desses padrões) meio a uma neblina vaga, olhando para o céu, e um cidadão da capital, em uma pequena praça abandonada, sentado em um banco, se deparando com o que poderia ser mesmo uma nave extraterrestre. Naquele momento pensei em correr para o hotel e pegar minha câmera, talvez, não houvessem outras oportunidades no dia seguinte como essa, mas quando me dei conta, em um instante, o objeto havia sumido do céu. Olhei para frente novamente, e a pessoa que estava parada olhando para o tal objeto também havia desaparecido. Claro que se eu contasse isso que havia acontecido para qualquer membro da equipe, eles me zoariam pelo resto da vida, afinal, todos ali, estavam indo fazer uma matéria sobre discos voadores e sua existência, acreditando, que de fato, nada disso é real.