Crie em Sua Mente
6 Oníricos
Notas iniciais
- Mas afinal, o que estão fazendo aqui? –inquiriu a mais velha enquanto a psicóloga comprava o bilhete do estacionamento do metrô.
- Temos viajado muito ultimamente. A trabalho.
- Mas e aquele cargo público para internautas que você ia prestar...?
- Perdi a prova.
- Você o quê?!
- Perdi a prova específica.
- Não acredito nisso...!
- Por que você tá reclamando? O dinheiro da inscrição nem era o seu...
- Não é o dinheiro, Bii. É uma questão de responsabilidade e compromisso com o próprio futuro!
- Humpft...
- E no que vocês estão trabalhando então? Com essa aparência...
- Eu arranjei algo para fazer com meu dom.
- Está trabalhando com Artes?
- Mais ou menos. –ela parou e olhou novamente para Ligia.
- Eu não direi nada, não se preocupe.
- Diga, só essa atitude suspeita já a comprometeria, de qualquer forma. –Bii nunca fora tão esperta quanto ela.
Ela fora rejeitada pelo pai, que não admitia filhos herbívoros, na base da cadeia alimentar. Mas ela passara por cima dele e se tornara a mais ágil e inteligente do bando. Pandora a amava muito, apesar de discordar de suas políticas e eventual falta de consideração com os outros.
- Estamos criando documentos e vendendo.
- Vocês... –Pandora engasgou seriamente, mas por sorte elas haviam chegado na vaga e Ligia parou o carro.
- Pandora...
- Vocês estão falsificando?!?! –cuspiu, finalmente conseguindo respirar.
Alguém bateu nos vidros filmados do carro da psicóloga. Há tempos não haviam mais vidros transparentes e comuns, sem blindagem.
Com uma confirmação em um movimento por parte de Ligia, Pandora abaixou seu vidro, para encontrar uma menina de seus doze anos encostada na porta. Corpo pouco desenvolvido, rosto redondo e de bochechas rosadas. Uma blusa lilás e a calça jeans completavam o look “me leve para casa”da menina. Era linda e fofa. A mesma levantou seus óculos escuros acima da franja reta, e piscou de forma adulta e zombeteira para as passageiras. Sua voz juvenil soou.
- Oi Pandora!
- Oi, Nike. –Pandora sentiu sua raiva fraquejar ao encarar os belos olhos mel, quase verdes por seus raios claros dessa cor que cortavam a íris da criança. Suspirou- Entra aí.
- Com licença. –entrou, sentando-se ao lado de Bii no banco de trás.
- E aí?
- Entreguei. Esse foi um dos seus melhores trabalhos, seu cliente ficará satisfeito.
- Nem me fale, mal consigo mover minhas mãos... Tudo o que eu quero agora é dormir.
- Como isso funciona, Nike?
- Somos Winner, no trabalho.
- Por que você se mete nessas coisas perigosas e some?
- Estamos trabalhando, como você sugeriu que fizéssemos.
- Estava pensando em um trabalho responsável e legalizado!
- É seguro. A Bii desenha, projeta e imprime os documentos com perfeição e eu entrego. Simples. Ninguém sabe se Winner é um Sir ou uma Milady. Ninguém nunca vai desconfiar de uma criança que entrega algumas cartas materiais... Apesar de não ser mais usual, ainda existem entregas, e quem vê pensa que deve ser só uma pequena travessura ou algo assim.
- Não que não seja, -riu Bii, bocejando em seguida- Eu realmente quero dormir...
- E o dinheiro é alto, nos proporciona uma boa vida. Fazemos isso uma vez por ano somente, para você ter uma idéia. O inconveniente é ter que circular como humana e passar semanas viajando. Toda vez que usamos o computador temos que ir para outro estado, para eliminar o risco de sermos hackeadas.
- Inconveniente? Vocês por um momento pensaram que se o governo barrou os documentos desse cidadão ou ele não pode mostrar seus documentos originais é porque tem algo muito errado aí?
- E daí?
- Você nunca fica feliz com nada, também... –reclamou Bii, em sua forma vagarosa e despreocupada.
Aquilo foi a gota d’água para Pandora, que deu evasão a Z, por um momento...
- E daí? E daí? Porra meu! E a consideração com as outras pessoas?
- Consideração? São humanos, maninha. –debochou a (aparentemente) mais nova de todas- Não seja tosca, vai.
- CALA A BOCA! –Ligia, ainda tentando não interferir, apenas segurou os braços de Pandora- Você não tem noção de como eu to querendo quebrar essa sua cara de pau!
- Vem então, maninha. –provocou, entre risos. Bii apenas encarou as duas e abriu a porta do carro, descendo para o estacionamento.
- Como se você pudesse comigo... –sorriu Pandora, relaxando os músculos. Mas algo no tom provocativo e enojante em sua voz fez Nike ficar vermelha e retesar os próprios músculos- O que foi, herbivorazinha? Percebeu que não tem chances, não é? Perdedora.
Antes que Ligia pudesse evitar, a mão de Pandora voou até a orelha da irmã de sangue, que ficou ainda mais vermelha e travou o maxilar em um gesto igualzinho ao da própria Pandora quando irritada e saiu, batendo a porta.
Embaçando o vidro propositalmente, Bii escreveu: “Nos vemos daqui a 50 anos, Pandora”. Pegando uma chave com Nike, foi até a Harley Davidson ali estacionada, colocou seu capacete, assim como a pequena, e subiu na moto. Segundos depois, estavam longe, em alta velocidade.
- Moto.. Eu já disse pra elas não usarem essa joça.
O jeito irritante de falar de Pandora estava começando a afetar até mesmo a paciente Ligia.
- Você está errada.
- Não estou não, são elas que estão fazendo negócios ilegais. –protestou, se sentindo injustiçada e começando a recuperar o controle sobre si.
A tristeza a invadiu. Estragara tudo por sua própria falta de controle. Magoara a irmã, quando deveria a orientar...
Sentiu os olhos arderem e o peito doer. Seus lábios começaram a tremer e ela afundou o rosto nas mãos esperando a dor que viria a seguir. Sua garganta fechou e seu coração passou a tentar se despedaçar, debatendo-se contra seus outros órgãos internos... Ainda assim, as lágrimas não vieram. Mesmo com toda a dor e tristeza...
- Tente ficar calma e respirar. –Ligia murmurou- Ainda dá para concertar.
- Eu... –mas a garganta fechada a impedia de respirar, e, por tanto, de falar. Era uma situação desesperadora, como esperar paralisada a morte.
Angina.
Ligia fez que sim com a cabeça, concordando com o silêncio e a abraçando. Ficaram assim até a dor no peito da mais velha amenizar e ela poder respirar novamente. Ligia sabia muito bem que naquela situação o melhor a se fazer por uma pessoa em crise era apoiá-la e esperar passar... Esperá-la perceber que não vai morrer... Eduardo era asmático desde criança, então ela aprendera bem cedo.
E Pandora, por mais que omitisse e tentasse esconder, precisava de atenção e cuidado, assim como levava em si muito carinho que não tinha onde depositar. Uma vida solitária acarreta esse tipo de problema, no fim das contas.
Ligia estava lá com ela, e podia suprimir aquelas necessidades, tentar mostrá-la... Que pessoas boas e compreensivas não são só sonhos.
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