Criaturas do sino e o caçador
1 Capítulo Único
“SEJAM BEM-VINDOS! SE OUVIREM O SOM DO SINO EM SUAS CABEÇAS, SE MATEM”, essas são as palavras grafadas numa placa que marca a entrada da vila de Macieira, conhecida por suas deliciosas maças e por seus habitantes justificavelmente covardes. Essas também são consideradas as palavras mais sábias por todos que vivem ali, isso porque é a instrução mais básica que todos devem seguir. Você pode rezar, gritar, se esconder ou pedir por ajuda, mas isso não é aconselhável simplesmente pelo fato que gasta o precioso tempo que você poderia usar se matando. Existem aqueles que escolhem não se matar, normalmente visitantes desavisados, que ficam confusos e acham graça de tais palavras, mas os infortunados entre eles sempre se arrependem quando não podem mais matar, o único alívio deles é quando percebem que aquilo está terminando e logo não estarão mais vivos. As pessoas da vila nunca a deixam, pois elas sabem que aqueles que tocam o sino conhecem todos que nasceram ali e que eles não querem que nenhum deles vá embora, pois não querem perder seu alimento. “Ouvir o sino é pior que o inferno, as criaturas que o tocam são piores que demônios”, pelo menos é o que todos os fantasmas dizem, o que provavelmente é verdade, pois as únicas almas que conseguiram aguentar o terror do inferno e achar o caminho de volta para a terra são aquelas que tiveram o desprazer de passar por aquela experiência, eles sempre estão tristes por suas almas serem imortais e não poderem esquecer do que houve.
O céu estava limpo, o dia ensolarado, Raimundo Fernandes sentia uma leve brisa enquanto seguia pelos campos com seu cavalo em rumo à Macieira. Ele não ia pra lá pra comprar maçãs, ele não gostava tanto delas, nem queria revendê-las, Raimundo também não estava apenas de passagem, não havia nada que o interessasse nos vilarejos adiantes A verdade que ele lá havia dinheiro esperando por ele, dinheiro de um covarde azarado que perdeu tudo o que tinha, o covarde mais rico daquela vila, Gilberto Gringo era também o mais covarde de lá.
Gringo perdera sua mãe quando ainda criança, ela ouviu o sino e não se matou, ela cometeu o erro de pedir por ajuda, ele viu tudo na frente dele, isso é uma visão que ninguém gostaria de ter. Anos depois seu pai ouviu o sino, ele teve tempo de se matar, mas não de sair da frente dos olhos do filho pra isso. O mesmo ocorreu com sua esposa, o deixando sozinho com o filho pequeno. E para completar seu infortúnio, seu filho também ouviu o sino, mas era jovem de mais para conseguir se matar, Gilberto fez isso por ele. Ele se sentia amaldiçoado, odiado pelas criaturas, mas a verdade é que elas amavam sua família, nunca antes naquela vila viveram pessoas que comiam com tanta qualidade, logo suas carnes eram as melhores. O medo era a única coisa maior que sua tristeza, esse medo que o fez gastar parte de sua fortuna em boatos que ouvira, boatos que poderiam salvá-lo, boatos sobre o caçador.
Ao entrar na cidade, Raimundo viu a placa de boas vindas dela, aquilo só serviu pra confirmar que estava no lugar certo. Ele abriu novamente a carta que recebera e foi em direção à maior casa da cidade. Ele já estivera em moradias maiores, mas nenhuma ficava em uma vila desse porte. Em volta da grande e luxuosa casa haviam plantações de maçã e pequenas casas onde viviam os trabalhadores, Gilberto era o único latifundiário do local. Ao chegar na casa que quase era uma mansão, Raimundo foi recebido com um banquete, na mesa havia apenas Gilberto Gringo sentado em uma das pontas e uma cadeira vazia na outra, ele se sentou.
Gilberto ficou surpreendido pela simplicidade do homem em sua frente, aparentava ter cerca de 30 anos e usava vestimentas simples, comuns a qualquer habitante comum de cidades maiores. A única coisa notável nele era uma marca em forma de cruz que possuía na esquerda do rosto, marca tradicionalmente dada a pessoas que deserdam grandes grupos de bandidos, o que não é surpreendente, visto a nova profissão que possuía.
— Bem-vindo Sr. Fernandes, sirva-se enquanto discuti…
— Vamos direto ao assunto. — Interrompeu Raimundo — Sr. Gringo, diga-me qual o preço que pretende me pagar pra eu me livrar deles.
Tal atitude espantou Gilberto Gringo, mas logo eles se recompôs e voltou a falar.
— Ofereço duzentas moedas de ouro para que cuide das criaturas do sinos, elas tem assola…
— Aceito a oferta. — Interrompeu novamente — Dentro de alguns dias virei buscar o dinheiro. — Levantou da mesa sem tocar na comida e começou a andar em direção à saída.
— Espere! — Disse Gilberto — Posso lhe garantir uma estadia e comida durante seu tempo nessa vila.
— Isso não será necessário. — Respondeu Raimundo enquanto continuava a andar.
Criaturas do sino, nunca foram vistas, se alimentam de humanos, a vila que escolhem são sempre destruídas em poucos séculos, ninguém que nasce lá pode sair vivo, todos que chegam perto de alguma vítima também se torna uma, os corpos afetados e a morte que elas trazem é a mais dolorosa em todos os universos. Isso é tudo que Raimundo Fernandes sabia delas, o que era raro considerando todo seu tempo de experiência no ramo, coisa que o fez ficar animado, mas que normalmente deixa outros caçadores assustados.
Com seu cavalo, Raimundo foi para uma estalagem e separou o equipamento que julgou ser necessário, pegou um arco e uma bolsa de flechas e os colocou nas costas, também pegou pedaços de madeira grafados com símbolos estranhos e uma esfera de vidro. Carregando consigo esses equipamentos, ele começou a andar pela vila em busca do que procurava. Passaram-se dias e tudo que o caçador fazia era andar procurando alguma vítima, esse é o único ponto de partida que possuía.
Mais de duas semanas haviam se passado desde quando começou a busca, ele estava andando pelas ruas durante a noite como sempre fazia, quando de repente ouviu um grito, saiu correndo na direção de onde veio o som. De longe ele avistou a casa, podia ver pela janela uma mulher segurando uma faca, pronta para se matar. Rapidamente ele pegou uma flecha e usando seu arco a atirou dentro da casa, a flecha possuía uma esfera de cerâmica no lugar da ponta, quando se rompeu ela liberou um gás que se espalhou a casa.
A mulher não conseguiu se suicidar, ela gritou, perdeu o precioso tempo que deveria ter usado se matando. O maior erro da vida da mulher acabou se tornando a sorte de Raimundo, graças a isso ele pôde encontrar o que queria, além de ter tempo o suficiente para testar ambas as suas teorias. Enquanto a primeira necessitaria de mais algumas horas pra poder ser confirmada, ele coloco a segunda em prática. O caçador pegou os pedaços de madeira que trouxera e os colocou em volta da casa, esses são talismãs que prendem criaturas extradimensionais, tais como fantasmas, e as prendem em um espaço tridimensional limitado. Não houve reação dos talismãs, o que significa que Raimundo terá que esperar horas para verificar a sua primeira teoria. Como não havia mais nada que pudesse fazer ali, ele foi para a estalagem descansar, ele mal dormia há dias por causa de sua busca.
Já era tarde quando ele acordou no outro dia, ao levantar a primeira coisa que fez foi olhar a esfera de vidro que estava carregando. Havia dois pontos luminosos nela, o maior e mais forte apontava na direção da casa onde a mulher havia morrido, o outro para uma direção quase oposta. O gás que foi liberado era um rastreador, a esfera reagia a ele através de liberação de luz. Raimundo já sabia aonde ir, teve sua refeição na estalagem, pegou seu equipamento e seguiu na direção indicada pela luz mais fraca, em direção à toca das criaturas dos sinos. O caçador saiu da cidade e entrou na floresta que havia ao redor, quando mais se aproximava mais forte a luz ficava. Seguindo o rumo ele se deparou com a entrada de uma caverna, a luz apontava diretamente para o fundo dela.
Ao entrar, Raimundo sentiu algo como um foi encostando em sua perna. Já se preparando para uma armadilha, ele rapidamente pulou para trás, sacando uma espada que trouxera e pegando do bolso um amuleto de pedra que se transformou em um escudo de aço. Mas nada aconteceu, esperou mais alguns segundos, pronto para ataques de qualquer direção, nada veio, mas o caçador já tinha certeza que as criaturas já sabiam que ele estava ali. Por um momento abaixou sua guarda, se preparando para continuar a andar, mas nesse momento uma das pontas do fio se soltou da parde revelando uma fina agulha em sua ponta e se moveu em direção ao pescoço de Raimundo. Mesmo desprevenido, ele conseguiu reagir a tempo se desviando. Com sua espada ele rapidamente cortou o fio, fazendo com o que o restante que estava preso na parece se retirou para o fundo da terra.
Raimundo Fernandes pegou o fio que estava no chão e viu que se tratava de um tentáculo. Fios ainda menores saíam da agulha presente na ponta, deduziu que era aquilo que usava pra se alimentar, os fios se espalhavam pelo corpo da vítima absorvendo toda a sua matéria, desse modo não restava nenhum cadáver. Ele soutou o cadáver e concentrou-se em sua espada, aos poucos ela incandescia até que passou a brilhar fortemente e liberar chamas. Raimundo encostou sua espada no tentáculo e o fogo se espalhou por ele.
O caçador voltou a adentrar a caverna com sua espada flamejante iluminando o caminho, andava com cuidado, pois sabia que poderia ser atacado a qualquer hora por qualquer direção. Minutos se passaram sem que nada ocorresse. De longe percebeu que havia algo no caminho. Ele parou e aumentou a intensidade do fogo para ver do que se tratava. Duas coisas chamaram sua atenção. A primeira era que ali terminava a caverna, não havia caminho adiante. A segunda era a forma esférica, com mais de um metro de diâmetro, parada no chão, dela saiam diversos tentáculos iguais ao que ele encontrara anteriormente, algumas delas estavam deitada ao chão em volta da esfera, mas a maioria se afundava na terra, era com elas que a criatura observava toda a cidade.
Ao contrário do que diziam as lendas, não haviam várias criaturas do sino, apenas uma. Raimundo pegou um pequeno saco de pano que carregava e arremessou em direção à criatura, o saco caiu próximo a ela, mas a nem a esfera nem os tentáculos se moveram. Ele preparou sua espada aumentando o fogo dela. Assim que avançou ele sentiu um cheiro estranho e parou. Sua visão começou a perder o foco e ele sentiu uma tontura e antes que pudesse fazer algo um tentáculo o atingiu na barriga. Nesse momento ele viu pequenos poros que haviam na esfera se fechando, ela não precisava mais solta gases por ele.
O veneno atingiu seu cérebro, imediatamente sons de surgiram em sua cabeça. É nessa hora que ele deveria ter se suicidado. Se não morresse a dor e todo o sofrimento seriam inevitável. Mas ele não o fez. Não poderia fazer. Pela primeira e única vez, Raimundo Fernandes se arrependeu de ter se tornado imortal.
O som do sino se tornava cada vez mais intenso em sua cabeça, a dor que surgiu em seu corpo se tornava cada vez mais forte, sentia todo o seu corpo sendo constantemente despedaçado em milhões de pedaços. Usando toda a sua força de vontade ele conseguiu se concentrar na sua visão, olhou para seu braço e testemunhou o motivo dos boatos sempre usarem o plural para se referir à criatura do sino. Buracos começaram a surgir em sua pele dando a impressão que estava sendo devorado em diversos lugares, quando na verdade estava sendo absorvido lentamente por dentro.
Não sabia há quanto tempo aquilo tinha começado, já tinha trabalho o suficiente tentando se manter consciente, não conseguia mais perceber a passagem de tempo. Seu corpo se regenerava enquanto era absorvido, poderia continuar ali pra sempre. Se continuasse recebendo o veneno a dor não pararia de aumentar, se demorasse mais ele não conseguiria nunca fazer mais nada, seria a maior sorte da criatura.
Para o azar dela ele conseguiu agir. Com um esforço que nunca havia realizado antes, Raimundo pegou sua espada, acendeu suas chamas e a arremessou em direção ao saco que havia jogado, um saco de pólvora. Uma grande explosão ocorreu queimando e matando a criatura do sino. O caçador também foi pego na explosão, mas por causa sua imortalidade aquilo não seria problema e por causa da dor do veneno ele nem mesmo sentiu as queimaduras. Agora tudo o que precisava era aguentar a dor e esperar passar o efeito do veneno.
Não passou. A dor continuou a aumentar cada vez mais, não diminuía, não estabilizava, apenas aumentava. Aquilo não acabaria, não diminuiria, para sempre aumentaria em seu corpo imortal, Raimundo percebeu isso. Pela primeira vez desde que se tornara imortal, ele sentiu desespero, ele sentiu pavor. Sem saber o que fazer ele tentou correr, sair da caverna para pedir ajuda, mas caiu no chão e não saiu do lugar.
Começava a respirar ofegantemente, quando se lembrava de respirar. Tudo que havia era seu corpo se despedaçando cada vez mais brutalmente e o som do sino que já teria estourado seus tímpanos, se ele os tivesse usando.
Sua mente se apagou, já não conseguia se manter consciente. O caçador Raimundo Fernandes nunca mais foi visto. Vivia apenas como lenda na vila que salvara e como um imortal em coma numa caverna próxima a ela.
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