No começo era apenas gelo

depois era apenas fome

O senhor da guerra os trouxe nessa época, quando poderiam ter morrido de fome ou de frio. Ele não se importava. Os gemeos eram identicos como animais.Mau agouro. Pálidos de fome...
Deixou-os ali, para que o Homem ficasse com eles ou os matasse.
O Homem acolheu aquelas coisas magras e arredias , de olhos pintados de gordura e cinza.

Nem o Homem, nem seu Escravo e nem ninguem da sua tribo notou qualquer diferença entre os gemeos ate certa época. Jamais antes disso. Pouca depois.

Apesar disso, eles ainda eram idênticos. Como animais,olhos amarelos, o silêncio da emboscada. Na matança.

O homem cuidou deles, ou tentou. Os gêmeos nunca tiveram um nome, não estavam com a tribo, e sim, rondando-a desde quando chegaram como animais famintos. Bastou que o gelo voltasse, insuportável, e a fome o acompanhasse, que eles se portaram assim mais do que antes.

O Homem que também era o senhor da caça — ninguém caçava sem sua permissão, sem lhe dar a melhor parte-, tolerou aquilo. Não por amor ou estima, mas apenas por medo
Olhava para o Oeste, onde havia a Estrada Romana e via a morte. Ele olhava dentro dos olhos dos gemeos, e enxergava a mesma coisa.
Ele fez o melhor que pode, e quando não pôde mais...

Ele fez oque tinha de fazer.
Isso deixou tudo mais insuportavel

O Homem não entendia o que se passava ao seu redor. Nenhum deus poderia explicar.

E os gêmeos?...

Eles recusavm a carne que era assada no fogo. Eles. afinal, fizeram o que era de sua natureza.

Como os animais que eram. Sumiram no pântano, desapareceram da tribo, expulsos, como era da vontade do Homem — que chamavam de Pai, mesmo sabendo que seu pai era o Senhor da Guerra, das lembranças mais antigas, Tremulos de uma fome que nenhuma carne mais podia saciar (não havia oque caçar, não podiam partir e não podiam ficar) quebraram o silêncio que havia entre eles, e que durava anos a fio:

\"Irmão..\" — disse ela, encolhendo-se mais. O cheiro de morte do pantano era doce como o cheiro da mãe, a única, a verdadeira.

\"Irmã...\" — Disse ele, rouco, baixo e tremulo. Se eles pensavam em alguma coisa, isso era um misterio.

\"Traz a fome, o Pai que nos abandona.\"
\"Não o chama de Pai. O Senhor da guerra é o Pai. Agora ele é apenas dor.\"
\"Traz o vento, o cheiro de caça que o homem nos nega.\"
\"Traz tua voz a ira que tambem e minha.\"

O silencio voltou, e o vento quebrou-o, partindo galhos secos de árvores esqueleticas e assobiando nas pedras, e trouxe mais do que o cheiro da caça.

Num maravilhoso desespero, eles saíram de dentro da escuridão da mara seca para a cegueira adoravel e terrivel da selvageria.

E se o pai dizia que aquele gosto de sangue escorrendo gartanta abaixo era um crime, isso só fazia a fome ser mais deliciosa. Quase mais do que saciá-la.

O cheiro

Era cheiro de sangue.

Conheciam-no de tantas vezes que mataram — Um crime a ser cometido, mais uma regra daquela tribo a ser quebrada. O Homem dizia que a carne dos cavalos brancos não deveria pertencer a eles, que aquele lindo animal branco e reluzente como gelo novo era apenas para a fome do deus.

Que importava quem era deus? Os gêmeos nunca conheceram uma unica palavra sagrada. Para eles não havia então... Nada além do cheiro.

Como ferro, nauseante, excitante. Impossivel ser indiferente.

Nada disseram, nem um único olhar. O cheiro atravessou, como um perfume de cio, o fedor insuportavel do pantano

sentiram um fino cheiro de terra úmida, relinchos ecoando, reverberando na água estagnada. Suas gargantas estavam secas e suas mãos ficaram geladas.

Identicos.

Os mesmos olhos, a mesma natureza.

\" O Pai não nos da fogo, e nem nos deixa caçar, amarra nossos tornozelos com vinhas para nos prender. A linhagem do Pai não é a nossa. Não há o que caçar. Vamos caçar o Pai.\"

\" Não o chama de Pai... Agora ele é carne.\"

O cavalo estava preso, entre pedras afiadas e escuridão da caverna, a morada do deus que vinha com a noite eterna do inverno. O cavalo não estava ferido, mas o pai, que o havia deixado ali...Este sim havia se ferido, seu cheiro fazia o rastro no ar. O ódio que inspirava era mais intenso do que tudo.

\"O cavalo de deus...\"- O gêmeo apontou, enxergando com olhos fundos dentro da caverna, ao lado da irmã.

Ele não sabia o quanto sempre estiveram perto dele e da tribo...
Espreitando, escutando os mais velhos falarem deles com raiva e medo, e escutando os mais jovens serem assombrados com suas figuras e seus olhos pintados, em historias que já os fazia serem lenda, um pavor espreitando entre as árvores secas.

\"Se o deus tem fome de carne, então é como nós.\" — Ele disse.
Nos seus labios havia um esgar de fera.
\"Nós somos como deus...\"

\"Um deus tão bom não ficaria com raiva de dividir com seus filhos.\"

E agora...Lindo e terrivel, eles se descobriram mais parecidos com aquele deus que era tantos e não era nenhum; sedentos, e o sangue era dividido entre os gêmeos, pela dor do nascimento, pela dor da fome e pela doçura da carne.O sangue que o deus dividiacom eles era derramado sobre pedras

O Pai escutou os gritos do cavalo desde antes do amanhecer.
O medo, e apenas isso — e ele conhecera no dia em que o Senhor da Guerra lhe havia entregado seus filhos para cuidar — não o deixou ir saber o que estava acontecendo.

Depois silencio...e o Homem estremeceu entre as peles em um arrepio de terror escutando risos alegres como de crianças.

Nunca se havia escutado risos como aqueles.

O escravo dizia que eram demonios.

O Homem Duvidou.

E quando o dia clareou em violeta pelo céu estático, ele lembrou-se dessas palavras e teve certeza quando viu as crias do monstro.

\"Iguais como animais, famintos como lobos...Não conhecem o sagrado?\'\' — Ele gritou, estalando o chicote.

O cavalo estava morto havia muito, o sangue era pouco nas pedras, assim como a carne nos ossos. O cavalo seria entregue ao sacrificio. O deus queria sangue. As crias do montro eram famintas e selvagens e parecidas com o animal que as pariu.Identicos como animais.

\"Não nos dá comida...\"

\"...Nem fogo...\"

\"Eu os deixo viver.Isso é tudo...\" -Disse o Pai, que nunca a fora pai dos gêmeos.

\"Nunca foi...\"

\"...Jamais sera.\"

Quando acabou eles estavam saciados.

Não havia mais a negra fome com a qual o Homem queria mata-los.

Na escuridão densa, carregada de cheiro de morte ainda vibrante de gritos, a alegria era sincera e desprovida de culpa, como o ato animal, e como tal, misturavam-se de forma que um não sabia se a satisfação daquela raiva era sua ou do outro. Mais uma vez, como no útero da Mãe, eles se abraçaram, estreitos, sentindo-se apenas um.

O deus era generoso.

A escuridão da caverna era acolhedora como o abraço da Mãe — a verdadeira, cuja carne tinha um sabor inesquecivel que a cada vez que saciavam sua fome, procuravam reencontra-lo. Gosto de amor.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.