Notas iniciais
Nada é coincidência aqui, pupilos. Fiquem de olho nesses personagens!

Capítulo Três — No vocabulário de uma criatura, coincidência não existe

Já experimentou tirar a venda que cobre seus olhos?

É assustador, de certa forma. Na verdade, pode ser muito mais do que simplesmente assustador. Pode ser catastrófico. E sem volta. Com certeza um caminho sem volta.

Mas, então, vale à pena vagar cegamente em uma única estrada quando há inúmeras inexploradas a serem vistas?

Laryssa achava que não. Por mais que enxergar o mundo como ele realmente é possa ser amedrontador – ela que o diga –, a ruiva não sabia se gostaria de ter uma vida que não fosse como aquela, ali, com Tia Alma. Descobrir tantas coisas sobre si, tantas versões da realidade, caminhos pelos quais nunca imaginou andar... Ainda que não tivesse escolhido ser como é, Laryssa não podia negar que foi exatamente ali e naquelas circunstâncias que encontrou algo valioso. Algo que nunca teve.

Um lar.

Sentada embaixo da copa frondosa de um carvalho antigo, sob o céu que entardecia com seus tons laranja e azul, respirar o ar puro não era simplesmente um atributo do corpo para Laryssa, mas uma manifestação singela do próprio sopro de vida. Cada pedaço aos arredores da Pensão Três Irmãs era sentido de maneira diferente e a arquitetura grandiosa que abrigava os pupilos de Tia Alma, em si, parecia ter vida própria. E como tinha.

Laryssa sabia que, se paredes pudessem falar, aquelas sussurrariam as mais peculiares histórias. A ruiva, contudo, podia sentir cada uma delas, sem precisar que elas dissessem uma só palavra.

Não fazia muito tempo que descansava sob aquela árvore – seu lugar favorito para pensar. Era bonito, calmo e tinha cheiro de liberdade. Ao pôr do sol, aquela paisagem parecia uma obra de arte perfeitamente desenhada. Não foi à toa que Tia Alma a escolheu para os jantares do sábado. Especialmente quando o sol está se pondo.

Laryssa inspirou o ar fresco, fechando os olhos. Expirou, cruzando as pernas e tocando levemente a grama com os dedos. Remexeu o corpo, um pouco inquieta, até que conseguiu um ponto de equilíbrio. E então sentiu um misto de vigor, selvageria, cumplicidade e... Instabilidade.

Não sabia exatamente o que estava buscando, mas a cena daquele mesmo lugar em outra parte do dia veio aleatória em sua mente. Parecia que estava visualizando com os olhos abertos, mas tudo estava acontecendo dentro da sua cabeça.

Primeiro viu Kayden. O garoto, que acabou se tornando seu amigo desde que ele chegou à pensão, parecia voltar de uma maratona. Os fios castanhos e desajeitados sempre lhe davam um charme incontestável, mesmo quando estavam mais rebeldes do que o normal, como naquela ocasião. Estava vindo do bosque que ladeava a pensão, apenas com uma calça de moletom cinza, uma garrafa de água na mão e uma toalha pequena no ombro nu, a qual passou no rosto e região do pescoço. Derramou um pouco de água nas mãos, esfregando-as uma na outra.

Laryssa via tudo de longe e ao mesmo tempo de muito perto. Era um pouco confuso como as imagens vinham para ela. Lembrou que Kayden sempre teve uma energia agradável, mesmo com os súbitos momentos nebulosos que ele enfrentava. Não era um drama exclusivo dele, todos ali lutavam contra seus próprios demônios. Inclusive Laryssa.

Kayden estava disposto, mesmo após uma boa sequência de exercícios pelo bosque.

O vigor que a ruiva estava sentindo, era dele.

Depois aquela cena se desfez e logo veio outra.

A ruiva estava vendo a si mesma com a jardineira jeans que estava vestindo há algumas horas, pelo meio da tarde, e sua blusa de algodão rosa claro. Os pés descalços tocavam a grama e o sol das três horas aquecia suavemente seu corpo. Viu que carregava as cuias – uma espécie de tigela produzida a partir de um fruto – que Tia Alma havia guardado de uma viagem há muito tempo. Também trazia consigo talheres, copos e velas perfumadas. Acima de sua cabeça, um tecido longo flutuava como se fosse mágico, mas era sustentado pelo poder da mente da ruiva.

Atrás dela, Tia Alma e Kayden se ajudavam carregando uma mesa alongada e baixa. Não parecia muito pesada. Os dois estavam um pouco sujos de farinha e riam de uma péssima piada que o rapaz havia contado. A mulher ria porque, estranhamente, achou graça. O rapaz ria porque sabia que nunca foi bom com piadas, embora promover sorrisos fosse uma especialidade sua.

A cumplicidade que Laryssa sentiu, era dos três.

E então, novamente, a cena se desfez. Não veio outra. A ruiva ainda sentia a selvageria que, por um momento, pensou que fosse da natureza que a rodeava, sempre incontrolável, livre. Mas havia algo diferente. Algo mais... Instável. Perigoso. Algo que espreitava. Laryssa não sabia o que era, tampouco conseguia distinguir uma coisa da outra.

Seus olhos abriram.

— Tia Alma capricha mesmo nos detalhes.

A garota olhou para o lado ligeiramente perdida. Dimitri, com sua beleza intrigante, se aproximava de mãos dadas com Betsy, uma menininha de oito anos, que carregava uma cesta cheia de pêssegos.

Laryssa sorriu concordando com aquelas palavras. Tia Alma tinha muito bom gosto, por mais exótico que fosse. Desde que chegou ali, a ruiva nunca conseguiu encontrar uma palavra que definisse Tia Alma ou um rótulo no qual ela se encaixasse.

Tia Alma era... Tia Alma. E isso parecia suficiente para Laryssa.

Naquele pôr do sol do sábado fariam suas refeições ao ar livre como de costume. Uma mesa rústica de madeira escura estava toda posta ao lado do enorme carvalho, baixa o suficiente para que todos pudessem se acomodar no chão forrado por um extenso tecido com estampas tribais. Algumas velas aromáticas pequenas e arredondadas estavam espalhadas pela mesa, tal como pela grama viva, esperando para serem acesas. Cada uma de uma cor diferente, com um perfume diferente – mas que harmoniosamente se completariam, quando acesas, em um só aroma.

— Eu gostei da decoração – Betsy falou um tanto desinteressada, mas depois esticou um sorriso.

Laryssa estava inquieta.

— Você parecia concentrada – Dimitri estava um pouco sem graça por ter interrompido a ruiva, que o olhou de imediato, com seus olhos amendoados que pareciam ver a sua alma.

Aquilo de certa forma o deixou desconfortável, Laryssa logo soube. O que ela veria na alma dele se não havia nada? Dimitri se sentia oco, logo, o loiro sequer achava que possuía uma alma para ser olhada. Pensar que alguém enxergava seu vazio simplesmente era como o desmascarar. Mas essa certamente não era a visão da garota a respeito dele, assim como também não era a visão de Tia Alma nem a de ninguém da pensão.

— E vocês chegaram na hora certa – A ruiva sorriu para ele, gentil. Laryssa sabia como Dimitri se sentia e, embora ela estivesse inquieta com o que havia sentido antes dele chegar, não deixou de captar o que ele estava sentindo naquele momento. — Tia Alma deve estar precisando da minha ajuda na cozinha. Traremos o jantar para cá, vocês já podem se juntar à mesa enquanto não voltamos!

O loiro assentiu com um sorriso no canto dos lábios, uma covinha funda enfeitava sua bochecha direita. Laryssa já estava de pé, limpando um pouco a lateral de seu vestido de cetim azul bebê. Na metade do caminho para entrar na pensão, olhou para trás involuntariamente.

A luz do pôr do sol lhe mostrava apenas silhuetas. Focou em duas.

Uma delas era Dimitri, sentado à mesa, olhando para algum ponto ao seu lado, relaxado.

A outra era Betsy, em pé ao lado dele, imóvel, com a cesta em uma das mãos.

Laryssa podia jurar que Betsy estava olhando fixamente para ela.

Sua visão ficou turva por um instante.

∆ ∆ ∆

Não há vantagem em sofrer em silêncio.

Não há vantagem em sempre guardar um choro.

Uma hora você acaba se afogando...

Em você mesmo.

Winter, bem no fundo de seu ser ferido, sabia disso. No entanto, naquele momento, só se permitiu chorar algumas lágrimas que, durante o superaquecimento da garota, evaporaram junto com suas esperanças de se encaixar até mesmo naquele lugar, onde todos eram como ela. O que Tia Alma iria pensar sobre ela? Que era uma desequilibrada? Uma inútil que não era capaz nem de ajudar na cozinha sem incendiar tudo?

Aquilo martelava em sua consciência.

“No mínimo irá se sentir arrependida por ter me aceitado.”

“Eu sou um caso perdido. Só causo problemas.”

E quando se lembrava de sua falta de controle, então, só piorava.

“Não posso chegar perto do fogo. Não posso me aproximar das pessoas. Nunca.”

Alguns flashes do passado queriam inundar sua mente com imagens que a garota lutava constantemente para não recordar. Por sorte – e cansaço – apagou por algumas horas em seu quarto. A figura frágil e pálida se agarrava ao travesseiro, encolhida, como se procurasse algum conforto que, quando acordada, não se permitia encontrar.

Em um fechar e abrir de olhos, dormiu e acordou. Nada veio à sua mente para perturbá-la enquanto dormia, apesar disso, não se sentiu descansada.

Ouviu batidas leves na porta e alguns murmúrios.

Sua lentidão pós sono a impediu de pensar rapidamente no que faria para que ninguém entrasse, sequer se lembrava de ter trancado a porta ou não. Queria evitar qualquer conversa, qualquer contato, queria se isolar por completo. Sentia-se melhor desse jeito. Era assim que as coisas deveriam ser.

Ninguém sairia machucado. Pelo menos não fisicamente.

Winter permaneceu na cama, porém sentada. Passou os dedos finos entre os fios negros pesadamente. Pensou que talvez se fingisse que estava tomando banho, quem quer que estivesse batendo à sua porta iria embora. E então ela poderia verificar se havia trancado a porta.

De qualquer forma, trataria de deixá-la trancada pelo resto da semana. Ou mais.

Antes que pudesse se arrastar até o banheiro, a porta foi aberta cuidadosamente. Winter estava encurralada.

— Hey... Nós... Bem, nós trouxemos seu jantar – Laryssa sorriu para o corpo magro à sua frente, adentrando o quarto como se pedisse licença com uma bandeja de madeira em mãos. Kayden estava logo atrás dela, apoiando-se entre a parede e a porta.

O quarto estaria um completo breu se não fosse pela luz da lua cheia que se infiltrava através da janela saliente projetada para fora da construção, com sua ilusão de ambiente ampliado, considerando que o quarto não era um dos mais espaçosos da pensão.

A claridade do luar dava um ar melancólico ao cômodo e Winter parecia, sentada no emaranhado de lençóis, a própria melancolia em carne e osso: Os longos fios negros e sedosos emolduravam o rosto abalado da garota, um pouco bagunçados; O vestido marfim de seda e alças delicadas que vestia o corpo magro de Winter até o comprimento de seus joelhos, deixava à mostra o contorno fundo de sua clavícula e também algumas cicatrizes próximas aos seus ombros. Os braços envolviam-se como se a garota estivesse abraçando a si mesma ou reagindo a uma brisa fria, contudo, estava mais para um reflexo de sua insegurança. Era uma figura repleta de emoção e ao mesmo tempo reprimida.

Vendo-a se isolar cada vez mais, Laryssa e Kayden tentavam fazer algo para ajudá-la. Era difícil apenas ver tudo aquilo acontecer sem que fizessem nada para que Winter saísse de sua concha.

Laryssa sentou-se na beira da cama. Olhando a garota mais de perto, se perguntou quem a havia ferido daquela forma. Aquelas cicatrizes... Não eram apenas em sua pele, pareciam muito mais profundas. Quando olhou para os olhos escuros de Winter, sem vida, opacos, só conseguiu presumir que havia cicatrizes como aquela em sua alma também.

— Temos Tacacá – A ruiva apontou com o olhar para uma cuia na enorme bandeja, pronunciando aquele nome estrangeiro de um jeito esquisito. — Que é uma espécie de sopa, na verdade, um caldo feito com a base da mandioca típica do Brasil e folha de jambo, uma fruta também típica de lá. Tem camarões secos e algumas especiarias – Laryssa olhou divertida para Winter e acrescentou: — Espero que você goste de pimenta e não tenha uma crise alérgica por causa do camarão.

— Esses bolinhos fritos são os melhores – Kayden continuava de pé na porta, com os braços cruzados. Sua expressão era agradável. — São de mandioca, uma delícia.

— Por último, mas não menos importante – Laryssa continuou. — Temos uma torta de... Bem, eu não lembro o nome, mas é uma fruta. Tem um creme aí dentro, você vai gostar.

— Não nos pergunte onde Tia Alma conseguiu esses ingredientes nativos do Brasil – Kayden riu. — Nós realmente não sabemos. Mas considerando que Tia Alma tem seus contatos secretos...

— Ah! – Laryssa pareceu ter se lembrado de uma informação importante. — Para tomar o Tacacá, isso mesmo, tomar e não beber ou comer, você deve levar a cuia até a boca. Nada de colher. Quando for comer os camarões e a folha de jambo, use esse palito de madeira. – A ruiva pareceu satisfeita ao explicar tudo conforme haviam aprendido com Tia Alma.

Winter analisou o conteúdo da bandeja. Parecia bom, mas seu pouco apetite lhe dizia que não iria comer nada daquilo.

Kayden e Laryssa se entreolharam após um longo minuto de silêncio.

— Você não precisa comer agora. – O rapaz falou com a voz branda, quebrando o silêncio. — Nós podemos falar sobre a viagem da Tia Alma à Amazônia.

Laryssa aproveitou a deixa.

— Ela nos contou tantas histórias durante o jantar, Winter. Você ia adorar. Já vi você ler um livro sobre lendas ao redor do mundo, Tia Alma nos contou algumas que são bem populares no coração da Amazônia...

Winter não falava uma palavra. O que não era exatamente uma novidade. A garota pouco se comunicava. Durante o incidente mais cedo na cozinha, ainda deixou escapar alguma coisa, no entanto, falou tão baixo que Tia Alma sequer escutou.

Virou o corpo para o lado da janela, deitando-se na cama novamente, encolhida.

— Winter, nós só estamos tentando ajudar – Kayden explicou, um pouco perdido. Buscava em sua mente uma palavra mal dita, algo que haviam feito e que pudesse ter chateado a garota.

O rapaz se aproximou, olhou conflituoso para Laryssa e então não conseguiu conter as palavras em direção à outra garota:

— Do que você tem medo, Winter?

Não havia maldade na pergunta de Kayden, Laryssa sabia disso, mas algo no modo como o rapaz formulou a pergunta tornou-a forte demais. Como se aquela indagação se aplicasse não só a Winter, mas também a ele, a Laryssa e a todos daquela pensão.

Winter olhou de soslaio, quis responder de forma clara e audível, mas pensou que seria melhor se manter do jeito que estava. Guardando em sua mente aquilo que não saía de sua boca.

“Não se trata do quê. Mas de quem.”

“Eu fujo de mim mesma o tempo inteiro...”

“Vocês também deveriam.”

[...]

Sem resposta e com suas próprias palavras golpeando sua mente, Kayden se pôs para fora daquele quarto, um pouco frustrado.

— Nós estamos tentando. Isso é o que importa – Laryssa falou para o amigo, caminhando ao seu lado no corredor repleto de quadros antigos. — Aquela pergunta... – Ela ponderou sem saber se deveria explorar o assunto.

— O que tem?

Kayden sentiu seu coração falhar, mas manteve a postura leve.

— Eu também não saberia responder – A ruiva confessou. — Digo, eu entendo o silêncio da Winter naquele momento. Não sei se eu estaria pronta para revirar algo tão profundo dentro de mim para responder essa pergunta.

— É... Somos dois então. Eu não deveria ter perguntado nada, não é mesmo? – Havia uma pitada de irritação em sua voz. Tão sutil que passou despercebida. O rapaz agradeceu mentalmente por isso.

— Kayden...

Laryssa tocou seu braço, iria lhe dizer algo, provavelmente sobre o que ele estava sentindo, mas uma das portas do corredor se abriu atrás deles, o que fez com que os dois virassem para olhar. A porta era de um quarto que ficava de frente para o de Winter.

Era o quarto de Betsy. Ela estava saindo de lá.

— Betsy, achei que estivesse lá embaixo... – Kayden estendeu o braço para que ela fosse segurar sua mão.

A garotinha foi até ele, com seu cabelo dourado preso em duas trancinhas laterais de sempre, sem olhar diretamente para Laryssa. O vestido de listras pretas e amarelas fazia Betsy parecer uma abelha e, de fato, a menina era muito abelhuda em algumas ocasiões.

— Winter está bem? – Ela perguntou, de repente.

Kayden demorou um pouco para responder. — Ela vai ficar.

Laryssa estava inquieta.

— E você, Kay, está bem? – Mais uma pergunta da garotinha.

— Sim, Betsy. Estou. – Ele olhou nos olhos verdes de Betsy, estranhando a pergunta da menina. Deu um meio sorriso para ela.

— Você não parece n-e-m u-m pouco bem, Kay – Betsy deu uma risadinha. — Vou lhe dar um dos pêssegos que eu colhi de presente, quem sabe você fica bonzinho e para de mentir.

[...]

— Você coleciona tantas histórias, Tia Alma... Parece ter conhecido o mundo. Há algum lugar que ainda não esteve? – Dimitri perguntou verdadeiramente interessado, ajeitando os óculos de armação preta em seu rosto enquanto esperava que Tia Alma enxugasse os últimos talheres da louça para que ele os guardasse.

— Bem, acho que só falta o Paraíso. Ainda não estou liberada para ir até lá, se é que me entende – Tia Alma brincou se referindo ao Céu.

Dimitri sorriu com o senso de humor aflorado daquela mulher. Simples, mas que consegue ganhar um sorriso seu. Dimitri pensou que se ele tivesse dito aquela mesma frase, não teria graça alguma. O que o levou a outra conclusão: não era necessariamente o senso de humor, mas a simplicidade por trás dele.

Tia Alma continuou:

— Brincadeiras à parte – Ela sorriu, enxugando um talher. — Ainda não conheço muitos lugares, meu bem. Este mundo é maior do que podemos imaginar...

O loiro pensou sobre aquilo.

— Há outros lugares como a Pensão Três Irmãs? – Quis saber, sem um motivo específico.

Tia Alma levou os talheres enxutos para que ele os guardasse, mas antes de entregá-los parou de frente para Dimitri, que estava sentado atrás da bancada de madeira e mármore que ficava no meio da cozinha.

— Não tantos quanto eu gostaria que houvesse, meu bem – Ela falou com o olhar distante. — Mas acho que podemos mudar isso.

— Podemos? – Dimitri não planejou soar tão cético. — Quero dizer, há uma saída para pessoas como... eu? Como nós?

Tia Alma pousou o queixo na palma de sua mão, com o cotovelo apoiado na bancada. Sua expressão era tranquila.

— Por que não haveria?

— Porque alguns de nós... Porque eu, Tia Alma, sou um monstro – A voz do loiro saiu quase como um sussurro. — Não há como consertar isso.

Os olhos escuros de Tia Alma brilharam para ele com entusiasmo.

— Você não está aqui para consertar nada, Dimitri. – Ela falou como se fosse extremamente simples. — Você está aqui para lidar com quem você é. São coisas completamente diferentes, não acha?

— Acho que... Sim.

Dimitri estava com os antebraços apoiados sobre a bancada, as mangas de seu suéter azul royal dobradas até um pouco abaixo dos cotovelos e as duas rosas tatuadas em suas mãos bem visíveis.

— Será que algum dia terei uma vida normal? – Ele esboçou um sorriso fraco, achando meio ridículo considerar aquela possibilidade.

Tia Alma deu uma risada leve, com os dentes brancos à mostra.

— O que é normal para você, meu bem? – Ela encarou o jovem, ansiosa pela resposta como se aquele diálogo tivesse acabado de ficar ainda mais interessante.

— Eu deveria estar me formando, arranjando um emprego, sei lá, fazendo o que todo mundo faz – Dimitri parou para pensar no que havia dito, não muito satisfeito. Mas não falou mais nada, deixou que Tia Alma expusesse o seu ponto de vista.

— Ok. Mas então, isso que você falou, meu bem – Tia Alma gesticulava com talheres na mão e tudo. — Seria uma vida normal para quem? A sua vida, sendo do jeito que é, não pode ser normal para você? Desde que você se aceite, claro. A questão é que, – Ela fez um suspense proposital, apontando a mão com os talheres para Dimitri. — Você está preso ao que os outros são e ao que impõem que todos sejam. Como eu disse antes, meu bem, você não precisa de conserto. Não está aqui para consertar quem você é, mas para ser plenamente você mesmo.

— Desculpe, Tia Alma. Não quero parecer rude, mas está me dizendo que eu devo ser... – O loiro hesitou por um momento, mas continuou, um tanto inconformado. — Que eu devo ser o monstro com quem venho lutando há tempos? E plenamente ainda por cima?

Tia Alma pareceu orgulhosa daquela linha de raciocínio, apontando a mão que segurava os talheres para ele como se Dimitri tivesse dito algo brilhante.

— Exatamente! – A enorme mulher negra respondeu. — Agora os talheres são todos seus, meu bem.

Dimitri pegou os utensílios de prata, processando em sua mente aqueles últimos minutos. Não sabia como aquilo faria sentido para ele, ainda esperou que Tia Alma explicasse melhor o que havia lhe dito, mas a mulher nada falou. Apenas encarava-o como se ela é quem estivesse esperando por algo.

— Então... Posso guardar os talheres ou... – O loiro deixou no ar.

— Oh, sim, claro. Eu só achei que você fosse querer fazer outra pergunta – Tia Alma deu uma risada, sendo acompanhada pelo loiro.

— Na verdade, eu quero lhe fazer muitas perguntas... – Dimitri confessou, com um sorriso de lado e sua charmosa covinha. — Mas o dever me chama. Hora de guardar a louça.

Os dois compartilharam mais uma risada.

— Ainda teremos muito tempo para respostas, meu bem.

∆ ∆ ∆

Quão incríveis são as cores de uma aquarela?

Nas mãos de um artista, se solidificam como a mais pura expressão de arte. Um artista sabe o que fazer com as cores usando sua tela, seus pincéis, seu talento... Não é mesmo?

Havia uma pessoa, no entanto, que via as cores de uma maneira bem diferente. Mas ela não era necessariamente uma artista de belos quadros.

Lylian via cores até mesmo naquele lugar de quinta categoria, de péssima reputação, mas que lhe renderia um salário para pagar seu aluguel do mês. Desde que se mudou para aquela cidade, há uma semana, estava satisfeita por ao menos ter um emprego. Mesmo que tivesse que servir bebidas – o que era bem irônico, considerando sua péssima experiência familiar com o álcool –, aguentar cantadas, trabalhar até tarde da noite...

Quando alguém talentoso arriscava sua vida para tocar no pub mais perigoso do bairro tão perigoso quanto, Lylian ainda conseguia suportar aquele lugar com um pouco de música boa ao vivo.

— Estou procurando Trevor – Uma voz masculina falou, não tão alto quanto necessário para que a garota a ouvisse com aquela música de qualidade duvidosa tocando no último volume. — Trevor Hale, ele disse para eu encontrá-lo aqui.

— O quê? – Lylian perguntou com o tom elevado, virando-se para o dono da voz com uma garrafa de uísque na mão. Serviu uma dose para um cara ao lado e depois voltou sua atenção para o rapaz à sua frente. — Eu não te ouvi! Fala mais alto!

Lylian percebeu que o rapaz estava ligeiramente desconfortável. Encapuzado, não pôde ver muitos detalhes de seu rosto, também por conta da baixa luz no ambiente, a não ser seu maxilar e o contorno bem definido de sua mandíbula. A garota, no entanto, viu com nitidez a cor que o corpo do rapaz emanava.

Azul. Tonalidades de azul. Mas uma prevalecia naquele momento: Azul Celeste. Parecia uma energia que vibrava para fora do corpo e, quando Lylian teve algo dentro si despertado, pareceu estar presenciando uma Aurora Boreal naquele instante, no pub mais asqueroso que alguém poderia estar, com cores que emanavam de todos os corpos ali presentes. Se antes Lylian pensava que aqueles bêbados eram vazios, naquele momento concluiu seu erro.

Eles também tinham almas. E suas próprias combinações de cores. Os olhos de Lylian estavam energéticos, suas íris mudando de cor.

— Parece que você continua sem ouvir! – O rapaz gritava para ela, estalando os dedos próximos à face da garota, aquela música mais do que alta certamente estava o incomodando. — Eu disse que estou procurando o Trevor! Trevor Hale!

— Trevor....? – Lylian caiu em si aos poucos, piscando algumas vezes até se dar conta do rapaz encapuzado chamando sua atenção. As cores continuavam ali, cintilando, ondulando em volta de cada indivíduo. Ela pigarreou, devolvendo a garrafa de uísque à prateleira, agindo normalmente para disfarçar como sempre fazia.

O rapaz pareceu não perceber o que realmente houve com Lylian, já que permaneceu no mesmo lugar. Geralmente, as pessoas só se afastavam ou soltavam uma piadinha achando a garota esquisita. Ele também não parecia muito interessado em analisá-la.

“Céus, ainda bem que a iluminação é baixa aqui...” Pensou aliviada.

— O que vai querer? Vodka, uísque...?

— Trevor. Trevor Hale, por favor.

Lylian revirou os olhos, rindo um pouco.

— Tudo bem, Senhor Encapuzado. Pode me dizer seu nome?

— Olha, estou lisonjeado, de verdade. Mas não estou à procura de um encontro, quem sabe na próxima – Ele falou mais como uma forma de ir direto ao ponto do que como uma ironia propriamente dita — Estou aqui por causa do Trevor, pode avisá-lo, por favor?

A garota deu uma gargalhada, colocando uma mexa de seus cabelos negros atrás da orelha.

— Relaxa, você não faz o meu tipo, ok? Gosto de caras mais velhos, você deve ter quantos anos? 17? – Lylian retrucou, se divertindo com aquilo. — Preciso do seu nome, Trevor deixa uma lista com alguns contatos. Logo, não sei se você está nela.

— Primeiramente, tenho 18 – O rapaz corrigiu. — E você deve ter quantos anos? 18 também?

— 19, na verdade. Vai me dizer o seu nome ou não? – Lylian pegou o uísque na prateleira novamente, derramando mais uma dose do líquido no copo do mesmo cara ao lado, naquele momento com tons de vermelho e laranja à sua volta. Ele estava bêbado e com uma aparência péssima.

Quando ela voltou para o rapaz encapuzado, ele olhava para algum ponto do outro lado do pub, perto da saída, que ela não conseguiu identificar. Notou que ele tinha um topete para fora do capuz da jaqueta com fios desgrenhados e... Brancos.

— Gostei do cabelo. Para sua informação – Lylian apoiou-se no balcão com os braços, tentando olhar para onde ele olhava. — Trevor está com outro contato. Na verdade, parece mais do que um simples contato. – Ela enfatizou. — Uma garota de cabelo roxo, bem bonita até. Não lembro o nome, mas nunca está na lista. Estou te falando porque ela também pinta o cabelo, como você.

O rapaz de cabelos brancos parecia concentrado demais para responder Lylian, subitamente agitado com algo que viu do outro lado. Ele estava prestes a mover-se para fora dali, mas não sem antes gritar para que a bartender conseguisse ouvir suas palavras:

— Meu cabelo não é pintado! – Ele andava de costas, um pouco lento, com as mãos nos bolsos de sua jaqueta preta. — E meu nome é Danniel!

Então, por entre corpos que emanavam cores, Danniel correu na direção da saída até sumir do campo de visão de Lylian, misturando-se às outras pessoas. A garota, intrigada, perguntava a si mesma o porquê de se sentir conectada àquele rapaz e, principalmente, o que significava aquele azul tão flamejante ao redor de Danniel, ainda mais forte, quando ele foi embora.

Era a segunda vez que se sentia daquele jeito. A garota do cabelo roxo e o garoto do cabelo branco.

Não poderia ser coincidência, poderia?