Criaturas – Interativa
8 Capítulo Seis (NOVO!)
Notas iniciais
Capítulo Seis — Eu sei o que você fez durante a lua cheia
Parte III
O barulho que o salto fazia quando Sabrina andava na rua em seus passos rebolados definitivamente irritava o estrangeiro ao seu lado, que mentalmente contava cada pisada no chão e calculava quantas faltavam para concluírem seu trajeto. O homem trajava um terno caro, porém informal, roxo escuro e sem gravata, com os dois primeiros botões da camisa social branca desabotoados; e tinha uma aparência indiana fácil de identificar, contudo, difícil de não atrair olhares por onde passava devido à sua beleza incomum.
Sabrina gostava de dizer que ele até tinha aprendido algumas coisas com ela, mas tudo o que Trevor conseguia era ser um pouco charmoso. E claro, a garota só não queria admitir que ele era extremamente atraente. Afinal, aquela era Sabrina Paige. Tão centro dos olhares das pessoas quanto Trevor Hale. Juntos, formavam um casal perfeito e... Incomum.
Isso se os dois não estivessem apenas se usando para suprirem seus respectivos interesses.
— Seus saltos estão me incomodando – Ele resmungou baixinho ao inclinar a cabeça para falar em seu ouvido. Seu sotaque marcado podia parecer sedutor para os outros, mas Sabrina achava irritante.
— Seu falso romantismo está me incomodando também – Ela resmungou de volta, alto e claro, acusando-o por estarem de mãos dadas desnecessariamente.
— Eu gosto de manter as aparências. Assim como você. – Trevor provocou, mas ela o ignorou, para a surpresa dele.
A rua principal estava mais movimentada do que de costume, apenas por ser fim de semana. Havia algumas pessoas na rua, provavelmente voltando dos botecos vagabundos que havia a cada quarteirão – e não seria exagero dizer a cada esquina –, entretanto, não era nada comparado ao movimento noturno da cidade grande.
Estavam no subúrbio, em uma vizinhança pouco amistosa e ainda assim, aqueles dois caminhavam bem vestidos e completamente fora do padrão dos moradores das redondezas. Eram duas figuras à parte daquele cenário desfavorecido, vistosos demais para frequentarem um lugar como a Quadra Turva – assim popularmente chamada – às nove da noite.
Mal dava para imaginar que enquanto aquelas pessoas mal encaradas estavam apenas de passagem, os dois estavam elegantemente seguindo um desconhecido.
— Por que não manipula as sombras para confundi-lo? – Sabrina questionou impaciente. — Estou cansada dessa enrolação. Já teríamos o encurralado há séculos se você me ouvisse.
Trevor sustentava sua postura confiante, uma das mãos no bolso da calça e a outra segurando a mão da garota, que mantinha a mesma postura que a dele, embora algo na fisionomia de Sabrina revelasse um espírito livre demais para simplesmente se encaixar em qualquer rótulo estereotipado, o que intrigava quem a olhasse pela primeira vez.
O indiano também não era lá muito o que esperavam que ele fosse, mas Trevor era exatamente o pilantra, cafajeste e egocêntrico que logo de cara parecia ser.
— Paciência é uma virtude, amor. – Ele disse fazendo-a revirar os olhos ao ser chamada como todas as outras com quem Trevor saía. — Agora vejo o porquê de você se precipitar tanto. Precisa saber a hora de agir.
Trevor começou a assoviar despreocupado, dando uma breve olhada na lua cheia.
— Se eu não sei a hora de agir, por que será que nunca perco a oportunidade de fazer isso? – Sabrina conduziu a eletricidade de seu corpo para o dele, controlada o bastante para fazê-lo apenas ter um sobressalto e alguns fios pretos de seu topete espetados.
O indiano praguejou, soltando instintivamente a mão de Sabrina. A garota apressou-se em cima dos scarpins pretos, mantendo sua pose e dando uma jogada sutil de cabelo. Os fios violetas caíam sedosos até sua cintura, incrivelmente saudáveis para alguém que retoca com frequência a tinta capilar. Trevor a seguiu resmungando.
— Você está pisando errado. – Ele acusou, andando um pouco mais atrás conforme seus cálculos mentais. — Droga, Sabrina. Preciso de números pares e não ímpares!
A garota suspirou.
— Você é mais atraente de boca fechada, sabia? – Sabrina zombou com o intuito de irritá-lo, mas logo se arrependendo por usar o adjetivo errado. Trevor não deixava nada passar batido e, tudo o que a garota menos queria, era que ele inflasse ainda mais o próprio ego.
Antes que Trevor pudesse aproveitar o fio da meada e elogiar a si mesmo, Sabrina percebeu o seu alvo apressar os passos, provavelmente ao notar que eles tinham feito o mesmo e que estavam para alcançá-lo. O garoto encapuzado dobrou em outro beco no final do quarteirão. Sabrina o xingou mentalmente, mas por fora, apenas deu uma ajeitada discreta em sua saia lápis preta – um pouco mais curta do que as sociais –, concentrou-se para não descontar sua raiva ali mesmo em Trevor – por precisar aturar cheiro de lixo pela segunda vez no dia, quando poderiam ter evitado se Trevor não fosse tão Trevor – e com controle murmurou baixinho:
— Caralho.
[...]
Danniel tinha algo em mente.
Envolvendo mais um lugar com pouca luz e muito lixo, completamente deserto também.
Contudo, ao contrário daquele outro beco o qual estava minutos atrás, este não parecia ser ladeado por nenhum estabelecimento mal frequentado, apenas por dois prédios residenciais e com acabamentos ruins. E também era consideravelmente mais largo.
Andou cerca de cinco minutos pela rua principal que, apesar de ser por si só tão intimidadora quanto aqueles becos, estava movimentada o suficiente para que um assassinato não fosse cometido descaradamente. Não que fosse o caso dele, porém, ter duas pessoas estranhas o seguindo não era exatamente uma situação tranquila para Danniel. E não que para um assassinato ser evitado, bastava ter pessoas por perto. A sensação era apenas menos solitária do que se não houvesse ninguém.
O rapaz só conhecia o tal do Trevor por telefone, quando entraram em contato pouquíssimas vezes e, pelo pouco que pôde constatar a respeito dele, descobriu que o cara era um trapaceiro de primeira. E tinha um gosto um tanto esquisito para roupas. A garota... Bem, não sabia quase nada sobre ela também. A não ser o fato de que era namorada de Trevor e por algum motivo pareceu mais interessada em segui-lo do que o próprio Trevor.
— Vamos lá, Gemini... Preciso de você agora – Danniel murmurou as palavras, dobrando no beco mais próximo como planejou.
Ele tirou o capuz da jaqueta, olhando bem para aquele local desagradável. Muito lixo em sacolas, latas e principalmente jogados no chão; pouca luminosidade – o poste da rua principal era a fonte de luz mais perto –, paredes pichadas e uma especificamente mostrava que aquele era um beco sem saída. Danniel parecia estar encurralado, no entanto, não tinha intenção alguma de se render.
O rapaz sentiu o chão sob os seus pés tremer, respondendo ao seu chamado. O tremor aumentava gradativamente e tudo que estava por perto se chacoalhava em resposta.
Danniel se equilibrou, mantendo os pés firmes ao chão, o ar agitando-se à sua volta, bagunçando seu cabelo alvo e espalhando algumas embalagens que estavam jogadas pelo beco.
Quando o rapaz olhou para trás, viu Trevor e a garota do cabelo violeta encarando os próprios pés enquanto tentavam não cambalearem. Danniel até acharia cômico o modo como a garota se equilibrava naqueles saltos, os joelhos colados um no outro, com uma mão apoiada na parede e a outra segurando o braço do tal Trevor, a expressão dela não era a mais amistosa; entretanto, o rapaz estava mais interessado em invocar Gemini do que achar qualquer coisa cômica naquele momento de perseguição.
— O que você está fazendo?! – A garota gritou, cobrindo um pouco o rosto com as mãos por causa dos grãos de areia arrastados pelo vento.
De repente, tudo se estabilizou.
— Você verá – Ele respondeu, olhando com expectativa para o chão.
Uma fenda estreita se abriu nas pedras ladrilhadas, inofensiva, mas audaciosa. Podiam ouvir o som do chão se abrindo em rachaduras e algo se remexer mais profundamente embaixo do revestimento de pedra, como se procedesse do íntimo da terra. Se Danniel não soubesse o que estava acontecendo, estaria com o olhar tão aflito quanto aqueles dois.
As rachaduras se alargaram até metade da distância que separava Danniel, Trevor e a garota do cabelo violeta.
Um osso fino e encardido surgiu entre uma fenda, tateando o pavimento de pedra. O que revelou-se ser um dedo pontudo, puxava-se para fora pouco a pouco afastando o chão em duas partes. Um ser ossudo, sujo de uma terra preta e úmida, entrava no campo de visão dos três, arrastando-se para fora com o ruído dos ossos batendo uns nos outros, alguns ainda deslocados, avulsos pelo chão. Este se posicionou ao lado de Danniel, desordenado.
Outro saía das profundezas mais à frente, próximo de Trevor e da garota, que recuavam abismados.
Os dois seres ossudos tinham quase dois metros, um brandia uma lança e o outro um escudo. Ambos com chamas azuis flamejando nas cavidades fundas e vazias onde seriam os olhos. Quando se posicionaram ao chamado de Danniel, esperando apenas uma ordem dele, o chão costurava-se aos poucos como se nada tivesse acontecido.
— Quem é você?— A garota não se intimidou, embora estivesse cautelosa. – E que porra é essa?
Trevor o olhava com um misto de confusão e curiosidade, mas sua posição defensiva mostrava que também estava em alerta.
— Sou eu que devo fazer essa pergunta a você – Danniel rebateu, em seguida desviou o olhar para o indiano. – Ele eu sei quem é, mas você... O que você quer comigo?
— Eu é que faço as perguntas aqui, Jack Frost. – Ela rosnou com o corpo envolto por ondas elétricas, as mãos concentrando bolas de energia. – Quem é você e por que está interessado na pensão? – A garota aumentou os volts que energizavam sua pele.
— Acho que vocês não estão em posição de exigir nada – O rapaz deu um passo à frente e seus servos esqueletos fizeram o mesmo, sincronizados e com movimentos arrastados.
Ataque-os, Blanchard. Mate os dois...
A voz da Rainha soou para ele.
Danniel meneou a cabeça.
— Por que essa mulher fica atrás de você? – Trevor olhava para uma figura atrás dele, intrigado.
O rapaz pareceu confuso. Não precisou virar-se para saber de quem ele estava falando. – Consegue vê-la?
— Trevor, do que você está falando? – A garota do cabelo violeta continuou com o olhar cravado em Danniel.
— Eu a vi conversando com você antes. E agora ela está sob as sombras novamente. Atrás de você. – O sotaque dele marcou as palavras de forma acentuada.
Danniel trincou os dentes, olhando para trás por cima dos ombros.
Quanta tolice. Eu não estou sob as sombras, elas é que estão sob mim.
E então deu uma risadinha forçada.
O que você está esperando, Blanchard? Gemini pode ter me traído, mas agora obedece a você... Ande logo com isso, mate-os. Eu o ajudo... Você só precisa me deixar agir.
— Como consegue vê-la? Ninguém consegue além de mim. – O rapaz questionou, fazendo o possível para ignorá-la.
— Eu não a vejo exatamente. As sombras revelam a silhueta para mim, alguns detalhes, no máximo. – Trevor olhava com curiosidade, estreitando os olhos astutos de leve. – Veja bem, posso lhe dar a informação que você tanto deseja.
Blá. Blá. Blá. Ele está mentindo...
A voz cantarolou.
Danniel fez uma careta, sentindo a raiva subir como sempre acontecia quando ela queria.
— E você vai querer algo em troca, não vai? – Seu tom era sarcástico. – Por que eu iria escutá-lo agora? Você estava tramando contra mim.
— Trevor, não ouse... – A garota do cabelo violeta estava visivelmente irritada. Os fios longos faiscavam assim como o seu corpo.
— Eu não sou esse tipo de cara. – Ele fingiu estar ofendido, mas logo abriu um sorriso de lado. – Eu e minha namorada só estávamos sondando, você sabe, o terreno antes de pisarmos nele.
— Ah, claro. Que tal você só ir falando o que combinamos e eu peço para os meus amiguinhos aqui voltarem?
— Você não está com tanta vantagem assim, garoto, sabe disso. – Trevor fez um gesto simples com a mão e a visão de Danniel oscilou, fazendo com que os dois sumissem de sua frente.
O rapaz piscou algumas vezes e lá estavam eles novamente, as sombras provenientes daquele beco escuro se moviam, tremulavam; Danniel logo soube que estavam sob o comando de Trevor e que facilmente podiam confundir não só a ele, mas também a Gemini.
Os dois seres ossudos – que atendiam por um só nome – analisavam cada movimento, pendendo as cabeças esqueléticas ora para um lado, ora para outro, mexendo os ossos amarelados e sujos que os montavam de modo que podiam ouvir os estalos. Danniel sentia-se tentado a dá-los a ordem que eles estavam aguardando, mas sabia que não seria vantajoso.
— Por que não diz quais são seus interesses e eu te dou a informação que você quer? – A garota, por sua vez, propôs contrariada pelas circunstâncias. – Trevor pode trapaceá-lo, mas você tem a minha palavra.
Ela manteve-se em guarda, mas parecia disposta a entrar em um acordo. Trevor pareceu não se irritar com a proposta da namorada que claramente o excluía, sua expressão era um tanto curiosa e entretida.
Danniel não cedeu. – Onde você se encaixa nessa história?
— Eu me encaixo exatamente aonde você quer ir. – A garota retrucou com o olhar nebuloso, embora Danniel não estivesse perto o suficiente para notar.
— É do lar da Sabrina que estamos falando. Hum, Gabriel, certo? – O indiano franziu a testa, chutando um nome qualquer que lhe veio em mente. – Seja compreensivo, meu caro Gabriel. Eles não podem confiar em qualquer um, mas você entende, não é mesmo?
Danniel pediu que os servos recuassem. Prontamente o obedeceram arrastando os pés esqueléticos para trás, ainda que interessados demais no que estava acontecendo.
Você está fazendo uma péssima escolha, Blanchard. Não vou esquecer isso.
O rapaz a ignorou novamente, sentindo suas emoções embaralharem.
— Não entendo. Se você mora lá, agora sabe que sou como você. Sabe o motivo pelo qual procurei o Trevor. Por que tudo isso?
— Eu não confio nos amigos do Trevor!
— Não somos amigos. – Os dois falaram em uníssono. – Meus amigos não têm uma reputação muito boa, mas acho que gosto de pessoas assim – Trevor se gabou com um sorriso breve, as mãos depositadas nos bolsos da calça.
— Nós precisamos conversar, garoto. Em outro lugar. – Sabrina, a garota que até então Danniel sabia pouco a respeito, finalmente voltou ao seu estado normal, exceto pela irritação presente em sua voz.
O rapaz chegou a pensar se alguém tinha visto algo acontecer naquele beco durante os minutos que estavam ali, no entanto, pensou que talvez Trevor tivesse se aproveitado da pouca luz para escondê-los entre as sombras do lugar, afinal, ainda que sem a influência dos poderes do indiano, o beco em si já era bem escuro.
Danniel estava hesitante, mas não havia alternativa melhor. Conversaria com a tal Sabrina – por mais que a garota o irritasse com toda aquela pose autoritária – e iria até a Pensão Três Irmãs, o lugar que vagava pelos boatos alheios e despertava tanto medo nas pessoas a ponto de fazê-las se calarem.
Se você perguntar, ninguém sabe de nada. Mesmo que os boatos não parem.
Por sorte Danniel soube de Trevor, o cara que sabe de tudo e de todos, mesmo que poucos soubessem sobre ele. Pilantra, mas possuidor de informações curiosas até demais, difíceis para alguém que não faz parte desse mundo obscuro acreditar que realmente sejam verídicas.
Tudo muitíssimo sigiloso... E caro.
O rapaz havia pago pela informação e sequer a receberia do cara a quem comprou. É, ele estava irritado com isso também.
— Então tá. Mas dessa vez, eu sigo vocês. – respondeu por fim, ainda desconfiado.
Gemini, a dupla alta e ossuda, se entreolhou. Trevor e Sabrina podiam jurar que aqueles esqueletos estavam esboçando uma reação, como se de fato esqueletos pudessem sentir e pensar algo.
Era absurdo. Mas aqueles podiam.
— Tanto faz – Trevor encarou uma sutil rachadura que ainda cortava o chão, incomodado por Danniel estar pisando em cima dela.
Aquilo era ainda mais absurdo para o indiano. A regra mental era clara: Nada de pisar em rachaduras ou coisas parecidas.
— Vamos logo – Resmungou.
[...]
Na emblemática pensão, sob uma tensão conjunta quase palpável, se encontravam os peculiares pupilos de Tia Alma, assim como a própria, que trançava novamente as madeixas douradas da garotinha Betsy – a única criatura que não se abalava com as constantes desventuras que perseguiam aquela estranha família, mesmo quando envolviam dor e probabilidade de morte.
O fogo da lareira suntuosa clareava suavemente o ambiente, aconchegando-os. Betsy, daquele ângulo sob os cuidados de Tia Alma à luz da lareira, até parecia uma criança doce que não vive assustando os outros com falas medonhas e certeiras.
— É apenas uma menininha de oito anos, Lary – O garoto estava sentado em uma poltrona muito maior do que ele, tão confortável que era a sua preferida da enorme sala de estar. – Menininhas de oito anos falam coisas sem sentido o tempo todo.
O interior da Pensão Três Irmãs possuía o mesmo estilo da arquitetura gótica que esculpia o seu exterior, entretanto, com detalhes vitorianos e renascentistas na mobília e em algumas decorações. Logo, aquele cômodo era bastante acolhedor, apesar do clima tenso que havia se instalado entre eles e da idade daquele patrimônio.
O calor da lareira aquecia-os do frio típico das noites da cidade.
— Menininhas de oito anos não são como a Betsy, esqueceu? – Laryssa retrucou categórica. – Tem certeza de que está tudo bem? Você sabe que pode desabafar comigo.
Kayden olhou para ela fechando o romance que folheava há mais de meia hora. A ruiva estava sentada no braço da poltrona e de frente para ele com sua natureza gentil de sempre – talvez fosse essa feição que fazia os traços delicados da garota combinarem com ela tão perfeitamente. O rapaz sabia que a amiga não precisava de uma resposta – considerando que ela podia ler suas emoções quando bem entendesse – e, apesar desse detalhe ter parecido muito invasivo no começo de sua amizade com a ruiva, a essa altura dos acontecimentos já havia se acostumado.
A amiga também não gostava de invadir o espaço pessoal dos outros e vinha aprendendo a moldar essa naturalidade excessiva de suas habilidades perto das pessoas.
— Eu só estava chateado. Um pouco frustrado, talvez. – Ele admitiu, passando os dedos pela capa bordô do livro texturizado. – Hoje não tem sido um dia muito fácil.
Laryssa sentia o mesmo. Winter e Wolfgang não saíam de sua mente um minuto sequer e para piorar, não tinha notícias de Sabrina, ninguém tinha. Mesmo sabendo que sua irmã era completamente capaz de se cuidar sozinha e que sair sem dar satisfações era uma especialidade sua, a ruiva não relaxava.
O mundo fora da pensão podia ser traiçoeiro demais para criaturas como elas e, de fato, isso era muito preocupante.
— Nem me fale. Sabrina não atende minhas ligações, Winter continua reclusa em sua fortaleza e o Wolfie... – A ruiva suspirou. – Céus, meu coração sofre com ele a cada lua cheia.
Kayden não sabia o que falar. De fato não havia uma palavra que expressasse o que ele estava sentido a respeito de tudo, então pareceu mais apropriado angustiar-se em silêncio. Não conseguia pensar em muita coisa além do que estava acontecendo e o romance que Arya o havia indicado provavelmente não seria lido naquela noite, nem na outra. Na verdade, não tinha ideia de quando conseguiria lê-lo.
— Não sabia que gostava de ler romances – A voz de Dimitri o despertou de um devaneio. – Romeu e Julieta?
— Nem eu. E sim, Romeu e Julieta – Kayden respondeu com um meio sorriso, estendendo o livro para ele. – Ah, não venha com a piadinha do “spoiler”, essa eu já conheço – disse-lhe revirando os olhos.
Dimitri estava com um suéter parecido com o do rapaz, mas o dele era azul-royal e o de Kayden, verde-musgo. Dimitri também preferia usá-lo com as mangas arregaçadas, enquanto Kayden optava pelas mangas aquecendo seus braços por inteiros, ainda mais à noite.
— Você é um estraga prazeres, Kayden – O loiro fez uma careta, dando uma mordida em um pêssego e pegando o livro com a outra mão. – Justo quando eu ia dizer que eles morrem no final?
Ele se sentou na tapeçaria meticulosamente bordada – que forrava o piso de madeira de carvalho antigo –, dando uma olhada no livro com interesse. Laryssa sabia mais do que ninguém o quanto Dimitri lutava para manter todos em um clima agradável, principalmente dentro da pensão. Era uma atitude admirável da parte dele, sempre colocando o bem estar dos outros à frente do seu, mesmo quando o mundo particular do loiro parecia desmoronar.
Kayden sorriu um pouco, assim como Laryssa. Não tinham muito ânimo para piadas, contudo, era difícil não sorrir para Dimitri.
— Quem te contou a “piadinha”? – Ele deu outra mordida no pêssego.
— Você. – Kayden e Laryssa responderam ao mesmo tempo. – Você sempre vem com os spoilers óbvios, Dimmy. Darth Vader é o pai do Luke? Um iceberg afundou o Titanic? Jura? Me pergunto o que virá a seguir – A ruiva continuou, sorrindo de leve.
— Culpe o Alec por me contaminar com suas piadas sem graças – O loiro devolveu o livro para Kayden, inclinando-se para alcançá-lo na poltrona. – Eu apenas as reproduzo.
Dimitri ajeitou os óculos, olhando em seguida para a lareira. Era grande e feita de mármore, toda esculpida à mão e repleta de detalhes artísticos. De repente, o semblante do loiro já não era mais o mesmo.
Dimitri foi tomado pelo clima pesado que pairava entre eles e, embora parecesse não se abalar com o que estava acontecendo do lado de fora, sentia um aperto insistente no peito. Às vezes, durante as luas cheias, conseguia se sentir na pele de Wolfgang de uma forma tão real que chegava a ser assustador – ainda que o loiro não fosse um lobisomem como o albino.
O jovem se considerava uma criatura pior, muito pior. Para que a besta que habitava dentro dele despertasse, a lua cheia não precisava aparecer no céu.
Bastava um único momento de descontrole e ele já não seria mais o Dimitri que os moradores da pensão conheciam. Isso tirava seu sossego constantemente.
[...]
Winter atravessou o corredor com pressa, sem prestar muita atenção nos quadros abstratos pendurados nas paredes. Mesmo que normalmente lhe dessem um pouco de medo, precisava passar por eles.
Havia alguns retratos antigos também. Pareciam recordações de família, mas a garota não estava há tanto tempo na pensão para saber quem eram aquelas pessoas emolduradas – isso se alguém, além de Tia Alma, chegasse a saber.
Os olhos de Winter estavam um pouco vermelhos e o corpo magro visivelmente fadigado, contudo, não mais que sua mente – que parecia martelar a cada passo seu. A pele pálida da garota, no entanto, estava mais amena e com uma temperatura muito próxima da considerada como normal.
Teria ficado em seu quarto se os bramidos agonizantes e uivos de Wolfgang não piorassem ainda mais o estado da garota, que já não suportava ouvir o sofrimento do albino sem que isso a afetasse de uma forma profunda. Winter, por algum motivo que não era capaz de explicar, simpatizava com ele. Até mais – ou talvez de maneira diferente, ela não sabia – do que com Laryssa ou Kayden.
Dobrou à direita, atravessando outro corredor. Todo o caminho era iluminado por belíssimos candelabros e mais quadros penduravam-se por cima do papel de parede florido – em um tom escuro do vermelho.
Os pés descalços de Winter correram pelo piso gélido de madeira quando a garota notou, temerosa, as velas nos candelabros se apagarem à medida que passava por cada um deles. Pôde ouvir o barulho do assoalho rangendo.
A garota sabia que poderia ter incendiado a pensão naquele exato momento considerando que, mesmo com a temperatura de seu corpo mais equilibrada, qualquer chama acesa reagia a ela como um gatilho esperando para ser puxado.
Para sua sorte – e dos demais moradores –, o medo de perder o controle como no passado que cegava a garota a ponto de, ironicamente, fazê-la perder o controle, não deixou nenhum rastro de cinzas dessa vez.
Após se perder entre os corredores e cômodos daquela mansão antiga, olhou do topo de uma escada para o andar de baixo. Viu a entrada majestosa, embora muito velha, da Pensão Três Irmãs. Não havia ninguém, então desceu até lá em busca de Tia Alma ou de qualquer outro sinal de vida.
Um calafrio longo estremeceu sua pele quando um uivo agudo ressoou poderoso e... Melancólico. Winter sabia que Wolfgang, relutando dentro daquela fera, estava pedindo por socorro.
Mas não havia nada que pudessem fazer. A impotência acabava com todos que presenciavam os tormentos provocados pela lua cheia.
Quando se encontrava nos últimos degraus da escada, de frente para a área principal do enorme hall da entrada, alguém bateu fortemente com a aldrava da porta seguidas vezes.
E então as batidas pareceram ser feitas a punho.
Winter teve um susto e antes que pudesse pensar em alguma coisa, ouviu os passos ligeiros vindos da sala de estar, ainda no final do largo e longo corredor que ligava a sala de estar e outros primeiros cômodos ao hall da entrada.
— Como assim a Arya foi com eles?! – Tia Alma exclamou surpresa e ao mesmo tempo preocupada, enquanto apressava-se para chegar à porta. – Dimitri, meu bem, você sabia disso? – Seu tom revelava mais uma indignação pelo risco que a garota correu do que pelo complô entre seus pupilos.
— Não, eu juro – Dimitri estava tão preocupado e surpreso quanto Tia Alma. Eles andavam lado a lado em direção ao hall.
— Acho que alguém terá que se explicar no Quarto da Verdade – Betsy segurava uma das mãos de Tia Alma, sem expressão. – Eu posso assistir, Tia Alma?
Laryssa e Kayden se entreolharam um pouco atrás deles, engolindo em seco.
— Oh, que bobagem, Betsy – A mulher revirou os olhos com a ideia da garotinha, ligeiramente desconfortável. – Nós nunca usamos aquele quarto!
Winter observava afastada, segurando os próprios braços ao pé da escada. O cabelo negro estava um pouco bagunçado e seu semblante afetado fez com que Tia Alma fosse até ela, logo após ter um sobressalto ao vê-la.
— Winnie, meu bem – Tia Alma tocou sua face e Betsy a encarou com um olhar sublime. – Que bom saber que você não participou desse complô! Estão vendo? Aprendam com a Winter!
Dimitri finalmente abriu a porta e se deparou com a figura forte de um Alec sério. Ele estava sujo de sangue e também de terra; Kalev, Helena e principalmente Arya também não estavam em melhores condições.
— Vamos, entrem – O loiro olhou para eles e em seguida para escuridão da noite; seu olhar estava inquieto. — Estão todos bem?
Alec ia adentrando a pensão, assim como os demais.
— Na medida do possível – respondeu-lhe, já respondendo também a todos, pois sabia que queriam perguntar o mesmo que Dimitri. Era tudo muito apreensivo em dias como aquele.
— Por favor, não me diga que esse sangue é seu – Kayden sentiu seu coração falhar.
Alec virou o rosto para olhar o rapaz, que estava visivelmente tenso e com os fios mais desgrenhados que o normal. – Felizmente não, Kayden.
Ele achou melhor desviar o olhar, pousando-o em Tia Alma. – Está feito.
A mulher deu uma boa olhada em Alec e, em seguida, nos seus pupilos. A tensão continuava misturada ao ar, mas um breve sentimento de alívio tornou-a mais leve. Tia Alma queria abraçar um por um e assim iria fazer, contudo, seu olhar foi diretamente na loira que estava completamente suja, com joelhos e braços ralados; e despedaçada.
Arya olhou para ela com seus olhos marejados, apenas uma única lágrima permitindo-se cair pela face inexpressiva da garota.
Tia Alma foi até ela e a envolveu em um abraço.
Ninguém entendeu o que aconteceu quando, soltando sua mão da de Kalev, Helena rumou até as escadas passando por todos com um semblante transtornado, inclusive, em seu jeito de andar.
Kalev apenas observou-a ir, dando-a o tempo sozinha que ela precisava.
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