Criando Raízes
1 Oneshot
Notas iniciais
Suikotsu dessa fic é como o Suikotsu quando ele está "estabilizado", tendo consciência das duas personalidades, sendo mais ele, só que é diferente, digamos que ele teve mais tempo com a Kikyou e passou a andar com ela e os irmãos 7 dele morreram (mas só um detalhe)
[…]
Naquela vila, na base do monte onde conhecerá Suikotsu em sua antiga forma, quando suas personalidades se desconheciam e ele estava a agir apenas como médico, lá estavam eles em uma casa.
A sacerdotisa Kikyou ensinava a Kohaku a como cuidar daqueles vasinhos de plantas que enfeitavam a residência, dava vida, chamando a atenção do irmão de Sango e Suikotsu.
Era sempre assim, por mais que caminhavam juntos como andarilhos ao lado da sacerdotisa para que um dia ela use seus fragmentos na vingança contra o Naraku, voltavam os três sempre para aquele lugar e lá estavam as plantas. Lá estava a casa.
Dava a sensação de familiaridade.
As plantas não precisavam de tanto cuidado e o pouco que precisavam as crianças da vila cuidavam a pedido do médico e da sacerdotisa que outra hora os ajudou.
Então era estranho.
Um estranhamento bom que os deixou curiosos e os fizeram perguntar da onde ela tinha tirado aquelas plantas e por quê fazia questão de voltar àquela casa.
Kikyou
— É natural este desejo, não é?
Respondi vendo as crianças brincarem lá fora.
— De não deixar passar sua existência em branco como papel, de sentir que sua vida teve um significado, que valeu a pena existir, que valeu a pena a luta e as escolhas que fez, que valeu a pena.
Mas tem razão quando se vai cedo parece que não sabe mais. Quando se perde no caminho é melhor não se questionar, não pensar e só descanar. Esse é o porém, rapazes. Descansar não nos foi dada como opção.
Acordamos sem perguntarem se era nossa vontade, só… nos acordaram. E aqui estamos “vivendo” uma segunda vez.
Não sei se podemos chamar isso de viver. Diria que é uma forma de existir talvez. Por um tempo quis me afastar dessa fantasia de viver, o ódio me era tão grande que só tinha um objetivo apenas, destruir quem me destruiu e só. — disse a eles, desabafando.
— Mas acho que é mais estranho para você, Kikyou, do que para mim. Uma parte de você realmente vive naquela garota, não é? Vive mesmo. — disse Suikotsu afiando a lamina de sua espada.
Kohaku, quieto, observava.
— Acreditava que sim. — confirmei mexendo em meus finos dedos pálidos sujos da terra escura.
— Antes, acho. Agora não tenho tanta certeza. A relação entre almas é confusa. Meu corpo não é o mesmo que antes, mas minha alma muito menos. A alma de sacerdotisa é tão grande, vale tantas em uma que é uma parte de mim, mas de tantas outras também, então deixa de ser só eu ali, compreende?
Está tudo interligado. Quanto mais penso, mais parece isso.
Por exemplo, esses vasos.
Não sei se era uma boa ideia como minha irmã Kaede tinha me dito, mas quando ouvi a garota me chamar, parei e decidi lhe escutar. Ela estava nervosa e inquieta.
Me lembro da primeira vez que vi Kagome, as semelhanças eram perceptíveis. Foi um “Ah, então essa é minha reencarnação… posso ver”.
Entretanto passou-se tanto tempo que não a enxergou mais assim. Até me esqueço dessa ligação. Me parece tão… diferente com esses olhos azuis agitados ora em mim ora no chão. Usando essas roupas estranhas. Obviamente não era desse lugar.
“Não pertence aqui” — já pensei sobre.
Já lhe gritei isso, zangada, frustrada, a mandando de volta para o lugar que tinha vindo e ficar por lá. Reconheço atualmente que quem sou eu para ter lhe dito tais coisas?
Vejo, sendo realista, que ela se adaptou, é como sua casa. Eu que nasci e vivi caminhando naquele chão, me sentia constantemente uma intrusa nesse mundo. Estranha. Não pertencente.
Essa vila que cresci com minha irmã me é estranha. Minha irmã é um lembrete que tudo o que conheci mudou. Não me sinto à vontade. Resta andar até encontrar um descanso.
— Eu… queria lhe dar um presente. — disse ela, dando um sorriso, constrangida.
Percebi com seus braços atrás de suas costas deveriam estar escondendo o provável presente.
— Está tentando se aproximar de mim pelo o que aconteceu?
Não era minha intenção comentar sobre isso, já fazia muito tempo… ou era?
Não, era sim. Por quê negar agora meus impulsos, minhas vontades? Não fazia sentido. Estava curiosa. Desejava saber, portanto não irei me arrepender do tom com um leve amargo que usei ao perguntar.
Estava me olhar por cima agora? Gostaria de saber.
— Hã?
— Por pena? — acrescentei para esclarecer.
Não haver dúvidas.
Não era necessário sua solidariedade que já recebi outras vezes, as quais deveria ser grata, mas não queria ter recebido necessariamente dela. Sua bondade me irritava, como admirava imensamente, com inveja as vezes.
Era uma situação confusa a nossa.
Kagome não é uma continuação de uma forma de vida minha, é outra pessoa. Com as próprias decisões. É diferente, como InuYasha mesmo disse, ela é muito diferente. Portanto não era surpresa ele ter se tornado um estranho para mim também.
Ela arregalou seus olhos, compreendendo onde eu queria chegar naquela conversa.
— Porque se for o caso…
Me interrompeu:
— Não, não! — negou movimentando a cabeça freneticamente. Parou depois, pensativa e cabisbaixa. — Talvez… pelo o que aconteceu.
— Sim, não me lembro de tentar se aproximar assim de mim antes.
— Era porquê… eu era mais insegura, tinha uma ideia diferente de você.
Fiquei a fita-la por um tempo, a estudando, analisando sua pose, o que falava, sua atitude.
— Insegurança? Pelo o que? Só ciúmes? — perguntei. Já tinha tido essa impressão que isso a machucava e que ele finalmente percebeu.
Bem, não era como se ele fosse esperto ou bom para compreender essas coisas. Sentimentos é algo abstraído muitas vezes para os youkais, pois é o natural, mas lhe é estranho perceber a empatia e ter tal sensibilidade.
Só que percebeu, agindo nada como o rapaz que conheci no passado. Se responsabilizando emotivamente por ela. Pelas o que suas ações, seus sentimentos, provocariam nela.
Vendo-a depois da última vez que conversei com ele posso entender os efeitos daquela sua decisão.
Kagome me deu um singelo sorriso ao responder:
— Também.
— Também?
— Admito que teve outros problemas para fica com pé atrás… acho. Tive impressão em alguns momentos de não saber o que pretendia fazer, de que lado estava, se estava com mais raiva do que pensei. — Respirou fundo. — Como quando deu fragmentos a Naraku. Fiquei intrigada, irritada, preocupada com… InuYasha também.
— É compreensível seu ponto de vista.
— Entendo melhor agora. São águas passadas.
— Então acha que me entende melhor?
Enrugou seu cenho me olhando, desconcertada:
— Na verdade, ainda acho que não muito. Mas acho que me entendo melhor. Estava me sufocando sozinha em vez de enfrentar as coisas. Dizendo uma coisa querendo outra. — Tirou de trás de si um cesto que continha nele vasos com as plantas. — Mas como disse são águas passadas. Então quero tentar com o pé direito. Faz sentido?
Pensando sobre o que dizia, percebendo que a compreendia afinal.
Estava em situação similar também a suas percepções.
Sinto que nessa segunda forma de vida conheci um lado diferente meu que estou aprendendo a lidar. Um lado não muito positivo, não muito admirável para mim como a miko correta, sacerdotal que tentava ser e seguir.
Que fui educada para ser.
Mas me cansava. Esse peso me cansava. O peso da pura bondade e perfeição que me parecia inalcançável. Sempre estando perturbada e envolta a morte dos youkais que destruía protegendo a joia.
Ah, eu compreendia.
Pensava que naquela noite na caverna era o máximo de proximidade que teríamos. Mas estamos naquele dia de novo juntas, a céu aberto, num lindo dia de verão.
Kagome também me parece que tentava suprir seus sentimentos negativos, mesmo que agisse como uma garota comum, ciúmes lhe rondava.
Entendo. Não é mais uma garota.
Somos mulheres depois de tudo.
Benevolência não é algo que deveríamos forçar por cima de nossos desejos, deve ser natural.
— Entendo melhor que imagina. — respondi lhe devolvendo um sorriso, o que a fez abrir mais o seu. — E o que são? — me referi as plantas.
— Ah, que bom que perguntou. — Seus olhos faiscavam claramente animada. — São suculentas.
Soltei um curto riso que a vez rir também ao ouvir o nome daquelas plantas que estranhei. Daquelas reconheci algumas e entre elas peguei um vaso do cesto o analisando:
— Flor da abissínia. Posso ver que as que conheço desse cesto são resistente como ela.
— Sim! É um costume de onde vim dar de presente. Kaede-oba-sama me disse que você gostava de passar tempo cuidado do jardim. As que talvez não conheça são de lugares muito distantes.
Então Kaede nem se esquecera de um pequeno detalhe como esse? Sempre fora tão observadora.
— E elas possuem significado?
— Hã? Ah, espiritualmente falando são guardiãs da casa, purificam o ambiente.
— Hm, não muito diferente de sacerdotisas, não é? — comentei lhe sorrindo e pondo o vaso novamente naquele cesto.
Ela soltou uma risada:
— Sim, tem razão. Eu pensei o mesmo.
“Posso ver porquê Kaede e InuYasha tem carinho por ela. Eles tinham razão, ela é doce”.
Peguei o cesto que me oferecia olhando aqueles pequenos vasos.
Me lembrava a época que estava viva e ganhava das minhas amigas. Na época que tinha amigas, que podíamos passar tempo juntas na aldeia quando não estava só ocupada cuidando do templo e da joia. E elas ainda não tinham se casado. Quando não me sentia tão isolada por ser diferente daquela forma.
Era diferente falar com uma… igual. Não exatamente igual, como disse, mal via mais nossas semelhanças físicas como muito menos em nossas personalidades, entretanto era uma sacerdotisa como eu.
Eu estava mais corrompida pela forma que vivia, dependendo de almas que era meu objetivo em outra época de apaziguar. Mas sabia que como eu, diferente de minha irmã, Kagome mesmo tendo seus poderes, prosseguia com seus desejos comuns de mulher que não se negava.
E não me julgava de ter estado nessa posição.
Podendo num momento de crise como a guerra que tínhamos contra um inimigo em comum ficar de lado, e falar sobre algo tão pequeno.
— Também significam resistência e… — mordeu o lábio. — amor eterno.
Cobri a boca para conter o riso novamente. Ela me olhava espantada:
— Não costumo te ver rir.
— Não costumo rir.
Soltou então uma risada curta e tímida e acabei por acompanhar.
— Pensei que seria um bom presente. Kaede-oba-sama tinha me dito que você tem uma casa agora.
Suspirei com um sorriso no rosto.
— Kaede… parece que ela fala muito de mim.
Ela maneou a cabeça concordando, e inspirou fundo trazendo seriedade no olhar, como se tomasse coragem para me dizer a sério algo importante, fitando-me fundo nos olhos:
— Não foi esquecida de nenhuma maneira. — Me disse com tanta certeza que me abalou. — É eterno.
Eu sabia que queria dizer. Realmente não era a mesma garota que conheci antes.
Vivia evitando aquela vila por isso. Eles dois faziam parte do meu passado vivido, uma vida tirada de mim e suas mudanças me lembravam que não poderia voltar atrás. Era frustrante, era irritante… mas não desejava retornar para atormenta-los.
Sentia agora que mesmo sabendo que tinham seguido em frente, o que outra hora me irritou, me apazigua. Ainda tinha um lugar neles e em suas histórias, como tinham na minha. Não dava pra voltar atrás, mas não era necessário, seguindo em frente eles não sofreriam mais e eu também não.
E agora eu posso estar na memória de outras pessoas, levar a de outras comigo.
Aquelas plantas dão vida a essa casa, veem? Eu não sou a mesma mulher que despertou daquele sono e vejo que vocês não, então não seria essa realmente uma segunda forma de vida? Uma segunda chance?
Vivo como uma segunda chance por agora.
Fiquei tão abalada que cheguei a morder o lábio para não chorar e lhe disse:
— Obrigada.
— Acho que eu deveria dizer isso.
Mas você vem e me interrompe, menino?
— Me desculpa, é só que… esse assunto de vida e tal. Suikotsu-sama chegou até ser médico, Kikyou-sama foi uma sacerdotisa, mas… eu não me lembro se tive algo bom que valesse a pena… estar aqui. Acho que não deixei marca. Não criei raízes em lugar nenhum.
— Você muito novinho. — Disse Suikotsu.
— Verdade… por isso precisa ainda mais desse tempo, não?
[…]
Na vila de exterminadores de youkais e da sacerdotisa Kagome, Kohaku cultivava um jardim com aquelas “suculentas”. Era mais prático.
Pensava consigo que já se passou uma década e ainda se lembrava como Kikyou-sama cuidava do jardim, como Suikotsu a observava encantado, e como ela dizia que Kohaku deveria aproveitar mais sua irmã nessa vida.
No final tinha se afeiçoado a eles e mesmo com os traumas parecia tão bom ter uma família…
Kikyou estava certa.
Sussurrou um:
— Obrigado. — para as estrelas, ouvindo ao longe Sango, Rin e Shippo lhe chamarem para o jantar ao qual foi correndo sendo recebido pelas suas sobrinhas.
Notas finais
E até na questão da narrativa mesmo foi bem diferente pra, nessa de intercalando a história contada no diálogo, eu tava lendo um livro que tinha e me inspirou.
Enfim.
Beijos kkkk
Ja ne
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